Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 25 de 40

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Chocolate

Capítulo 24

 

Domingo, 9 de Março

 

A rmande apareceu cedo hoje para bisbilhotar e tomar chocolate. Com o

seu chapéu de palha novo decorado com uma fita vermelha, tinha um

ar mais fresco e vivo do que ontem. A bengala que resolveu começar a usar é um simulacro: forrada com um laço vermelho vivo, parece uma bandeirinha desafiadora. Pediu chocolat viennois e uma fatia do meu bolo claro-escuro recheado e sentou-se confortavelmente num banco. Joséphine, que está a ajudar-me na loja até decidir o que fazer a seguir, ia observando a cena da cozinha com alguma apreensão.

— Ouvi dizer que houve alguma confusão por aqui ontem à noite — disse Armande com o seu jeito brusco. A bondade nos olhos escuros e brilhantes redime-lhe a brusquidão. — Ouvi dizer que aquele bronco do Muscat se pôs para aí a gritar e a disparatar.

Expliquei tão brandamente como pude. Armande ouviu com ar compreensivo.

— Só me espanto que ela não o tenha deixado há mais tempo — disse ela quando terminei. — O pai era tão mau como ele. Os dois demasiado cheios de si, das suas opiniões. E das suas mãos. — Acenou vivamente a Joséphine, de pé junto à porta segurando uma leiteira com leite quente numa das mãos. — Sempre achei que você havia de cair em si um dia, menina — disse-lhe ela. — Não deixe que ninguém a convença a voltar atrás.

Joséphine sorriu.

— Não se preocupe — disse ela. — Não vou deixar.

Tivemos mais clientes em LA PRALINE este domingo do que em todos os domingos desde que eu e Anouk para aqui viemos. Os habituais, Guillaume, Narcisse, Arnauld e mais uns quantos, pouco disseram, acenando amigavelmente para Joséphine e comportando-se como de costume.

Narcisse trouxe-me um cesto de endívias do seu horto e, vendo Joséphine, ofereceu-lhe um raminho de anémonas encarnadas que tirou do bolso do casaco, murmurando que elas podiam «animar um bocado o ambiente».

Joséphine corou mas pareceu contente e tentou agradecer-lhe. Narcisse foi-se embora arrastando os pés, constrangido e enjeitando asperamente os agradecimentos.

Depois dos amigos, vieram os curiosos. Correu o boato durante a missa de que Joséphine Muscat se tinha mudado para LA PRALINE e seguiu-se um fluxo contínuo de visitantes ao longo de toda a manhã. Joline Drou e Caro Clairmont chegaram nos seus fatos primaveris idênticos e lenços de seda com um convite para um chá de caridade no Domingo de Ramos. Armande deu uma gargalhada deliciada ao vê-las.

— Mas que bem! O desfile de moda de domingo! — exclamou ela.

Caro pareceu incomodada.

— Não devia estar aqui, mamã — disse ela com ar reprovador. — Sabe o que o médico disse, não sabe?

— Sei, sim senhora — respondeu Armande. — Qual é o problema, não estou a morrer tão depressa como tu querias? E por isso que tens de me vir com essa caveira ambulante para me estragares a manhã? — O rosto de Caro coberto de pó-de-arroz corou.

— Francamente, mamã, não devia dizer coisas dessas...

— Eu tenho tento na língua se tu te meteres na tua vida — atirou Armande prontamente e, com a pressa de ir embora, Caro quase raspou os mosaicos do chão com os tacões altos.

Depois veio Denise Arnauld ver se precisávamos de mais pão.

— Só para saber — disse ela, com os olhos cintilando de curiosidade. — Já que agora tem uma hóspede e tudo. — Garanti-lhe que se precisássemos de pão, saberíamos aonde ir ter.

Depois Charlotte Edouard, Lydie Perrin, Georges Dumoulin: um querendo uma prenda de anos adiantada, outra pormenores sobre o festival de chocolate — que ideia tão original, Madame —, outra perdera uma carteira no adro de St. Jérôme e queria saber se eu a teria visto. Deixei Joséphine atrás do balcão com um dos meus aventais amarelos limpos para lhe proteger a roupa dos salpicos de chocolate e ela desembaraçou-se espantosamente bem. Cuidou da sua aparência hoje. A camisola vermelha e a saia preta têm hoje um aspecto arranjado e profissional, o cabelo escuro está cuidadosamente atado com uma fita. Sorriso competente, cabeça levantada e, embora os seus olhos de vez em quando se desviem para a porta aberta numa ansiedade expectante, pouco ou nada no seu porte sugere uma mulher receosa de si própria ou da sua reputação.

— Uma desavergonhada, é o que ela é — sibilou Joline Drou para Caro Clairmont ao passarem apressadas pela porta. — Muito desavergonhada. Quando penso no que aquele pobre homem teve de aguentar...

Josephine estava de costas mas reparei como ficou hirta. Um hiato na conversa tornou as palavras de Joline bastante audíveis e embora Guillaume tenha simulado um ataque de tosse para as abafar, sei que ela as ouviu.

Houve um curto silêncio de constrangimento.

Depois Armande falou:

— Bem, menina, fique a saber que se aquelas duas desaprovam, é bom sinal — disse ela, ríspida. — Bem-vinda aos maus caminhos da vida!

Josephine lançou-lhe um olhar incisivo e desconfiado e, como que certificada de que a piada não era para ela, riu-se. O som saiu aberto e despreocupado; surpreendida, levou a mão boca como que para verificar que o riso era seu. Isso fê-la rir-se ainda mais e os outros riram-se com ela. Ainda todos nos ríamos quando os sininhos da entrada tocaram e Francis Reynaud entrou silenciosamente na loja.

— Monsieur le Cure. — Vi o rosto dela alterar-se ainda antes de o ver a ele, vi-a tornar-se hostil e estúpida, com as mãos a regressarem à sua posição habitual no fundo da barriga.

Reynaud abanou a cabega com ar grave.

— Madame Muscat. — Enfatizou a primeira palavra. — Lamento não a ter visto na igreja hoje de manhã.

Josephine murmurou qualquer coisa desajeitada e inaudível. Reynaud deu um passo na direcção do balcão e ela deu meia volta como que para fugir para a cozinha, depois pensou melhor e voltou-se para o enfrentar.

— Isso mesmo, menina — disse Armande em tom aprovador. — Não deixe que ele lhe dê a volta com o seu palavreado. — Enfrentou Reynaud, apontando firmemente para ele com a sua fatia de bolo. — Deixe a rapariga em paz, Francis. Quando muito, devia era dar-lhe a bênção.

Reynaud ignorou-a.

— Lamento mas tenho que trabalhar. E não estou interessada em ouvir nada do que tem para me dizer.

Os lábios de Reynaud mantinham-se obstinados.

— Nunca precisou tanto da igreja como agora. — Uma olhadela rápida e fria na minha direcção. — Tornou-se fraca. Permitiu que outros a levassem por maus caminhos. O voto da santidade do matrimónio...

Armande interrompeu-o de novo em tom irónico.

— O voto de santidade do matrimónio? Onde é que foi desenterrar tal coisa? Se há pessoa que devesse olhar para si...

— Por favor, Madame Voizin... — Finalmente um sinal de expressividade na sua voz neutra. Os olhos estão glaciais. — Eu ficar-lhe-ia muito grato se...

— Fale tal como foi criado — atirou Armande. — A sua mãe nunca o ensinou a falar com uma batata na boca, pois não? — Deu uma risada. — A fazer-se passar por melhor do que os outros, não é? Esqueceu-se de nós todos naquela escola importante, foi?

Reynaud ficou hirto. Senti a tensão que emanava dele. Decididamente, emagrecera nas últimas semanas e nota-se-lhe a pele esticada como um tamborim nas entradas escuras das têmporas, bem como a articulação do queixo perfeitamente visível sob a carne magra. Uma melena estreita de cabelo atravessa-lhe a testa dando-lhe um ar dissimuladamente natural; o resto é uma eficiência crispada.

— Josephine. — A voz gentil, envolvente, excluindo os demais tão eficazmente como se estivesse sozinho. — Eu sei que me quer ajudar. Falei com Paul-Marie. Ele diz que a senhora tem estado sob muita tensão. Diz que...

Josephine abanou a cabeça.

— Mon père. — A inexpressividade desaparecera-lhe do rosto e estava serena. — Sei que faz por bem. Mas eu não vou alterar a minha decisão.

— Mas o sacramento do matrimónio... — parecia agora agitado, encostando-se ao balcão e com o rosto contorcido de angústia. As mãos agarradas à sua superfície acolchoada como que à procura de apoio. Novo olhar sub-reptício ao saquinho brilhante na porta. — Sei que andou confusa. Outros influenciaram-na. — Expressivamente: — Se pudéssemos falar em particular...

— Não. — A voz dela era firme. — Eu fico aqui com Vianne.

— Por quanto tempo? — A voz dele denunciava consternação embora simulasse incredulidade. — Madame Rocher pode ser sua amiga, Josephine, mas é uma mulher de negócios, tem uma loja para gerir, uma filha para criar. Por quanto tempo é que ela vai tolerar ter uma estranha em casa? — Este lance foi mais bem sucedido. Vi Josephine hesitar, uma expressão de incerteza regressar-lhe aos olhos. Vi-a vezes de mais no rosto da minha mãe para o confundir: aquela expressão de descrença, medo.

Nós não precisamos de mais ninguém a não ser uma da outra. Um sussurro ferozmente recordado na escuridão quente de um qualquer quarto de hotel. Para que diabo havíamos de precisar de mais alguém? Palavras corajosas e, se houvesse lágrimas, a escuridão escondê-las-ia. Mas sentia-a tremer, quase imperceptivelmente, quando ela me abraçava debaixo dos cobertores, como uma mulher agoniada por uma febre oculta. Talvez fosse por isso que ela fugia deles, daqueles homens simpáticos, mulheres simpáticas que queriam dar-lhe a sua amizade, amor, compreensão. Éramos contagiosas, febris de desconfiança, carregando connosco um orgulho que era o nosso último refúgio face ao indesejado.

— Joséphine pode trabalhar aqui comigo. — Torno a minha voz doce e quebradiça. — Vou precisar de muita ajuda extra se quiser ter o festival de chocolate pronto para a Páscoa.

O olhar dele, finalmente revelado, é duro de ódio.

— Ensino-lhe as técnicas básicas de fazer chocolate — continuei. — Ela pode tomar conta da loja por mim enquanto eu trabalho lá atrás. — Joséphine olhava-me com uma expressão de perplexidade turva. Pisquei-lhe o olho.

— É um favor que ela me faz e tenho a certeza de que o dinheiro também lhe vai dar jeito — disse serenamente. — Quanto a ficar... — falei directamente para ela, olhando-a nos olhos — ...Joséphine pode ficar por quanto tempo quiser. É um prazer tê-la aqui.

Armande deu uma gargalhada.

— Como vê, mon père — disse ela alegremente —, não precisa de gastar mais o seu tempo. Tudo parece correr muito bem sem si. — Bebericou o seu chocolate com um ar concentrado e malicioso. — Uma bebida destas devia fazer-lhe bem — sugeriu. — Está com mau aspecto, Francis. A beber o vinho da comunhão outra vez, não é?

Ele dirigiu-lhe um sorriso como um punho cerrado.

— Muito engraçada, Madame. Ainda bem que não perdeu o seu sentido de humor. — Depois girou nos seus tacões e, com um aceno e um «Monsieur-Dames» seco dirigido aos clientes, desapareceu como o nazi bem-educado num péssimo filme de guerra.

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