Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 27 de 40

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Chocolate

Capítulo 26

Quarta-feira, 12 de Março

 

H á dias que não falamos com Muscat. Josephine, que durante algum

tempo não saía de LA PRALINE, já se vai deixando convencer a ir até à

padaria ao fundo da rua, ou à florista do outro lado da praça, sem que eu tenha que a acompanhar Como se recusa a voltar ao CAFÉ DE LA RÉPUBLIQUE, emprestei-lhe alguma roupa minha. Hoje traz uma camisola azul e um sarong florido e tem um ar fresco e bonito. Em poucos dias apenas, transformou-se: o ar de hostilidade insípida desapareceu, bem como os seus maneirismos defensivos. Parece mais alta, mais direita, tendo abandonado a sua postura permanentemente curvada e as sucessivas camadas de roupa que lhe davam um ar grosseiro. Toma-me conta da loja enquanto eu trabalho na cozinha e já a ensinei a preparar e misturar diferentes tipos de chocolate, assim como a fazer alguns dos tipos de pralinas mais fáceis. Tem umas mãos boas e destras. Lembro-lhe a rir a sua agilidade de atirador naquela primeira visita e ela cora.

— Eu nunca lhe tirei nada! — A indignação dela é comovente, sincera. — Vianne, não pense que...

— Claro que não.

— Sabe que eu...

— Claro.

Ela e Armande, que antes mal se conheciam, tornaram-se boas amigas. A velhinha aparece agora todos os dias, umas vezes para falar, outras para um cartucho das suas pralinas de alperce preferidas. Muitas vezes vem com Guillaume, que se tornou uma visita habitual. A companhia delas parece animá-lo um pouco, já que desde a morte de Charly tem um ar abatido e desinteressado. Hoje também cá esteve Luc e sentaram-se os três juntos num canto com uma cafeteira de chocolate quente e alguns éclairs. De vez em quando ouviam-se risadas e exclamações vindas do grupinho.

Pouco antes de fecharmos, apareceu Roux, com um ar prudente e desafiador. Foi a primeira vez que o vi de perto desde o incêndio e fiquei impressionada com as mudanças nele. Parece mais magro, com o cabelo puxado para trás e um rosto inexpressivo e soturno. Uma das suas faces ainda mostra uma série de marcas que lembram uma forte queimadura solar.

Pareceu surpreendido quando viu Joséphine.

— Lamento. Pensei que Vianne estava... — Voltou-se abruptamente como que para se ir embora.

— Não. Por favor. Ela está lá atrás. — Os modos dela tornaram-se mais descontraídos desde que começou a trabalhar na loja mas, mesmo assim, pareceu desconfortável, intimidada, talvez pela aparência dele.

Roux hesitou.

— Você é do café — disse ele por fim. — É...

— Joséphine Bonnet — interrompeu ela. — Estou a viver aqui agora.

— Ah.

Saí da cozinha e vi-o a observá-la com uma expressão especulativa nos olhos claros. Mas não insistiu no assunto e Joséphine recolheu-se, grata, na cozinha.

— Que bom voltar a vê-lo, Roux — disse-lhe eu directamente. — Queria pedir-lhe um favor.

— Ah?

Ele consegue tornar uma única sílaba muito expressiva. Isto era incredulidade bem-educada, desconfiança. Parecia um gato nervoso prestes a atacar.

— Preciso de fazer umas obras cá em casa e talvez você pudesse... — É difícil formular isto correctamente. Sei que ele não aceitará aquilo se o considerar caridade.

— Isto não tem nada a ver com a nossa amiga Armande, pois não? — O tom dele é baixo mas duro. Vira-se para o canto, onde Armande e os outros se encontram. — A fazê-la pela calada outra vez, é isso? — desafiou ele causticamente. — Não vim aqui pedir emprego. Queria perguntar-lhe se viu alguém a cirandar perto do meu barco naquela noite.

Abanei a cabeça.

— Lamento, Roux. Não vi ninguém.

— Está bem. — Virou-se como que para se ir embora. — Obrigado.

— Olhe, espere... — chamei eu. — Não aceita pelo menos uma bebida?

— Para outra vez. — O tom de voz dele era brusco, senão mesmo rude. Pude sentir a sua raiva à procura de um alvo qualquer.

— Nós ainda somos seus amigos — disse eu quando ele chegou à porta. — A Armande, o Luc e eu. Não se ponha tão à defesa. Nós estamos a tentar ajudá-lo.

Roux virou-se abruptamente. O seu rosto estava desolado. Os seus olhos eram quartos crescentes.

— Ouçam bem, vocês todos. — Falava numa voz baixa e carregada de ódio, com uma pronúncia tão cerrada que as palavras mal se distinguiam entre si. — Eu não preciso de ajuda nenhuma. Eu nunca devia sequer ter tido nada a ver convosco. Eu só fiquei por aqui este tempo todo porque pensei que podia descobrir quem incendiou o meu barco. E vocês não são meus amigos.

Depois desapareceu pela porta fora, grosseira e atabalhoadamente por entre um carrilhão de sininhos coléricos.

Após a sua saída, todos nos entreolhámos.

— Homens ruivos — disse Armande enfaticamente. — Teimosos como mulas.

Joséphine parecia abalada.

— Que homem horrível — disse por fim. — Não foi você que deitou fogo ao barco dele. Que direito é que ele tinha de lhe falar assim?

Encolhi os ombros.

— Sente-se desamparado e revoltado e não sabe a quem deitar a culpa — disse-lhe suavemente. — É uma reacção natural. E acha que lhe oferecemos ajuda por termos pena dele.

— É que eu detesto cenas — disse Josephine, e eu sei que ela estava a pensar no seu marido. — Ainda bem que se foi embora. Acha que agora irá embora de Lansquenet?

Abanei a cabeça.

— Não me parece — disse. — Afinal de contas, para onde é que havia de ir?

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