Chocolate
Capítulo 5
Sábado, 15 de Fevereiro
S ei que este não é o meu dia habitual, mon père. Mas precisava de falar.
A padaria abriu ontem. Mas não é uma padaria. Quando acordei ontem
de manhã às seis, o papel de embrulho fora retirado, o toldo e as persianas estavam no seu lugar e o estore da montra estava subido. Aquilo que era uma vulgar casa antiga e bastante desolada, como todas as outras à sua volta, transformara-se numa guloseima vermelha e dourada sobre uma base estonteantemente branca. Gerânios vermelhos nas floreiras das janelas. Grinaldas de papel crepe enroladas no gradeamento. E, sobre a porta, um letreiro escrito à mão com letras pretas sobre carvalho:
Claro que é ridículo. Uma loja assim bem poderia fazer sucesso em Marselha — até em Agen, onde o turismo cresce de ano para ano. Mas em Lansquenet-sous-Tannes? E no início da Quaresma, o período tradicional de abstinência? Parece perverso, talvez deliberadamente perverso. Estive a ver a montra esta manhã. Sobre uma prateleira de mármore branco estão alinhadas incontáveis caixas, pacotes, cartuchos de papel prateado e dourado, rosetas, sinos, flores, corações e longas espirais de fitas multicores. Em cálices e pratos de vidro estão dispostos chocolates, bombons, mamilos de Vénus, trufas, mendiants, frutas cristalizadas, bombons de avelã, frutos do mar de chocolate, pétalas de rosa cristalizadas, violetas doces... Protegidas do sol pelo meio-estore que as resguarda, têm um brilho escuro, como um tesouro submerso, a caverna de Aladino dos doces maravilha. E, no meio de tudo, um centro magnífico. Uma casa em biscoito de gengibre, com paredes de pain d’épices coberto de chocolate e os pormenores desenhados em alcorça prateada e dourada, telhas de florentinos entrançados e com frutas cristalizadas incrustadas, estranhas vinhas de alcorça e chocolate crescendo pelas paredes, pássaros de maçapão cantando em árvores de chocolate... E a própria bruxa, em chocolate preto da ponta do chapéu bicudo até à bainha do manto comprido, semiescarranchada numa vassoura que é na realidade uma guimauve gigante e longas alteias contorcidas balouçando-se das tendas dos vendedores de doces nos dias de Carnaval... Da minha janela posso ver a dela, como um olho fechando-se numa piscadela astuta e conspiratória. Caroline Clairmont quebrou o seu voto quaresmal por causa daquela loja e do que lá se vende. Disse-mo ontem na confissão, no tom menineiro esbaforido que tão mal combina com as suas promessas de arrependimento.
— Ai, mon père, sinto-me tão mal em relação a isto tudo! Mas o que é que eu podia fazer se aquela mulher encantadora era tão doce? Quero dizer, nem sequer pensei nisso até já ser demasiado tarde, embora se há alguém que devia deixar de comer chocolates... Quero dizer, da maneira como as minhas ancas têm inchado como balões nos últimos anitos, dá-me vontade de morrer...
— Duas Avé-Marias. — Meu Deus, aquela mulher. Através da rede do confessionário posso ver os seus olhos esfomeados e deslumbrados. Finge-se penalizada pela minha brusquidão.
— Claro, mon père.
— E lembre-se por que é que jejuamos na Quaresma. Não por vaidade. Não para impressionar as amigas. Não para cabermos nas modas caras do próximo Verão. — Sou deliberadamente brutal. É o que ela quer.
— Sim, eu sou vaidosa, não sou? — Um pequeno soluço, uma lágrima limpa delicadamente com um lencinho de cambraia. — Apenas uma mulher tonta e vaidosa.
— Lembre-se de Nosso Senhor. Do seu sacrifício. Da sua humildade. — Sinto o perfume dela, algo floral, demasiado forte nesta escuridão fechada. Pergunto-me se isto é uma tentação. Se é, eu sou de pedra.
— Quatro Avé-Marias.
É uma espécie de desespero. Atormenta a alma, diminui-a pedaço a pedaço, como uma catedral se pode ir afundando ano após ano pela erosão provocada pela poeira e fragmentos de areia no ar. Sinto-o corroendo a minha determinação, a minha alegria, a minha fé. Gostaria de os guiar por entre as atribulações do deserto. Em vez disso, isto. Esta languida procissão de mentirosos, batoteiros, glutões e patetas auto-iludidos. A batalha entre o bem e o mal reduzida a uma mulher gorda postada diante da montra de uma loja de chocolates dizendo entro, não entro? em lamentável indecisão. O Diabo é um cobarde; não mostra a sua face. Não tem substância, pulverizando-se em milhões de bocados que, como vemos, se infiltram com os seus modos malignos no sangue, na alma. Nós os dois nascemos demasiado tarde, mon père. O mundo puro e duro do Antigo Testamento chama-me. Então sabíamos com o que contar. Satanás caminhava entre nós em carne e osso. Tomávamos decisões difíceis; sacrificávamos os nossos filhos em nome do Senhor. Amávamos Deus, mas temíamo-Lo mais ainda.
Não pense que condeno Vianne Rocher. De facto, mal penso nela. Ela é umas das influências contra as quais tenho de lutar todos os dias. Mas a ideia da loja com aquele seu toldo carnavalesco é uma piscadela contra a abstinência, contra a fé... Ao virar-me à porta enquanto recebo a congregação, capto um movimento lá de dentro. Pare. Pegue-me. Prove-me. Num intervalo entre os versos do hino, ouço a buzina da carrinha das entregas a parar lá em frente. Durante o sermão — o próprio sermão, mon père! — paro a meio da frase, certo de ouvir o ruge-ruge de pratinhas...
Esta manhã, preguei com mais severidade do que o costume, embora a congregação fosse reduzida. Amanhã hei-de fazê-los pagar. Amanhã, domingo, em que as lojas estão fechadas.
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