Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 38 de 40

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Chocolate

Capítulo 37

Sábado, 29 de Março

Sábado de Aleluia

 

A jude-me, père. Não terei rezado o suficiente? Sofrido o suficiente

pelos nossos pecados? A minha penitência tem sido exemplar. A

minha cabeça está em água por falta de comida e sono. Não é este um tempo de Redenção, em que todos os pecados são perdoados? A prata está de volta ao altar, as velas reluzem por antecipação. Flores, pela primeira vez desde a Quaresma, adornam a capela. Até o louco do São Francisco está coroado de lírios e o seu aroma lembra carne limpa. Há tanto tempo que esperamos, eu e o senhor. Seis anos desde a sua primeira apoplexia. Já então o senhor não falava comigo, embora falasse com outros. Depois, no ano passado, a segunda apoplexia. Dizem-me que está inatingível, mas eu sei que isso é um fingimento, um jogo de espera. Acordará a seu tempo.

Encontraram Armande Voizin esta manhã. Hirta e imóvel sorrindo na sua cama, père; mais uma que nos escapou. Ministrei-lhe a Extrema-Unção, embora ela não me tivesse agradecido mesmo que me ouvisse. Talvez seja eu o único que ainda encontra algum conforto nessas coisas.

Ela tencionava morrer ontem à noite e preparou tudo até ao mínimo pormenor, comida, bebida, companhia. A família à volta dela, iludida por promessas de mudança. Aquela condenável arrogância!. Há-de pagar, promete Caro, vinte missas, trinta missas. Rezar por ela. Rezar por nós. Sinto que ainda estou a tremer de raiva. Não consigo responder-lhe com moderação. O funeral é na terça-feira. Imagino-a agora, exposta na capela mortuária, peónias junto à cabeça e com aquele sorriso ainda colado aos seus lábios brancos e a ideia enche-me, não de piedade ou mesmo satisfação, mas de uma fúria terrível e impotente.

Claro que sabemos quem está por trás disto. Aquela Rocher. Ah, Caro contou-me tudo. ela a influência, père, a parasita que invadiu o nosso jardim. Eu devia ter dado ouvidos aos meus instintos. Devia tê-la desenterrado daqui no momento em que !he pus a vista em cima. Ela, que me barrava o caminho a cada passo, rindo-se de mim atrás da sua janela protegida, lançando tentáculos corruptos em todas as direcções. Fui um tolo, père. Armande Voizin foi morta por tolice minha. O mal vive entre nós. O mal tem um sorriso triunfante e cores garridas. Quando eu era pequeno, costumava ouvir aterrorizado a história da casa de gengibre, da bruxa que aliciava as criancinhas lá para dentro e as comia. Olho para a loja dela, toda embrulhada em papéis brilhantes como um presente a espera de ser desembrulhado, e pergunto-me quantas mais pessoas, quantas mais almas, ela já terá tentado para além da redenção. Armande Voizin. Joséphine Muscat. Paul-Marie Muscat. Julien Narcisse. Luc Clairmont. Tem de voltar à linha. A miúda dela também. Seja lá de que maneira for. demasiado tarde para delicadezas, père. A minha alma já está comprometida. Quem me dera ter outra vez doze anos. Tento recordar a selvajaria dos doze anos, a inventividade do rapaz que eu um dia fui. O rapaz que atirou a garrafa e o resto para trás das costas. Mas esses tempos já passaram. Tenho de ser esperto. Não posso desacreditar o meu ministério. E contudo, se falho...

O que que o Muscat faria? Oh, ele é brutal, desprezível sua maneira. E no entanto viu o perigo antes de mim. O que que ele faria? Tenho de ter Muscat como modelo, Muscat, o porco, brutal, mas manhoso como um porco.

O que que ele faria?

O festival de chocolate é amanhã. Disso depende o sucesso ou fracasso dela. Demasiado tarde para a corrente de opinião pública contra ela. Tenho de parecer imaculado. Atrás da montra secreta, milhares de chocolates aguardam ser vendidos. Ovos, animais, ninhos de Páscoa embrulhados em fitas, caixas de oferta, coelhos bebé em folhos coloridos de celofane... Amanhã uma centena de crianças vai acordar ao som de sinos pascais e o seu primeiro pensamento não vai ser Ele ressuscitou! mas Chocolates! Chocolates da Páscoa! Mas, e se não houvesse chocolates?

A ideia é paralisante. Por um instante, uma alegria quente inunda-me. O porco esperto em mim ri-se e empertiga-se. Podia entrar em casa dela, diz-me. A porta das traseiras está velha e meia-podre. Podia levantar a aldraba e entrar. Entrar na loja com uma moca. O chocolate é estaladiço, facilmente danificável. Cinco minutos no meio das suas caixas de oferta resolviam o assunto. Ela dorme no andar de cima. Podia não ouvir. Além do mais, eu seria rápido. Também podia usar uma máscara, pelo que se ela me visse... Toda a gente desconfiaria do Muscat, um ataque de vingança. O homem não está cá para o negar e, aliás...

Père, mexeu-se? Tive a certeza por instantes de que a sua mão estremeceu, os primeiros dois dedos dobrados como que numa bênção. De novo, aquele espasmo, como um atirador sonhando com antigas batalhas. Um sinal.

Louvado seja Deus. Um sinal.

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