Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 33 de 40

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Chocolate

Capítulo 32

Sexta-feira, 21 de Março

 

A s águas-furtadas estão quase prontas, a tinta ainda tem umas manchas

húmidas mas a janela nova, redonda e com um caixilho de bronze

como a portinhola de um navio, já está acabada. Amanhã Roux vem colocar o soalho e, quando tudo estiver devidamente lixado e envernizado, mudamos a cama de Anouk para o seu quarto novo. Não há porta nenhuma. O alçapão é a única entrada, após uma dúzia de degraus. Anouk anda muito excitada. Passa muito do seu tempo com a cabeça a espreitar pelo alçapão, a ver e dar instruções precisas sobre o que precisa de ser feito. O resto do tempo, passa-o comigo na cozinha, a ver os preparativos para a Páscoa. Jeannot está amiúde com ela. Sentam-se lado a lado junto à porta da cozinha, falando os dois ao mesmo tempo. Tenho que os subornar para se irem embora. Roux parece mais igual a si próprio desde a doença de Armande, assobiando enquanto dá os retoques finais no quarto de Anouk. Fez um excelente trabalho, embora lamente a perda das suas ferramentas. Aquelas que usa agora, alugadas a Clairmont, são de qualidade inferior, diz ele. Logo que possa, vai comprar novas.

— Há um sítio em Agen onde vendem velhas barcaças de rio — conta-me ele hoje, por entre chocolate e éclairs. — Podia arranjar um casco velho e consertá-lo durante o Inverno. Podia torná-lo simpático e confortável.

— De quanto é que precisaria?

Encolheu os ombros.

— Talvez uns cinco mil francos para começar, talvez quatro. Depende.

— A Armande de certeza que lhos emprestava.

— Não. — E irredutível nesta matéria. — Ela já fez o suficiente. — Com o indicador, desenhou um círculo em redor da borda da chávena. — Além disso, Narcisse ofereceu-me trabalho — contou ele. — No horto, depois a ajudar nas vindimas, depois vem o tempo das batatas, do feijão, do pepino, das beringelas... Chega para me manter ocupado até Novembro.

— Que bom. — Uma onda súbita de calor pelo seu entusiasmo, pelo regresso da sua boa disposição. Também está com melhor aspecto, mais relaxado e sem aquele terrível ar de hostilidade e desconfiança que lhe cerrava o rosto como se fosse uma casa assombrada. Passou as Ultimas noites em casa de Armande, a pedido dela.

— Para o caso de me dar alguma macacoa — diz ela em tom sério, com um olhar cómico para mim nas costas dele. Fraudulento ou não, agrada-me saber que ele está lá.

O mesmo não se passa com Caro Clairmont: apareceu ontem em LA PRALINE com Joline Drou ostensivamente para conversar sobre Anouk. Roux estava sentado ao balcão a beber mocha. Joséphine, que ainda parece temer Roux, estava na cozinha a embalar chocolates. Anouk ainda estava a acabar o pequeno-almoço, com a tigela amarela de chocolat au lait e meio croissant à sua frente em cima do balcão. As duas mulheres dirigiram a Anouk sorrisos adocicados e olharam Roux com um desdém prudente. Roux lançou-lhes um dos seus olhares insolentes.

— Espero não vir numa altura imprópria? — Joline tem uma voz macia e bem treinada, toda ela atenção e simpatia. Sob a superfície, porém, indiferença e nada mais.

— De maneira nenhuma. Só estávamos a tomar o pequeno-almoço. Desejam uma bebida?

— Não, não. Eu nunca tomo pequeno-almoço.

Um olhar esquivo para Anouk que, de cabeça enfiada na tigela do pequeno-almoço, não o notou.

Será que eu podia falar consigo? — perguntou Joline em tom doce. — Em particular.

— Bem, podia — disse eu. — Mas certamente que não é preciso. Não pode dizer o que pretende aqui? Tenho a certeza de que o Roux não se importa.

Roux sorriu de esguelha e Joline pareceu irritada.

— Bem, é um pouco delicado — disse ela.

— Nesse caso, tem a certeza de que é comigo que quer falar? Parece-me que o Curé Reynaud seria mais apropriado...

— Não, é mesmo consigo que quero falar — disse Joline entredentes.

— Ah sim. — Educadamente: — Sobre quê?

— Tem a ver com a sua filha. — Dirigiu-me um sorrisinho. — Como sabe, sou a professora dela na escola.

— Sei sim. — Servi outra chávena de mocha a Roux. — O que se passa? Ela está atrasada? Tem problemas?

Sabia perfeitamente que Anouk não tinha problemas. Lê vorazmente desde os quatro anos e meio. Fala inglês quase tão bem como francês, uma herança dos nossos tempos em Nova Iorque.

— Não, não — garante-me Joline. — É uma criança muito esperta. — Um olhar rápido rodopia na direcção de Anouk, mas a minha filha parece demasiado absorta no seu croissant. Disfarçadamente, julgando que eu não estou a ver, tira um ratinho de chocolate do expositor e mete-o dentro do croissant para se assemelhar a um pain au chocolat.

— O comportamento dela então? — pergunto com excessiva preocupação. — É turbulenta? Desobediente? Mal-educada?

— Não, não. Claro que não. Nada disso.

— Então o quê?

Caro olha-me com uma expressão azeda.

— O Curé Reynaud visitou a escola diversas vezes esta semana — informa-me ela. — Para falar às crianças sobre a Páscoa, o significado do festival da igreja, etc.

Acenei encorajadoramente. Joline dirigiu-me um novo sorriso compassivo.

— Bem, Anouk parece ser... — um olhar discreto para Anouk —...bem, não exactamente turbulenta, mas fez-lhe perguntas muito estranhas. — O sorriso dela comprimido entre parênteses duplos de desaprovação. — Perguntas muito estranhas — repetiu ela.

— Bem — disse eu com ligeireza. — Ela sempre foi curiosa. Certamente que não gostaria de desencorajar o espírito inquisitivo nos seus alunos. E além disso — acrescentei maliciosamente —, não me diga que há algum assunto sobre o qual Monsieur Reynaud não esteja preparado para responder.

Joline protestou, por entre um sorriso afectado.

— Perturba as outras crianças, Madame — disse ela firmemente.

— Ah sim?

— Parece que Anouk andou a dizer-lhes que a Páscoa não é realmente uma festa cristã e que o Nosso Senhor é... — deteve-se, constrangida —...que a ressurreição de Nosso Senhor é uma espécie de reversão a um qualquer deus dos cereais. Uma divindade da fertilidade dos tempos pagãos. — Deu um riso forçado mas a voz era fria.

— Sim. — Passei levemente os dedos pelos caracóis de Anouk. — Ela é uma meninha que lê muito, não és, Anouk?

— Eu só estava a perguntar sobre Eostre — disse Anouk resoluta. — O Cura Reynaud diz que já ninguém o celebra e eu disse que nós celebramos.

Escondi o meu sorriso com a mão.

— Acho que ele não compreende, querida — disse-lhe eu. — Se calhar é melhor não fazeres tantas perguntas se isso o perturba.

— Perturba as crianças, Madame — disse Joline.

— Não, não perturba — retorquiu Anouk. — O Jeannot diz que devíamos fazer uma fogueira quando chegar a altura, e arranjar velas vermelhas e brancas e tudo. O Jeannot diz...

Caroline interrompeu-a.

— Parece que o Jeannot anda a dizer muita coisa — observou ela.

— Deve sair mãe — disse eu.

Joline pareceu ofendida.

— A senhora não parece estar a levar isto muito a sério — disse ela, com o sorriso a esmorecer um bocadinho.

Encolhi os ombros.

— Não percebo qual o problema — disse-lhe delicadamente. — A minha filha participa na discussão da aula. É isso que me quer dizer?

— Há assuntos que não deviam estar abertos a discussão — atirou Caro e, por momentos, sob a sua doçura-pastel, vi a sua mãe nela própria, imperiosa e autoritária. Gostei mais dela por mostrar um pouco de vitalidade. — Há coisas que só podem ser aceites pela fé e se a criança não tem umas bases morais sólidas... — Cortou o resto da frase, confusa. — Longe de mim dizer-lhe a si como educar a sua filha — concluiu ela numa voz indiferente.

— Bem — disse eu com um sorriso. — Eu não gostaria nada de discutir consigo. — Ambas as mulheres me olharam com uma expressão de antipatia chocada. — Têm a certeza que não desejam uma bebida de chocolate?

Os olhos de Caro deslizaram pelo expositor, as pralinas, as trufas, amandines e nougats, os éclairs, florentinos, cerejas de licor, amêndoas cobertas.

— Admira-me que a sua filha não tenha os dentes estragados — disse ela, tens a.

Anouk sorriu, exibindo os dentes insultados. O testemunho deles pareceu aumentar o desprazer de Caro.

— Estamos a perder o nosso tempo aqui — observou Caro friamente a Joline.

Eu não disse nada e Roux abafou o riso. Ouvi o radiozito de Joséphine a tocar na cozinha. Durante uns segundos, o único som audível era a chiadeira fininha do locutor contra os azulejos.

— Vamos embora — disse Caro para a amiga. Joline parecia vacilar, hesitante.

— Eu disse vamos embora! — Com um gesto de irritação, precipitou-se pela loja fora levando Joline no seu encalço. — Não julgue que eu não sei o que é que está a arquitectar — cuspiu ela em jeito de despedida. Depois desapareceram ambas, com os seus saltos altos estalando contra o lajedo da praça ao atravessarem-na rumo a St. Jérôme.

* * *

No dia seguinte, encontrámos os primeiros panfletos. Josephine apanhou-os ao varrer o passeio, amarfanhados numa bola e atirados para o chão, e trouxe-os para dentro. Uma única página impressa, fotocopiada em papel cor-de-rosa e dobrada a meio. Não estava assinada mas alguma coisa no estilo sugeria a sua possível autoria.

O título: A PÁSCOA E REGRESSO À FÉ.

Passei rapidamente os olhos pela folha. Grande parte do texto era previsível. Alegria e autopurificação, o pecado e as alegrias da absolvição e oração. Mas, a meio da página e em letras mais carregadas do que o resto, havia um subtítulo que me chamou a atenção:

Os Novos Revivalistas: Corrupção do Espírito da Páscoa

Sempre houve uma Pequena Minoria de pessoas que tentam Usar as

nossas Santas Tradições da Páscoa em Proveito Próprio. A indústria

dos Cartões. As cadeias de supermercados. Mais Sinistras ainda são as

pessoas que Pretendem Reavivar Velhas Tradições envolvendo as

nossas Crianças em Práticas Pagãs disfarçadas de Divertimento.

Muitos de nós consideramo-las Inofensivas e olhamo-las com

Tolerância. De outro modo, por que é que a nossa Comunidade teria

permitido que um alegado Festival de Chocolate se realizasse às portas

da nossa Igreja na própria manhã do Domingo de Páscoa? Isto

Ridiculariza tudo aquilo que a Páscoa significa. Pedimo-vos para

Boicotarem este alegado Festival e todos os Eventos Similares, a bem

das nossas Crianças Inocentes.

IGREJA, não CHOCOLATE, é a VERDADEIRA MENSAGEM DA PÁSCOA!!

— Igreja, não chocolate. — Ri-me. — Realmente é um bom slogan. Não acha?

Joséphine tinha um ar ansioso.

— Não percebo — disse ela. — Não parece nada preocupada.

— Por que é que havia de me preocupar? — Encolhi os ombros. — É só um panfleto. E tenho quase a certeza de quem o fez.

Ela anuiu.

— Caro. — O tom dela era enfático. — Caro e Joline. É tal qual o estilo delas. Toda essa história das crianças inocentes. — Bufou de desdém. — Mas as pessoas dão-lhes ouvidos, Vianne. Pode fazer com que as pessoas pensem duas vezes antes de cá virem, Vianne. Joline é a professora da terra. E Caro é membro do Comité de Moradores.

— Ah sim? — Ignorava que havia um comité de moradores. Fanáticos presumidos com gosto pela bisbilhotice. — E o que é que elas podem fazer? Prender toda a gente?

Joséphine abanou a cabeça.

— Paul também está nesse comité — disse em voz baixa.

— E depois?

— Já sabe o que é que ele pode fazer — disse Joséphine, desesperada. Já reparei que em momentos de tensão regressa aos seus antigos maneirismos, enterrando os polegares no esterno como se estivesse a praticar a Manobra Heimlich. — Ele é louco, já sabe. Ele é...

Interrompeu-se lastimavelmente, de punhos cerrados. Mais uma vez, tive a impressão de que ela queria dizer-me qualquer coisa, que sabia qualquer coisa. Toquei-lhe na mão, tentando chegar delicadamente aos seus pensamentos, mas não vi mais nada do que antes: fumo, cinzento e gordurento, contra um céu púrpura.

Fumo! A minha mão apertou a dela. Fumo! Agora que eu sabia o que estava a ver, já conseguia esclarecer os pormenores: o seu rosto como uma mancha pálida na escuridão, o seu sorriso cortante, triunfante. Ela olhou-me em silêncio, os olhos escuros de saber.

— Por que é que não me disse? — perguntei eu por fim.

— Não o pode provar — disse Joséphine. — Eu não lhe disse nada.

— Não precisou. É, por isso que tem medo de Roux? Por causa do que o Paul fez?

Ela ergueu o queixo obstinadamente.

— Eu não tenho medo dele.

— Mas não lhe fala. Nem sequer consegue estar na mesma sala que ele. Não consegue olhá-lo nos olhos.

Joséphine cruzou os braços com ar de quem não tem mais nada a dizer.

— Joséphine? — Voltei o rosto dela para o meu, obrigando-a a olhar-me. —Joséphine?

— Está bem. — A voz dela era ríspida e amuada. — Eu sabia, está bem? Eu sabia o que o Paul ia fazer. Disse-lhe que contava se ele tentasse alguma coisa. Que os avisava. Foi quando ele me bateu. — Dirigiu-me um olhar virulento, a boca semiaberta com lágrimas por chorar. — Portanto, sou uma cobarde — disse ela numa voz alta e disforme. — Agora já sabe o que eu sou, não sou corajosa como você, sou uma mentirosa e uma cobarde e deixei-o fazer aquilo, e alguém podia ter morrido, Roux podia ter morrido, ou Zézette ou o bebé dela e teria sido tudo culpa minha! — Respirou fundo. — Não lhe diga — disse ela. — Eu não suportaria.

— Eu não digo ao Roux — disse-lhe eu com delicadeza. — Você é que há-de fazer isso.

Ela abanou violentamente a cabeça.

— Não vou. Não vou. Não posso.

— Está bem, Joséphine — anuí eu. — Não foi culpa sua. E ninguém morreu de facto, pois não?

Obstinadamente: — Não posso. Não consigo.

— O Roux não é como o Paul — disse eu. — É mais parecido consigo do que imagina.

— Eu não sabia o que dizer. — As mãos dela contorciam-se. — Quem me dera que ele se fosse embora — disse ela com ferocidade. — Quem me dera que ele pegasse no dinheiro dele e fosse embora para outro lado qualquer.

— Não é verdade — disse-lhe eu. — Além disso, ele não vai. — Disse-lhe o que ele me tinha contado sobre o seu trabalho com Narcisse e o barco de Agen. — Ele merece saber pelo menos quem foi o responsável — insisti eu. — Assim ele poderá perceber que só Muscat é culpado pelo que aconteceu e que mais ninguém aqui o odeia. Devia compreender isso, Joséphine. Sabe o que é uma pessoa sentir-se como ele se sente.

Joséphine suspirou.

— Hoje não — disse ela. — Eu digo-lhe, mas noutra altura. Está bem?

— Nunca mais vai ser tão fácil como hoje — avisei eu. — Quer que eu vá consigo?

Ela olhou-me, esgazeada.

— Bem, ele merece um intervalo daqui a pouco — expliquei eu. — Podia levar-lhe uma chávena de chocolate.

Uma pausa. O rosto dela estava inexpressivo e pálido. As suas mãos de atiradora tremiam-lhe. Peguei num rocher noir de uma pilha ao meu lado e enfiei-lhe um na boca semiaberta antes que ela tivesse tempo de dizer fosse o que fosse.

— Para lhe dar coragem — expliquei, voltando para encher uma chávena grande com chocolate quente. — Vá lá então. Mastigue. — Ouvi-lhe um sonzinho de nada, uma semigargalhada. Dei-lhe a chávena. — Pronta?

— Acho que sim. — Voz pastosa de chocolate. — Vou tentar.

 

Deixei-os a sós. Reli o folheto que Joséphine tinha encontrado na rua. Igreja, não Chocolate. Realmente é bastante divertido. O Homem de Preto descobre por fim o sentido de humor.

Estava morno cá fora apesar do vento. Les Marauds reluziam ao sol. Caminhei devagar em direcção ao Tannes, apreciando o calor do sol nas minhas costas. A Primavera veio quase sem aviso, como se virássemos uma curva rochosa e deparássemos com um vale e os jardins e canteiros subitamente desabrochassem em luxuriantes narcisos, íris, tulipas. Até as casas arruinadas de Les Marauds estão tingidas de cor, mas aqui os jardins bem ordenados deram lugar a uma excentricidade galopante: um amieiro em flor cresce da varanda de uma casa virada para a água, um telhado está atapetado de dentes-de-leão, violetas espreitam de uma fachada a esboroar-se. Plantas outrora cultivadas regressaram ao seu estado selvagem, gerânios de pés curtos vicejando por entre cicuta, papoilas espalharam ao acaso as suas sementes e abastardaram-se, passando do seu vermelho original a cor de laranja e a uma palidíssima cor malva. Uns poucos dias de sol são suficientes para as despertarem do seu sono: após a chuva, esticam-se e estendem as suas cabeças até luz. arrancar uma mão-cheia destas ervas daninhas e logo aparecem salvas e íris, cravinas e alfazema sob diques e ardósias. Passeei tempo suficiente pela beira do rio para que Joséphine e Roux pudessem esclarecer os seus assuntos, depois regressei calmamente a casa pelas ruelas traseiras, subindo a Rue des Frères de la Révolution e a Avenue des Poètes com as suas paredes próximas, escuras e quase sem janelas, quebradas apenas pelos estendais de roupa suspensos de uma varanda a outra, ou por uma única floreira à janela donde pendem grinaldas verdes de convólvulos.

Encontrei ambos na loja, com uma cafeteira semivazia de chocolate no balcão à sua frente. Joséphine tinha os olhos avermelhados mas parecia aliviada, quase feliz. Roux ria-se de um comentário qualquer dela, um som estranho e pouco familiar, exótico de tão raro. Por um instante senti quase inveja, pensando: eles pertencem um ao outro.

 

Conversei com Roux mais tarde sobre o assunto, quando ela saiu para ir às compras. Ele tem o cuidado de não trair nada quando fala dela mas há sempre um brilho nos olhos, qual sorriso à espera de acontecer. Ao que parece, ele já suspeitava de Muscat.

— Ela fez bem em ver-se livre do filho da mãe — diz ele com uma virulência casual. — As coisas que ele fazia... — Por um momento, parece constrangido, volta-se, mexe no boné sobre o balcão por razão nenhuma e volta-se de novo. — Um homem daqueles não merece uma mulher — resmunga ele. — Não sabe a sorte que tem.

— O que é vai fazer? — pergunto-lhe eu.

Ele encolhe os ombros.

— Nada a fazer — diz-me ele prosaicamente. — Ele ia negar. A polícia não está interessada. Aliás, eu prefiro que eles não se metam.

Não desenvolve. Deduzo que há coisas no seu passado que ele não quer que sejam examinadas.

Porém, desde então ele e Joséphine têm conversado mais vezes. Ela leva-lhe chocolate e biscoitos nos intervalos do trabalho e ouço-os rirem-se amiúde. Ela perdeu o seu ar assustado e absorto. Reparei que começou a vestir-se com mais cuidado. Hoje de manhã até anunciou que queria ir ao café buscar algumas coisas.

— Eu vou consigo — sugeri eu.

Joséphine abanou a cabeça.

— Eu dou conta do recado sozinha. — Parecia feliz, quase exultante, com a sua decisão. — Além do mais, o Roux diz que se eu não enfrentar o Paul... — Calou-se, parecendo ligeiramente embaraçada. — Achei que era melhor ir, pronto — disse ela. O rosto estava corado, obstinado. — Tenho livros, roupas... Quero ir buscá-los antes que o Paul resolva deitá-los fora.

Acenei afirmativamente.

— Quando é que tenciona ir?

Sem hesitação: — Domingo. Ele há-de estar na missa. Com um pouco de sorte, conseguirei entrar e sair do café sem sequer o ver. Não demora muito.

Olhei-a.

— Tem a certeza de que não quer companhia?

Ela abanou a cabeça.

— Seja lá por que for, não me parece lá. muito bem.

A expressão empertigada dela fez-me sorrir mas, de qualquer maneira, eu sabia o que ela queria dizer. Era o território dele — deles —, marcado indelevelmente com sinais da vida deles. Eu não pertencia ali.

— Vai correr tudo bem. — Sorriu. — Eu sei como lidar com ele, Vianne. Já o fiz antes.

— Espero que não seja preciso chegar a isso.

— Não vai ser. — Absurdamente, ela pegou-me na mão como que para me tranquilizar. — Prometo que não.

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