Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 26 de 40

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Chocolate

Capítulo 25

 

Segunda-feira, 10 de Marco

 

O riso deles seguiu-me da loja até à rua corno um bando de pássaros. O

aroma de chocolate, assim como o da minha cólera, tornou-me

delirante, quase eufórico de raiva. Tínhamos razão, père. Isto dá-nos inteiramente razão. Ao atacar as três áreas que mais de perto nos tocam — a comunidade, as festas religiosas e agora um dos sacramentos mais sagrados —, ela revela-se por fim. A sua influência é perniciosa e galopante e já viceja numa ou duas dúzias de mentes férteis. Vi o primeiro dente-de-leão da época no adro esta manhã, enfiado numa nesga de espaço junto a uma sepultura. Já se enraizou bem mais fundo do que eu consigo chegar, da espessura de um dedo, à procura da escuridão debaixo da pedra. Dentro de uma semana a planta terá crescido de novo, ainda mais forte do que antes.

Vi Muscat na comunhão esta manhã, embora não tenha ido à confissão. Parece tenso e zangado, desconfortável nas suas roupas domingueiras. Aceitou mal a saída da mulher de casa.

Quando saí da chocolaterie, ele estava à minha espera, a fumar, encostado a um pequeno arco junto à entrada principal.

— Então, père?

— Falei com a sua mulher.

— Quando é que ela vem para casa?

Abanei a cabeça.

— Não lhe quero dar esperanças falsas — disse-lhe com delicadeza.

— É uma vaca teimosa — disse ele, atirando com o cigarro para o chão e pisando-o com o tacão. — Desculpe a linguagem, père, mas é o que é. Quando penso em tudo aquilo que deixei de fazer por causa da louca daquela filha da mãe, o dinheiro que ela me custou...

— Ela também teve que aguentar muita coisa — disse-lhe eu enfaticamente, pensando nas nossas muitas sessões no confessionário.

Muscat encolheu os ombros.

— Bem, não sou nenhum santo — disse ele. — Sei das minhas fraquezas. Mas diga-me, père... — estendeu as mãos em apelo — ...será que não tinha alguma razão? Acordar com aquela cara estúpida ao lado todos os dias? A apanhá-la, uma e outra vez, com os bolsos cheios de coisas roubadas no mercado, Mons e frascos de perfume e jóias? Com toda a gente a olhar para mim na igreja e a rir-se? Hã? — Olhou para mim com ar vitorioso. — Hã, père? Não tive de carregar a minha cruz?

Não é a primeira vez que ouço isto. O desmazelo dela, a estupidez, a ladroagem, a preguiça nas coisas de casa. Não tenho que ter opinião sobre tais assuntos. O meu papel é oferecer conselho e conforto. Ainda assim, provocam-me repugnância as suas desculpas, a sua convicção de que, se não fosse ela, ele teria conseguido grandes feitos na vida.

— Não estamos aqui para deitar culpas — disse eu em tom de reprimenda. — Devíamos tentar encontrar maneiras de salvar o seu casamento.

Ele ficou instantaneamente brando.

— Peço desculpa, père. Eu... não devia ter dito tais coisas. — Tentou parecer sincero, mostrando dentes brancos como marfim. — Não pense que eu não gosto dela, père. Quero dizer, quero que ela volte, não é verdade?

Claro que sim. Para lhe preparar as refeições. Passar a roupa a ferro. Tomar conta do café. E provar aos amigos que ninguém brinca com o Paul-Marie Muscat, ninguém. Desprezo esta hipocrisia. Ele tem que conseguir fazê-la voltar. Concordo com isso, pelo menos. Mas não por essas razões.

— Se a quer de volta, Muscat — disse-lhe eu com algum azedume —, então tem tratado do assunto de uma forma muito estúpida até agora.

Ele levantou a cabeça e empinou o queixo.

— Não acho que seja bem assim...

— Não seja pateta.

Meus Deus, père, como é que o senhor pôde algum dia ter tido paciência com esta gente?

— Ameaças, blasfémias, aquela bebedeira vergonhosa ontem noite? Como é que pode achar que isso o vai ajudar?

Carrancudo: — Eu não a podia deixar ir-se embora assim, père. Toda a gente a dizer que a minha mulher me tinha dado com os pés. E aquela filha da mãe da metediça da Rocher... — Os seus olhos mesquinhos contraíram-se por trás dos óculos de aros. — Era bem feita se alguma coisa acontecesse àquela lojinha bonitinha dela — disse ele. — Ver-se livre daquela filha da mãe duma vez para sempre.

Olhei para ele incisivamente.

— Ah sim?

Não andava longe do que eu próprio tinha pensado, mon père. Que Deus me valha, mas quando vi aquele barco a arder... É um prazer primitivo, indigno da minha vocação, uma coisa pagã que por direito eu não deveria sentir. Já lutei contra isso, père, de madrugada. Já o domei dentro de mim mas, tal como os dentes-de-leão, volta emanando raizezinhas insidiosas. Foi talvez por causa disto — porque eu compreendia — que lhe respondi numa voz mais dura do que pretendia.

— Em que é que está a pensar, Muscat?

Ele murmurou qualquer coisa quase inaudível.

— Um incêndio, quem sabe? Um incêndio oportuno. — Sentia a pressão da minha raiva contra as costelas. O seu sabor, tão metálico como adocicadamente podre, enchia-me a boca. — Como o incêndio que nos livrou dos ciganos?

Fez um sorriso apatetado.

— Talvez. Há um terrível risco de incêndio em algumas destas casas antigas.

— Ouça lá. — Subitamente, fiquei aterrado com a ideia de que ele pudesse ter confundido o meu silêncio daquela noite com cumplicidade. — Se eu pensasse ou supeitasse sequer, fora do confessionário, que você estava metido numa coisa dessas... Se alguma coisa acontecer àquela loja... — Segurava-o agora pelos ombros, com os meus dedos enterrados na carne rechonchuda.

Muscat pareceu ofendido.

— Mas père, o senhor mesmo disse que...

— Eu não disse nada! — Ouvi a minha voz ricochetear através da praça — tat-tat-tat! — e baixei-a apressadamente. — Eu nunca quis que você... — Aclarei a garganta, subitamente engasgada. — Não estamos na Idade Média, Muscat — disse eu ríspido. — Não... interpretamos... as leis de Deus para nosso próprio proveito. Ou as leis do nosso país — acrescentei significativamente, olhando-o bem nos olhos. As suas córneas eram tão amarelas como os dentes. — Será que nos fazemos entender?

Em tom ressentido: — Sim, mon père.

— Porque se alguma coisa acontecer, Muscat, alguma coisa, uma janela partida, um incendiozinho, seja o que for... — fico uma cabeça acima dele.

Sou mais novo e estou mais em forma do que ele. Ele responde instintivamente ameaça física. Dou-lhe um pequeno empurrão que o faz bater contra a parede atrás de si. Mal consigo conter a raiva. Que ele se atreva — que se atreva! — a assumir o meu papel, père. Era o que faltava ser este bêbedo miserável e tonto. Colocar-me nesta situação: obrigado a proteger oficialmente a mulher que é minha inimiga. Só com esforço que me contenho.

— Mantenha-se bem longe daquela loja, Muscat. Se houver alguma coisa a fazer, eu faço. Está a perceber?

Mais humilde agora, com a sua fanfarronice a evaporar-se: — Sim, père.

— Deixe a situação por minha conta.

 

Três semanas até ao festival dela. o que nos resta. Três semanas para descobrir uma maneira de refrear a influência dela. Já preguei contra ela na igreja, mas só me cobri de ridículo. Chocolate, dizem-me, não é uma questão moral. Até os Clairmonts consideram a minha obstinação algo irregular, ela sorrindo e afectando uma preocupação trocista de que eu esteja extenuado, ele sorrindo de forma claramente irónica. Quanto a Vianne Rocher, não liga. Em vez de tentar misturar-se, exibe o seu estatuto de forasteira, dirigindo-me saudações impertinentes de um lado para o outro da praça e incitando os bobos da corte como Armande, sempre perseguida por crianças cuja selvajaria crescente ela alimenta. Até no meio de muita gente ela facilmente dá nas vistas. Enquanto os outros caminham pela rua fora, ela corre. O cabelo, as roupas: sempre ao sabor do vento, cores de flores silvestres, cor de laranja e amarelo, às pintinhas e florinhas. Deixado à solta, um periquito entre pardais depressa seria destruído por causa da sua plumagem berrante. Aqui ela é aceite com afecto, até divertimento. Aquilo que provocaria espanto noutro lado, é tolerado só porque Vianne. Nem mesmo Clairmont é insensível ao seu charme e a antipatia da mulher não tem nada a ver com superioridade moral, mas sim com uma espécie de inveja que não fica nada bem a Caro. E contudo, a ideia — sugerindo como sugere uma simpatia, até mesmo um gosto que um homem na minha posição não se pode permitir — outro perigo. Eu não posso ter simpatias. A raiva e a simpatia são igualmente impróprias. Devo ser imparcial, para bem da comunidade e da Igreja. Essas são as minhas primeiras lealdades.

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