Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 35 de 40

Páginas do PDF

Chocolate

Capítulo 34

 

Quarta-feira, 26 de Março

 

C ontinua a não haver sinais de Muscat. Josephine passou grande parte

de segunda-feira em LA PRALINE, mas ontem decidiu voltar ao café.

Desta vez Roux foi com ela mas tudo o que encontraram foi a confusão lá deixada. Os rumores parecem ser acertados. Roux, que entretanto terminou o quarto de Anouk no sótão, já começou a trabalhar no café. Novas fechaduras na porta, o velho linóleo arrancado e as cortinas enegrecidas tiradas das janelas. Acha ele que com algum trabalho — uma mão de cal nas paredes toscas, uma pintadela nos móveis velhos e gastos, muita água e sabão — se pode transformar o bar num local alegre e acolhedor. Ofereceu-se para fazer o trabalho de graça mas Josephine não admite tal coisa. Claro que Muscat levantou o dinheiro da sua conta conjunta mas ela tem algum dinheirito seu e tem a certeza de que o novo café será um sucesso. O letreiro desbotado onde desde há trinta e cinco anos se lia CAFÉ DE LA RÉPUBLIQUE foi finalmente tirado. Em seu lugar, um toldo garrido em vermelho e branco — gémeo do meu — onde se lê CAFÉ DES MARAUDS. Narcisse plantou gerânios nas floreiras de ferro forjado, donde pendem ao longo das paredes com os seus botões escarlates abrindo-se ao súbito calor. Armande observa aprovadoramente do seu jardim ao fundo da colina.

— É boa rapariga — diz-me ela no seu modo brusco. — Há-de desenrascar-se agora que se viu livre do bêbedo do marido.

Roux está a morar temporariamente num dos quartos vagos do café e Luc mudou-se para casa de Armande, para grande irritação da mãe.

— Não é um lugar próprio para ti — grita ela estridentemente. Eu estou na praça quando eles saem da igreja, ele no seu fato de domingo, ela com mais um dos seus inumeráveis fatos pastel e com um lenço de seda na cabeça.

A resposta é bem-educada mas inflexível.

— Só até à f-festa — diz ele. — Não há mais ninguém para tomar conta dela. E-ela pode ter outro at-taque.

— Disparate! — O tom dela é de menosprezo. — Eu digo-te o que ela está a tentar fazer. Está a tentar separar-nos. Estás proibido, absolutamente proibido, de ficar com ela esta semana. E quanto àquela festa ridícula...

— Eu não acho que tu me devas proibir, m-mamã.

— E por que não? És meu filho, que diabo, não podes pôr-te para aí a dizer que preferes obedecer àquela velha louca em vez de obedeceres a mim! — Os olhos enchem-se-lhe de lágrimas de raiva. A voz vacila.

— Está bem, mamã. — Continua insensível ao espectáculo mas coloca-lhe um braço à volta dos ombros. — Não vai ser por muito tempo. Só até à festa. P-prometo. Também estás convidada, sabes. Ela ia ficar contente se tu vi-viesses.

— Eu não quero ir! — A voz dela é vingativa e chorosa, como a de uma criança cansada.

Ele encolhe os ombros.

— Então não vás. Mas n-não esperes que ela depois ouça o que tu queres.

Ela fita-o.

— O que é que queres dizer?

— Quero dizer, eu podia f-falar com ela. Co-convencê-la. — Conhece a mãe que tem, este rapazinho inteligente. Percebe-a melhor do que ela julga. — P-podia dar-lhe a volta — diz ele. — Mas se tu não queres t-tentar...

— Eu não disse isso. — Num impulso súbito, abraça-o. — Meu menino inteligente — diz ela, recuperando a pose. — Tu podias conseguir isso, não podias? — Pespega-lhe um beijo sonoro na face, que ele aceita pacientemente. — Meu menino lindo e inteligente — repete ela afagando-o, e vão-se embora de braço dado, o rapaz já mais alto do que a mãe e olhando-a com o ar atento de um pai tolerante a olhar o filho caprichoso.

Ah sim, ele sabe.

Com Joséphine ocupada com os seus próprios negócios, tenho tido pouca ajuda nos meus preparativos para a Páscoa; felizmente que a maior parte já está feita e só faltam umas poucas dúzias de caixas. À noite faço bolos e trufas, sinos de gengibre e pains d’épices decorados. Sinto a falta do toque de Joséphine nos embrulhos e enfeites, mas Anouk ajuda-me tanto quanto pode, abrindo folhos de celofane e pregando rosas de seda em inumeráveis saquinhos.

Tapei a montra da frente enquanto preparo a decoração de domingo e a fachada da loja tem o mesmo aspecto de quando chegámos, com papel prateado cobrindo o vidro. Anouk enfeitou-o com ovos e animais recortados em papel colorido e, no centro, há um grande cartaz anunciando:

GRANDE FESTIVAL DO CHOCOLATE

Domingo, Place St. Jérôme

 

Agora que as férias começaram, a praça fervilha de crianças esborrachando os narizes contra o vidro a espera de vislumbrarem os preparativos.

Já recebi mais de oitocentos francos de encomendas — algumas de longe, como Montauban e até Agen —, e continuam a chegar, pelo que a loja raramente está vazia. O panfleto da campanha de Caro parece ter sido suspenso. Diz-me Guillaume que Reynaud garantiu a sua congregação que o festival de chocolate tem o seu apoio inequívoco, apesar dos rumores espalhados por bisbilhoteiros maliciosos. Mesmo assim, de vez em quando vejo-o a observar-me da sua janelita com olhos ávidos e odiosos. Sei que ele me quer mal mas, seja como for, retirou o seu veneno. Tento perguntar a Armande, que sabe muito mais do que quer dizer, mas ela limita-se a abanar a cabeça.

— Foi tudo há muito tempo — diz ela, deliberadamente vaga. — A minha memória já não é o que era. — Antes quer saber todos os pormenores da ementa que preparei para a sua festa, saboreando tudo com antecedência.

— Está a abarrotar de sugestões. Brandade truffle, vol-aux-vents aux trois champignons, cozinhados em vinho e natas e guarnecidos com chantrel-les selvagens, langoustines grelhados com salada de agrião, cinco tipos diferentes de bolo de chocolate, todas as suas preferências, gelado de chocolate caseiro... Os olhos brilham-lhe de prazer e malícia.

— Nunca tive festas quando era nova — explica ela. — Nem uma. Fui uma vez a um baile, em Montauban, com um rapaz do litoral. Uui! — Fez um gesto expressivo e indecente. — Moreno e doce como melaço. Bebemos champanhe, comemos sorvete de morango e dançámos... — Suspirou. — Devia ter-me visto na altura, Vianne. Não ia acreditar. Ele dizia que eu parecia a Greta Garbo, o galã, e ambos fizemos de conta que acreditávamos. — Deu uma risadinha. — Claro que ele não era do tipo casadoiro — disse ela filosoficamente. — Nunca são.

Pouco durmo agora a noite, com bombons a dançarem-me diante dos meus olhos. Anouk dorme no seu quarto novo no sótão e eu sonho acordada, dormito, acordo a sonhar e dormito até as minhas pálpebras arderem de falta de sono e o quarto baloiçar minha volta como um barco no mar. Mais um dia, digo-me. Mais um dia.

Ontem noite tirei todas as minhas cartas da caixa onde jurei que as ia deixar. Eram frias ao toque dos dedos, frias e macias como mármore, as cores espargindo-se pelas palmas das mãos — azul-púrpura-verde-preto —, as imagens familiares entrando e saindo do meu leque de visão como flores comprimidas entre laminas de vidro preto. A Torre. Morte. Os Amantes. Morte. O Seis de Espadas. Morte. O Eremita. Morte. Digo-me que não tem significado nenhum. A minha mãe acreditava, mas de que é que isso lhe valeu? Fugas, fugas. O catavento no topo de St. Jérôme está agora silencioso, arrepiantemente calmo. O vento parou. A calmaria incomoda-me mais do que o guinchar de ferro velho. O ar está morno e doce com os novos aromas do Verão iminente. O Verão chega depressa a Lansquenet, a reboque dos ventos de Março, e cheira a circo, a serrim e a fritos, a lenha acabada de serrar e a excrementos de animal. A minha mãe dentro de mim murmura: tempo de mudar. A casa de Armande está iluminada: vejo daqui o pequeno quadrado amarelo da janela, projectando uma luz discreta sobre o Tannes. Penso no que ela estará a fazer. Não falou comigo directamente sobre os seus planos desde aquela única vez. Em vez disso, fala de receitas, da melhor maneira de fazer um pão-de-16 fofo, da proporção de açúcar e álcool para as cerejas em brande. Procurei a doença dela no meu dicionário de medicina. A linguagem técnica é outra forma de fuga, obscura e hipotética como as imagens das cartas. Inconcebível que tais palavras se apliquem a carne real. A vista dela está a desaparecer, ilhas de escuridão flutuam na sua visão, pelo que o que ela vê lhe surge empastelado, sarapintado e, por fim, quase obscuro. Depois, a escuridão.

Compreendo a situação dela. Por que é que ela há-de querer manter por mais tempo uma condição condenada a tal inevitabilidade? A ideia de desperdício — a ideia da minha mãe, surgida de anos de poupança e incerteza — aqui descabida, digo para comigo. Melhor o gesto extravagante, o festim, as luzes brilhantes e a súbita escuridão depois. E, contudo, algo em mim geme infantilmente — injusto!, quem sabe ainda espera de um milagre. De novo, a ideia da minha mãe. Armande tem outra sabedoria.

Nas últimas semanas — a morfina começava a tomar conta de tudo e os seus olhos estavam perpetuamente vidrados — ela perdia o contacto com a realidade durante horas, pairando entre fantasias como uma borboleta sobre as flores. Umas eram doces, sonhos de flutuar, de luzes, de encontros fora do corpo com estrelas de cinema falecidas e seres de planos etéreos. Outras eram injectadas de paranóia. O Homem de Preto nunca andava longe destas, escondido nas esquinas, sentado à janela de um pronto-a-comer, atrás do balcão da loja das miudezas. Às vezes era um taxista, e o táxi era um carro fúnebre preto como os que se vêem em Londres, um boné de beisebol enterrado sobre os olhos. No boné, tinha escrita a palavra DODGERS, a equipa auto-intitulada «trapaceira», e era por isso que andava à procura dela, de nós, de todos aqueles que o tinham trapaceado no passado, mas não para sempre, dizia ela, abanando sabiamente a cabeça, nunca para sempre. Durante um desses ataques sinistros pegou numa carteira de plástico amarela e mostrou-ma. Estava cheia de jornais, a maioria datados do fim dos anos sessenta, início dos setenta. Grande parte deles eram em francês, mas alguns eram em italiano, alemão, grego. Todos tratavam de raptos, desaparecimentos, ataques a crianças.

— É tão fácil — disse-me ela, com os olhos abertos e vagos. — Lugares grandes. Tão fácil perder uma criança. Tão fácil perder uma criança como tu. — Piscou os olhos remelosos. Eu afaguei-lhe a mão para a tranquilizar.

— Está tudo bem, mamã — disse eu. — Tu sempre tiveste cuidado. Olhaste por mim. Eu nunca me perdi.

Piscou outra vez os olhos.

— Ah, tu estiveste perdida — disse ela com um esgar. — Per-di-da. — Fitou o espaço com um olhar fixo durante um bocado, com um sorriso-careta e a mão como um ramo de galhos secos na minha. — Per-diii-daa — repetiu ela desolada e começou a chorar. Consolei-a o melhor que pude, voltando a pôr os recortes no arquivo. Ao fazê-lo, apercebi-me de que havia vários que tratavam do mesmo caso, o desaparecimento de Sylviane Caillou, de dezoito meses, em Paris. A mãe deixou-a presa na cadeirinha dentro do carro enquanto foi à farmácia e, ao voltar, a bebé tinha desaparecido. Desaparecidos estavam também o saco da muda e os brinquedos da bebé, um elefante vermelho de peluche e um urso castanho.

A minha mãe viu-me a olhar para o artigo e sorriu de novo.

— Acho que tu tinhas dois anos na altura — disse ela numa voz dissimulada. — Ou quase dois. E ela era muito mais loura do que tu. Não podias ser tu, pois não? E de resto, eu era muito melhor mãe do que ela.

— Claro que não — disse eu. — Tu eras uma boa mãe, uma óptima mãe. Não te preocupes. Não farias nada que me pusesse em risco.

A mãe só se baloiçou e sorriu.

— Descuidada — trauteou ela. — Simplesmente descuidada. Não merecia uma menina tão bonita, pois não?

Abanei a cabeça, sentindo de repente frio. Infantilmente:

— Eu não era má, pois não, Vianne?

Estremeci. As páginas pareciam escamosas sob os meus dedos.

— Não — garanti eu. — Não eras má.

— Eu cuidei bem de ti, não cuidei? Nunca te abandonei. Nem mesmo quando aquele padre disse... disse o que disse. Nunca.

— Não, mamã. Nunca.

O frio era agora paralisante, tornando difícil pensar. Tudo aquilo em que eu conseguia pensar era no nome, tão parecido com o meu, nas datas... E não me lembrava eu do ursinho, do elefante, o peluche gasto até à lona vermelha, carregado incansavelmente de Paris para Roma, de Roma para Viena?...

Claro que poderia ter sido mais uma das suas fantasias. Houve outras, como a cobra debaixo dos lençóis e a mulher nos espelhos. Poderia ter sido um faz-de-conta. Tanta coisa na vida da minha mãe não foi mais do que isso. Aliás... passado tanto tempo, que importância tinha?

Às três levantei-me. A cama ainda estava quente e desarranjada; o sono a milhões de quilómetros de distância. Acendi uma vela e levei-a para o quarto vazio de Josephine. As cartas estavam de volta ao seu antigo lugar na caixa da minha mãe, saltando avidamente ao meu toque. Os Amantes. A Torre. O Eremita. Morte. Sentada de pernas cruzadas no chão nu, baralhei-as com mais do que simples indolência. A Torre com as suas pessoas a caírem, as paredes a desmoronarem-se, isso eu podia compreender. É o meu constante medo de mudança, o medo da estrada, da perda. O Eremita com o seu capuz e lanterna parece-se muito com Reynaud, o rosto pálido e dissimulado semiencoberto pelas sombras. A Morte conheço eu muito bem, e fiz figas para a carta — vá de retro! — com o velho gesto mecânico. Mas os Amantes? Pensei em Roux e Josephine, tão parecidos sem o saberem, e não pude deixar de sentir uma pontinha de inveja. E contudo, lá no fundo, senti a convicção súbita de que a carta não revelara ainda todos os seus segredos. Um perfume de lilás espalhou-se pelo quarto. Talvez um dos frascos da mãe não esteja bem fechado. Senti calor apesar da friagem da noite, com dedos de calor estendendo-se até ao fundo do estômago. Roux? Roux?

Virei a carta depressa, com os dedos a tremer.

Mais um dia. O que quer que seja, pode esperar mais um dia. Baralhei de novo as cartas mas eu não tenho o toque destro da minha mãe e elas escorregaram-me das mãos e caíram no soalho. O Eremita virado para cima. Olhava-me mais do que nunca como Reynaud à luz trémula da vela. A sua cara parecia sorrir perversamente nas sombras. Hei-de arranjar uma maneira, prometia ele astutamente. Pensa que ganhou, mas eu hei-de arranjar uma maneira. Sentia a sua malevolência nas pontas dos dedos.

A mãe ter-lhe-ia chamado um sinal.

Subitamente, num impulso que eu só entendi parcialmente, peguei no Eremita e segurei-o contra a chama da vela. Por um instante a chama brincou com a carta rígida, depois a sua superfície começou a borbulhar. O rosto pálido sorriu num esgar e enegreceu.

— Eu mostro-lhe — sussurrei eu. — Experimente interferir e eu...

Um pingo de chama refulgiu alarmantemente e eu deixei cair a carta na banca. A chama extinguiu-se, salpicando o soalho de faúlhas e cinza.

Rejubilei.

Quem é que dita as mudanças agora, mãe?

E contudo, hoje á. noite não consigo deixar de sentir que, de uma certa maneira, fui manipulada, levada a revelar aquilo que mais valia deixar em paz. Não fiz nada, digo-me. Não quis fazer mal nenhum.

Nem mesmo hoje à noite consigo deixar de pensar nisso. Sinto-me leve, insubstancial como a penugem de uma flor-de-cera.

OceanofPDF.com