Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 28 de 40

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Chocolate

Capítulo 27

 

Quinta-feira, 13 de Março

 

O ntem à tarde fui a Les Marauds para falar com Roux, mas sem

melhores resultados do que da última vez. A casa abandonada estava

trancada com um ferrolho pelo lado de dentro e as persianas estavam fechadas. Imagino-o encurralado no escuro com a sua raiva como um animal desconfiado. Chamei pelo nome dele, sei que ele me ouviu, mas não me respondeu. Pensei em deixar-lhe uma mensagem na porta mas decidi não o fazer. Se quiser vir, terá de ser por sua livre e espontânea vontade. Anouk veio comigo, trazendo. um barquinho de papel que eu lhe tinha feito com a capa de uma revista. Enquanto eu estava à porta de Roux, ela foi até à beira-rio para o lançar à água, utilizando um galhozito maleável para o impedir de se afastar muito. Uma vez que Roux não aparecia, regressei a LA PRALINE, onde Joséphine já tinha começado a preparar a fornada semanal de cobertura, e deixei Anouk entregue às suas brincadeiras.

— Tem cuidado com os crocodilos — disse-lhe eu seriamente.

Anouk riu-se sob a sua boina amarela. Com a cometa de brincar numa mão e o galho na outra, desatou a tocar um alarme alto e sem melodia, saltitando de um pé para ‘o outro em excitação crescente.

— Crocodilos! Ataque de crocodilos! — cantava ela. — Aos canhões!

— Cuidado — avisei eu. — Não caias à água.

Anouk atirou-me um beijo extravagante e regressou à sua brincadeira. Quando me virei para trás no cimo da colina, estava ela a bombardear crocodilos com torrões de turfa e eu ainda lhe ouvia o som fino da cometa — paarpaa-raar! intercalado com efeitos de som — prás! prum! — enquanto a batalha prosseguia.

Surpreendente que ainda surpreenda, este acesso feroz de ternura. Se eu fechar os olhos com força suficiente frente ao sol poente, quase consigo ver os crocodilos, as suas silhuetas compridas e as suas bocarras na água, o clarão do canhão. Ao movimentar-se por entre as casas, o vermelho e o amarelo do casaco e da boina dela lançam chamas súbitas por entre as sombras e eu quase consigo distinguir a ménagerie semivisível que a rodeia. Enquanto observo, ela vira-se e acena-me, grita Gosto de ti! e regressa sua séria ocupação de brincar.

 

Fechámos tarde e eu e Joséphine trabalhámos no duro fazendo pralinas e trufas suficientes para o resto da semana. Já comecei a fazer os chocolates da Páscoa e Joséphine tornou-se perita em decorar as formas de animais e embalá-las em caixas com fitas multicores. A cave é um sítio óptimo para os armazenar: fresca, mas não tão fria que o chocolate ganhe aquela película esbranquiçada provocada pela congelação, e escura e seca, pelo que podemos armazenar ali a nossa fornada especial, embalada em caixas de cartão, e ainda nos sobra espago para o nosso abastecimento doméstico. O chão é de lajes antigas, de um castanho tão polido como carvalho, fresco e macio debaixo dos pés. Uma única lâmpada no tecto. A porta para a cave é de pinho não tratado, com uma abertura na base para dar passagem a um gato há muito desaparecido. Até Anouk gosta da cave, cheirando a pedra e vinho velho, e desenhou figuras coloridas a giz nas lajes e paredes caiadas: animais, castelos, pássaros e estrelas. Na loja, Armande e Luc ficaram a conversar durante um bocado e em seguida saíram juntos. Encontram-se agora mais amiúde e nem sempre em LA PRALINE; diz-me Luc que foi a casa dela duas vezes na semana passada e, de ambas as vezes, trabalhou uma hora no jardim.

— Ela precisa que lhe tr-tratem dos canteiros, agora que a c-casa está arranjada — disse-me ele em tom sério. — Não consegue cavar como antes mas diz que quer f-flores em vez de ter só ervas daninhas.

Ontem ele trouxe um conjunto de plantas do horto de Narcisse e plantou-as no solo cavado de fresco junto ao muro de Armande

— Tenho alf-fazema, prímulas, tulipas e narcisos — explicou ele. — Ela gosta de flores perfumadas e com cores vivas. Como ela não vê lá muito bem, trouxe lilás, goivos e giestas e coisas que ela possa reconhecer bem. — Mostrou um sorriso tímido. — Quero-as p-plantadas antes dos anos dela — explicou.

Perguntei-lhe quando é que Armande fazia anos.

— Trinta de Março — explicou. — Faz oitenta e um. Já pensei numa p-prenda para ela.

— Ah sim?

Confirmou com um aceno.

— Pensei em comprar-lhe uma c-combinação de seda. — O tom dele era ligeiramente defensivo. — Ela gosta de roupa interior.

Reprimindo um sorriso, disse-lhe que me parecia uma óptima ideia.

— Tenho de ir a Agen — disse ele muito sério. — E tenho de esconder da minha m-mãe, senão ela tem um ataque. — Fez um esgar. — Talvez lhe pudéssemos fazer uma festa. Sabe, para lhe dar as boas-vindas para a próxima d-década.

— Podemos perguntar-lhe o que é que ela acha.

 

Às quatro, Anouk chegou a casa cansada e alegre. e enlameada até aos sovacos e Joséphine fez-lhe um chá de limão enquanto eu pus água a correr para o banho. Depois de a despir da roupa suja, dei-lhe um banho de água quente a cheirar a mel e em seguida sentámo-nos as três a comer pains au chocolat e brioches com compota de groselha e alperces doces e suculentos da estufa de Narcisse. Joséphine parecia preocupada, virando e revirando o alperce na palma da mão.

— Não consigo deixar de pensar naquele homem — disse ela por fim. — Sabe, aquele que esteve aí hoje de manhã.

— Roux.

Acenou afirmativamente.

— O incêndio no barco dele... — disse ela a medo. — Não lhe parece que tenha sido um acidente, pois não?

— Ele não parece achar. Diz que cheirava a gasolina.

— O que é que acha que ele faria se descobrisse... — com esforço — ...quem deitou fogo?

Encolhi os ombros.

— Não faço ideia. Porquê, Joséphine, faz alguma ideia de quem possa ter sido?

Rápida: — Não. Mas se alguém soubesse e não dissesse... — deixou a frase esmorecer pateticamente. — Será que ele... quero dizer... o que é que...

Olhei para ela. Ela recusou-se a olhar-me nos olhos, revirando o alperce distraidamente, uma e outra vez. De repente, fez-se-me luz sobre os seus pensamentos.

— Sabe quem foi, não sabe?

— Não.

— Olhe, Joséphine, se sabe alguma coisa...

— Não sei nada. — A voz dela era inexpressiva. — Quem me dera saber.

— Está bem. Ninguém está a acusá-la de nada. — Falei com uma voz gentil, aliciante.

— Eu não sei nada! — repetiu ela estridentemente. — Não sei mesmo. Além do mais, ele está de partida, disse ele, não é daqui e nunca para cá devia ter vindo e... — Cortou a frase com um clique audível dos dentes.

— Vi-o hoje à tarde — disse Anouk com a boca cheia de brioche. — Vi a casa dele.

Virei-me para ela com curiosidade.

— Ele falou para ti?

Ela acenou enfaticamente.

— Claro que falou. Disse que me ia fazer um barco para a próxima vez, um barco de madeira como deve ser, que não se afunde. — Ela imita bem o sotaque dele. Os fantasmas das palavras dele enredam-se e cabriolam na boca dela.

Virei a cara para esconder um sorriso.

— A casa dele é muito cool — continuou Anouk. — Tem uma fogueira no meio da carpete. Ele disse que eu podia lá ir quando quisesse. Ah. — Tapou a boca com uma mão culpada. — Ele disse desde que não te dissesse. — Deu um suspiro teatral. — E eu disse, mamã. Não disse?

Abracei-a a rir-me.

— Disseste.

Apercebi-me do ar alarmado de Joséphine.

— Não acho que tu devas ir àquela casa — disse-lhe ela em tom ansioso. — Tu não conheces bem aquele homem, Anouk. Pode ser violento.

— Acho que ela tem razão — pisquei o olho para Anouk. — Desde que ela me diga. — Anouk piscou-me o olho também.

Hoje houve um funeral — uma das idosas de Les Mimosas ao fundo do rio — e o negócio foi pouco, fosse por medo, fosse por respeito. A defunta era uma mulher de noventa e quatro anos, diz Clotilde, a florista, parente da falecida mulher de Narcisse. Vi Narcisse, usando uma gravata preta com a sua velha jaqueta de tweed como concessão única à ocasião, e Reynaud, firmemente de pé à porta vestido de preto e branco, com a cruz de prata numa mão e a outra estendida benevolentemente para dar as boas-vindas ao cortejo fúnebre. Havia pouca gente. Talvez uma dúzia de mulheres idosas, nenhuma das quais eu reconheci, uma numa cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira loura, outras redondas e baixinhas como Armande, outras com a magreza quase translúcida dos muito velhos, todas de preto, meias, chapéus e lenços pretos, umas de luvas, outras com as suas mãos pálidas e contorcidas agarradas aos peitos chatos como virgens de Grünewald. Vi sobretudo as suas cabeças ao entrarem para a igreja de St. Jérôme num cacarejar compacto e baixo; entre as cabeças curvadas, a olhadela ocasional de um rosto cinzento, olhos pretos brilhantes dardejando na minha direcção a partir daquele enclave seguro enquanto a enfermeira, competente e resolutamente alegre, empurrava atrás. Pareciam não sentir qualquer tensão. A da cadeira de rodas segurava um pequeno missal preto numa das mãos e cantava numa voz fininha ao entrarem na igreja. As restantes permaneceram silenciosas durante a maior parte do tempo, dirigindo vénias a Reynaud ao entrarem na escuridão, algumas entregando-lhe uma nota debruada a preto para ser lida durante o serviço. O único carro fúnebre da aldeia chegou mais tarde. Dentro dele, um caixão coberto de preto com um único ramo de flores. Um único sino tocou indiferentemente. Enquanto esperava na loja vazia, ouvi o órgão tocar umas quantas notas apáticas e fugitivas, como seixos a caírem num poço.

Joséphine, que se encontrava na cozinha a tirar uma fornada de merengues com creme de chocolate, aproximou-se silenciosamente e estremeceu.

— É macabro — disse ela.

Recordo o crematório da cidade, a música aflautada do órgão — a Toccata de Bach —, o pequeno caixão brilhante, o cheiro a verniz, as flores. O ministro pronunciou o nome da mãe incorrectamente —Jean Rocher. Em dez minutos estava tudo acabado.

A morte devia ser uma celebração, disse-me ela. Como um aniversário. Quero subir como um foguetão quando chegar a minha hora e cair numa nuvem de estrelas e ouvir toda a gente a dizer: Ahhhh!

Atirei as suas cinzas para o porto na noite do 4 de Julho. Havia fogo de artifício e algodão-doce e bombinhas estourando no cais e o cheiro queimado a cordite no ar e o cheiro a cachorros-quentes e cebolas fritas e uma lufada ténue cheirando a detritos da água. Era tudo o que ela sonhara da América, um parque de diversões gigantesco, néons a cintilar, música a tocar, multidões a cantarem e a acotovelarem-se, todo o brilho falso e sentimental que ela adorava. Esperei pela parte mais vistosa da festa, quando o céu se converteu num frémito de luz e cor, e deixei-as esvoaçarem suavemente até ao torvelinho, tornando-se azuis-brancas-vermelhas ao caírem. Teria dito qualquer coisa, mas lido parecia haver mais nada para dizer.

— Macabro — repetiu Joséphine. — Detesto funerais. Nunca vou. — Não disse nada, mas observei a praça silenciosa e escutei o órgão. Pelo menos não era a Toccata. Os funcionários do cangalheiro carregaram o caixão para a igreja. Parecia muito leve e os passos deles eram bruscos e pouco atentos ao empedrado.

— Quem me dera que não estivéssemos tão perto da igreja — disse Joséphine, inquieta. — Não consigo pensar com aquilo a acontecer mesmo ao lado da porta.

— Na China, as pessoas vestem de branco nos enterros — disse-lhe eu. — Oferecem presentes em embalagens vermelhas para dar sorte. Deitam foguetes. Conversam e riem, dançam e choram. No fim, toda a gente salta sobre as brasas da pira funerária, um por um, para abençoar o fumo â medida que ele vai subindo.

Ela olhou-me com curiosidade.

— Também já lá viveu?

Abanei a cabeça.

— Não. Mas conhecemos muitos chineses em Nova Iorque. Para eles, a morte era uma celebração da vida da pessoa morta.

Joséphine olhou-me incrédula.

— Não percebo como é que alguém pode celebrar a morte — disse por fim.

— Não se celebra a morte — disse-lhe eu. — É a vida que se celebra. Toda. Até o fim. — Tirei a cafeteira de chocolate da chapa quente e enchi dois copos.

Pouco depois, fui â cozinha buscar dois merengues, ainda quentes e cremosos por dentro dos seus invólucros de chocolate e servi-os com chantili espesso e miolo de avelã.

— Não parece muito bem fazer isto neste momento — disse Joséphine; mas reparei que, mesmo assim, os comeu.

* * *

Era quase meio-dia quando o cortejo fúnebre se dispersou, cada qual ofuscado e piscando com a luz do sol. O chocolate e os merengues já estavam prontos, o preto podia ser mantido â distância durante um pouco mais de tempo. Vi Reynaud de novo â porta, depois as velhinhas foram-se embora no seu mini-autocarro — com Les Mimosas escrito em amarelo vivo na parte lateral — e a praça regressou ao normal. Narcisse apareceu depois de se despedir das restantes pessoas, suando muito no seu colarinho apertado. Quando lhe apresentei as minhas condolências, encolheu os ombros.

— A bem dizer, nunca a conheci — disse com indiferença. — Tia-avó da minha mulher. Foi para Le Mortoir há vinte anos. Já. não estava no seu juízo perfeito.

Le Mortoir. Notei a careta que Joséphine fez ao nome. Por trás da sua doçura a mimosas, é o que é, afinal de contas. Um sítio para se morrer. Narcisse está apenas a seguir as convenções. A mulher já morreu há muito.

Sirvo-lhe chocolate, preto e semiamargo.

— Quer uma fatia de bolo? — ofereci.

Ele deliberou por momentos.

— É melhor não enquanto estou de luto — declarou obscuramente. — Que bolo é?

— Bavaroise, com cobertura de caramelo.

— Talvez uma fatia pequenina.

Joséphine olhava a praça através da janela.

— Aquele homem anda outra vez por ali — notou ela. — Aquele de Les Marauds. Vai entrar na igreja.

Espreitei através da porta. Roux estava de pé junto porta lateral de St. Jérôme. Parecia agitado, apoiando-se desconfortavelmente ora num pé, ora noutro, com os braços envolvendo firmemente o tronco como se tivesse frio.

Havia qualquer coisa que não estava bem. Senti uma certeza súbita e alarmada. Qualquer coisa estava mesmo muito mal. Enquanto eu estava a olhar, Roux virou-se abruptamente na direcção de LA PRALINE. Quase correu através da porta e ficou ali, de cabeça baixa, rígido de culpa e tristeza.

— É Armande — disse ele. — Acho que a matei.

Por instantes, todos o fitámos. Fez um gesto desajeitado e indefeso com as mãos, como que para afastar maus pensamentos.

— Eu ia chamar o padre. Ela não tem telefone e eu pensei que talvez ele... — Calou-se. A tensão tornara ainda mais cerrado o seu sotaque, pelo que as palavras soavam exóticas e incompreensíveis, uma língua de guturais estranhas e ululos que poderiam ser árabe ou espanhol ou vegan ou uma misteriosa mistura das três.

— Apercebi-me que ela... disse-me para ir ao frigorífico e... havia lá remédio... — Calou-se de novo, em agitação crescente. — Não lhe toquei. Nunca lhe toquei. Eu não... — Cuspia as palavras com dificuldade, como dentes partidos. — Eles dizem que eu a ataquei. Que queria roubá-la. Não é verdade. Dei-lhe brande e ela...

Parou. Notei como se esforçava por manter o controlo.

— Está bem — disse-lhe eu calmamente. — Pode contar-me a caminho de lá. A Joséphine pode tomar conta da loja. O Narcisse vai à florista telefonar ao médico.

Obstinadamente: — Eu não volto lá. Já fiz o que podia. Não quero...

Agarrei nele pelo braço e arrastei-o atrás de mim.

— Não há tempo para estas coisas. Preciso de si comigo.

— Vão dizer que foi culpa minha. A polícia...

— A Armande precisa de si. Venha daí!

A caminho de Les Marauds ouvi o resto da história desconjuntada. Roux, sentindo vergonha pela sua explosão em LA PRALINE no dia anterior, e vendo a porta de Armande aberta, decidiu visitá-la e encontrou-a sentada na sua cadeira de baloiço semi-inconsciente. Conseguiu erguê-la o suficiente para ela dizer umas palavras: Remédio... frigorífico... Em cima do frigorífico estava uma garrafa de brande. Ele encheu um copo e obrigou-a a beber algum por entre os lábios.

— Ela caiu. Não consegui fazê-la voltar a si. — Transpirava nervosismo. — Depois lembrei-me de que ela era diabética. Provavelmente matei-a ao tentar ajudá-la.

— Não a matou. — Eu estava sem fôlego com a corrida, com uma pontada de dor do lado esquerdo. — Ela vai ficar bem. Você pediu ajuda a tempo.

— E se ela morrer? Quem é que você acha que vai acreditar em mim? — A voz dele era áspera.

— Poupe o fôlego. O médico não há-de tardar.

 

A porta de casa de Armande ainda está aberta, uma marca de gato a meio do caixilho. Lá dentro, a casa está silenciosa. Um pedaço de caleira solta verte água da chuva proveniente do telhado. Vejo os olhos de Roux fixarem-se em avaliação profissional: tenho que arranjar aquilo. Pára à porta, como que à espera de ser convidado a entrar.

Armande está deitada no tapete junto à lareira: o rosto tem a cor baça de um cogumelo, os lábios estão azulados. Pelo menos ele colocou-a na posição de recobro, um braço a alçar a cabeça e o pescoço num ângulo que permite aliviar as vias respiratórias. Está imóvel, mas um tremor de ar junto aos lábios diz-me que ela respira. A sua tapeçaria abandonada está ao lado dela e uma chávena de café derramado forma uma nódoa em forma de vírgula no tapete. A cena é estranhamente nítida, como o silêncio num filme mudo. A pele dela sob os meus dedos está fria e escamada e as íris escuras são claramente visíveis sob as pálpebras tão finas como papel crepe. A saia preta está arregaçada até ligeiramente acima dos joelhos, deixando ver um folho carmesim. Sinto um súbito acesso de pena pelos seus joelhos artítricos nas meias pretas e pela combinação de seda brilhante por baixo da bata castanha.

— Então? — A ansiedade torna Roux ríspido.

— Acho que ela vai ficar bem.

Os olhos dele estão escuros de descrença e desconfiança.

— Ela deve ter alguma insulina no frigorífico — digo-lhe eu. — Devia ser isso que ela queria dizer. Vá buscá-la depressa.

Guarda-a com os ovos. Uma caixa tupperware contém seis ampôlas de insulina e algumas agulhas descartáveis. Do outro lado, uma caixa de trufas com LA CELESTE PRALINE escrito na tampa. De resto, pouco há que se coma na casa: uma lata aberta de sardinhas, um pedaço de papel com gordura de rillettes, alguns tomates. Injecto-a na curva do cotovelo. É uma técnica que conheço bem. Durante as fases finais da doença para a qual a minha mãe procurou tantas terapias alternativas — acupuncultura, homeopatia, visualização criativa —, acabámos por nos rendermos à velha morfina, morfina do mercado negro quando não conseguíamos receita; e embora a minha mãe abominasse drogas, ficava satisfeita por ter esta, com o corpo a transpirar e os arranha-céus de Nova Iorque nadando ante os nossos olhos como uma miragem. Não pesa quase nada nos meus braços, com a cabeça pendida. Um traço de rouge numa face dá-lhe um ar desesperado, patético. Esfrego-lhe as mãos frias e rígidas entre as minhas, relaxando as articulações, massajando os dedos.

— Armande. Acorde. Armande.

Roux observa de pé, inseguro, com uma expressão perplexa, misto de confusão e esperança. Os dedos dela parecem um molho de chaves nas minhas mãos.

— Armande. — Torno a minha voz incisiva, autoritária. — Agora não pode dormir. Tem de acordar.

Aí está. Um levíssimo tremor, uma folha esvoaçando contra outra.

— Vianne.

Num segundo, Roux está de joelhos junto a nós. Parece pálido mas os olhos estão muito brilhantes.

— Ah, diga lá isso outra vez, sua velhota teimosa! — O alívio dele era tal que doía. — Eu sei que está aí, Armande, sei que me está a ouvir! — Olhou-me, ávido, quase a rir. — Ela falou, não falou? Não fui eu que imaginei?

Abanei a cabeça.

— Ela é forte — disse eu. — E o Roux encontrou-a a tempo, antes de ela ficar em coma. Temos de dar tempo a que a injecção faça efeito. Continue a falar para ela.

— Está bem. — Começou a falar, um pouco bruscamente, sem fôlego, procurando no rosto dela sinais de consciência. Eu continuei a esfregar-lhe as mãos, sentindo o calor a voltar pouco a pouco a elas.

— Você não engana ninguém, Armande, sua bruxinha velha. Você tem a força de um cavalo. Podia viver para sempre. Além do mais, eu acabei de lhe consertar o telhado. Não pense que tive todo esse trabalho para aquela sua filha herdar tudo, pois não? Sei que me está a ouvir, Armande. De que é que está espera? Quer que lhe peça desculpa? Está bem, eu peço. — Quase gritava agora, enquanto lágrimas lhe rolavam pela face. — Ouviu o que eu disse? Peço desculpa. Sou um filho da mãe ingrato e peço desculpa. Agora acorde

— ... grande filho da mãe

Ele parou a meio da frase. Armande deu uma risadinha. Os lábios mexeram-se silenciosamente. Os olhos estavam brilhantes e despertos. Roux segurou-lhe o rosto entre as mãos com delicadeza.

— Assustei-o, foi? — A voz dela era de seda.

— Não.

— Mas assustei-o. — Com um toque de satisfação e malícia.

Roux limpou os olhos com a mão.

— Ainda me deve dinheiro pelo trabalho — disse ele numa voz trémula. — Estava com medo que não se decidisse a pagar-me.

Armande deu nova risadinha. Estava a ganhar forças e, juntos, consegui-mos levantá-la e colocá-la numa cadeira. Estava ainda muito pálida, com o rosto semicontraído como uma maçã podre, mas os olhos límpidos e lúcidos. Roux virou-se para mim, com uma expressão indefesa pela primeira vez desde o incêndio. As nossas mãos tocaram-se. Por um instante, tive um vislumbre do seu rosto ao luar, a curva arredondada de um ombro contra a relva, um aroma fantasma a lilás pairando no ar... Senti os meus olhos arregalarem-se de tão estupidamente surpreendidos. Roux também deve ter sentido qualquer coisa porque recuou, envergonhado. Atrás de nós, um riso baixinho de Armande.

— Eu disse ao Narcisse para chamar o médico — disse eu, simulando um tom ligeiro. — Ele deve estar a chegar.

Armande olhou para mim. O saber circulou entre nós e, não pela primeira vez, interroguei-me quão claramente ela via as coisas.

— Não quero esse cabeça-de-morte em minha casa — disse ela. — Pode mandá-lo embora mal ele chegue. Não preciso que ele me venha para cá dizer o que é que eu devo fazer.

— Mas está doente — protestei eu. — Se o Roux não tivesse aparecido, podia ter morrido.

Lançou-me um dos seus olhares trocistas.

— Vianne — disse ela pacientemente. — Isso é que os velhos fazem. Morrem. É um facto da vida. Está sempre a acontecer.

— Sim, mas...

— E não vou para Le Mortoir — prosseguiu ela. — Pode dizer-lhes isso da minha parte. Não me podem obrigar. Vivo nesta casa há sessenta anos e é aqui que quero estar quando morrer.

— Ninguém a vai obrigar a ir para lado nenhum — disse Roux, ríspido. — Você só foi descuidada com os seus remédios, nada mais Para a próxima vai ter mais cuidado.

Armande sorriu.

— Não é tão simples como isso — disse ela.

Obstinadamente: — Porquê?

Ela encolheu os ombros.

— O Guillaume sabe — disse-lhe ela. — Tenho falado muito com ele. Ele entende. — Parecia agora quase normal, embora ainda estivesse muito fraca. — Eu não quero tomar esse remédio todos os dias — disse ela calmamente. — Não quero seguir dietas intermináveis. Não quero ser assistida por enfermeiras que me falam como se eu estivesse no jardim infantil. Tenho oitenta anos, e se não posso ser tida nem achada para saber o que quero na minha idade...

Interrompeu-se abruptamente.

— Quem é?

Não tem qualquer problema de audição. Eu também ouvi o som ténue de um carro a subir pelo acesso irregular da entrada. O médico.

— Se for aquele charlatão impostor do médico, diga-lhe que está a perder o seu tempo — atirou Armande. — Diga-lhe que eu estou muito bem. Diga-lhe que procure outro qualquer para diagnosticar. Eu não quero nada com ele.

Olhei lá para fora.

— Ele parece trazer meia Lansquenet atrás dele — comentei com brandura. — O carro, um Citroën azul, estava atulhado de gente. Além do médico, um homem pálido de fato cinza-carvão, distingui Caroline Clairmont, a sua amiga Joline e Reynaud apertados uns contra os outros no banco de trás. À frente vinha Georges Clairmont, com ar acanhado e mal disposto, protestando silenciosamente. Ouvi a porta do carro bater e a vozinha esganiçada de Caroline acima do súbito clamor:

— Eu disse-lhe! Não lhe disse, Georges? Ninguém me pode acusar de negligenciar o meu dever filial, dei tudo por aquela mulher e vejam só como ela está...

Um rápido restolhar de passos pelo lajedo, depois as vozes explodiram numa cacofonia quando os visitantes indesejados abriram a porta da frente.

— Mamã? Mamã? Espera, querida, sou eu! Estou a chegar! Por aqui, Monsieur Cussonet, por aqui para... ah, pois, já conhece os cantos à casa, pois já? Ó meu Deus, quantas vezes já lhe disse... eu sabia que uma coisa destas havia de acontecer...

Georges, protestando debilmente: — Achas mesmo que devíamos interferir, minha querida? Quero eu dizer, deixa o senhor doutor tratar do assunto, percebes?

— O que eu me pergunto é o que é que ele estava a fazer em casa dela...

Reynaud, quase inaudível: — ...devia ter vindo ter comigo...

Senti Roux ficar hirto ainda antes de Reynaud entrar na sala, olhando rapidamente em redor à procura de uma saída. Mas já era demasiado tarde. Primeiro Caroline e Joline com os seus chignons imaculados, os seus fatos a condizer e écharpes Hermes, seguidas de perto por Clairmont — fato escuro e gravata, pouco habitual para um dia no depósito de madeiras, ou será que ela o fez vestir-se para a ocasião? O médico, o padre, qual cena de melodrama, todos hirtos à porta, de rostos chocados, brandos, culpados, magoados, furiosos... Roux a fitá-los esgazeado, com aquele ar de insolência, uma mão ligada, cabelo molhado sobre os olhos, eu própria à porta, de saia cor de laranja salpicada de lama da minha corrida até Les Marauds, e Armande branca mas composta, baloiçando-se alegremente na sua velha cadeira com os olhos pretos pestanejando maliciosamente e um dedo torcido como o de uma bruxa...

— Com que então os abutres estão aqui. — O tom era afável, perigoso. — Não demoraram muito a chegar aqui, pois não? — Um olhar rápido a Reynaud, postado atrás do grupo. — Pensaram que esta era a vossa grande oportunidade, não foi? — disse com acinte. — Pensaram que davam a vossa bençãozinha rápida enquanto eu não estivesse compos mentis? — Deu a sua risadinha vulgar. — Pouca sorte, Francis. Ainda não é desta que estou pronta para a extrema-unção.

Reynaud pareceu aborrecido.

— Assim parece — disse ele. Um olhar rápido na minha direcção. — Foi uma sorte a Mademoiselle Rocher ser tão... competente... a manejar agulhas. — Havia um desprezo implícito nas suas palavras.

Caroline estava rígida, o rosto uma máscara sorridente de desgosto.

— Mamã, chérie, está a ver o que acontece quando a deixamos sozinha? A assustar toda a gente desta maneira.

Armande pareceu aborrecida.

— A gastar todo este tempo, a preocupar as pessoas... — Lariflete saltou-lhe para o joelho enquanto Caro falava e a velhinha acariciou-o distraidamente. — Percebe agora por que é que lhe dizemos...

— Que eu estava melhor em Le Mortoir? — concluiu Armande impavidamente. — Claro, Caro. Não desistes, pois não? Tal qual o teu pai, sem tirar nem pôr. Estúpida mas persistente. Era uma das suas características mais cativantes.

Caro pôs um ar petulante.

— Não é Le Mortoir, é Les Mimosas, e se olhar à sua volta...

— Comida por um tubo, alguém a levar-nos à casa de banho para o caso de cairmos...

— Não diga disparates.

Armande riu-se.

— Minha filha, na minha idade posso fazer o que me apetecer. Posso dizer disparates se me der na veneta. Já tenho idade suficiente para me permitir seja o que for.

— Está a portar-se como uma criança. — A voz de Caro estava amuada. — Les Mimosas é uma casa residencial muito fina, muito exclusiva, poderia conversar com pessoas da sua idade, dar passeios, teria tudo organizado...

— Parece uma maravilha. — Armande continuava a baloiçar-se preguiçosamente na cadeira. Caro virou-se para o médico, até então de pé ao seu lado. Um homem magro e nervoso, constrangido por estar ali, como um homem tímido numa orgia.

— Simon, diga-lhe.

— Bem, não sei se me cabe a mim...

— O Simon concorda comigo — interrompeu Caro obstinadamente. — No seu estado e na sua idade, pura e simplesmente não pode continuar a morar sozinha aqui. A qualquer altura pode...

— Sim, Madame Voizin. — A voz de Joline era calma e razoável. — Talvez deva considerar aquilo que Caro... quero dizer, claro que não quer perder a sua independência, mas para o seu próprio bem...

Os olhos de Armande são rápidos e brilhantes e fulgurantes. Fitou Joline por momentos em silêncio. Joline ergueu o queixo e depois desviou o olhar, corando.

— Quero-vos fora daqui — disse Armande suavemente. — Todos vocês.

— Mas mamã...

— Todos — repetiu Armande peremptoriamente. — Dou aqui ao curandeiro dois minutos em privado. Parece que tenho que lhe recordar o seu juramento de Hipócrates, Monsieur Cussonet, e quando acabar, espero que vocês todos, seus metediços, estejam daqui para fora. — Tentou pôr-se de pé, soerguendo-se com dificuldade. Peguei-lhe no braço para a amparar e ela deu-me um sorriso enviesado e malicioso.

— Obrigada, Vianne — disse com delicadeza. — A si também... — isto era dirigido a Roux, ainda de pé no extremo da sala, com um ar apático e indiferente. — Quero falar consigo depois de falar com o médico. Não se vá embora.

— Quem, eu? — Roux estava pouco vontade. Caro olhou-o com indisfarçável desdém.

— Acho que numa altura destas, mamã, a sua família devia ser...

— Se eu precisar de ti, chamo-te — disse Armande causticamente. — Para já, tenho assuntos a tratar.

Caro olhou para Roux.

— Ah-ah? — A sílaba escorria antipatia. — Assuntos a tratar? — Mirou-o de alto a baixo e senti-o estremecer ligeiramente. Foi o mesmo reflexo que notei anteriormente em Joséphine: uma postura hirta, os ombros ligeiramente encolhidos, as mãos escondidas nos bolsos como que para expor um alvo menor. Perante um escrutínio ao conhecedor, a menor falha é revelada. Por momentos, ele vê-se como ela o vê: sujo, grosseiro. Perversamente, ele age de acordo com o papel que ela lhe atribui, rosnando.

— Para que raio é que acha que está a olhar assim?

Ela olhou-o espantada e depois desviou o olhar. Armande sorri.

— Até logo — diz-me ela. — E obrigada.

Caro segue-me com evidente mágoa. Dividida entre a curiosidade e a relutância em falar-me, é brusca e condescendente. Explico-lhe os factos de forma pouco elaborada. Reynaud escuta, inexpressivo como uma das suas estátuas. Georges tenta ser diplomático, debitando banalidades por entre sorrisos acanhados.

Ninguém me oferece boleia para casa.

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