Chocolate
Capítulo 30
Terça-feira, 18 de Março
J oséphine comentou o meu silêncio enquanto trabalhávamos. Fizemos
trezentas caixas de Páscoa desde que começámos, meticulosamente empilhadas na cave e atadas com fitas, mas eu planeio fazer duas vezes mais. Se conseguir vendê-las todas, teremos um bom lucro, talvez o suficiente para nos fixarmos aqui de vez. Se não — não penso nessa possibilidade, ainda que o catavento se parta a rir de mim do alto do seu poleiro. Roux já começou a trabalhar no quarto de Anouk nas águas-furtadas. O festival é um risco mas as nossas vidas sempre foram determinadas por esse tipo de coisas. E fizemos todos os esforços para tornar o festival um sucesso. Enviámos cartazes para Agen e para as vilas vizinhas. A rádio local vai mencioná-lo diariamente durante a semana da Páscoa. Haverá música — alguns dos velhos amigos de Narcisse fizeram uma banda —, flores e jogos. Falei com alguns dos feirantes de quinta-feira e vai haver bancas na praça a venderem bugigangas e lembranças. Uma caçada ao Ovo de Páscoa, liderada por Anouk e pelos amigos, e cartuchos-surpresa para todos os participantes. E, em LA CELESTE PRALINE, uma gigante estátua de chocolate de Eostre com uma espiga de milho numa mão e um cesto de ovos na outra, para serem distribuídos entre os participantes. Faltam menos de duas semanas. Fazemos finos bombons de licor, cachos de pétalas-de-rosa, moedas embrulhadas em papel dourado, bombons com creme violeta, ginjas de chocolate e rolos de amêndoa em fornadas de cinquenta de cada vez, colocando-os em latas untadas para arrefecerem. Ovos ocos e figuras de animais são cuidadosamente abertos e recheados com essas iguarias. Ninhos de caramelo com ovos de chocolate duros, cada qual encimado por uma galinha de chocolate triunfantemente rechonchuda; coelhos variados cheios de amêndoas cobertas estão dispostos em filas, prontos a serem embrulhados e encaixotados; criaturas de maçapão marcham pelas prateleiras fora. Os aromas da essência de baunilha e conhaque e de maça caramelizada e chocolate amargo enchem a casa.
E agora também há a festa de Armande para preparar. Começa às nove de sábado, a véspera do festival, e ela festeja o aniversário â meia-noite. Tenho uma lista de tudo o que ela quer encomendar de Agen — foie gras, champanhe, trufas e chanterelles frescas de Bordéus, plateaux de fruits de mer do traiteur em Agen. Eu própria sirvo os bolos e os chocolates.
— Parece divertido — diz Joséphine alegremente da cozinha, quando lhe conto da festa. Tenho de me lembrar da promessa a Armande.
— Está convidada — digo-lhe. — Disse ela.
Joséphine cora de prazer ante a ideia.
— simpático — diz ela. — Toda a gente tem sido tão simpática.
É notável como ela está menos amarga, digo a mim mesma, pronta a ver simpatia em todos. Nem mesmo Paul-Marie destruiu este optimismo nela. O comportamento dele, diz ela, é em parte culpa dela. Ele é essencialmente fraco; e ela devia ter-lhe feito frente há muito tempo. Quanto a Caro Clairmont e suas acólitas, limitam-se a um sorriso:
— São umas patetas — diz sabiamente.
Uma alma tão simples. Está agora serena, em paz com o mundo. Eu dou comigo cada vez menos assim, num perverso espírito de contradição. E contudo, invejo-a. Foi preciso tão pouco para a fazer chegar a este estado. Algum aconchego, umas quantas roupas emprestadas e a segurança de um quarto de hóspedes... Tal como uma flor, cresce na direcção da luz, sem pensar ou examinar o processo que a leva a fazê-lo. Quem me dera conseguir fazer o mesmo.
Dou comigo a regressar â conversa de domingo com Reynaud. Aquilo que o move continua a ser para mim tão misterioso como antes. Há agora um ar de desespero nele quando trabalha no seu cemitério, a cavar e sachar furiosamente — trazendo às vezes enormes montículos de arbustos ou flores juntamente com as ervas daninhas —, com o suor a escorrer-lhe pelas costas e marcando um triângulo escuro na sotaina. Não gosta do exercício. Observo-lhe o rosto enquanto trabalha, as feições crispadas do esforço. Parece odiar a terra que cava, odiar as plantas entre as quais trabalha. Tem o ar de um avarento obrigado a atirar notas para a fornalha: fome, repulsa e fascínio relutante. Porém, nunca desiste. Ao observá-lo, sinto um baque de medo familiar, embora não saiba muito bem por quê. É como uma máquina este homem, o meu inimigo. Olhando-o, sinto-me estranhamente exposta ao seu escrutínio. Preciso de toda a minha coragem para o olhar nos olhos, sorrir, simular indiferença... dentro de mim algo grita e luta freneticamente por se soltar. Não é apenas a questão do festival de chocolate que o enfurece. Sei-o tão bem como se o tivesse descoberto entre os seus pensamentos áridos. É a minha própria existência que o enfurece. Para ele eu sou uma afronta ambulante. Observa-me agora, dissimuladamente a partir do seu jardim inacabado, com os olhos esgueirando-se enviesados na direcção da minha janela, regressando depois ao trabalho com uma satisfação dissimulada. Não falamos desde domingo e ele acha que me bateu um ponto. Armande não voltou a LA PRALINE e eu noto nos seus olhos que ele julga ter sido a causa disto. Deixá-lo pensar se isso o faz feliz.
Diz-me Anouk que ele foi ontem à escola. Falou sobre o significado da Páscoa — assunto inocente, embora me arrepie só de pensar na minha filha entregue aos seus cuidados —, leu uma história e prometeu voltar. Perguntei a Anouk se ele tinha falado com ela.
— Ah sim — disse ela com jovialidade. — É simpático. Disse que eu podia ir ver a igreja dele se quisesse. S. Francisco e os animaizinhos.
— E tu queres?
Anouk encolheu os ombros.
— Se calhar — disse ela.
Digo a mim própria — de madrugada, quando tudo parece possível e os meus nervos gemem como os gonzos empenados do catavento — que o meu medo é irracional. O que é que ele nos pode fazer? Como é que ele nos pode magoar, mesmo que seja essa a sua intenção? Ele não sabe nada. Não pode saber nada a nosso respeito. Não tem poder nenhum.
Claro que tem, diz a voz da minha mãe em mim. Ele é o Homem de Preto. Anouk mexe-se agitadamente no seu sono. Sensível aos meus humores, sabe quando eu estou acordada e esforça-se ela própria por despertar por entre um pântano de sonhos. Respiro fundo até ela reconciliar o sono.
O Homem de Preto é uma ficção, digo-me firmemente. Uma corporizacão dos nossos medos sob uma máscara de Carnaval. Uma história para noites negras. Sombras num quarto estranho.
Em lugar de uma resposta, volto a ver aquela imagem, nítida como uma fotografia: Reynaud à cabeceira de um velho, à espera, os lábios movendo-se como que em oração, chamas por trás de si como o sol coado por vitrais. Não é uma imagem reconfortante. Há algo predatório na atitude do padre, uma semelhança entre os dois rostos vermelhuscos, as chamas cintilando entre eles como uma ameaça tenebrosa. Tento aplicar os meus estudos de psicologia. uma imagem do Homem de Preto como Morte, um arquétipo que reflecte o meu medo do desconhecido. A ideia não me convence. Aquela parte de mim que ainda pertence a minha mãe fala com mais eloquência.
Tu és minha filha, Vianne, diz-me ela inexoravelmente. Sabes o que isso significa.
Significa partir quando o vento mudar, ver futuros ao virar das cartas, viver a vida em permanente fuga...
— Eu não sou nada de especial. — Mal me apercebo de que falei alto.
— Mama? — A voz de Anouk, pesada de sono.
— Chiu — digo-lhe. — Ainda é não manhã. Dorme mais um bocadinho.
— Canta-me uma canção, mama — murmura ela, estendendo a mão para mim no escuro. — Canta-me outra vez a canção do vento.
Canto então, escutando a minha própria voz contra os sons leves do catavento:
V’là l’bon vent, l’joli vent,
V’là l’bon vent, ma mie m’appelle,
V’là l’bon vent, l’joli vent,
V’là l’bon vent, ma mie m’attend.
Pouco tempo depois, volto a ouvir a respiração regular de Anouk e sei que ela está a dormir. A sua mão ainda repousa na minha, mole de sono. Quando Roux acabar as obras na casa, ela voltará a ter um quarto para si e ambas voltaremos a dormir mais a vontade. Esta noite parece-se demasiado com aqueles quartos de hotel que nós partilhávamos, eu e a minha mãe, banhadas na humidade da nossa própria respiração, com o bafo a escorrer pelas janelas e o som do tráfico, interminável, lá fora.
Vla l’bon vent, v’là l’joli vent...
Desta vez não, prometo silenciosamente a mim própria. Desta vez fica-mos. Aconteça o que acontecer. Mas mesmo quando volto a adormecer, dou comigo a repensar a ideia, não com desejo, mas com descrença.
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