Chocolate
Capítulo 21
Quarta-feira, 5 de Marco
L uc veio hoje falar novamente com Armande. Parece agora mais seguro,
embora ainda gagueje bastante. Mas já consegue relaxar-se o suficiente
para dizer uma piada discreta de vez em quando, sorrindo depois com um ar timidamente surpreendido, como se não estivesse habituado ao papel de humorista. Armande estava com uma disposição excelente, tendo substituído o seu chapéu de palha preto por um lenço de seda. As suas faces estavam de um vermelho-rosado — embora eu desconfie que, tal como o brilho pouco habitual dos lábios, se devesse a outros artifícios que não à mera boa disposição. Em tão pouco tempo, ela e o neto descobriram que têm muito mais em comum do que imaginavam: livres da presença inibidora de Caro, ambos parecem perfeitamente à vontade um com o outro. É difícil lembrar que até há uma semana se limitavam a cumprimentar-se. Há agora uma espécie de intensidade neles, um tom baixo, uma sugestão de intimidade. Política, música, xadrez, religião, rugby, poesia — eles somam e seguem de um tópico para outro, como gourmets num buffet em que não podem deixar nenhum prato por provar. Armande dirige toda a intensidade do seu charme para ele — umas vezes vulgar, depois erudita, cativante, gamine, solene, sábia.
Não há dúvida: isto é sedução.
Desta vez é Armande que se apercebe da hora.
— Está a fazer-se tarde, menino — disse ela bruscamente. — São horas de ires para casa. — Luc interrompeu-se a meio da frase, parecendo absurdamente contrariado.
— Eu não reparei que estava a fi-ficar tão tarde. — Calou-se, perdido, como que relutante em partir. — Suponho que é melhor — disse sem entusiasmo. — Se me atraso, a m-mãe tem um ataque. Ou c-coisa assim. Já s-sabe como ela é.
Sabiamente, Armande abstivera-se de testar a lealdade do rapaz para com Caro, reduzindo ao mínimo quaisquer comentários depreciativos sobre ela. Perante esta crítica implícita, deu um dos seus sorrisos maliciosos:
— Se sei — disse ela. — Diz-me, Luc, nunca te apetece revoltares-te, nem que seja um bocadinho? — Os olhos estavam estivais de riso. — Na tua idade, devias revoltar-te, deixar crescer o cabelo e ouvir música rock, seduzir as raparigas ou coisa assim. Senão, vais ter que as pagar todas aos oitenta.
Luc abanou a cabeça: — Demasiado arriscado. Prefiro v-viver.
Armande riu-se, deliciada.
— Para a semana, então? — Desta vez beijaram-se ao de leve no rosto. — Mesmo dia?
— Acho que consigo.
Ela sorriu. — Vou dar uma festa lá em casa amanhã à noite — disse-lhe ela abruptamente. — Para agradecer a todos o trabalho que fizeram no meu telhado. Podes vir, se quiseres.
Por um instante, Luc pareceu ter dúvidas.
— Claro, se Caro se opuser... — Deixou a frase deambular ironicamente em suspenso, fixando nele o seu olhar brilhante e provocador.
— Tenho a certeza que con-consigo lembrar-me de uma desculpa qualquer — disse Luc, gracejando sob o olhar divertido dela. — Podia ser di-divertido.
— Claro que vai ser — disse Armande rispidamente. — Toda a gente vai estar lá. Excepto, claro, o Reynaud e os seus grupinhos beatos. — Dirigiu-lhe um sorrisinho manhoso. — O que, cá para mim, é uma grande vantagem.
Um olhar de divertimento e culpa atravessa o rosto dele e sorri.
— Grupinhos b-beatos — repete. — Mémee, isso é muito cool.
— Eu sou sempre cool — replica Armande com dignidade.
— Vou ver o que se arranja.
* * *
Armande estava a terminar a sua bebida e eu estava para fechar a loja quando Guillaume chegou. Pouco o tenho visto esta semana; tem um ar desgrenhado, sem cor, e com um olhar triste debaixo da aba do chapéu. Sempre formal, cumprimentou-me com a sua habitual cortesia grave mas eu apercebi-me de que estava preocupado. As roupas pareciam pender verticalmente dos seus ombros curvados, como se não existisse nenhum corpo sob elas. As suas feições miúdas tinham um ar arregalado e angustiado como um capuchinho. Não havia nenhum Charly com ele, embora eu tenha reparado que, uma vez mais, trazia consigo a coleira do cão enrolada à volta do punho Anouk espreitou-o com curiosidade da cozinha.
— Sei que está para fechar. — A voz era entrecortada e precisa, como a de uma noiva de guerra num dos seus queridos filmes de guerra ingleses. — Não lhe tomo muito tempo. — Servi-lhe uma meia-chávena do meu choc. espresso mais preto e coloquei-lhe ao lado dois dos seus florentinos preferidos. Anouk empoleirou-se num banco e olhou-os com inveja.
— Não tenho pressa — disse-lhe eu.
— Nem eu — declarou Armande no seu modo brusco —, mas posso ir andando se preferir.
Guillaume abanou a cabeça.
— Não, claro que não. — Deu um sorriso pouco convencido. — Não é grande coisa.
Esperei que se explicasse, embora quase adivinhasse Guillaume pegou num florentino e trincou-o logo, colocando a outra mão por baixo para evitar deixar cair migalhas.
— Acabei de enterrar o velho Charly — disse na sua voz quebradiça. — Debaixo de uma roseira num canto do meu jardim. Ele ia gostar.
Acenei que sim.
— Tenho a certeza que sim.
Agora podia sentir o cheiro do sofrimento dele, um aroma amargo a terra e míldio. Via-se-lhe terra nas unhas ao segurar o florentino. Anouk observava-o solenemente.
— Pobre Charly — disse ela. Guillaume mal pareceu ouvi-la.
— Acabei por ter de o levar — continuou ele. — Ele já não conseguia caminhar e ganiu quando o levei. Ontem à noite não parou de ganir. Passei toda a noite com ele mas eu sabia. — Parecia quase pedir desculpa, entregue a um sofrimento demasiado complexo para ser articulado. — Sei que é estúpido — disse ele. — Não passa de um cão, como o Cura disse. Estúpido, tanta importância por coisa nenhuma.
— Não é assim — interrompeu Armande inesperadamente. — Um amigo é um amigo. E o Charly era um bom amigo. Não fique à espera que o Reynaud perceba tal coisa.
Guillaume dirigiu-lhe um olhar agradecido.
— É simpático da sua parte dizer isso. — Voltou-se para mim. — E a senhora também, Madame Rocher. Tentou avisar-me a semana passada mas eu não estava capaz de ouvir. Suponho que imaginei que, ignorando todos os sinais, podia de uma maneira qualquer fazer com que o Charly sobrevivesse indefinidamente.
Armande observou-o com uma expressão estranha nos olhos pretos.
— As vezes sobreviver é a pior alternativa possível — comentou ela suavemente.
Guillaume acenou.
— Eu devia tê-lo levado lá há mais tempo — disse ele. — Dar-lhe alguma dignidade. — O seu sorriso era doloroso na sua nudez. — Pelo menos teria poupado a ambos esta última noite.
Eu fiquei sem saber o que lhe dizer. De certo modo, acho que ele não precisava que eu lhe dissesse nada. Queria apenas falar. Evitei os lugares-comuns habituais e não disse nada. Guillaume terminou o seu florentino e deu mais um dos seus sorrisos pálidos e terríveis.
— É horrível — disse ele —, mas tenho tal apetite! É como se não comesse há um mês. Acabei de enterrar o meu cão e era capaz de comer... Parou, confuso. — Parece terrivelmente errado — disse ele. — Como comer carne na Sexta-Feira Santa.
Armande deu uma gargalhada seca e pôs a mão no ombro de Guillaume. Ao lado dele, ela parecia muito sólida, muito capaz.
— Venha comigo — ordenou ela. — Eu tenho pão, rillettes e um belo camambert prontinho para se comer. Oh, e Vianne... — virando-se para mim com um gesto imperioso —, quero uma caixa dessas coisas de chocolate, o que é isso? Florentinos? Uma caixa grande.
Pelo menos isso posso dar. Pequeno consolo, talvez, para um homem que perdeu o seu melhor amigo. Secretamente, com a ponta do dedo, tracei um pequeno sinal na cobertura da caixa para dar sorte e protecção.
Guillaume começou a protestar mas Armande não fez caso.
— Disparate! — Não havia resposta a dar-lhe e a energia dela insinuou-se no homem pálido à sua própria revelia. — Que outra coisa quer fazer? Sentar-se em casa macambúzio? — Abanou enfaticamente a cabeça. — Não. Já há muito tempo que não recebo um cavalheiro em casa. Vai saber-me bem. Além do mais — acrescentou, pensativa —, há uma coisa que quero discutir consigo.
Armande leva a melhor. É praticamente uma máxima. Observo ambos enquanto embrulho a caixa de florentinos e a ato com longas fitas prateadas. Guillaume começa a responder ao calor dela, confuso mas grato.
— Madame Voizin...
Firmemente: — Armande.
É uma pequena vitória.
— E também pode deixar isso aqui. — Delicadamente, desenrola a coleira do cão do pulso de Guillaume. A sua simpatia é robusta mas sem condescendência. — Não vale a pena andar a carregar peso a mais. Não vai mudar nada.
Observo-a a conduzir Guillaume lá para fora. Parando a meio caminho, pisca-me o olho. Uma onda de afeição súbita por ambos submerge-me. Depois, encaminham-se pela noite dentro.
* * *
Deitada na cama horas mais tarde, olhando o céu baixo passando pela nossa janela do sótão, eu e Anouk estamos ainda acordadas. Anouk está muito solene desde a visita de Guillaume, não mostrando nenhuma da sua exuberância habitual. Deixou a porta aberta entre nós e eu aguardo a inevitável questão com um sentimento de medo: fi-la a mim própria tantas vezes naquelas noites depois de a minha mãe morrer e nem por isso sei mais. Mas a pergunta não vem. Em vez disso, muito depois de eu ter a certeza de que ela está a dormir, ela trepa para a minha cama e enfia uma mão fria na minha.
— Mamã? — Sabe que eu estou acordada. — Tu não vais morrer, pois não?
Dou uma pequena gargalhada no escuro.
— Ninguém pode prometer tal coisa — digo-lhe com delicadeza.
— Pelo menos, não até daqui a muito tempo — insiste ela. — Não durante anos e anos.
— Espero que não.
— Oh. — Digere isto por um momento, aconchegando o corpo confortavelmente na curva do meu. — Vivemos mais tempo do que os cães, não vivemos ?
Concordo que sim. Outro silêncio.
— Onde é que tu achas que o Charly está agora, mama?
Podia dizer-lhe algumas mentiras, mentiras reconfortantes. Mas descubro que não consigo.
— Não sei, Nanou. Agrada-me pensar... que recomeçamos. Noutro corpo que não está velho nem doente. Ou num pássaro ou numa árvore. Mas ninguém sabe ao certo.
— Oh. — A vozinha está duvidosa. — Até os cães?
— Não vejo por que não.
É uma bela fantasia. Às vezes sinto-me apanhada por ela, como uma criança nas suas próprias invenções: dou comigo a ver o rosto vívido da minha mãe no da minha pequenina estranha... Animadamente: — Mas devíamos arranjar um cão para o Guillaume. Podíamos tratar disso amanhã. Isso devia animá-lo, não?
Tento explicar-lhe que não é assim tão fácil como isso, mas ela está determinada.
— Podíamos ir a todas as quintas e procurar as cadelas que tenham tido cachorrinhos. Achas que conseguiremos reconhecer o Charly?
Suspiro. Já devia estar habituada a estes caminhos tortuosos. A convicção dela lembra-me tanto a da minha mãe que fico à beira das lágrimas
— Não sei.
Teimosamente: — O Pantoufle havia de reconhecê-lo.
— Toca a dormir, Anouk. Amanhã há escola.
— Havia sim. Eu sei que sim. O Pantoufle vê tudo.
— Chiu.
Ouço-a por fim a respirar lentamente. O seu rosto adormecido está voltado para a janela e posso ver a luz das estrelas nas suas pestanas molhadas. Se eu pudesse ter a certeza, por ela... Mas não há certezas. A magia em que a minha mãe acreditava tão implicitamente não a salvou; nenhuma das coisas que fizemos juntas poderia ser explicada por simples coincidência. Nada é assim tão simples, digo a mim própria: cartas, velas, incenso, encantações, são uma mera brincadeira de crianças para afastar as trevas. E contudo, magoa-me a decepção de Anouk. Durante o sono, o rosto dela é sereno, confiante. Imagino-nos a ambas na louca errância de amanhã, a inspeccionar cachorrinhos, e o meu coração estremece em protesto. Não devia ter-lhe dito aquilo que posso provar...
Cuidadosamente, para não a acordar, levanto-me da cama. O soalho é macio e frio sob os meus pés descalços. A porta chia um bocadinho ao abri-la mas, embora ela murmure qualquer coisa no seu sono, não acorda. Tenho uma responsabilidade, digo-me. Sem querer, fiz uma promessa.
As coisas da minha mãe ainda estão na sua caixa, embrulhadas em madeira-de-sândalo e alfazema. As cartas, ervas, livros, óleos, a tinta incensada utilizada para ler a bola de cristal, runas, feitiços, cristais, velas de muitas cores. Não fosse pelas velas, e eu raramente abriria a caixa. Também tem um cheiro demasiado forte a esperança desperdiçada. Mas por causa de Anouk — Anouk, que me lembra tanto ela —, suponho que devo tentar. Sinto-me um pouco ridícula. Devia estar a dormir, a recuperar forças para o dia atarefado de amanhã. Mas o rosto de Guillaume persegue-me. As palavras de Anouk impossibilitam o sono. Existe perigo em tudo isto, digo-me em desespero; ao usar estas artes semiesquecidas, reforço a nossa diferença e dificulto a nossa permanência...
O hábito do ritual, há tanto tempo abandonado, regressa com inesperada facilidade. Formar o círculo — água num copo, um prato de sal e uma vela acesa no chão — é quase um conforto, um regresso aos dias em que tudo tinha uma explicação simples. Sento-me de pernas cruzadas no chão, fecho os olhos e respiro lentamente.
A minha mãe deleitava-se com rituais e encantamentos. Eu era mais reticente. Era inibida, dizia-me ela com um risinho. Sinto-me agora muito próxima dela, de olhos fechados e com o cheiro dela no pó dos meus dedos. Talvez seja por isso que esta noite me parece tão fácil. As pessoas que nada sabem de verdadeira magia imaginam que se trata de um processo extravagante. Suponho que era por isso que a minha mãe, que adorava teatro, fazia disso tal espectáculo. E contudo, a magia em si pouco ou nada tem de dramático: consiste tão-só em fixar a mente num objectivo desejado. Não há milagres nem aparições súbitas. Vejo perfeitamente o cão de Guillaume no olho da minha mente, dourado com aquele brilho de boas-vindas, mas não aparece nenhum cão no círculo. Talvez amanhã, ou depois de amanhã, uma aparente coincidência, como a cadeira cor de laranja ou os bancos de bar vermelhos que vimos no primeiro dia. Talvez nada apareça.
Olhando para o relógio que deixei no chão, apercebo-me de que são quase três e meia. Devo ter ficado aqui mais tempo do que pensei, já que a vela está quase a acabar e tenho as pernas e os braços frios e hirtos. E contudo, a minha ansiedade desapareceu, deixando-me estranhamente repousada, satisfeita por nenhuma razão que me seja dado perceber.
Volto para a cama — Anouk já expandiu o seu império, estendendo os braços sobre as almofadas — e enrolo-me no seu calor. A minha pequenina estranha e exigente será aplacada. À medida que me entrego suavemente ao sono, penso ouvir por momentos a voz da minha mãe a sussurrar-me muito, muito pertinho.
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