Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 20 de 40

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Chocolate

Capítulo 19

Domingo, 2 de Março

 

M arço pôs fim à chuva. O céu está agora liso, de um penetrante azul

pintalgado por nuvens passageiras e um vento cortante que veio

durante a noite em rajadas pelos cantos e abanando janelas. Os sinos da igreja tocam violentamente como se também eles tivessem sido apanhados por esta mudança súbita. O catavento vira e torna a virar contra o céu revolto e a sua voz ferrugenta ergue-se estridente. Anouk canta uma canção-do-vento de si para si enquanto brinca no quarto:

V’là l’bon vent, v’là l’joli vent

V’là l’bon vent, ma mie m’appel-le

V’là l’bon vent, v’là l’joli vent

V’là l’bon vent, ma mie m’attend.

O vento de Março é um vento mau, dizia a minha mãe. Mas, apesar disso, sabe bem, cheira a seiva e ozono e sal do mar distante. Um bom mês, Março, com Fevereiro a soprar pela porta das traseiras e a Primavera à espera na da frente. Um bom mês para mudanças.

Durante cinco minutos, fico sozinha na praça de braços abertos, sentindo o vento no rosto. Esqueci-me de trazer um casaco e a minha saia vermelha ondula à minha volta. Sou um papagaio de papel, sentindo o vento, subindo por momentos acima da torre da igreja, acima de mim mesma. Sinto-me desorientada por um instante, vendo a figura encarnada lá em baixo na praça, simultaneamente aqui e ali — caindo de novo em mim, sem fôlego, vejo a cara de Reynaud olhando de uma janela alta, com olhos negros de ressentimento. Parece pálido e o sol brilhante mal tinge de cor a sua pele. As mãos estão fechadas sobre o peitoril da janela e os nós dos dedos são do mesmo branco descorado do rosto.

O vento subiu-me à cabeça. Aceno-lhe alegremente ao voltar-me para regressar à loja. Ele vai considerar isto uma provocação, já sei, mas hoje não me importo. O vento levou consigo os meus medos. Aceno ao Homem de Preto na sua torre e o vento sacode jovialmente as minhas saias. Sinto-me delirante, expectante.

Alguma desta coragem renovada parece ter contagiado as pessoas de Lansquenet. Observo-as a caminharem para a igreja — as crianças correm ao vento de braços abertos como papagaios de papel, os cães ladram furiosamente a coisa nenhuma, até os adultos têm faces reluzentes e olhos lacrimejantes de frio. Caroline Clairmont passa com um casaco e chapéu primaveris novos e o filho pelo braço. Luc olha-me por um instante e dirige-me um sorriso escondido atrás da mio. Joséphine e Paul-Marie Muscat passam de braço dado como namorados, embora o rosto dela tenha um ar contraído e desafiador sob a boina castanha. O marido lança-me olhares através do vidro e apressa o passo enquanto a boca se move. Vejo Guillaume, hoje sem Charly, embora ainda traga a coleira de plástico brilhante pendurada num pulso, uma figura desamparada estranhamente incompleta sem o seu cão. Arnauld olha para mim e acena com a cabeça. Narcisse pára para examinar uma selha de gerânios à porta, esfrega uma folha entre os seus dedos grossos e inala o odor da seiva verde. Gosta de coisas doces apesar da sua rudeza e eu sei que vai aparecer mais tarde para tomar o seu mocha com trufas de chocolate.

O sino abranda para um zumbido insistente — &do! — medida que as pessoas entram pelas portas abertas. Vislumbro de novo Reynaud, agora de sotaina branca, mãos entrelaçadas e solícito, a recebê-los. Julgo que ele me olha outra vez, um breve pestanejar dos olhos cruzando a praça, um endurecimento subtil da coluna sob a sotaina — mas não posso ter a certeza.

Sento-me ao balcão, com uma chávena de chocolate na mão, a aguardar o fim da missa.

***

O serviço foi mais longo do que o habitual. Suponho que, à medida que a Páscoa se aproxima, as exigências de Reynaud aumentam. Passavam mais de noventa minutos quando as primeiras pessoas saíram furtivamente, de cabeças curvadas, com o vento puxando impudentemente lenços da cabeça e casacos domingueiros, insuflando saias num súbito descaramento e apressando o rebanho pela praça fora. Arnauld dirige-me um sorriso de cordeirinho ao passar: nada de trufas de champanhe hoje. Narcisse entrou como de costume, mas estava ainda menos comunicativo, sacando de um jornal sob o casaco de tweed e lendo em silêncio enquanto bebia. Quinze minutos depois, metade dos membros da congregação ainda se encontravam lá dentro e imaginei que estivessem espera para irem confissão. Servi-me de mais chocolate e bebi.

O domingo é um dia lento. O melhor é ter paciência.

De repente, vi uma figura familiar de casaco de xadrez escapar-se pela porta semiaberta da igreja. Josephine deu uma vista de olhos a praça e, vendo-a vazia, atravessou-a a correr em direcção loja. Reparou em Narcisse e hesitou por instantes antes de se decidir a entrar. Tinha os punhos cerrados sobre o fundo do estômago, como que para se proteger.

— Não posso ficar — disse mal entrou. — Paul está na confissão. Tenho dois minutos. — A voz era aguda e urgente, as palavras apressadas caindo umas sobre as outras como peças de dominó enfileiradas.

— Tem de se manter afastada daquela gente — disse ela abruptamente. — Os itinerantes. Tem de lhes dizer para se irem embora. Avise-os. — O seu rosto agitava-se com o esforço de falar. As mãos abriam e fechavam.

Olhei para ela.

— Por favor, Josephine. Sente-se. Tome alguma coisa.

— Não posso! — Abanou a cabeça enfaticamente. O cabelo emaranhado pelo vento obscurecia-lhe selvaticamente o rosto. — Já lhe disse que não tenho tempo. Faça só o que lhe digo. Por favor. — Parecia tensa e exausta, olhando para a porta da igreja como se tivesse medo de ser vista comigo.

— Ele anda a pregar contra eles — disse num tom rápido e baixo. — E contra si. A falar de si. A dizer coisas.

Encolhi os ombros, indiferente.

— E daí? O que me importa?

Josephine pôs os pulsos nas têmporas num gesto de frustração.

— Tem de os avisar — repetiu. — Diga-lhes para se irem embora. Avise também a Armande. Diga-lhe que ele a acusou na igreja hoje de manhã. E a si. Também me há-de acusar a mim se me vir aqui, e o Paul...

— Não percebo, Josephine. O que é que ele pode fazer? E por que é que eu havia de me preocupar, de qualquer maneira?

— Diga-lhes, está bem? — Os olhos dela piscavam cautelosos novamente na direcção da igreja, de onde saíam umas poucas pessoas. — Não posso ficar. Tenho de ir. — Voltou-se para a porta.

— Espere, Josephine...

O seu rosto, ao voltar-se, era uma mancha de tristeza. Percebi que estava à beira das lágrimas.

— Isto está sempre a acontecer — disse ela numa voz ríspida e infeliz. — Quando eu arranjo uma amiga, ele arranja maneira de estragar tudo. Vai ser como de costume. Você há-de safar-se mas eu...

Dei um passo à frente para a apoiar. Joséphine deu um pulo para trás num gesto agressivo.

— Não! Não posso! Eu sei que as suas intenções são boas mas... eu... não posso! — Recompôs-se com esforço. — Tem de compreender. Eu vivo aqui. Eu tenho que viver aqui. Você é livre, pode ir para onde quiser, pode...

— Você também — repliquei com suavidade.

Ela olhou então para mim, tocando-me no ombro muito breve e levemente, com as pontas dos dedos.

— Você não compreende — disse sem ressentimento. — Você é diferente. Durante algum tempo eu também pensei que podia aprender a ser diferente.

Voltou-se, com a agitação a abandoná-la e a ser substituída por um ar abstracto, distante e quase doce. Voltou a enterrar as mãos nos bolsos.

— Lamento, Vianne — disse ela. — Eu tentei. Sei que a culpa não é sua. — Por um instante, as suas feições reanimaram-se um pouco. — Diga à gente do rio — pediu ela. — Diga-lhes que têm que se ir embora. Também não é culpa deles, só não quero que ninguém se magoe concluiu Joséphine Muscat baixinho. — Está bem?

Encolhi os ombros.

— Ninguém vai ficar ferido — disse-lhe eu.

— Ainda bem. — Dirigiu-me um sorriso, doloroso de tão transparente. — E não se preocupe comigo. Eu estou bem. A sério. — Novamente aquele sorriso forçado, doloroso. Ao passar por mim rumo à porta, vislumbrei algo brilhante na sua mão e vi que ela tinha os bolsos cheios de bijutarias. Bâton, pó-de-arroz, colares e anéis escorreram-lhe por entre os dedos.

— Tome. São para si — disse com vivacidade, impingindo-me uma mão-cheia do tesouro pilhado. — Não se preocupe. Tenho muito mais. — E, com um sorriso de uma doçura desarmante, desapareceu, deixando-me fios e brincos e peças de plástico brilhante e dourado a escorrerem-me dos dedos como lágrimas derramando-se no chão.

À tarde levei Anouk a passear até Les Marauds. O acampamento dos itinerantes tinha um ar alegre à nova luz do sol, com roupa a secar esvoaçando mas cordas estendidas entre os barcos e todo o brilho e tinta a refulgirem. Armande estava sentada numa cadeira de baloiço no seu recatado jardim da frente, olhando o rio. Roux e Ahmed estavam empoleirados no telhado inclinado colocando telhas soltas. Reparei que a cornija e a caleira tinham sido substituídas e pintadas de amarelo vivo. Acenei aos dois homens e sentei-me no muro do jardim junto a Armande enquanto Anouk corria para a beira-rio à procura dos amigos da véspera.

A velhinha tinha um ar cansado e inchado sob as abas de um enorme chapéu de palha. A peça de tapeçaria no seu colo parecia abandonada e intocada. Acenou-me ligeiramente mas não falou. A sua cadeira baloiçava quase imperceptivelmente, tique-tique-tique-tique, no carreiro. Enrolado debaixo dela, o gato dormia.

— Caro veio aqui hoje — disse ela por fim. — Julgo que devia sentir-me honrada. — Um movimento de irritação.

Balançando-se: tique-tique-tique-tique.

— Quem é que ela pensa que é? — disparou Armande de repente. — Sua Excelência Maria Antonieta? — Matutou ferozmente durante um instante, acelerando o baloiçar da cadeira. — A tentar dizer-me o que devo e o que não devo fazer. Trazer o médico dela... — Interrompeu-se para me fitar com um olhar penetrante de ave. — A intrometer-se onde não é chamada. Sempre foi assim, sabe. Sempre a contar petas ao pai. — Deu uma espécie de gargalhada latida. — Não aprendeu tais coisas comigo, lá isso não. Nem por sombras. Eu nunca precisei de médico... ou padre... para me dizerem o que devo ou não devo fazer.

Armande empinou o queixo para a frente e baloiçou-se ainda com mais força.

— O Luc também veio? — perguntei.

— Não. — Abanou a cabeça. — Foi a Agen a um torneio de xadrez. — A expressão fixa dela suavizou-se. — Ela não sabe que ele veio no outro dia — declarou com satisfação. — E também não há-de vir a saber. — Sorriu. — É um bom rapaz, o meu neto. Sabe quando deve calar-se.

— Soube que os nossos nomes foram ambos mencionados na igreja hoje de manhã — disse-lhe eu. — Acusadas de associação com indesejáveis, pelos vistos.

Armande bufou de indignação.

— O que eu faço na minha casa é da minha conta — disse ela. — Já disse ao Reynaud, e já tinha dito antes ao Père Antoine. Mas eles nunca aprendem. Sempre a tentarem vender a porcaria do costume. Espírito de comunidade. Valores tradicionais. Sempre os moralismos já gastos do costume.

— Então não é a primeira vez? — Fiquei curiosa.

— Ai pois não! — Acenou enfaticamente. — Já lá vão muitos anos. O Reynaud devia ter a idade do Luc nessa altura. Claro, temos itinerantes desde então, mas nunca ficaram. Nunca até agora. — Levantou o olhar para a sua casa semipintada. — Vai ficar bonita, não vai? — perguntou com satisfação. — O Roux diz que deve acabar hoje. — Franziu subitamente as sobrancelhas. — Posso empregá-lo a trabalhar para mim se me der na veneta — declarou com irritação. — É um homem honesto e um bom trabalhador. Georges não tem o direito de me dizer o contrário. Não tem o direito.

Pegou na sua tapeçaria inacabada mas voltou a pousá-la sem dar um único ponto.

— Não consigo concentrar-me — disse, zangada. — Já não basta ser acordada por aqueles sinos logo de madrugada, quanto mais ainda ter de ver aquela cara afectada da Caro logo de manhãzinha. Rezamos por si todos os dias, mãe — imitou ela. — Queremos que perceba que nos preocupamos muito consigo. Preocupam-se com o que pensam os vizinhos, isso sim. É demasiado embaraçoso ter uma mãe como eu, lembrando-lhe constantemente de onde vem.

Deu um sorrisinho duro de satisfação.

— Enquanto eu for viva, sabem que há sempre alguém que se lembra de tudo — declarou ela. — A complicação em que ela se meteu com aquele rapaz. Quem pagou para aquilo, hã? E ele, Reynaud, o Sr. Mais-Branco-do-que-o-Branco... — Os olhos dela encheram-se de brilho e malícia. — Aposto que sou única ainda viva que se lembra dessa história. Pouca gente soube, aliás. Podia ter sido o maior escândalo da região, mas eu tive tento na língua. — Disparou-me um olhar de pura maldade. — E não olhe para mim assim, menina. Eu ainda sei guardar um segredo. Por que é que acha que ele me deixa em paz? Podia fazer muitas coisas se lhe desse na cabeça para isso. Caro sabe. Ela já tentou. — Armande riu-se triunfantemente por entre os dentes: — Eh-eh-eh.

— Eu julgava que Reynaud não era daqui — disse eu com curiosidade.

Armande abanou a cabeça.

— Poucas pessoas se lembram — disse ela. — Foi-se embora de Lansquenet em rapaz. Melhor para todos assim. — Interrompeu-se por momentos, recordando. — Mas será melhor não tentar nada desta vez. Contra Roux ou algum dos meus amigos. — O humor desaparecera-lhe do rosto e parecia mais velha, quezilenta, doente. — Eu gosto que eles estejam cá. Fazem-me sentir mais nova. — As mãos pequenas e irritadiças depenavam a tapeçaria no seu colo. O gato, sentindo o movimento, desenrolou-se debaixo da cadeira de baloiço e saltou-lhe para os joelhos, ronronando. Armande coçou-lhe a cabeça e ele bichanou e deu-lhe turrinhas no queixo em pequenas brincadeiras.

— Larzflete — disse Armande. Passado um bocado, dei-me conta de que esse era o nome do gato. — Já a tenho há dezanove anos. Isso quer dizer que ela tem quase a minha idade, em vida de gato. — Fez um pequeno cacarejo para a gata, que ronronou mais alto. — Segundo eles, sou alérgica. — Asma ou coisa assim. Disse-lhes que preferia sufocar a ficar sem os meus gatos. Embora não hesitasse em ficar sem alguns humanos. — Lariflete retorceu os bigodes preguiçosamente. Olhei na direcção da água e vi Anouk a brincar no molhe com duas crianças de cabelo preto. Pelo que me era dado ouvir, Anouk, a mais nova das três, era quem dirigia as operações.

— Fique e tome um cafezinho — sugeriu Armande. — Eu ia fazer café quando você chegou. Também tenho limonada para Anouk.

Fiz eu própria o café na pequena e curiosa cozinha de Armande com as suas vigas de ferro e tecto baixo. Tudo aqui é asseado mas a janela minúscula com vista sobre o rio dá luz um tom esverdeado e aquático. Pendurados nas vigas escuras e por pintar há raminhos de ervas secas em sacos de musselina. Em ganchos presos nas paredes caiadas de branco estão penduradas panelas de cobre. A porta — como todas as portas na casa — tem um buraco na sua base para permitir a passagem dos gatos. Outro gato observa-me curiosamente de um peitoril alto enquanto faço café num fervedor de esmalte. A limonada, reparo, não tem açúcar e o adoçante na caçarola é um substituto qualquer de açúcar. Apesar da fanfarronice dela, parece que sempre toma as suas precauções.

— É uma porcaria — comenta sem rancor, bebericando de uma das suas chávenas pintadas mão. — Dizem que não se sente a diferença. Mas sente-se. — Faz uma careta. — A Caro traz isso quando cá vem. Inspecciona os meus armários. Lá terá as suas boas intenções. Apesar de ser uma pateta.

Disse-lhe que devia cuidar-se mais.

Armande bufou.

— Quando chegar à minha idade — disse-me ela —, as coisas começam a dar problemas. Se não é isto, é aquilo. É a vida. — Bebericou novo gole de café. — Aos dezasseis anos, Rimbaud disse que queria experimentar o mais possível com a maior intensidade possível. Bem, eu estou com oitenta, e começo a achar que ele tinha razão. — Sorriu de esguelha e, uma vez mais, fui surpreendida pela juvenilidade do seu rosto, uma qualidade que tem menos a ver com a cor ou estrutura óssea, e mais com uma espécie de luz interior e expectativa, com o ar de alguém que mal começou a descobrir o que a vida tem a oferecer.

— Acho que já está demasiado velha para aderir à Legião Estrangeira — digo-lhe com um sorriso. — E não acha que as experiências de Rimbaud o terão levado por vezes a excessos?

Armande lança-me um olhar endiabrado.

— É verdade — responde. — Um bocadinho de excesso não era má ideia. Daqui em diante vou ser imoderada, e volúvel, e vou entregar-me a música alta e poesia lúgubre. Vou ser extravagante — declarou com satisfação.

Ri-me.

— Mas que disparate — disse eu, fingindo severidade. — Não me espanta que a sua família a despreze.

Mas embora se tenha rido comigo, baloiçando-se alegremente na cadeira, do que me lembro agora não é do seu riso mas do que eu vislumbrei por trás do seu riso: aquele ar de abandono estouvado, de alegria desesperada.

E só mais tarde, já de madrugada, quando acordei a transpirar de um pesadelo semiesquecido, me lembrei onde tinha visto aquele ar antes.

Que tal Florida, querida? Os Everglades? Os Keys? Que tal a Disneylândia, querida, ou Nova Iorque, Chicago, o Grand Canyon, Chinatown, o Novo México, as Rocky Mountains?

Mas com Armande não havia nada do medo da minha mãe, nada das suas defesas e brigas com a morte, nada dos seus ataques e retiradas rápidas, das suas escapadelas fantasistas para o desconhecido. Com Armande havia apenas a fome, o desejo, a consciência terrível do tempo.

Pergunto-me o que o médico lhe terá dito realmente hoje de manhã, e quanto ela compreende. Fico acordada por imenso tempo, pensando e, quando finalmente adormeço, sonho comigo e Armande a passear pela Disneylândia com Reynaud e Caro de mãos dadas e a Rainha Encarnada e o Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas com enormes luvas de cartão brancas nas mãos. Caro tem uma coroa vermelha na sua cabeça enorme e Armande segura um pau de algodão-doce em cada mão.

Algures ao longe consigo ouvir os sons do trânsito de Nova Iorque, os toques das buzinas a aproximarem-se.

— Oh não, não comas isso, é venenoso — guinchava Reynaud estridentemente, mas Armande continuava a devorar algodão-doce com ambas as mãos, de rosto reluzente e senhora de si. Tentei avisá-la do táxi mas ela olhou para mim e disse-me na voz da minha mãe:

— A vida é um Carnaval, chérie, morrem mais pessoas todos os dias a atravessar a rua, é um facto estatístico — e continuava a comer daquele modo terrivelmente voraz; Reynaud virou-se para mim e guinchou numa voz tão mais ameaçadora quanto mais destituída de ressonância:

— É tudo culpa sua, sua e do seu festival de chocolate, estava tudo bem até você chegar e agora está toda a gente a MORRER MORRER MORRER.

Ergui as minhas mãos para me proteger: — Não sou eu — sussurrava eu. — É você, deve ser você, você é o Homem de Negro, é... — Depois caía para trás sobre o espelho e as cartas espalhavam-se à minha volta em todas as direcções: Nove de Espadas, MORTE. Três de Espadas, MORTE. A Torre, MORTE. A Carroça, MORTE.

Acordei a gritar, com Anouk de pé ao meu lado, a carita morena confusa de sono e ansiedade.

— Mamã, o que é?

Sinto o calor dos braços dela à volta do meu pescoço. Cheira a chocolate e baunilha e a um sono pacífico e sem tumultos.

— Nada. Um sonho. Nada.

Ela trauteia para mim na sua voz baixa e suave e eu tenho a impressão estranha do mundo voltado às avessas, de mim a diluir-me nela como um argonauta na sua espiral, gira-e-torna-a-girar, da sua mão fresca na minha testa e da sua boca no meu cabelo.

— Fora-fora-fora — murmura ela automaticamente. — Espíritos maus, ide-vos embora. Está tudo bem, mamã. Foram-se todos. — Não sei aonde é que ela vai buscar estas coisas. A minha mãe costumava dizê-las mas eu não me lembro de as ensinar a Anouk. E contudo ela usa-as como uma antiga fórmula familiar. Agarro-me a ela por um momento, paralisada de amor.

— Vai ficar tudo bem, não vai, Anouk?

— Claro. — A sua voz é clara, adulta e segura. — Claro que vai. — Pousa a cabeça no meu ombro e enrosca-se ensonada no círculo dos meus braços. — Eu também gosto muito de ti, mamã.

Lá fora o amanhecer é o brilho do luar no horizonte acinzentado. Aconchego bem a minha filha junto a mim enquanto ela volta a adormecer, com os caracóis a fazerem-me cócegas na cara. Seria isto que a minha mãe temia? Interrogo-me enquanto ouço os pássaros (primeiro um único craque-craque, depois uma congregação inteira deles): seria disto que ela fugia? Não da sua própria morte mas das mil intersecções da sua vida com as vidas dos demais, das ligações quebradas, dos elos surgidos a sua revelia, das responsabilidades? Será que passámos todos esses anos fugindo dos nossos amores, das nossas amizades, das palavras casuais ditas de passagem que podem alterar o curso de uma existência?

Tento relembrar o meu sonho, o rosto de Reynaud — a sua expressão perdida de consternação, estou atrasado, estou atrasado —, também ele a correr de ou para um qualquer destino inimaginável no qual eu sou uma participante involuntária. Mas o sonho está fragmentado e as peças dispersas como cartas ao vento. Difícil lembrar se o Homem de Preto persegue ou é perseguido. Difícil agora ter a certeza se ele é o Homem de Preto. Em vez disso, a cara do Coelho Branco volta, como a de uma criança assustada num carrocel de Carnaval, desesperada por sair dali.

— Quem decreta as mudanças?

No meio da minha confusão, confundo aquela voz com a de outra pessoa; um segundo depois percebo que falei alto. Mas, quando volto a dormir, tenho quase a certeza de que uma outra voz responde, uma voz que parece um pouco a de Armande e um pouco a da minha mãe:

— Tu, Vianne — diz-me ela suavemente.

Tu.

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