Chocolate
Capítulo 23
Sábado, 8 de Março
H oje de manhã voltei a passar por casa de Armande. Estava sentada na
sua cadeira de baloiço na sala de estar de tecto baixo, com um dos
gatos estendido no colo. Desde o incêndio em Les Marauds que ela parece frágil e determinada, com o rosto redondo de maçã fechando-se lentamente sobre si e os olhos e a boca engolidos por rugas. Vestia uma bata cinzenta de trazer por casa sobre umas meias de lã com borbotos e tinha o cabelo solto e desentrançado.
— Eles foram-se, já viu. — A voz era inexpressiva, quase indiferente. — Nem um único barco no rio.
— Eu sei.
Ao descer a colina rumo a Les Marauds, descubro que a sua ausência é ainda um choque, como a mancha horrível de relva amarela onde antes esteve uma tenda de circo. Só ficou o casco do barco de Roux, uma carcaça afundada a uns poucos de pés da superfície, visivelmente preta contra a lama do rio.
— Blanche e Zézette mudaram-se um pouco mais para sul do rio. Disseram que haviam de voltar um dia para saber como corriam as coisas.
Começou a fazer a trança habitual no seu cabelo comprido cinza-amare-lado. Os dedos eram rígidos e desajeitados, como paus.
— E Roux? Como é que ele está?
— Zangado.
Não é para admirar. Sabe que o incêndio não foi acidental, sabe que não tem provas e que, mesmo que as tivesse, isso não lhe serviria de nada. Blanche e Zézette ofereceram-lhe lugar no seu barco-casa atulhado mas ele recusou. O trabalho em casa de Armande ainda não está pronto, diz ele simplesmente. Em primeiro lugar, precisa de tratar disso. Por mim, não voltei a falar com ele desde a noite do incêndio. Vi-o uma vez, de fugida à beira-rio, queimando lixo deixado pelos itinerantes. Parecia obstinado e indiferente, com os olhos avermelhados do fumo, e recusou-se a responder quando me dirigi a ele. Algum do seu cabelo estava chamuscado pelo fogo e cortara o resto muito curto e espetado, pelo que agora parecia um fósforo acabado de acender.
— O que é que vai fazer agora?
Armande encolheu os ombros.
— Não sei bem. Acho que ele tem dormido numa das casas abandonadas ao fundo da rua. Ontem à noite deixei-lhe alguma comida à porta e hoje de manhã tinha desaparecido. Já lhe ofereci dinheiro mas ele não aceita. — Puxou com irritação a sua trança inacabada. — Tolo e teimoso. De que me serve todo aquele dinheiro na minha idade? Tanto me faz dar-lhe algum a ele como ao clã Clairmont. Conhecendo-os, o mais provável é que acabe na caixa da colecta do Reynaud. — Fez um som de escárnio. — Casmurro, é o que ele é. Homens ruivos, Deus nos livre. Não se lhes pode dizer nada. — Abanou a cabeça com impertinência. — Desapareceu ontem de mau humor e não o vejo desde então. — Sorri mesmo sem querer.
— Mas que par — disse. — Cada um mais teimoso do que o outro.
Armande lançou-me um olhar de indignação.
— Eu? — exclamou ela. — Está a comparar-me com aquele rebelde cabeça-de-cenoura...
Rindo, retractei-me. — Vou ver se o encontro.
* * *
Não o encontrei, apesar de ter passado uma hora nas margens do Tannes à procura dele. Nem os métodos da minha mãe conseguiram revelá-lo. Descobri onde é que ele dormia, porém. Numa casa não muito longe da de Armande, uma das casas abandonadas menos destruídas. As paredes estão escorregadias de humidade mas o andar superior parece suficientemente seguro e há vidros em várias janelas. Ao passar, notei que a porta fora forçada e a lareira da sala de estar fora recentemente acesa. Outros sinais de ocupação: um rolo de lona chamuscada resgatada ao incêndio, um molho de madeira flutuante, umas quantas peças de mobiliário presumivelmente deixadas na casa por serem consideradas de pouco valor. Chamei pelo nome de Roux mas não houve resposta.
Pelas oito e meia tive de abrir LA PRALINE, pelo que abandonei a busca. Roux apareceria quando quisesse. Guillaume estava a espera a porta da loja quando eu cheguei, embora a porta não estivesse trancada.
— Devia ter esperado por mim lá dentro — disse-lhe eu.
— Ah não. — Tinha um ar gravemente trocista. — Isso seria abusar.
— Mais vale arriscar — aconselhei-o eu, rindo-me. — Entre e prove uma das minhas religieuses novas.
Ele ainda parece diminuído desde a morte do Charly, reduzido a menos do que o seu tamanho, o seu rosto jovem-velho irrequieto e encarquilhado pela dor. Mas manteve o seu humor, um toque trocista e tristonho que o protege da autocompaixão. Hoje de manhã estava inteiramente absorto pelo que sucedera aos ciganos do rio.
— Nem uma palavra do Curé Reynaud na missa de hoje — declarou ele enquanto se servia de chocolate quente da cafeteira prateada. — Nem ontem nem hoje. Nem uma única palavra. — Concordei que, dado o interesse de Reynaud na comunidade itinerante, tal silêncio era estranho.
— Talvez ele saiba alguma coisa que não pode dizer — sugeriu Guillaume. — Sabe. Segredo de confissão.
Viu Roux, diz-me ele, a falar com Narcisse junto aos seus hortos de plantas. Talvez ele possa dar trabalho a Roux. Espero que sim.
— Ele emprega trabalhadores temporários amiúde, sabe — disse Guillaume. — É viúvo. Nunca teve filhos. Não tem ninguém para tomar conta da quinta excepto um sobrinho em Marselha. E não se preocupa com quem emprega no Verão quando o trabalho aperta. Desde que sejam de confiança, não se importa se vão igreja ou não. — Fez um sorrisinho, como sempre faz quando diz alguma coisa que considera atrevida. — As vezes pergunto-me — disse ele pensativo — se Narcisse não é um melhor cristão, no verdadeiro sentido da palavra, do que eu ou Georges Clairmont, ou até o Curé Reynaud. — Bebeu um gole de chocolate. — Quero eu dizer, pelo menos o Narcisse ajuda — disse com seriedade. — Dá trabalho a quem precisa de ganhar dinheiro. Deixa os ciganos acamparem nas suas terras. Toda a gente sabe que ele dorme com a governanta durante todos estes anos e que não se preocupa com a Igreja a não ser como um meio de ver os seus clientes, mas de qualquer maneira ajuda.
— Não acho que haja bons e maus cristãos — disse-lhe eu. — Só boas e más pessoas.
Ele anuiu e segurou o pastelzinho entre o indicador e o polegar.
— Talvez.
Uma longa pausa. Enchi um copo para mim, com licor noisette e pedacinhos de avelã. O aroma era forte e inebriante, como madeira empilhada ao sol crepuscular do Outono. Guillaume comeu a sua religieuse com um prazer minucioso, depenicando as migalhas com o indicador húmido.
— Nesse caso, tudo aquilo em que eu acreditei toda a minha vida, o pecado e a redenção e a mortificação do corpo, está agora a dizer-me que essas coisas não significam nada, não é?
Sorri da seriedade dele.
— Eu diria que andou a conversar com a Armande — disse eu com gentileza. — E diria também que cada qual tem direito às suas crenças. Logo que elas nos façam felizes.
— Oh. — Lançou-me um olhar prudente, como se eu estivesse prestes a mostrar uns corninhos. — E, se não é indiscrição, em que é que você acredita?
Viagens de tapete voador, magia rúnica, Ali Babá e as visões da Santa Mãe, viagens astrais pelo futuro e borra de um copo de vinho tinto...
Florida? Disneylândia? Os Everglades? Que tal, chérie? Que tal, hã?
Buda. A viagem de Frodo para Mordor. A transubstanciação do sacramento. Dorothy e Totó. O Coelho de Páscoa. Extraterrestres. A Coisa no armário. A Ressurreição e a Vida ao virar de uma carta... Acreditei em tudo isso, ora agora, ora depois. Ou fingi que acreditava. Ou fingi que não acreditava.
Como quiser, mãe. Aquilo que a fizer mais feliz.
E agora? Em que é que eu acredito agora?
— Acredito que ser feliz é a única coisa importante — disse-lhe finalmente.
Felicidade. Tão simples como um copo de chocolate, tão tortuosa como o coração. Amarga Doce. Viva.
* * *
À tarde veio Joséphine. Anouk já tinha voltado da escola e desatou quase logo a correr para ir brincar em Les Marauds, bem agasalhada no seu anoraque vermelho e com instruções precisas para regressar caso começasse a chover. Há um cheiro forte a madeira recém-cortada, talhando o ar rente e disfarçadamente em torno das esquinas das casas. Joséphine trazia o seu casaco abotoado até ao pescoço, a boina vermelha e o lenço vermelho novo esvoaçando energicamente contra o rosto. Entrou na loja com um ar desafiador de segurança e, por um instante, era uma mulher radiante e atraente, de faces rosadas e olhos cintilando com o vento. Depois a ilusão desvaneceu-se e voltou a ser ela própria, de mãos ferozmente enfiadas nos bolsos e cabega baixa como que para cabecear um qualquer agressor desconhecido. Tirou a boina, revelando um cabelo completamente desgrenhado e um vergão bem fresco a atravessar-lhe a testa. Parecia simultaneamente aterrada e eufórica.
— Consegui — declarou ela temerariamente. — Vianne, consegui.
Por um momento horrível, tive a certeza de que ela ia confessar ter matado o marido, tal era o seu ar — de abandono bravio e encantador —, os lábios repuxados sobre os dentes como se tivesse mordido um fruto amargo. O medo vinha-lhe em ondas alternadamente quentes e frias.
— Deixei o Paul — disse ela de novo. — Finalmente consegui.
Os olhos dela eram gumes. Pela primeira vez desde que a conheço, vejo Joséphine tal como ela era há dez anos atrás, antes de Paul-Marie Muscat a tornar descorada e desengraçada. Meia-louca de medo mas, sob a loucura, a sanidade que anima o coração.
— Ele já sabe? — perguntei, pegando-lhe no casaco. Os bolsos estavam pesados, mas não com bijutaria.
Joséphine abanou a cabeça.
— Julga que estou na mercearia — disse sem fôlego. — Acabaram-se-nos as pizzas para o micro-ondas. Ele mandou-me ir reforçar o stock. — Sorriu com uma malícia quase infantil. — E eu peguei em algum dinheiro da despesa corrente. Ele guarda-o numa lata de bolachas debaixo do bar. Novecentos francos.
Por baixo do casaco trazia vestida uma camisola vermelha e uma saia preta. Era a primeira vez que eu a via usar qualquer coisa que não fossem calças de ganga. Olhou para o relógio.
— Quero um chocolat espresso, por favor. E um pacote de amêndoas. — Pousou o dinheiro em cima da mesa. — Tenho tempo suficiente até a minha camioneta partir.
— A sua camioneta? — Fiquei espantada. — Para onde?
— Agen. — O olhar dela era obstinado, defensivo. — Depois não sei. Marselha, talvez. O mais longe possível dele. — Novo olhar de suspeição e surpresa. — Não comece a dizer que não devo fazer isto, Vianne. Foi você que me encorajou. Eu nunca teria pensado em tal coisa se você não me tivesse dado a ideia.
— Eu sei, mas...
As palavras dela pareciam uma acusação.
— Disse-me que eu era livre.
Verdade. Livre para fugir, livre para partir por causa das palavras de uma quase estranha, solta como um balão sem fio vogando ao sabor do vento. O medo tornou-se de repente certeza gélida no meu coração. Era este o preço de eu ficar? Mandá-la embora em meu lugar? E que alternativa lhe dera eu realmente?
— Mas você tinha segurança. — As palavras saíram-me com dificuldade, vendo a minha mãe no rosto dela. Abdicar da segurança a troco de um pouco de sabedoria, um vislumbre do oceano... e depois? O vento traz-nos sempre de volta à mesma muralha. Um táxi de Nova Iorque. Uma alameda escura. Uma geada forte. — Não se pode simplesmente fugir de tudo — disse eu. — Eu sei. Já tentei.
— Bem, em Lansquenet não posso ficar — atirou ela, e eu percebi que estava à beira de lágrimas. — Não com ele. Não agora.
— Lembro-me de quando vivíamos assim. Sempre de um lado para o outro. Sempre a fugir. — Ela era o seu próprio Homem de Preto. Vejo-o nos olhos dela. Tem a voz irrespondível da autoridade, uma lógica capciosa que nos mantém gelados, obedientes, temerosos. Para nos libertarmos de tal medo, para fugirmos em esperança e desespero, para fugirmos e descobrirmos que sempre o transportámos dentro de nós como um filho maligno... No fim, a minha mãe sabia-o. Via-o em cada esquina, na borra de cada chávena. Sorrindo de um cartaz, espreitando por trás do volante de um carro veloz. Aproximando-se a cada batida do coração. — Comece a fugir e passará o resto da vida a fugir — disse-lhe eu ferozmente. — Fique antes comigo. Fique e lute comigo.
Joséphine olhou para mim.
— Consigo? — O espanto dela era quase cómico.
— Por que não? Tenho um quarto vago, um divã... — Ela abanou a cabeça e eu controlei a vontade de a agarrar, de a obrigar a ficar. Sabia que o podia fazer. — Só por enquanto, só até encontrar outro sítio, um trabalho...
Ela riu-se numa voz tensa de histeria.
— Trabalho? O que é que eu sei fazer? Além de limpar e cozinhar... e limpar cinzeiros e... tirar cerveja e cavar o jardim e foder o meu marido todas as sextas à noite... — Ria-se agora com mais força, agarrando-se à barriga.
Tentei segurar-lhe no braço.
— Joséphine. Estou a falar a sério. Há-de arranjar qualquer coisa. Não tem de...
— Devia vê-lo as vezes. — Continuava a rir-se, cada palavra era uma bala amarga, e a voz soou metálica de auto-repugnância. — Porco com cio. Porco gordo e peludo. — E desatou num choro tão entrecortado como o riso, os olhos fechados com força e as mãos espremendo as faces como que para evitar uma qualquer explosão interna. Aguardei. — E quando acabava, ele virava-se e eu ouvia-o a ressonar. E de manhã eu tentava... — o rosto contorcido, a boca contorcendo-se para formar as palavras — ...eu tentava sacudir... o fedor dele... dos lençóis e só pensava: o que é que me aconteceu? A Joséphine Bonnet, que era tão es-esperta na escola e sonhava vir a ser uma bai-bailarina...
Virou-se abruptamente para mim, com o rosto quente flamejando, porém calma.
— Parece estúpido, mas eu costumava pensar que alguma coisa devia estar errada, que um dia alguém me havia de dizer que isto não estava a acontecer, que isto era o sonho de outra mulher qualquer e nada disto podia estar a acontecer-me a mim...
Peguei-lhe na mão. Estava fria e a tremer. Uma das unhas estava partida até ao sabugo e havia sangue na palma da mão.
— O mais engraçado é que eu tento lembrar-me de como seria gostar dele e não encontro nada. Vazio total. Nada de nada. Lembro-me de tudo o resto, da primeira vez que ele me bateu, ah sim, lembro-me disso, mas uma pessoa pensa que mesmo com o Paul-Marie haveria alguma coisa a recordar. Alguma coisa para desculpar o resto. Tanto tempo perdido.
Parou abruptamente e olhou para o relógio.
— Já falei de mais — disse, surpreendida. — Não tenho tempo para tomar o chocolate se for apanhar a camioneta.
Olhei para ela.
— Tome o chocolate em vez da camioneta — disse-lhe. — Por conta da casa. Só gostava que fosse champanhe.
— Tenho de ir — disse ela, irascível. Os punhos batiam constantemente na barriga. A cabeça pendia-lhe como a de um touro a atacar.
— Não. — Olhei para ela. — Você tem de ficar aqui. Tem de lutar com ele cara a cara. Senão, arrisca-se a nunca o deixar de vez.
Ela respondeu por momentos ao meu olhar, semidesafiadora.
— Não posso. — Havia uma nota desesperada na sua voz. — Não sou capaz. Ele há-de dizer coisas, distorcer tudo.
— Tem amigos aqui — disse com gentileza. — E mesmo que não se aperceba disso agora, é forte.
Então Joséphine sentou-se, muito determinada, num dos meus bancos vermelhos, encostou a cabeça ao balcão e chorou em silêncio.
Deixei-a à vontade. Não disse que ia ficar tudo bem. Não fiz qualquer esforço para a confortar. Às vezes é melhor deixar as coisas como estão, deixar que o sofrimento siga o seu curso. Em vez disso, fui para a cozinha e, com todo o vagar, preparei um chocolat espresso. Ao servi-lo, acrescentei-lhe conhaque e pepitas de chocolate, pousei as chávenas num tabuleiro amarelo com um cubo de açúcar embrulhado em cada prato e encontrei-a de novo calma. É uma espécie de magia, eu sei, mas às vezes resulta.
— Por que é que mudou de opinião? — Perguntei quando a chávena estava quase bebida. — Da última vez que falámos deste assunto você parecia muito convencida de que não deixaria o Paul.
Ela encolheu os ombros, evitando deliberadamente ir de encontro aos meus olhos.
— Foi por ele voltar a bater-lhe?
Desta vez pareceu surpreendida. Pus a mão na cabeça onde a pele rasgada estava em ferida, inflamada.
— Não.
— Então porquê?
Os olhos dela voltaram a desviar-se dos meus. Tocou a chávena de espresso com as pontas dos dedos, como que para se certificar da sua realidade.
— Nada. Não sei. Nada.
Era mentira e via-se bem. Procurei automaticamente os seus pensamentos, tão abertos há instantes. Preciso de saber se a obriguei a fazer isso, se a forcei apesar das minhas boas intenções. Mas, de momento, os seus pensamentos são informes, esfumados. Não consigo ver ali nada a não ser negrume.
Pressioná-la seria inútil. Há um traço teimoso em Joséphine que se recusa a ser apressado. Há-de dizer-me a seu tempo. Se quiser.
* * *
Já era noite quando Muscat a veio procurar. Entretanto, já tínhamos feito a cama dela no quarto de Anouk — por enquanto, Anouk fica a dormir no divã no meu quarto. Ela aceita naturalmente a chegada de Joséphine, tal como aceita muitas outras coisas. Sinto um baque momentâneo pela minha filha, pelo primeiro quarto dela, mas prometo-lhe que não vai ser por muito tempo.
— Tenho uma ideia — digo-lhe. — Talvez possamos aproveitar o espaço debaixo do sótão e transformá-lo num quarto só para ti, com umas escadas para trepar ate lá e um alçapão por cima e janelas pequeninas no telhado. Gostavas?
É uma ideia perigosa e sedutora. Dá a entender que vamos ficar aqui muito tempo.
— Podia ver as estrelas lá de cima? — perguntou Anouk avidamente.
— Claro.
— Óptimo! — disse Anouk, e correu escada acima para contar a Pantoufle.
Sentámo-nos a mesa na cozinha apertada. A mesa ficou dos tempos da padaria, uma maciça peça de pinho toscamente cortado e marcado por cicatrizes de facas cujos veios de massa antiga, com a consistência de cimento de tão seca, contribuíram para lhe dar um macio acabamento de mármore. Os pratos são desencontrados: um verde, um branco, o de Anouk florido. Os copos também são todos diferentes: um alto, um baixo, outro que ainda tem o rótulo de Moutarde Amora. E contudo é a primeira vez que, de facto, possuímos tais coisas. Usávamos louça de hotel, talheres de plástico. Até em Nice, onde vivemos durante mais de um ano, todos os utensílios eram emprestados, alugados com a loja. A novidade da posse ainda é algo exótico para nós, algo precioso, inebriante. Invejo as cicatrizes da mesa, o chamuscado de formas de pão quentes. Invejo-lhe a sua serena noção de tempo e desejo poder dizer: eu fiz isto há cinco anos. Fiz esta marca, este círculo deixado por uma chávena de café molhada, esta queimadura de cigarro, esta malha de golpes contra o fio da madeira. Aqui é onde Anouk gravou as suas iniciais, no ano em que fez seis anos, neste lugar secreto atrás da perna da mesa. Fiz isto num dia de calor há sete Verões com a faca de trinchar. Lembras-te? Lembras-te do Verão em que o rio secou? Lembras-te?
Invejo-lhe a sua serena noção de espago. Está aqui há muito tempo. Pertence aqui.
Joséphine ajuda-me a preparar o jantar: uma salada de feijão verde e tomates em óleo picante, azeitonas vermelhas e pretas do mercado de quinta-feira, pão de noz, manjericão fresco de Narcisse, queijo de cabra, vinho tinto de Bordéus. Conversámos a refeição, mas não sobre Paul Muscat. Conto-lhe antes sobre mim e Anouk, dos lugares que já vimos, da chocolaterie em Nice, dos nossos tempos em Nova Iorque logo depois de Anouk nascer e dos tempos anteriores, de Paris, de Nápoles, de todas as paragens onde eu e a minha mãe fizemos lares temporários na nossa longa fuga pelo mundo fora. Hoje só quero lembrar as coisas felizes, as coisas boas e divertidas. Já há tantos pensamentos tristes no ar. Coloco uma vela branca na mesa para limpar as más influências e o seu aroma é nostálgico, reconfortante. Recordo para Joséphine o pequeno canal de Ourcq, o Panteão, a Place des Artistes, a avenida encantadora de Unter den Linden, o ferry de Jersey, os pastéis vienenses comidos em papéis quentes na rua, a marginal junto ao mar em Juan-les-Pins, os bailes nas ruas em San Pedro. Reparo que o rosto dela vai perdendo um pouco da sua expressão rígida. Recordo quando a mãe vendeu um jumento a um agricultor numa aldeia perto de Rivoli e de como a criatura passou a vida a encontrar-nos, uma e outra vez, quase até Milão. E da história das floristas em Lisboa e de como saímos da cidade numa carrinha frigorífica de florista que nos deixou meia dúzia de horas depois nas docas quentes e brancas do Porto. Ela começou a sorrir, depois a rir. Vezes houve em que tínhamos dinheiro, eu e a mãe, e a Europa era soalheira e cheia de promessas. Recordo-as hoje: o cavalheiro árabe na limusina branca que fez uma serenata à mãe naquele dia em San Remo, como nos rimos e como ela estava feliz e como vivemos depois do dinheiro que ele nos deu.
— Já viu tanta coisa. — Havia na voz dela inveja e algum temor. — E ainda é tão nova.
— Sou quase da sua idade.
Ela abanou a cabeça.
— Tenho mil anos. — Dirigiu-me um sorriso que era tão doce quanto ávido. — Gostava de partir à aventura — disse. — De seguir o sol com uma malinha apenas, de não fazer ideia de onde vou estar amanhã.
— Acredite — disse-lhe com gentileza —, acabava por se cansar. Passados uns tempos, todos os lugares parecem iguais.
Ela parece incrédula.
— Acredite — disse eu. — É verdade.
Não é inteiramente verdade. Os lugares têm a sua própria personalidade, e regressar a uma cidade onde já se viveu é como voltar à casa de um velho amigo. Mas as pessoas começam a parecer todas iguais: as mesmas caras reaparecendo em cidades a mil quilómetros de distância, as mesmas expressões. O olhar inexpressivo e hostil do funcionário. O ar curioso do camponês. Os rostos monótonos e indiferentes dos turistas. Os mesmos amantes, mães, pedintes, aleijados, vendedores ambulantes, praticantes de jogging, crianças, polícias, taxistas, chulos. Passados uns tempos começamos a sentir-nos ligeiramente paranóicos, como se essas pessoas nos perseguissem secretamente de uma cidade para outra, mudando de roupas e rostos mas permanecendo basicamente as mesmas, prosseguindo com as suas tarefas com um olho mirando-nos de soslaio, como intrusos. Ao princípio sentimos uma espécie de superioridade. Somos uma raça à parte, nós, os itinerantes. Vimos e vivemos muito mais do que eles. Contentes por levarem as suas vidas tristes num ciclo infinito de sono-trabalho-sono, a cuidar dos seus jardins cuidados, das suas casas suburbanas todas idênticas umas às outras, dos seus pequenos sonhos, e olhamo-los com desdém. Depois, passados uns tempos, vem a inveja. Da primeira vez, é quase divertido: uma picada súbita e forte que desaparece quase logo. Uma mulher num parque, dobrada sobre uma criança num carrinho, ambos os rostos iluminados por algo que não é o sol. Depois vem a segunda, terceira vez: dois jovens na marginal à beira-mar, abraçados; um grupo de empregadas de escritório no seu intervalo de almoço, rindo-se por entre café e croissants... não demora muito até que a dor se torne constante. Não, os lugares não perdem a sua identidade, por muito que se viaje. É o coração que começa a corroer-se passado um tempo. O rosto no espelho de hotel parece turvo em certas manhãs, como que devido a demasiados olhares casuais. As dez os lençóis são mudados, a alcatifa aspirada. Os nomes no registo do hotel mudam à medida que passamos. Não deixamos qualquer traço da nossa passagem. Tal como os fantasmas, não projectamos sombra.
Fui despertada dos meus pensamentos pelo bater imperioso à porta da frente. Joséphine soergueu-se, o medo assomando-lhe aos olhos e os dois punhos cerrados contra as costelas. Era o que ela esperava: a refeição, a conversa, eram um mero simulacro de normalidade.
— Tudo bem — disse-lhe eu. — Eu não o deixo entrar.
Os olhos dela brilharam de medo.
— Eu não falo com ele — disse ela baixinho. — Não consigo. — Pode ter de falar — respondi eu. — Mas tudo bem. Ele não pode atravessar paredes.
Ela fez um sorriso trémulo.
— Nem sequer quero ouvir a voz dele — disse ela. — Não sabe como ele é. Vai dizer...
Eu comecei a encaminhar-me para a área não iluminada da loja.
— Sei exactamente como ele é — disse eu com firmeza. — E, pense o que pensar, ele não é o único. A vantagem de viajar é que ao fim de algum tempo se começa a perceber que, vá-se lá onde se for, as pessoas não são assim tão diferentes.
— Eu detesto cenas — murmurou Joséphine baixinho enquanto eu acendia as luzes da loja. — E detesto gritos.
— Passa depressa — disse eu quando os murros recomeçaram. — Anouk pode preparar-lhe um chocolate.
A porta tem uma corrente de segurança. Coloquei-a quando chegámos, habituada como estava à segurança da cidade, embora nunca tenha precisado dela até agora. Na nesga de luz, o rosto de Muscat está congestionado de raiva.
— A minha mulher está aqui? — A voz espessa de cerveja, o hálito desagradável.
— Está. — Não há razão para subterfúgios. Mais vale dizer as coisas já e mostrar-lhe qual o seu lugar. — Temo que ela o tenha deixado, Monsieur Muscat. Ofereci-me para a deixar dormir aqui por umas noites até resolver as coisas. Pareceu a melhor coisa a fazer — tento que a minha voz saia neutra, bem-educada. Conheço o tipo. Encontrámo-lo vezes sem conta, eu e a minha mãe, em sítios sem conta. Ele olha-me boquiaberto e estupefacto. Depois, a inteligência mesquinha nos seus olhos leva a melhor, os olhos franzem-se, as mãos abrem-se para mostrar que é inofensivo, espantado, pronto a ser divertido. Por instantes parece quase encantador. Depois dá um passo na direcção da porta. Sinto o cheiro desagradável do seu hálito, misto de cerveja e fumo e raiva amarga.
— Madame Rocher. — A voz é suave, quase atraente. — Quero que diga àquela vaca gorda da minha mulher para levantar o rabo daí imediatamente ou eu vou aí buscá-la. E se você se meter no meu caminho, sua puta que queima soutiens...
Bate na porta.
— Tire o cadeado. — Sorri, adulador, fumegando raiva com um leve fedor químico. — Eu disse para tirar a porra do cadeado daqui antes que eu o rebente! — A sua voz torna-se feminina de raiva. Os seus guinchos parecem os de um porco raivoso. Muito devagar, explico-lhe a situação. Ele pragueja e esganiça a sua frustração. Dá vários pontapés na porta, fazendo-a estremecer nas dobradiças.
— Se arrombar a minha casa, Monsieur Muscat — digo-lhe calmamente —, presumo que é um intruso perigoso. Tenho uma lata de Contre-Attaq’ na gaveta da cozinha que costumava trazer comigo quando morava em Paris. Já a experimentei uma ou duas vezes. É muito eficaz.
A ameaça acalma-o. Imagino que ele acha que é o único com direito a fazer ameaças.
— Não está a perceber — geme ele. — Ela é a minha mulher. Eu preocupo-me com ela. Não sei o que ela lhe terá dito, mas...
— O que ela me terá dito não importa, Monsieur. A decisão é dela. No seu lugar, parava de dar espectáculo e ia para casa.
— Foda-se! — A boca dele está tão perto da porta que os perdigotos me chapiscam, quentes e malcheirosos. — É, tudo culpa sua, sua filha da mãe. Você é que começou a meter-lhe na cabeça essas merdas sobre emancipação. — Imita a voz de Joséphine numa voz de falsete feroz. — Ah, a Vianne diz isto, a Vianne acha aquilo. Deixe-me falar com ela por um minuto e vamos a ver o que ela diz, para variar.
— Não me parece que...
— Tudo bem. — Joséphine veio atrás de mim, silenciosamente, com uma chávena de chocolate quente segura entre as duas mãos para as aquecer. — É melhor eu falar com ele, senão nunca mais se vai embora.
Olho para ela. Está mais calma, os olhos limpos. Aceno.
— Está bem.
Afasto-me e Joséphine aproxima-se da porta. Muscat começa a falar mas ela interrompe-o com uma voz especialmente incisiva e uniforme.
— Paul. Ouve.
O tom dela corta a fanfarronice dele, silenciando-o a meio da frase.
— Vai-te embora. Não tenho mais nada a dizer-te. Está entendido?
Ela está a tremer, mas a voz sai-lhe calma e regular. Sinto uma súbita onda de orgulho por ela e aperto-lhe o braço em sinal de apoio. Muscat fica calado por um momento. Depois o tom adulador regressa-lhe à voz, embora ainda lhe ouça a raiva por trás, como um ruído de interferência num sinal de rádio distante.
— José... — diz ele suavemente. — Isto é estúpido. Vem cá fora e conversemos como deve ser. Tu és a minha mulher, José. Será que isso não merece uma segunda oportunidade?
Ela abana a cabeça.
— Tarde de mais, Paul — diz-lhe num tom definitivo. — Lamento.
Depois fecha-lhe a porta muito lenta e firmemente e, embora ele fique a dar-lhe murros durante mais uns minutos, ora a praguejar, ora a adular ou a ameaçar, até a chorar quando ficou piegas e começou a acreditar na sua própria ficção, não voltámos a abrir a porta.
À meia-noite ouvi-o a gritar lá fora e um torresmo bateu na janela com um baque surdo, deixando uma mancha de terra no vidro limpo. Levantei-me para ver o que era e vi Muscat como um duende atarracado e malévolo lá em baixo na praça, com as mãos enterradas nos bolsos, a curva suave da barriga acima da cinta das calças. Parecia bêbedo.
— Não podes ficar aí para sempre! — Vi uma luz acender-se numa das janelas por trás dele. — Vais ter de sair em qualquer altura! E então, suas filhas da mãe! E então! — Automaticamente, fiz figas devolvendo-lhe a maldição com um estalido rápido dos dedos. — Vai de retro. Espírito maligno, vai-te embora.
Mais um dos hábitos arreigados da minha mãe. E contudo, é espantoso quão mais segura me sinto agora. Deito-me calma e acordo muito tempo depois, escutando a respiração suave da minha filha e observando as formas em perpétua mutação do luar entre as folhas. Julgo que tentei novamente ler o futuro procurando nos desenhos em movimento um sinal, uma palavra de confiança... À noite é mais fácil acreditar nessas coisas, com o Homem de Preto à espreita lá fora e o catavento chiando cri-criii no cimo do campanário da igreja. Mas não vi nada, não senti nada, e finalmente adormeço de novo e sonho com Reynaud aos pés da cama de um velho num hospital, com uma cruz numa mão e uma caixa de fósforos na outra.
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