Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 29 de 40

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Chocolate

Capítulo 28

Sábado, 15 de Marco

 

H oje de manhã fui novamente falar com Armande Voizin. Mais uma

vez, Fi recusou-se a receber-me. O cão de guarda ruivo dela abriu a

porta e resmungou no seu patois grosseiro, usando os ombros para me barrar a entrada. Armande está bem, diz ele. Mais algum descanso e estará completamente recuperada. O neto está com ela e os amigos visitam-no todos os dias — isto com um sarcasmo que me faz morder a língua. Não pode ser incomodada. vexante ter de implorar a este homem, mon père, mas eu estou ciente do meu dever. Por mais baixo que seja o nível das companhias de que ela se rodeia, por mais insultos que me dirija, o meu dever mantém-se. Confortar, mesmo que o conforto seja recusado, guiar. Mas é impossível falar da alma a este homem — os olhos dele são tão ocos e indiferentes como os de um animal. Tento explicar. Armande está velha, digo-lhe. Velha e teimosa. Resta-nos tão pouco tempo. Será que ele não vê isso? Será que ele vai permitir que ela se mate por negligência e arrogância?

Ele encolhe os ombros.

— Ela está bem — diz-me ele, cheio de antagonismo no rosto. — Ninguém está a negligenciá-la. Agora ela vai ficar bem.

— Não é verdade. — A minha voz é deliberadamente ríspida. — Ela está a brincar roleta russa com os remédios. Recusa-se a ouvir o que o médico lhe diz. A comer chocolates, santo Deus! Por acaso já pensou no que isso lhe pode causar, no estado em que ela está? Por que é que...

O rosto dele cerra-se, torna-se hostil e distante. Simplesmente: — Ela não o quer ver.

— Será que você não se preocupa? Não se preocupa que ela esteja a matar-se por gula?

Ele encolhe os ombros. Sinto-lhe a raiva sob a capa fina da indiferença. Impossível apelar à natureza superior desta criatura — ele está simplesmente de guarda, conforme as instruções recebidas. Muscat contou-me que Armande lhe ofereceu dinheiro. Talvez ele esteja interessado em que ela morra. Conheço a perversidade dela. Deserdar a família a favor deste estranho agradaria a esse lado dela.

— Eu espero — disse-lhe eu. — Todo o dia, se preciso for.

Esperei duas horas lá fora, no jardim. Depois começou a chover. Eu não tinha guarda-chuva e a minha sotaina ficou pesada de tão molhada. Comecei a sentir-me tonto e entorpecido. Passado um bocado, a janela abriu-se e eu senti o cheiro enlouquecedor de café e pão quente vindo da cozinha. Vi o cão de guarda a olhar para mim com aquele ar de desdém malcriado e percebi que bem podia desfalecer no chão que ele não daria um passo para me socorrer. Senti os olhos dele nas minhas costas enquanto subia lentamente a colina de regresso a St. Jérôme. Algures sobre a água, julgo ter ouvido o som de uma gargalhada.

Também falhei com Joséphine Muscat. Embora ela se recuse a ir à igreja, já falei com ela várias vezes, mas em vão. Há nela agora um cerne de um qualquer metal teimoso, uma espécie de desafio, embora ela continue respeitadora e comedida durante as nossas conversas. Nunca se atreve a afastar-se muito de LA CÉLESTE PRALINE, e foi à porta da loja que a encontrei hoje. Estava a varrer o passeio junto à porta e tinha o cabelo atado com um lenço amarelo. Ao aproximar-me, ouvi-a a cantar de si para si.

— Bom dia, Madame Muscat. — Saudei-a polidamente. Sei que se ela tiver que ser reconquistada, terá de ser com delicadeza e bom senso. Poderá vir a ter que se arrepender mais tarde, quando o nosso trabalho estiver feito.

Ela dirigiu-me um pequeno sorriso. Parece agora mais confiante, de costas direitas, cabeça levantada, maneirismos que copiou de Vianne Rocher.

— Agora sou Joséphine Bonnet, père.

— Não de acordo com a lei, Madame.

— Pff, a lei.

— A lei de Deus — disse-lhe eu enfaticamente, fitando-a com reprovação. — Tenho rezado por si, ma filie. Tenho rezado pela sua salvação.

Ela riu-se, não sem indelicadeza.

— Então as suas preces têm sido atendidas, père. Nunca fui tão feliz.

Parece inconquistável. Nem uma semana de influência daquela mulher e já lhe ouço na voz a voz da outra. O riso delas é insuportável. A troça, tal como a de Armande, um aguilhão que me estupidifica e enfurece. Já sinto algo em mim a responder-lhe, père, algo fraco a que eu me julgava imune. Olhando a chocolaterie do outro lado da praça, com a sua montra colorida, as floreiras de gerânios cor-de-rosa, vermelhos e cor de laranja nas varandas que ladeiam a montra, sinto a dúvida a insinuar-se subrepticiamente na minha mente e a minha boca enche-se com a memória do seu perfume, como natas e malvaísco e açúcar queimado e a mistura estonteante de conhaque e grãos de cacau frescos. É o perfume de um cabelo de mulher, no sítio exacto onde a nuca se une à concavidade delicada do crânio, o perfume de alperces maduros no Verão, de brioches quentes e pãezinhos de canela, chá de limão e lírios-do-vale. É um incenso difuso no vento, desfraldando-se lentamente como uma bandeira de protesto, este rasto do demónio, não sulfuroso, como ensinávamos às crianças, mas o mais leve e evocativo dos perfumes, combinando a essência de mil especiarias, fazendo a cabeça girar e o espírito pairar. Dou comigo no adro de St. Jérôme com a cabeça erguida contra o vento, esticando-me para apanhar o rasto daquele perfume. Ele infiltra-se nos meus sonhos e acordo suado e esfomeado. Em sonhos, empanturro-me de chocolates, rebolo-me em chocolates, e a sua textura não é quebradiça mas tenra como carne, como milhares de bocas no meu corpo, devorando-me em dentadinhas esvoaçantes. Morrer vítima da sua gula terna parece-me o cúmulo de todas as tentações que eu algum dia conheci e, em tais momentos, quase consigo compreender Armande Voizin, a arriscar a vida a cada dentada de deleite.

Disse quase.

Sei muito bem qual é o meu dever. Durmo muito pouco agora, já que alarguei a minha penitência a esses momentos fortuitos de abandono. Doem-me as articulações mas dou por bem empregue a distracção. O prazer físico é a ranhura por onde o diabo estende as suas raízes. Como uma única refeição por dia e, mesmo essa, é o mais simples e insípida possível. Quando não estou ocupado com os deveres da paróquia, trabalho no cemitério, cavando os canteiros e limpando as ervas daninhas em redor das sepulturas. Tem havido negligência nos últimos dois anos e eu estou ciente de um sentimento de desconforto quando vejo a confusão que vai num jardim dantes ordenado. Alfazema, manjericão, verga-de-ouro e salva roxa cresceram em pródigo abandono por entre ervas e cardos. Tantos perfumes perturbam-me. Gostaria de ter carreiros ordenados de arbustos e flores, talvez com uma floreira cercando o conjunto. Esta profusão parece-me de certo modo errada, irreverente, uma explosão selvagem de vida, uma planta a sufocar outra num esforço vão de domínio. Foi-nos concedido domínio sobre estas coisas, diz-nos a Bíblia. E contudo, eu não sinto qualquer domínio. Antes sinto uma espécie de impotência, pois enquanto cavo e podo e corto, os exércitos verdes e cerrados simplesmente enchem os espaços atrás de mim, deitando de fora longas línguas verdes e ridicularizando os meus esforços. Narcisse olha-me com um desdém divertido.

— Mais vale ir plantando alguma coisa, père — diz ele. — Preencher esses espaços com qualquer coisa que valha a pena. Senão as ervas daninhas atacam.

Tem razão, claro. Encomendei uma centena de plantas do horto dele, plantas dóceis que vou dispor em carreiros. Gosto das begonias brancas, das íris anãs, das dálias amarelo pálido e dos lírios da Páscoa, sem perfume mas tão bonitos nas suas empertigadas espirais de pétalas. Bonitos mas não invasivos, promete Narcisse. A natureza domesticada pelo homem.

Vianne Rocher aparece para ver o meu trabalho. Ignoro-a. Veste uma camisola azul-turquesa e jeans e calça umas botas de camurça púrpura. O cabelo parece uma bandeira de pirata ao vento.

— Tem um lindo jardim — comenta ela. Passa uma mão pela faixa de vegetação; cerra o punho e leva-o ao rosto carregado de perfume.

— Tantas ervas aromáticas — diz. — Bálsamo de limão e hortelã água-de-colónia e salva de ananás...

— Não lhes sei os nomes. — A minha voz é abrupta. — Não sou jardineiro. Além do mais, isso são só ervas daninhas.

— Eu gosto de ervas daninhas.

Claro. Senti o meu coração inchar de raiva — ou seria o perfume? Eu estava de pé, cercado até à anca por ervas ondulantes, e senti as minhas vértebras lombares a cederem à pressão.

— Diga-me uma coisa, Mademoiselle.

Ela olhou-me obedientemente, sorrindo.

— Diga-me aonde é que quer chegar ao encorajar os meus paroquianos a desenraizarem as suas vidas, a abandonarem a sua segurança...

Lançou-me um olhar baço.

— Desenraizar? — Olhou incerta para o montes de ervas daninhas no carreiro ao meu lado.

— Refiro-me a Joséphine Muscat.

— Ah. — Torceu uma haste de alfazema. — Ela era infeliz.

Parecia achar que isso explicava tudo.

— E agora, depois de romper com os seus votos matrimoniais, de deixar tudo o que tinha, de desistir da sua vida anterior, acha que vai ser mais feliz?

— Claro.

— Boa filosofia — zombei eu. —Se você é o tipo de pessoa que não acredita no pecado.

Ela riu-se.

— Pois não — disse ela. — Não acredito de maneira nenhuma.

— Então lamento a sua pobre filha — disse eu, cáustico. — Criada sem Deus e sem moral idade.

Ela olhou-me com olhos franzidos e nada divertidos.

— Anouk sabe distinguir o certo do errado — disse ela, e eu soube que finalmente a tinha atingido. Um pontozinho a meu favor. — E quanto a Deus... — Mordeu a frase. — Não me parece que o seu colarinho branco lhe dê o privilégio único de acesso ao Divino — concluiu, mais branda. — Acho que deve haver I ugar para nós os dois, não acha?

Não me dignei responder. Aquela tolerância fingida não me engana.

— Se realmente quer fazer o bem — disse-lhe eu com dignidade —, deve convencer Madame Muscat a reconsiderar a sua decisão precipitada. E deve fazer com que Armande Voizin tenha juízo.

— Juízo? — Simulou ignorância mas sabia muito bem o que eu queria dizer.

Repeti muito do que tinha dito ao cão de guarda. Armande era velha, disse-lhe eu. Voluntariosa e teimosa. Mas a geração dela está pouco preparada para entender questões médicas. A importância da dieta e medicação... a recusa obstinada em escutar os factos...

— Mas Armande está bastante feliz onde está. — A voz dela é quase razoável. — Não quer deixar a sua casa e ir para um lar. Quer morrer onde está.

— Mas ela não tem tal direito! — Ouvi a minha voz a estalar como um chicote através da praça. — Não lhe cabe a ela decidir. Pode viver muito tempo, mais uns dez anos talvez...

— Pode. — O tom dela era repreensivo. — Ainda se movimenta, está lúcida, independente...

— Independente! — Mal pude esconder o meu desdém. — Quando ficar cega daqui a seis meses? O que que ela vai fazer nessa altura?

Pela primeira vez, ela pareceu confusa.

— Não estou a perceber — disse finalmente. — A vista de Armande está boa, não está? Quero dizer, ela nem sequer usa óculos.

Olhei-a com um olhar cortante. Ela não sabia.

— Não falou com o médico, pois não?

— Por que é que havia de falar? A Armande...

Interrompi-a.

— A Armande tem um problema — disse-lhe eu. — Que ela sistematicamente nega. Está a ver até onde vai a sua teimosia. Recusa-se a admitir, até para si própria, até para a sua família...

— Diga-me. Por favor. — Os olhos dela eram duros como ágatas.

Disse-lhe.

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