Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 11 de 40

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Chocolate

Capítulo 10

 

Quarta-feira, 19 de Fevereiro

 

U ma semana, mon père. Não mais que isso. Uma semana. Mas parece

mais. Ultrapassa-me o facto de ela me incomodar assim; está bom de

ver o que ela é. Fui vê-la noutro dia, para conversar com ela sobre o seu horário de abertura ao domingo de manhã. O lugar está transformado, o ar perfumado com os aromas desconcertantes de gengibre e especiarias. Tentei não olhar para as prateleiras de doces: caixas, fitas, arcos em tons pastel, amêndoas cobertas em camadas douradas e prateadas, violetas doces e rosinhas de chocolate. Há lá mais do que a sugestão do boudoir, um ar íntimo, um perfume de rosa e baunilha. O quarto da minha mãe tinha um ar assim; todo em crepe e tule e cristal lapidado tremeluzindo na luz muda, frascos e frasquinhos enfileirados sobre o seu toucador como um exército de geniozinhos aguardando liberdade. Há algo pernicioso em tão excessiva concentração de doçura. Uma promessa semicumprida do proibido. Tento não olhar, não cheirar.

Ela cumprimentou-me com a devida cortesia. Vi-a agora mais claramente: cabelo comprido, preto, atado atrás num nó e olhos tão pretos que parecem não ter pupilas. As sobrancelhas são absolutamente direitas, dando-lhe um ar severo mas traído pelo trejeito cómico da boca. Não usa maquilhagem e contudo há qualquer coisa de ligeiramente indecente naquele rosto. Talvez seja a frontalidade do olhar, o modo como os olhos se demoram nas suas avaliações, aquela permanente prega de ironia na boca. E é alta, demasiado alta para uma mulher, tão alta como eu. Olha-me olhos nos olhos, com os ombros para trás e queixo desafiador. Usa uma comprida saia cor-de-fogo aos folhos e uma camisola preta justa. Tal colorido parece perigoso, qual cobra ou ferrão de insecto, um aviso aos inimigos.

E ela é minha inimiga. Sinto-o imediatamente. Sinto a sua hostilidade e desconfiança apesar de o tom de voz se manter suave e agradável. Sinto que me atraiu até aqui para me denegrir, que sabe algum segredo que até eu... Mas é disparatado. O que pode ela saber? O que pode ela fazer? Apenas ofende a minha noção de ordem, como um jardineiro consciencioso se poderia ofender com um carreiro de sementes de dentes-de-leão. A semente da discórdia está em toda a parte, mon père. E alastra. Alastra.

Eu sei. Estou a perder o sentido de perspectiva. Mas temos de estar vigilantes, o senhor e eu. Lembre-se de Les Marauds e dos ciganos que expulsámos das margens do Tannes. Lembre-se como levou tempo, quantos e quantos meses de queixas e cartas infrutíferas até tratarmos do assunto com as nossas próprias mãos. Lembre-se dos sermões que eu preguei! Uma porta atrás doutra foi-se fechando para eles. Alguns comerciantes cooperaram logo. Lembravam-se dos ciganos anteriores e das doenças e dos roubos e da prostituição. Ficaram do nosso lado. Lembro-me que tivemos que pressionar Narcisse que, tipicamente, lhes teria oferecido trabalho nos seus campos durante o Verão. Mas, por fim, conseguimos desalojá-los a todos, os homens taciturnos e as suas mulheres desleixadas de olhar atrevido, as crianças descalças e mal-educadas, os cães escanzelados. Eles foram-se e de boa vontade limparam o lixo que deixaram atrás de si. Uma única semente de dente-de-leão, mon père, seria suficiente para os trazer de volta. Sabe isso tão bem como eu. E se ela for essa semente...

Ontem falei com Joline Drou. Anouk Rocher frequenta a escola primária. Uma criança atrevida, cabelo preto como a mãe e um sorriso vivo e insolente. Ao que parece, Joline deu com o seu filho Jean, entre outros, a jogar um jogo qualquer com a criança no recreio da escola. Uma influência perniciosa, imagino, adivinhação ou outro disparate no género, paus e contas num saco espalhados na lama... Já lhe disse que conheço aquela estirpe. Joline proibiu Jean de voltar a brincar com ela, mas o miúdo é teimoso e fez birra. Naquela idade, a única coisa que resulta é disciplina dura. Ofereci-me para ter uma conversa com o rapaz mas a mãe não quis. É assim que eles são, mon père. Fracos. Fracos. Quantos deles não terão já quebrado os seus votos quaresmais. Quantos deles nunca tiveram a menor intenção de os respeitar. Por mim, sinto que jejuar me purifica. A vista da montra do talho aterra-me; os cheiros chegam a um ponto de intensidade tal que fico com a cabeça tonta. De repente, o cheiro matinal de pão a cozer na padaria de Poitou já é de mais; o cheiro de gordura quente da rôtisserie na Place des Beaux-Arts é uma lança do inferno. Por mim, há mais de uma semana que não toco em carne nem peixe nem ovos: vivo de pão, sopas, saladas e um único copo de vinho ao domingo e sinto-me purificado, père, purificado... Só queria poder fazer mais. Isto não é sofrimento. Isto não é penitência. Às vezes penso que se eu conseguisse pelo menos mostrar-lhes o bom exemplo, se pudesse ser eu a sangrar e a sofrer naquela cruz... Aquela bruxa da Voizin troça de mim ao passar com a sua cesta da mercearia. É a única naquela família de fiéis praticantes a desdenhar a Igreja, fazendo-me caretas quando passa a manquejar, com o chapéu de palha atado à cabeça com um lenço vermelho e a bengala a enxotar as lajes aos seus pés... Suporto-a só em atenção à idade dela, mon père, e às súplicas da família. Obstinadamente, recusa tratamento, recusa conforto, acha que vai viver para sempre. Mas um dia há-de quebrar. Quebram sempre. E eu hei-de dar-lhe a absolvição com toda a humildade; sentirei pesar apesar de todas as suas aberrações, do seu orgulho e desafio. Hei-de tê-la no fim, mon père. No fim, não hei-de tê-los a todos?

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