Chocolate
Capítulo 20
Terça-feira, 4 de Marco
O primeiro verde de milho-doce dá terra um aspecto mais suculento do
que eu e o senhor estamos habituados. Ao longe parece luxuriante —
uns zumbidos matinais cruzam o ar sobre a ondulação do folhelho, dando aos campos um ar sonolento. Mas sabemos que daqui a dois meses o sol reduzirá tudo isto a restolho ardido e a terra estará nua e gretada sob o ar vermelho, embora os cardos pareçam relutantes em crescer. Um vento quente varrerá o que restar no campo, trazendo com ele a seca e, no seu rasto, uma quietude malcheirosa que prenuncia doenças. Lembro-me do Verão de 75, mon père, do calor mortífero e do céu branco e quente. Tivemos praga atrás de praga nesse Verão. Primeiro os ciganos do rio, rastejando pelo que restava do rio nos seus imundos casinhotos flutuantes, atracados em Les Marauds em socalcos de lama a assar. Depois a doença que atacou primeiro os animais deles e depois os nossos: uma espécie de loucura, olhos revirados, patas trémulas, entumecimento do corpo em virtude de os animais se recusarem a beber água, depois suores, tremuras e a morte por entre nuvens de vespas roxas, meu Deus, o ar cheio delas, cheio e doce como o sumo de um fruto podre. Lembra-se? Tão quente que os animais selvagens, desesperados, vieram do marais seco para a água. Raposas, furões, doninhas, cães. Mantivemo-los distância, recusando-nos a vender-lhes bens ou água, recusando-lhes medicamentos. Ancorados nos socalcos do Tannes cada vez mais estreito, bebiam cerveja engarrafada e água do rio. Lembro-me de os ver de Les Marauds, figuras silenciosas e cabisbaixas em redor das suas fogueiras à noite, escutando o soluçar de alguém — mulher ou criança, acho — algures sobre a água escura.
Algumas pessoas, mais fracas — entre eles Narcisse começaram a falar em caridade. Em piedade. Mas o senhor foi firme. Sabia o que fazer.
Na missa leu os nomes de todos aquele que se recusaram a cooperar. Muscat — o velho Muscat, pai do Paul — baniu-os do café até eles caírem em si. Houve brigas à noite entre os ciganos e os aldeões. A igreja foi profanada. Mas o senhor foi firme.
Um dia vi-os a tentarem levar os seus barcos através dos socalcos para o rio. A lama ainda estava mole e, em certos sítios, eles ficavam enterrados até aos joelhos, rastejando para se agarrarem às pedras escorregadias. Uns puxavam, presos as suas barcas por cordas, outros empurravam por trás. Uma fogueira, disse o senhor, mon père, uma fogueira abandonada pelo bêbedo do dono do barco e pela desmazelada da mulher, uma fogueira cujas chamas alastraram no ar seco e eléctrico até o rio dançar nele. Um acidente.
Houve quem falasse; há sempre. Disseram que o senhor tinha encorajado aquilo nos seus sermões, acenando sabiamente na direcção do velho Muscat e do filho, tão bem situados para verem e ouvirem, mas que nessa noite não viram nem ouviram nada. Mas, acima de tudo, houve alívio. E quando vieram as chuvas de Inverno e o Tannes voltou a encher, até os cascos foram cobertos.
***
Fui lá outra vez hoje de manhã, père. Aquele lugar persegue-me. Pouco mudou desde há vinte anos, há ali uma quietude dissimulada, um ar expectante. Cortinas crispam-se em janelas sujas quando eu passo. Parece-me ouvir um riso abafado e continuo que chega até mim por entre os espaços silenciosos. Serei suficientemente forte, père? Apesar das minhas boas intenções, será que fracassarei?
Três semanas. Já passei três semanas no deserto. Devia estar purgado de incertezas e fraquezas. Mas o medo persiste. Sonhei com ela ontem. Oh, não um sonho voluptuoso, antes incompreensivelmente ameaçador. É a sensação de desordem que ela traz, père, que me enerva. Aquele ar selvagem.
Joline Drou diz-me que a filha vai pelo mesmo caminho. A correr à solta em Les Maruads, a falar de rituais e superstições. Segundo Joline, a criança nunca foi igreja e nunca aprendeu a rezar. Ela fala-lhe da Páscoa e da Ressurreição e a criança responde-lhe com um chorrilho de disparates pagãos. E este festival: há um cartaz dela em todas as montras. A pequenada está doida de excitação.
— Deixe-os para lá, père, só se é novo uma vez — diz-me Georges Clairmont indulgentemente. A mulher olha-me maliciosamente sob as sobrancelhas depiladas.
— Bem, não sei que mal possa haver — diz ela com um sorriso afectado. A verdade é que, desconfio eu, o filho deles se mostrou interessado. — E tudo o que reforce a mensagem da Páscoa...
Não tento fazê-los compreender. Censurar uma celebração infantil é expor-se ao ridículo. Já ouviram o Narcisse referir-se à minha Brigada anti-chocolate, por entre risinhos à socapa. Mas incomoda. Usar uma celebração da Igreja para minar a Igreja — para me minar a mim... Já arrisquei a minha dignidade. Não me atrevo a ir mais longe do que isto. E a influência dela alastra de dia para dia.
Parte disso vem da loja. Meio-café, meio-confiserie, sugere um ambiente acolhedor, de confidências. As crianças adoram os bonecos de chocolate a preços acessíveis às suas mesadas. Os adultos gostam do ar de malícias subtis, de segredos sussurrados, de sofrimentos partilhados. Há várias famílias que passaram a encomendar um bolo de chocolate para o almoço de domingo: vejo-os irem buscar as caixas com fitas depois da missa. Os habitantes de Lansquenet-sous-Tannes nunca comeram tanto chocolate. Ontem, Toinette Arnaud estava a comer — a comer! — no confessionário. Sentia-lhe o cheiro adocicado no hálito mas tive de fingir manter o anonimato.
— Blesh me mon père for I have shinned. Perdoai-me, padre, que pequei! — Podia ouvi-la a mastigar, aqueles estalidozinhos que fazia contra os dentes. Ouvi num crescendo de cólera enquanto ela confessava uma lista de pecadilhos que eu mal escutei, sentindo o cheiro do chocolate cada vez mais nitidamente no espaço confinado do confessionário. A voz tornava-se espessa do chocolate e eu senti a minha boca a salivar por empatia. Por fim, já não consegui resistir.
— Está a comer alguma coisa? — perguntei.
— Não, père. — A voz dela quase indignada. — A comer? Por que é que...
— Tenho a certeza de que a ouço a mastigar. — Não me preocupei em baixar a voz, mas soergui-me na escuridão do meu cubículo, com as mãos agarradas ao peitoril. — Por quem me toma? Um idiota? — Mais uma vez, ouvi o som de saliva contra a língua e a minha cólera aumentou. — Eu estou a ouvi-la, Madame — disse rispidamente. — Ou acha-se inaudível, tal como invisível?
— Mon gere, garanto-lhe...
— Cale-se, Madame Arnaud, antes que cometa ainda mais perjúrio! — vociferei eu e, de repente, não havia mais nenhum cheiro a chocolate, nenhum estalido, apenas um sobressalto de indignação chorosa e uns passos em pânico enquanto ela fugia do cubículo com os saltos altos a patinarem no soalho ao correr.
A sós no cubículo, tentei recuperar o aroma, o som, a certeza que tinha tido, a indignação — a justeza — da minha cólera. Mas, à medida que a escuridão me cercava, cheirando a incenso e velas e sem vestígios de chocolate, vacilei, duvidei. Vi então o absurdo de tudo e dobrei-me num paroxismo de júbilo tão inesperado quanto alarmante. Fiquei a tremer e alagado em suor, com o estômago às reviravoltas. A ideia inesperada de que ela pudesse ser a única pessoa a apreciar plenamente o caricato da situação foi suficiente para me provocar nova convulsão e fui obrigado a interromper as confissões alegando um ligeiro mal-estar. Caminhei com passo inseguro até à sacristia e dei com uma série de pessoas a olharem-me com um ar estranho. Tenho de ter mais cuidado. Bisbilhotice é coisa que não falta em Lansquenet.
* * *
Desde então as coisas têm andado calmas. Atribuo a minha própria explosão no confessionário a uma febre que entretanto terá passado durante a noite. Certamente que o incidente não se repetirá. Como precaução, reduzi ainda mais o meu jantar, para evitar que problemas digestivos ocasionem este tipo de coisas. Ainda assim, sinto uma sensação de insegurança — quase de expectativa — à minha volta. O vento pôs as crianças tontas, a voarem pela praça fora de braços abertos e a chamarem umas pelas outras com vozes de pássaros. Os adultos parecem volúveis, alternando entre um extremo e outro. As mulheres falam demasiado alto, calando-se artificialmente quando eu passo, umas à beira de lágrimas, outras agressivas. Falei com Joséphine Muscat hoje de manhã quando ela estava sentada à porta do CAFÉ DE LA RÉPUBLIQUE e aquela mulher monótona e monossilábica cuspiu-me de volta impropérios, com os olhos fumegando e a voz tremendo de fúria.
— Não fale comigo — sibilou ela. — Não acha que já fez suficiente?
Mantive a minha dignidade e não me dignei responder, com medo de ser envolvido numa luta de gritos. Mas ela mudou: está mais dura e aquele ar indolente que tinha deu lugar a uma espécie de foco odioso. Mais uma convertida ao campo inimigo.
Por que é que eles não vêem, mon père? Por que é que eles não vêem o que aquela mulher está a fazer-nos? A destruir o nosso espírito de comunidade, os nossos propósitos. Atingindo o que é pior e mais fraco no coração secreto. A conquistar para si o tipo de afecto e lealdade que — valha-me Deus! — eu não me atrevo a ambicionar. Pregando uma paródia de boa vontade e tolerância e piedade pelos pobres desalojados da beira-rio enquanto a corrupção se vai entranhando cada vez mais. O diabo opera não apenas pelo mal mas também pela fraqueza, père. O senhor sabe isso melhor do que ninguém. Sem a força e a pureza das nossas convicções, onde estaríamos nós? Que segurança temos? Quanto tempo falta até que esta doença alastre pela própria Igreja? Já vimos como a podridão alastra depressa. Não tarda nada e hão-de andar em campanhas por «serviços não-confessionais que incluam sistemas de crença alternativos», pela abolição do confessionário por ser «desnecessariamente punitivo», celebrando o «ser interior» e, antes de darmos conta, as suas atitudes aparentemente progressivas, liberais e inócuas já estarão bem enraizadas, seguras e irrevocáveis, na estrada bem-intencionada para o inferno.
Irónico, não é? Há uma semana estava eu a questionar a minha própria fé. Demasiado absorto em mim mesmo para ver os sinais. Demasiado fraco para desempenhar o meu papel. E contudo a Bíblia diz-nos claramente o que devemos fazer. O trigo e o joio não podem crescer juntos e em paz. Qualquer jardineiro lho diria.
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