Chocolate

Joanne Harris · Capítulo 18 de 40

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Chocolate

Capítulo 17

Sábado, 1 de Março

 

T enho andado a observar a loja dela. Dou-me conta de que tenho andado

a fazê-lo desde que ela chegou, com as suas idas e vindas e os seus

ajuntamentos furtivos. Observo-a tal como costumava observar ninhos de vespas quando era jovem, com repugnância e fascínio. Começaram dissimuladamente, aparecendo naquelas horas secretas do anoitecer e do amanhecer. Assumiram a aparência de clientes genuínos. Um café agora, um pacote de passas de chocolate para os filhos. Mas agora já não fingem. Os ciganos aparecem agora às claras, lançando olhares desafiadores à minha janela de persiana fechada: o ruivo de olhos insolentes, a rapariga magricela, a rapariga de cabelo oxigenado e o árabe de cabeça rapada. Ela trata-os pelo nome: Roux e Zézette e Blanche e Ahmed. Ontem às dez a carrinha do Clairmont veio descarregar uma série de materiais de construção: madeira e tinta e pez para telhados. Ela passou um cheque. Depois, não pude deixar de observar enquanto os seus amigos sorridentes carregaram as caixas, traves e caixotes aos ombros e os levaram, rindo-se, para Les Marauds. Uma ratoeira, é o que é. Uma ratoeira disfarçada. Por qualquer razão, ela quer ser cúmplice deles. Claro que é para me vexar que ela age assim. Não posso fazer mais nada senão manter um silêncio digno e rezar pela queda dela. Mas ela torna-me a tarefa tão mais difícil! Já tinha que lidar com Armande Voizin, que põe na sua conta as compras de mercearia deles. Já tratei disso, embora demasiado tarde. Os ciganos do rio já têm mantimentos suficientes para quinze dias. Trazem a mercearia diária — pão, leite — de Agen pelo rio acima. A ideia de que eles possam ficar mais tempo dá-me cabo da bílis. Mas o que é que se pode fazer quando semelhantes pessoas resolvem ser seus amigos? O senhor saberia o que fazer, père, se pelo menos me pudesse dizer. E sei que o senhor não vacilaria no cumprimento do seu dever, por muito desagradável que fosse. Se pelo menos me pudesse dizer o que fazer. A mínima pressão dos dedos seria suficiente. O piscar de uma pestana. Qualquer coisa. Qualquer coisa para me mostrar que estou perdoado. Não? Não se mexe. Só o ritmo — sibilado, pesado — da máquina ao respirar por si, enviando ar para os seus pulmões atrofiados. Sei que um destes dias há-de acordar, curado e purificado, e que o meu nome vai ser a primeira palavra que pronunciará. Sabe, eu acredito em milagres. Eu, que passei pelo fogo. Acredito.

 

Decidi ir falar com ela hoje. Racionalmente, sem recriminações, de pai para filha. Decerto ela haveria de compreender. Começámos com o pé esquerdo, um e outro. Talvez pudéssemos recomeçar. Sabe, père, eu estava disposto a ser generoso. Disposto a compreender. Mas, ao aproximar-me da loja, vi pela montra que o tal Roux estava lá dentro com ela, com os seus olhos claros e duros fixos em mim com aquele ar trocista de desdém comum aos da sua raça. Tinha uma bebida qualquer na mão. Parecia perigoso, violento no seu fato-macaco sujo e com o cabelo comprido solto e, por um instante, senti uma pontada fina de ansiedade pela mulher. Será que ela não percebe os perigos a que se expõe pelo simples facto de conviver com essa gente? Será que não se preocupa com ela, com a criança? Estava prestes a dar meia volta quando um cartaz na montra me chamou a atenção. Fingi olhá-lo por um instante enquanto secretamente a observava a ela — a eles — do lado de fora. Ela trazia um vestido de um tecido bom cor de vinho e tinha o cabelo solto. Ouvi o riso dela vindo de dentro da loja.

Os meus olhos examinaram de novo o cartaz. A caligrafia era infantil, informe.

GRANDE FESTIVAL DO CHOCOLATE

EM LA CELESTE PRALINE

COMEÇA DOMINGO DE PÁSCOA

TODOS BEM-VINDOS

Voltei a com uma indignação lenta a emergir. Conseguia ainda ouvir o som da voz dela dentro da loja, sobre o tilintar dos copos. Demasiado absorta

na conversa, ainda não se apercebera da minha presença, continuando de costas para a porta, um pé voltado para fora corno uma bailarina. Calçava sabrinas rasas com lacinhos e não tinha meias.

COMEÇA DOMINGO DE PÁSCOA

Agora percebo tudo.

A malícia dela, a sua condenável malícia. Deve ter planeado isto desde o princípio, este festival do chocolate, para coincidir com a cerimónia mais sagrada da Igreja. Desde a sua chegada no dia de Carnaval que deve ter isto tudo previsto para minar a minha autoridade, para troçar dos meus ensinamentos. Ela e os seus amigos do rio.

Demasiado revoltado agora para me ir embora conforme deveria, empurrei a porta e entrei na loja. Uns sininhos animados e trocistas anunciaram a minha chegada e ela voltou-se para me ver, sorrindo. Se nesse momento não tivesse tido uma prova irrefutável do seu espírito vingativo, juraria que o sorriso era genuíno.

— Monsieur Reynaud.

O ar é quente e cheio do cheiro a chocolate. Nada do chocolate em pó fino que eu conheci em miúdo: este tem um cheiro encorpado que lembra o perfume dos grãos de café na banca do mercado, um aroma de amaretto e tiramisu, um sabor fumegante e queimado que me chega à boca e faz salivar. Há uma cafeteira prateada do dito sobre o balcão, fumegando. Lembro-me que hoje não tomei o pequeno-almoço.

— Mademoiselle. — Oxalá a minha voz fosse mais assertiva. A raiva entalou-me a garganta e em vez do rugido recto que eu pretendia, não saiu senão um coaxo de indignação, qual sapo bem-educado. — Mademoiselle Rocher. — Ela olha-me inquisitivamente. — Vi o seu cartaz!

— Obrigada — diz ela. — Acompanha-nos numa bebida?

— Não!

Aliciante:

— O meu chococcino é óptimo para quem tiver uma garganta delicada.

— Eu não tenho uma garganta delicada!

— Não? — A voz dela era falsamente solícita. — Julguei que estava bastante rouco. Grand crème, então? Ou mocha?

Com esforço, recobrei a compostura.

— Não se incomode, por favor.

Ao lado dela, o homem ruivo dá uma gargalhada baixa e diz qualquer coisa no seu patois de sarjeta. Reparo que tem as mãos sujas de tinta, uma tinta clara infiltrada nas dobras da palma das mãos e nos nós dos dedos. Andará a trabalhar?, pergunto-me com inquietação. E se assim for, para quem? Se estivéssemos em Marselha, a polícia prendia-o por trabalhar clandestinamente. Uma busca ao seu barco poderia revelar provas suficientes — drogas, propriedade roubada, pornografia, armas — para o afastar de vez. Mas isto é Lansquenet. Nada a não ser violência grave faria a polícia vir aqui.

— Vi o seu cartaz. — Recomecei com toda a dignidade que consigo mobilizar. Ela olha-me com aquele ar solícito e bem-educado e com os olhos a bailar. — Devo dizer... — aqui clareio a garganta, novamente cheia de bílis — ...devo dizer que acho a sua data... a data da sua... iniciativa... deplorável.

— Data? — Com ar inocente. — Refere-se ao festival da Páscoa? — Mostra um sorrizinho malicioso. — Julgava que o senhor e os seus é que eram responsáveis por isso. melhor falar ao Papa.

Fito-a friamente.

— Sabe muito bem de que é que eu estou a falar.

Mais uma vez, aquele ar inquisitivamente bem-educado.

— Festival de chocolate. Todos bem-vindos. — A minha cólera cresce como leite a ferver, incontrolável. Por um instante sinto-me poderoso, com uma energia que me vem do calor. Aponto-lhe um dedo acusador: — Não pense que eu não percebi o que é isto tudo.

— Deixe-me adivinhar. — A voz dela é suave, interessada. — Um ataque pessoal contra si. Uma tentativa deliberada de minar os alicerces da Igreja Católica. — Dá uma gargalhada, que se trai numa estridência súbita. — Deus nos livre que uma loja de chocolates venda ovos de Páscoa na Páscoa. — A voz dela é trémula, quase temerosa, embora eu não saiba de quê. O homem ruivo olha-me ferozmente. Ela recupera com esforço e o vislumbre de medo que eu julguei ver nela é engolido ao recobrar a compostura.

— Tenho a certeza de que há aqui lugar para nós os dois — diz ela calmamente. — Tem a certeza de que não quer um chocolate quente? Eu podia explicar-lhe o que que...

Abano a cabeça furiosamente, como um cão atormentado por vespas. Aquela calma dela enfurece-me e ouço uma espécie de zunido na minha cabeça, um desequilíbrio que faz com que tudo pareça girar b. minha volta. O cheiro cremoso do chocolate é enlouquecedor. Por um momento, os meus sentidos são estranhamente activados: sinto o perfume dela, um toque de alfazema, o cheiro quente e picante da pele dela. Por trás dela, uma lufada dos pântanos, um cheiro almiscarado a óleo de máquinas e suor e tinta do seu amigo ruivo.

— Eu... não... eu... — Como num pesadelo, esqueci-me do que queria dizer. Algo sobre respeito, imagino, pela comunidade. Sobre remar na mesma direcção, sobre rectidão, decência, sobre moralidade. Em vez disso, engoli ar com a cabeça em água.

— Eu... eu... — Não consigo deixar de pensar que ela é que está a fazer isto, a puxar os cordelinhos dos meus sentidos em todas as direcções, a chegar à minha mente... Ela inclina-se para diante, fingindo-se solícita, e o seu perfume volta a assaltar-me.

— Está bem? — Ouço a voz dela a uma grande distância. — Monsieur Reynaud, o senhor está bem?

Empurro-a com mãos trémulas.

— Não é nada — finalmente consigo falar. — Uma... indisposição. Não é nada. Despeço... — Tropeço cegamente na direcção da porta. Um saquinho vermelho pendurado na ombreira da porta zorra-me na cara — mais uma das suas superstições — e não consigo afastar a impressão absurda de que aquele objecto ridículo é responsável pela minha indisposição, ervas e ossos cerzidos e pendurados ali para me perturbarem o espírito. Cambaleio em direcção à rua à procura de fôlego.

A minha cabeça alivia-se mal é tocada pela chuva, mas continuo a caminhar. Caminhar.

 

Não parei até chegar aqui, mon père. O meu coração batia, a minha cara escorria suor, mas finalmente senti-me purgado da presença dela. Foi isto que o senhor sentiu, mon père, naquele dia na antiga sacristia? Era este o rosto da tentação?

Os dentes-de-leão estão a alastrar, as suas folhas amargas levantam a terra preta, as suas raízes brancas perfuram fundo e mordem forte. Em breve estarão em flor. Vou regressar a casa pela beira-rio, père, para observar a pequena cidade flutuante que neste exacto momento cresce, espalhando-se pelo Tannes inchado. Chegaram mais barcos desde a última vez que falámos, o rio está pejado deles. Quase se pode atravessá-lo a pé.

TODOS BEM-VINDOS

É isso que ela quer? Um ajuntamento dessa gente, uma celebração do excesso? Como nós lutámos para erradicar essas reminiscências de tradições pagãs, père, como lutámos e persuadimos. O ovo, a lebre, símbolos sobreviventes da raiz tenaz do paganismo, exposta tal como é. Durante uns tempos, fomos puros. Mas, com ela, a purga tem de recomeçar. Esta é uma estirpe mais forte, desafiando-nos uma vez mais. E o meu rebanho, o meu rebanho estúpido e crédulo, virando-se para ela, ouvindo-a... Armande Voizin. Michel Narcisse. Guillaume Duplessis. Joséphine Muscat. Georges Clairmont. Vão ouvir os seus nomes mencionados no sermão de amanhã juntamente com todos os outros que têm andado a dar-lhe ouvidos. O festival de chocolate é só uma parte de um todo nauseabundo, hei-de dizer-lhes. As amizades com os ciganos do rio. O modo como deliberadamente desafia os nossos costumes e práticas. A influência que tem nas nossas crianças. Todos os sinais, hei-de dizer-lhes, todos os sinais de um efeito insidioso da presença dela aqui.

Este festival dela há-de fracassar. Ridículo imaginar que possa ser bem sucedido com tão forte oposição. Hei-de pregar contra ele todos os domingos. Nomearei aqueles que colaborarem com ela e rezarei pela salvação deles. Os ciganos já. provocaram desassossego. O Muscat queixa-se que a presença deles afasta a clientela. O barulho do acampamento deles, a música, as fogueiras que tornam Les Marauds numa favela flutuante, o rio cintilando com óleo derramado, pedaços de lixo levados pela corrente. E a mulher tê-los-ia recebido, constou-me. Felizmente Muscat não se deixa intimidar por essa gente. Disse-me Clairmont que ele os pôs facilmente na rua a semana passada quando eles se atreveram a pôr os pés no seu café. Percebe, père, apesar de toda aquela bazófia, são uns cobardes. Muscat barrou-lhes o caminho que vem de Les Marauds para os dissuadir de passarem. A possibilidade de violência devia horrorizar-me, père, mas de certa forma acho-a bem-vinda. Podia dar-me o pretexto de que preciso para chamar a polícia de Agen. Devia voltar a falar com Muscat. Ele há-de saber o que fazer.

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