Chocolate
Capítulo 16
Quinta-feira, 26 de Fevereiro
Q uando abri esta manhã, Roux estava à porta. Trazia um fato-macaco de
ganga e tinha o cabelo atado atrás com um elástico. Tinha o ar de
quem estava a espera há algum tempo, pois o cabelo e os ombros estavam cobertos de gotículas de orvalho matinal. Dirigiu-me algo que não era exactamente um sorriso, depois espreitou por trás de mim para a loja onde Anouk estava a brincar.
— Olá pequenina — disse-lhe ele. Desta vez o sorriso iluminou-lhe por instantes o rosto desconfiado.
— Entre. — Fiz-lhe sinal para entrar. — Devia ter batido. Eu não o vi aí fora.
Roux resmungou qualquer coisa no seu forte sotaque marselhês e atravessou a soleira bastante inibido. Os seus movimentos são estranha e simultaneamente graciosos e toscos, como se não se sentisse a vontade dentro de portas.
Sirvo-lhe um copo de chocolate preto com kahlua.
— Devia ter trazido os seus amigos — digo-lhe em tom ligeiro.
Em resposta, encolhe os ombros. Noto como olha ao seu redor, fitando tudo com um interesse vivo, ainda que desconfiado.
— Por que é que não se senta? — pergunto-lhe, apontando para os bancos ao balcão. Roux abana a cabeça.
— Obrigado. — Um gole de chocolate. — O facto é que pensei que se calhar podia ajudar-me. Que podia ajudar-nos. — Parecia simultaneamente constrangido e zangado. — Não é dinheiro — acrescentou logo, como que para evitar que eu dissesse alguma coisa. — Nós pagávamos, não é isso. É só com a... organização... que estamos a ter problemas.
Lançou-me um olhar ressentido.
— Armande... Madame Voizin... disse que você nos ajudava — disse ele.
Explicou a situação e eu ouvi em silêncio, acenando de vez em quando laia de encorajamento. Comecei a perceber que aquilo que eu tinha interpretado como dificuldade de expressão era tão-só uma relutância profunda em ter de pedir ajuda. Com o seu sotaque cerrado, Roux falava como um homem inteligente. Prometera a Armande que lhe consertaria o telhado, explicou. Era um trabalho relativamente fácil que só levaria uns dois dias. Infelizmente, o único fornecedor local de madeira, tintas e outros materiais necessários para concluir a tarefa era Georges Clairmont, que se recusava liminarmente a atender quer Armande, quer Roux. Se a mãe quer o telhado consertado, dissera-lhe ele razoavelmente, então devia pedir-lhe a ele, não a um bando de itinerantes intrujões. Não é que ele não lhe andasse a pedir — implorar — há anos para o deixar fazer o trabalho de graça. É deixar os ciganos entrarem-lhe em casa e Deus sabe o que poderá acontecer-lhe. Valores pilhados, dinheiro roubado... Não seria a primeira vez que uma senhora de idade era agredida ou morta por causa dos seus escassos bens. Não. Era um esquema absurdo e a bem da sua consciência não podia...
— Filho da mãe do beato — disse Roux com rancor. — Não sabe nada a nosso respeito. Nada! Pela maneira como fala, somos todos uns ladrões e assassinos. Eu sempre paguei as minhas contas. Nunca pedi a ninguém, sempre trabalhei...
— Tome mais chocolate — sugeri com brandura, servindo-lhe outro copo. — Nem toda a gente pensa como o Georges e a Caroline Clairmont.
— Eu sei. — Tinha uma postura defensiva, de braços cruzados sobre o peito.
— Eu já recorri ao Clairmont para consertar coisas cá em casa — continuei. — Digo-lhe que quero fazer mais umas obras na casa. Dê-me uma lista do que precisa e eu vou buscar as coisas.
— Eu pago tudo — repetiu Roux, como se nunca fosse de mais esclarecer esta questão do pagamento. — O dinheiro não é realmente o problema.
— Claro.
Relaxou um pouco e bebeu mais chocolate. Pela primeira vez, pareceu dar-se conta de como era bom, e dirigiu-me um sorriso de uma doçura súbita e peculiar.
— Ela tem sido boa connosco, a Armande — disse. — Tem encomendado a mercearia para nós e remédio para o bebé da Zézette. Defendeu-nos quando aquele padre com cara de póquer voltou a aparecer.
— Não é o meu padre — interrompi logo. — Para ele, eu sou tão intrusa em Lansquenet como vocês. — Roux olhou-me espantado. — Sim, é verdade. Acho que ele me considera uma influência perversa. Orgias de chocolate todas as noites. Excessos da carne quando as pessoas decentes deviam estar na cama, sozinhas.
Os olhos dele têm aquela cor incerta de um céu citadino à chuva. Quando se ri, eles brilham com malícia. Anouk, que estivera sentada em raro silêncio enquanto ele falava, respondeu e riu-se também.
— Quer pequeno-almoço? — perguntou Anouk na sua vozinha flauteada. — Temos pain au chocolat. E croissants também, mas o pain au chocolat é melhor.
Ele abanou a cabeça.
— Acho que não. Obrigado.
Pus um bolo num prato ao lado dele.
— Por conta da casa — disse-lhe. — Experimente um, sou eu que os faço.
Por qualquer razão, não pareceu um comentário acertado. Observei como o seu rosto se voltou a contrair, com aquele brilho de humor substituído pelo olhar agora familiar de uma inexpressividade cautelosa.
— Posso pagar — disse ele numa espécie de desafio. — Tenho dinheiro. — Tentou tirar uma mão-cheia de moedas do bolso do fato-macaco. As moedas rolaram sobre o balcão.
— Arrume isso — disse-lhe eu.
— Já lhe disse que posso pagar. — Teimoso agora, fervendo de raiva. — Não preciso... — Pus a minha mão sobre a dele. Senti a resistência por momentos, depois os seus olhos fixaram os meus.
— Ninguém precisa de nada — disse-lhe com gentileza. Apercebi-me de que ferira o seu orgulho com a exibição da minha amizade. — Eu convidei-o. — O olhar de hostilidade permaneceu inalterável. — Fiz o mesmo com toda a gente — insisti. — Caro Clairmont. Guillaume Duplessis. Até Paul-Marie Muscat, o homem que correu convosco do café. — Um segundo de pausa para ele reter a informação. — O que é que o torna tão especial que o leva a rejeitar quando nenhum deles o fez?
Pareceu então envergonhado, resmungando qualquer coisa entredentes no seu dialecto cerrado. Depois os seus olhos voltaram a fitar os meus e sorriu.
— Desculpe — disse ele. — Não percebi. — Parou por momentos, desajeitamente, antes de pegar no pastel. — Mas para a próxima vez vocês são as convidadas em minha casa — disse com firmeza. — E eu vou ficar muito ofendido se recusarem.
Esteve vontade a partir daí, perdendo muito do seu constrangimento. Falimos de assuntos neutros durante um bocado mas a conversa depressa se encaminhou para outras coisas. Fiquei a saber que vivia no rio há seis anos, primeiro sozinho e depois viajando com um grupo de companheiros. Trabalhara na construção antes e ainda ganhava um dinheiro fazendo biscates e trabalhando nas colheitas no Verão e no Outono. Deduzi que problemas o haviam forçado a optar por uma vida itinerante, mas sabia que não era boa ideia tentar saber os pormenores à força.
Saiu logo que os meus primeiros clientes habituais chegaram. Guillaume cumprimentou-o educadamente e Narcisse dirigiu-lhe um pequeno aceno de boas-vindas mas não convenceu Roux a ficar e conversar com eles. Em lugar disso, atafulhou a boca com o que ainda tinha do seu pain au chocolat e saiu da loja com aquele ar insolente e distante que ele acha que tem de mostrar diante de estranhos.
Ao chegar porta, virou-se abruptamente.
— Não se esqueça do convite — disse, como que pensando melhor. — Sábado noite, às sete. Traga a pequenina.
E desapareceu antes que eu pudesse agradecer-lhe.
Guillaume demorou-se mais do que o costume a tomar o seu chocolate. Narcisse cedeu o seu lugar a Georges, depois Arnaud veio comprar três trufas de champanhe — sempre o mesmo, três trufas de champanhe e depois aquele ar culpado — e Guillaume sentou-se no lugar do costume, com um ar preocupado no rosto de feições miúdas. Por várias vezes tentei arrancar-lhe qualquer coisa mas ele respondeu em monossílabos bem-educados, com o pensamento noutro lado. Debaixo do seu banco, Charly estava manco e imóvel.
— Falei com o Curé Reynaud ontem — disse por fim, tão abruptamente que estremeci. — Perguntei-lhe o que é que eu devia fazer em relação a Charly.
Olhei-o inquisitivamente.
— É difícil explicar-lhe a ele — prosseguiu Guillaume na sua voz suave e precisa. — Ele acha que eu estou a ser teimoso recusando-me a acatar o que o veterinário diz. Pior ainda, acha que estou a ser tolo. Afinal, o Charly não é uma pessoa. — Uma pausa durante a qual era audível o esforço que fazia para não se descontrolar.
— Está assim tão mal?
Já sabia a resposta. Guillaume olhou-me com olhos tristes.
— Acho que sim.
— Percebo.
Baixou-se automaticamente para coçar a orelha de Charly. A cauda do cão batia à toa e gania baixinho.
— Cão bem-educado. — Guillaume deu um dos seus sorrisos breves e confusos. — O Curé Reynaud não é mau homem. Não quis ser cruel. Mas dizer aquilo, daquela maneira...
— O que é que ele disse?
Guillaume encolheu os ombros. — Disse-me que há anos que eu pareço tolinho por causa daquele cão. Que tanto lhe fazia o que eu faço mas que era ridículo mimar o animal como se fosse um ser humano e desperdiçar o meu dinheiro em tratamentos inúteis com ele.
Senti-me espicaçada de raiva.
— Mas que coisa perversa.
Guillaume abanou a cabeça.
— Ele não compreende — disse ele outra vez. — Não gosta de animais. Mas eu e o Charly já estamos juntos há tanto tempo... — Lágrimas assomaram-lhe aos olhos e ele sacudiu a cabeça abruptamente para as esconder.
— Vou agora ao veterinário, mal acabe de beber. — O seu copo estava vazio sobre o balcão há mais de vinte minutos. — Não deve poder ser hoje, pois não? — Havia uma nota de quase desespero na sua voz. — Ele ainda está bem-disposto. Ultimamente tem andado a comer melhor, sei que tem. Ninguém me pode obrigar a fazer isso. — Agora parecia uma criança rabugenta. — Eu hei-de saber quando chegar a altura. Hei-de saber.
Não havia nada que eu pudesse dizer para o ajudar. Tentei, mesmo assim. Baixei-me para fazer festas a Charly, sentindo pele e osso sob o movimento dos meus dedos. Há coisas que se podem curar. Aqueci os meus dedos, sondando delicadamente, tentando ver... O caroço já parecia maior. Eu sabia que não havia nada a fazer.
— É o seu cão, Guillaume — disse-lhe. — Você é quem sabe.
— Exacto. — Pareceu animar-se por um momento. — O remédio alivia-lhe a dor. Já não passa a noite a ganir.
Pensei na minha mãe nos seus últimos meses. A palidez, o modo como a carne se desprendia dela revelando uma beleza delicada de ossos descarnados, pele desossada. Os olhos febris e brilhantes: Florida, querida. Nova Iorque, Chicago, o Grand Canyon, tanto para ver! — os gritos furtivos na noite.
— A partir de certa altura, tem de se parar — disse eu. — Não adianta. Escondendo-se atrás de justificações, estabelecendo objectivos imediatos para deixar ir passando a semana. A partir de certa altura, é a falta de dignidade que dói mais do que qualquer outra coisa. É preciso descansar.
Cremada em Nova Iorque: cinzas lançadas no porto. Engraçado, como sempre imaginamos morrer na cama, rodeados das pessoas mais próximas. Em vez disso, quantas vezes, antes acontece o encontro breve e perturbador, a súbita percepção, a corrida em pânico e em câmara lenta com o sol erguendo-se por trás como um pêndulo oscilando continuamente por muito que se tente ultrapassá-lo.
— Se eu pudesse escolher, era esta que escolhia. A agulha indolor. A mão amiga. Melhor isso do que sozinha à noite, ou debaixo das rodas de um táxi numa rua onde ninguém pára para olhar para trás. — Dei-me conta que, sem querer, tinha falado alto. — Desculpe, Guillaume — disse eu, notando o seu choque. — Estava a pensar noutra coisa.
— Tudo bem — disse ele devagar, colocando as moedas sobre o balcão à sua frente. — Eu já estava de saída, assim como assim.
E pegando no seu chapéu com uma mão e em Charly com a outra, saiu, mais cabisbaixo do que o costume, uma figurinha tristonha carregando o que poderia ser considerado um saco de mercearia ou uma gabardina velha ou qualquer outra coisa.
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