Jack Definitivo: Segredos do Executivo do Século

25. Breves Reflexões sobre o Golfe

SÓ ALGUNS PENSAMENTOS - COISAS QUE FUNCIONARAM PARA mim, além de muita sorte.

 

NOS ÚLTIMOS 24 ANOS, MANTIVE UMA ESPÉCIE DE AMULETO — uma maleta de couro marrom — que me acompanhou em todos os lugares. Minha assistente, Rosanne, apelidou-a de “Mr. Lucky”. Ganhei a maleta no torneio de golfe de Atlanta, em 1977, ano em que vim para Fairfield. Ela já teve seus dias de glória. Hoje, está enrugada e arranhada, ou, como Rosanne gosta de dizer: “Está ensebada e parece acabada.” Dei-me muitíssimo bem com Mr. Lucky. A maleta foi boa para mim e nunca a deixei de lado. A única vez em que saiu de minhas vistas foi quando Rosanne a levou com ela para costurar um rasgão. Não que eu seja muito supersticioso. Apenas não quis abusar da sorte.

No dia em que me desliguei da sede corporativa, Mr. Lucky estava comigo. Como meu amigo Larry Bossidy sempre diz a respeito da maleta: “E o Jack. Ele não precisa de uma nova. Esta veio com ele. E esta também irá embora com ele.”

 

25. Breves Reflexões sobre o Golfe

SER CEO DA GE FOI A MAIOR EMPOLGAÇÃO DE TODA A minha vida. Outra carreira que muito me atrai é a de golfista profissional. Desde que entrei no jogo como carregador de tacos, no Kemwood Country Club, em Salem, o golfe tem sido uma das grandes paixões. Meu pai, que me iniciou no jogo, estava certo: ao contrário do hóquei e do futebol, que joguei quando criança, o golfe me acompanharia pelo resto da vida.

Este é um esporte que combina o que eu mais amo: pessoas e competição. As amizades mais duradouras de minha vida se desenvolveram nos campos de golfe. Todo golfista que já acertou certas tacadas, como um solid tee shot ou putt de 14 pés, conhece a sedução do esporte.

Sou em boa parte um jogador autodidata. Comecei aos nove anos, jogando com os carregadores de tacos mais velhos, em Kemwood. Levando comigo meia dúzia de tacos cambetas, tinha sorte se completava o percurso com menos de 120 tacadas. Se quisesse um pouco mais de tempo para jogar, além de umas poucas horas nas manhãs de segunda-feira — o dia dos carregadores de taco — tinha de entrar sorrateiramente no gramado.

No golfe, tudo parece acontecer de trás para diante. Naquela época, daria o braço direito por uns bons tacos. Hoje, recebo conjuntos gratuitos dos melhores tacos e tive a sorte de jogar em alguns dos mais espetaculares campos de golfe do mundo.

Mas acho que nunca perdi o jeito de carregador de tacos. No verão de 2000, surpreendi-me de novo arrastando um saco de tacos — aos 64 anos de idade — para meu neto de sete anos, Jack, em um torneio júnior em Sankaty Head Golf Club, em Nantucket.

O pequeno Jack exibiu um swing melhor do que o meu logo de saída. Cresci com um swing típico de carregador de tacos — seco, sem muito estilo, e com o grip errado. Simplesmente arremessava a bola, como se estivesse jogando hóquei. Nunca me exercitei com afinco. Queria entrar no campo e jogar. Fui co-capitão da equipe em Salem High e joguei como calouro na universidade.

Meus companheiros de golfe dizem de brincadeira que ouço de todo o mundo palpites sobre como melhorar meu desempenho — jogadores, carregadores de tacos, funcionários do vestiário e até mesmo de garçons. Toda sugestão vale uma tentativa. A nova marca de bola, a última palavra em tacos — qualquer coisa talvez represente uma tacada um pouco mais longa. Para conselhos profissionais, recorro a Jerry Pittman, ex-jogador profissional em Seminole, um ótimo campo de golfe na Flórida. Volta e meia lhe pergunto:

— Como conseguir mais 100 jardas no meu drive?

E ele às vezes retruca:

— Você está com que idade? Quantos anos você tinha no ano passado? Por que não admite que está ficando velho?

Não quero reconhecer a idade porque estou convencido de que sou capaz de melhorar.

Sempre foi assim. O golfe é um jogo onde sempre se procura a ilusão da perfeição. Para quem gosta do toma-lá-dá-cá de uma partida — e eu sem dúvida estou entre os aficionados — o jogo é de fato uma boa.

Não consigo imaginar um esporte mais social. Jogando golfe, conheci alguns dos melhores seres humanos do mundo: alguns deles se tornaram amigos eternos. John Kreiger, do Berkshire Hills Country Club, em Pittsfield, 40 anos atrás; Anthony “Lofie” LoFrisco e Carl Warren, do Silver Spring Country Club, em Ridgefield, Connecticut, 25 anos atrás; e Jacques Wullschleger, do Sankaty Head, 15 anos atrás.

No trabalho, formei um grande foursome * ao longo dos anos, com Chuck Chadwell e Dave Calhoun, de motores de aviação, e Bill Meddaugh, da GE Supply. Somos jogadores mais ou menos do mesmo nível e competimos como o diabo — pelo menos 36 e, às vezes, 54 buracos por dia. (Em alguns anos, seus bônus de fim de ano foram reduzidos por “motivos não-especificados”.)

Como CEO da GE, tive acesso a muitas pessoas interessantes nos campos de golfe. Nessas ocasiões, o programa não se limitou a belas manhãs e tardes ensolaradas. Também renderam ótimas histórias. Lembro-me de uma partida em Nantucket, com Warren Buffett, Bill Gates e meu amigo Frank Rooney, que tinha vendido a Warren a empresa de sapatos da esposa. Bill e eu jogamos contra Warren e Frank.

Chegamos ao fim do primeiro buraco e Warren acertou um putt, dentro do

par. **

— Bem — disse Bill, — o jogo acabou.

— O que? — perguntei confuso.

Bill me explicou que ele e Warren tinham feito uma aposta. O primeiro que atingisse o par em qualquer buraco ganharia um dólar. Se chegassem ao nono buraco, sem um par, a pontuação mais próxima do par seria vencedora. E lá estava eu, com os dois homens mais ricos do mundo, que haviam apostado um dólar no jogo.

Por um instante, cheguei a pensar que eles de fato voltariam à sede do clube.

Outro incidente engraçado envolveu Frank Rooney, ex-chairman da Melville. Há anos ele tem um contrato com Warren para trabalhar um dia por semana. Em certa ocasião, joguei com Frank e ele completou o percurso com o escore de 78 tacadas, quase sua idade. E ainda caiu na minha pele.

Depois, enviei um bilhete a Warren sobre o jogo e me queixei de que seus empregados obviamente não estavam trabalhando muito.

Warren respondeu-me. “Nenhum empregado da Berkshire Hathaway passa da marca dos 80, e não tenho lembrança de nenhum Rooney na minha folha de pagamento”, escreveu.

O golfe chegou a ponto de me dar um membro do conselho de administração. Cerca de três anos atrás, a Golf Digest publicou uma lista de CEO golfistas e classificou Scott McNealy, da Sun Microsystems, no primeiro lugar da lista. De algum modo, eu estava logo depois dele. Scott logo me lançou um desafio: “Se vou ser o número um, quero ter a certeza de que de fato sou o número um. Jack, escolha o lugar — a qualquer hora, onde você quiser, mano a mano, e vamos acertar isso de uma vez por todas.” Telefonei para ele no momento em que li a mensagem. Marcamos a data. Scott foi bastante generoso e veio a Nantucket naquele verão para uma partida de 36 buracos, que eu ganhei. Duas semanas depois, Scott enviou-me um troféu com a inscrição Welch Cup (Copa Welch). Venci-o de novo em Augusta, no ano seguinte, em 36 buracos e continuei com o troféu. No ano passado, ele ganhou uma partida “abreviada” de 18 buracos, e o troféu agora está na Califórnia. (Ele fica furioso quando chamo o último jogo de “partida abreviada”.)

Apenas depois de vencê-lo pela primeira vez, convidei Scott para o conselho de administração da GE. Foi uma época oportuna — justamente quando estávamos a ponto de lançar nossa iniciativa de e-business.

Tive sorte. Scott apareceu justamente quando meu jogo estava melhorando. Durante boa parte de todos esses anos de golfe, limitei-me a empurrar a bola no campo, percorrendo laboriosamente os 18 buracos e sobrevivendo apenas por causa de minhas boas tacadas curtas.

Só depois que me casei com Jane em 1989 meu jogo subiu de nível. Na época, tinha um handicap em torno de dez, mas enquanto lhe ensinava o jogo, meu próprio desempenho melhorou muito. A certa altura, meu handicap reduziu-se para dois ou três e consegui ganhar dois torneios em Sankaty Head. Antes de conhecer Jane, era nocauteado no primeiro ou no segundo round.

Não me dava conta disso, mas, quando comecei a treiná-la, reduzi a velocidade de meu jogo e passei a analisar meu próprio swing. A recomendar-lhe que alongasse o back swing, percebia que também tinha de fazer o mesmo. E, assim, empenhei-me em ampliar o movimento para trás e em melhorar minha terminação. Até então, nunca concluía um swing.

Agora fico dizendo a mim mesmo, Fred Couples, Fred Couples, Fred Couples, quando me preparo para dar a tacada na bola. Acho que Couples tinha uma grande terminação e sempre tentava inspirar-me na imagem mental daquele swing, ao prosseguir no movimento da tacada até o fim. Ensinar a Jane ajudou-me a desdobrar cada elemento e a concentrar-me na mecânica. Ao tornar-me mais consciente do aspecto técnico, parei de ratear no fim do primeiro round. Comecei a jogar melhor e a gostar ainda mais do jogo.

Em 1992, joguei 36 buracos por dia, durante dez dias seguidos, no Sankaty Head, antes do torneio. Reduzi meu handicap para dois e ganhei o campeonato.

Dois anos depois, consegui ganhar de novo. Cheguei à final com meu amigo Jacques Wullschlcger. Ele é um tremendo golfista. Nesses últimos dezesseis anos, jogamos uns 40 a 50 rounds por ano juntos. Ele é capaz de ganhar-me 99 em cada 100 vezes. Felizmente para mim, minha única chance em cada 100 ocorreu em 1994, no campeonato do clube. Ganhei na morte súbita, num putt de quinze pés, no trigésimo-sétimo buraco, com uma birdie (uma tacada abaixo do par).

Jacques é alguém muito especial. Depois de perder para mim, ele passou dias entalhando em madeira um farol de Sankaty que me deu de presente, como lembrança da ocasião.

De todos os meus jogos, o mais comemorado foi na primavera de 1998, no Floridian, campo de Wayne Huizenga, na Flórida. Matt Lauer, co-anfitrião do programa Today, conhecia o profissional de golfe Greg Norman e convidou-o para jogar com a gente. Foi uma partida amistosa, na qual Greg demonstrou alto espírito esportivo, ao jogar com um bando de jogadores medíocres. Greg, apenas de brincadeira, marcou 70, 2 tacadas abaixo do par. Matt ficou em 78.

Naquele dia, consegui um escore mais baixo do que o de Greg, 69 contra os 70 dele. Para mim, foi um dia empolgante. Acho que contei a história a todo o mundo e transmiti por fax a folha de marcação para muita gente. Na reunião do Business Council, uma semana depois, sempre que alguém me perguntava pelo meu jogo de golfe, dizia: “Espera um minuto”, e tirava do bolso a folha de marcação.

Greg também se divertiu muito com a história. Ele assinou minha folha de marcação e me permitiu exibi-la, embora tenha sido apenas um amistoso. Acho que levei aquilo muito longe, sobretudo depois que minha “vitória” apareceu em revistas e jornais, e até mesmo Don Imus passou a comentá-la no rádio.