Macbeth
Capítulo 6
Lady e Macbeth haviam se conhecido numa noite de verão quatro anos antes. Um daqueles raros dias em que o sol brilhava num céu sem nuvens, e Lady teve certeza de haver escutado um passarinho cantando de manhã. Mas, quando o sol se pôs e o turno da noite começou, uma lua malévola se ergueu acima do Inverness. Ela estava na entrada principal do cassino, banhada pelo luar, quando ele desceu de um blindado do GOE. — Lady? — chamou ele, olhando bem dentro dos olhos dela. O que ela viu? Força e determinação? Talvez. Ou quem sabe porque era o que ela queria ver naquele momento? Ela assentiu, achando que ele parecia um pouco jovem demais. Achando que o homem que vinha atrás, mais velho, de cabelos brancos e olhos calmos, parecia mais adequado para a missão. — Sou o inspetor Macbeth. Alguma mudança na situação, senhora? — Não. — Certo. Há um lugar de onde possamos vê-los? — O mezanino. — Banquo, reúna os homens enquanto faço o reconhecimento. Antes de subirem a escada, o jovem policial a orientou, num sussurro, a tirar os sapatos de salto alto para fazer menos barulho. Ela deixaria de estar mais alta que ele. No mezanino, primeiro ficaram na parte de trás, perto das janelas que davam para a Praça dos Operários, para não serem vistos do salão de jogos no piso abaixo. A certa altura, avançaram para a balaustrada. Estavam parcialmente escondidos pelo cabo do lustre central e pela autêntica armadura maximiliana do século XVI que ela havia adquirido em um leilão em Augsburgo. A ideia era que, quando os apostadores se defrontassem com o cavaleiro lá em cima, tivessem a sensação de estar sendo protegidos ou vigiados — caberia à consciência de cada um decidir. Lady e o policial se agacharam e espiaram lá embaixo, de onde clientes e funcionários haviam fugido em pânico apenas vinte minutos antes. Quando acontecera, Lady estava no terraço admirando a lua cheia, e instantaneamente sentiu que havia acontecido algo ruim quando ouviu o estrondo e a gritaria. Ela desceu e segurou um dos garçons que fugiam. Ele lhe disse que alguém tinha disparado contra o lustre e agora fazia Jack de refém.
Ela já havia calculado o preço de um novo lustre, mas, obviamente, não seria nada se comparado com os custos envolvidos caso disparassem outra vez a arma — que naquele momento estava apontada para a cabeça de Jack, seu melhor crupiê. Afinal, parte do que seu cassino oferecia era divertimento em um ambiente seguro e livre de preocupações; quem entrava ali podia, por um tempo, não pensar na criminalidade das ruas. Se a impressão que ficasse daquele atentado fosse a de que o Inverness não oferecia nada disso, o salão de jogos permaneceria tão vazio quanto agora. Os dois que ainda se encontravam lá embaixo estavam sentados à mesa de blackjack, abaixo do mezanino do outro lado. Um deles era o coitado do Jack, duro como uma trave e branco feito papel.
Bem atrás dele, apontando-lhe uma arma, o cliente.
— Seria difícil disparar a essa distância, com ele escondido atrás do seu crupiê — sussurrou Macbeth, tirando uma pequena luneta do bolso do uniforme preto. — Temos que chegar mais perto. Quem é ele e o que ele quer?
— Ernest Collum. Disse que vai matar Jack se não devolvermos tudo que ele perdeu no cassino.
— E é muito?
— Mais do que temos em dinheiro aqui. Collum é um dos viciados em jogos. É também engenheiro e um gênio dos números, por isso ele conhece as probabilidades. Esses são os piores. Eu disse pra ele que íamos tentar arrumar o dinheiro, mas os bancos estão fechados, então demoraria um pouco.
— Não temos tempo pra isso. Vou avançar.
— Como você sabe disso?
Macbeth se levantou e guardou a luneta.
— Pelas pupilas. Ele está drogado e vai atirar — respondeu Macbeth, apertando um botão no rádio comunicador. — Código quatro-seis. Agora. Assuma o comando, Banquo. Desligo.
— Banquo no comando. Câmbio e desligo.
— Vou com você — disse Lady, indo atrás de Macbeth.
— Não acho que...
— Esse é o meu cassino. Meu Jack.
— Escuta, minha senhora...
— Collum me conhece, e mulheres o acalmam.
— Isso é um assunto da polícia — disse Macbeth, e saiu em disparada escada abaixo.
— Estou indo — disse Lady, correndo atrás dele.
Macbeth parou de repente e a encarou.
— Olha pra mim — falou ele.
— Não, olhe você pra mim — retrucou ela. — Acha mesmo que não vou com você? Ele está esperando que eu leve o dinheiro.
Macbeth a encarou. Ele tinha algo no olhar. Olhou para ela de um jeito que outros homens haviam olhado, sim, mas também de uma forma que nenhum homem ou nenhuma mulher jamais fizera. Eles olhavam para ela com medo ou admiração, respeito ou desejo, ódio, amor ou subserviência, e a mediam com os olhos, julgavam-na, equivocadamente ou não. Mas aquele jovem olhou para ela como se finalmente tivesse encontrado alguma coisa. Algo que reconheceu. Algo que ele vinha procurando.
— Vem, então — disse ele. — Mas tem que ficar de boca fechada, senhora.
O carpete espesso amorteceu o som dos passos deles quando chegaram ao salão.
A mesa à qual os dois homens se sentavam estava menos iluminada que o habitual, por causa do lustre quebrado. O rosto de Jack, enrijecido numa expressão de espanto, não se alterou quando ele viu Lady e Macbeth vindo em sua direção. Lady viu o cão da arma subir.
— Quem é você? — perguntou Collum, numa voz arrastada.
— Inspetor Macbeth, do GOE — respondeu ele, puxando uma cadeira. Ao se sentar, ele apoiou a palma das mãos no tampo da mesa, deixando-as bem visíveis. — Meu trabalho aqui é negociar com você.
— Não temos nada pra negociar, inspetor. Venho sendo enganado por esse maldito cassino há anos. Eles me levaram à falência. Usam cartas marcadas. Ela marca as cartas.
— E você chegou a essa conclusão depois de usar brew? — indagou Macbeth, tamborilando sem fazer ruído no feltro da mesa. — Essa droga distorce a realidade, você sabe disso.
— A realidade, inspetor, é que eu tenho uma arma e uma ótima visão. Então, se você não me der o dinheiro, primeiro vou atirar no Jack aqui, depois em você, quando for pegar uma arma, depois nessa tal de Lady aí, que então vai tentar fugir ou me segurar, mas aí vai ser tarde demais pra qualquer uma dessas opções. E, dependendo do meu ânimo, talvez eu atire em mim mesmo, depois de despachar vocês três pro inferno e mandar tudo pelos ares. — Ele riu. — Não estou vendo nenhum dinheiro, então declaro essas negociações canceladas. Agora, vamos começar...
O cão da arma subiu, ficou mais alto. Lady automaticamente fez uma careta e esperou o estrondo do tiro.
— Dobra ou perde — disse Macbeth.
— Perdão? — disse Collum.
Linguagem impecável. Barba impecável e terno impecável, com uma camisa branca muito bem-passada. Lady supôs que suas roupas de baixo fossem igualmente limpas. Ele sabia que dificilmente sairia dali carregando a maleta cheia de dinheiro. Seria levado tão falido quanto ao entrar. Mas, bem, impecável.
— Vamos jogar uma partida de blackjack. Se você ganhar, leva toda a grana que perdeu aqui, em dobro. Se eu ganhar, fico com a sua arma e toda a munição, e você abre mão de todas as exigências.
Collum deu uma gargalhada.
— Você está blefando!
— A maleta com o dinheiro que você pediu já chegou e está na viatura, lá fora. A proprietária disse que está disposta a dobrar o valor se fecharmos esse acordo. Porque a gente sabe que tem acontecido algumas trapaças nas cartas. Que a justiça seja feita. O que você me diz, Ernest?
Lady olhou para Collum, para seu olho esquerdo, que era o único visível atrás da cabeça de Jack. Ernest Collum não era idiota; muito pelo contrário. Ele não tinha caído na história da maleta. Mas... Às vezes parecia que os clientes mais inteligentes eram os que se recusavam a ver a inevitabilidade do acaso. Mais dia, menos dia, todos estavam condenados a perder para o cassino.
— Por que você faria isso? — perguntou Collum.
— E aí? O que me diz? — insistiu Macbeth.
Collum esperou alguns instantes para responder:
— Eu sou o crupiê; você, o jogador — disse ele. — Ela dá as cartas.
Lady olhou para Macbeth, que assentiu. Ela pegou o baralho, o embaralhou e botou duas cartas diante de Macbeth, viradas para cima.
Um seis. E o rei de copas.
— Saudosos 16 — falou Collum, sorrindo.
Lady colocou duas cartas na frente de Collum, uma delas virada para cima. Ás de paus.
— Mais uma — disse Macbeth, estendendo a mão.
Lady lhe deu a carta de cima. Macbeth segurou-a contra o peito e deu uma espiadinha. Olhou para Collum.
— Parece que você estourou, saudosos 16 — disse Collum. — Vamos ver.
— Ah, estou bem satisfeito com a minha mão — disse Macbeth, sorrindo para Collum.
Então ele atirou a carta para a direita, onde uma parte da mesa estava parcialmente na sombra. Instintivamente, Collum se inclinou um pouquinho para ver melhor a carta.
O resto aconteceu tão rápido que Lady se recordava como se num flash. O flash da mão em movimento, o flash do aço refletindo a luz ao voar para o outro lado da mesa, o flash do olho de Collum encarando-a, arregalado em escancarado protesto, a luz cintilando na cascata de sangue que escorria dos dois lados da lâmina que cortara a carótida dele. Depois, os sons. O som abafado da arma atingindo o tapete espesso, caríssimo. O sangue espirrando na mesa. O gorgolejo profundo de Collum quando seu olho esquerdo se apagou. O único e entrecortado soluço de Jack.
E ela se recordava das cartas. Não do ás nem do seis. Do rei de copas. E, parcialmente oculta na sombra, a rainha de espada. As duas respingadas com o sangue de Ernest Collum.
Eles entraram com o uniforme preto, rápidos, silenciosos, obedecendo a todos os gestos de comando dele. Não tocaram em Collum, mas levaram para fora um lacrimoso Jack. Ela recusou ajuda. Ficou sentada observando a cabeça do jovem do GOE que se recostava na cadeira com ar satisfeito. Como alguém que julgava ter a última sequência de cartas vencedora.
— Collum vai tirar a última sequência vencedora — disse ela.
— O quê?
— A não ser que a encontremos.
— Encontrar o quê?
— Não ouviu o que ele disse? Depois de despachar vocês três pro inferno e mandar tudo pelos ares .
Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos. Primeiro, com surpresa; depois, com algo diferente. Reconhecimento. Respeito. Até que gritou:
— Ricardo! Tem uma bomba!
Ricardo era um sujeito de olhar e movimentos seguros, de ordens ditas em tom suave. Tinha a pele tão negra e lustrosa que Lady julgou ver a si mesma refletida nele. Ricardo e seus homens levaram quatro minutos para encontrar o que procuravam, dentro de uma cabine do banheiro trancada por dentro. Uma mala com estampa de zebra que Collum havia trazido para dentro depois que o porteiro checara o conteúdo. Alegara serem quatro barras de ouro. Pretendia usá-las como aposta na mesa de pôquer exclusiva, onde os apostadores — antes de a prática ser proibida — aceitavam dinheiro, relógios, alianças, escrituras de hipoteca, chaves de carro e qualquer outro objeto, desde que todos os jogadores concordassem. Por trás das barras de ferro pintadas de ouro, o engenheiro Collum, gênio dos números, havia instalado uma bomba-relógio caseira, que o especialista em explosivos do GOE viria a elogiar pela técnica empregada. Lady não lembrava exatamente quantos minutos restavam no timer. Mas se lembrava das cartas.
O rei de copas e a rainha de espadas. Naquela noite em que se conheceram sob uma lua cruel.
Lady o convidou para jantar no cassino na noite seguinte. Ele aceitou, mas recusou a bebida. O vinho, pois aceitou a água. A mesa foi posta no mezanino com vista para a praça, onde a chuva caía devagar e escorria em silêncio por entre os paralelepípedos que levavam da estação ferroviária ao Inverness. Os arquitetos haviam construído a Estação Central alguns metros acima do nível da rua, pois achavam que o peso dos mármores e de trens como Bertha fariam o chão afundar no terreno pantanoso e constantemente encharcado da cidade.
Conversaram sobre uma coisa e outra. Evitaram qualquer assunto mais pessoal. Evitaram o que havia ocorrido na véspera. Em suma, foi bem agradável. E, ainda que os modos dele ficassem a dever, Macbeth os superou sendo encantador e espirituoso. E excepcionalmente atraente no terno cinza um pouco justo demais, que ele disse ter ganhado de seu colega mais velho, Banquo. Ela ouviu histórias sobre o orfanato, sobre um amigo chamado Duff e sobre um circo itinerante ao qual se juntara num verão, quando garoto. Sobre o domador de leões, um cara nervoso que vivia resfriado; sobre as irmãs magrelas que eram trapezistas e comiam apenas alimentos oblongos; sobre o mágico que chamava ao palco pessoas da plateia e fazia com que objetos que eles traziam — aliança, chave, relógio —, pairassem no ar bem diante de seus donos. E ele a ouviu com interesse quando ela falou sobre o cassino que havia erguido do zero. Finalmente, quando Lady sentiu que tinha contado tudo o que poderia ser contado, ergueu sua taça de vinho e perguntou:
— Por que você acha que ele fez isso?
Macbeth deu de ombros.
— A brew do Hécate leva as pessoas à loucura.
— Nós o levamos à falência, é verdade, mas não por marcarmos as cartas.
— Eu imaginei que ele estivesse errado.
— Mas dois anos atrás tivemos dois crupiês que, em conluio com alguns jogadores na mesa de pôquer, roubavam outros apostadores. Claro que eu os expulsei daqui, mas ouvi falar que eles se uniram a alguns investidores e solicitaram autorização na prefeitura pra abrir um novo cassino.
— O Obelisco? É, eu vi a planta baixa.
— Talvez você também saiba que alguns dos jogadores que armavam com eles eram políticos e homens do Kenneth.
— Ouvi falar, sim.
— Então o cassino será construído. E pode ter certeza de que pessoas como Ernest Collum terão boas razões pra se sentir enganadas.
— Infelizmente acho que você tem razão.
— Essa cidade precisa de uma nova liderança. De um recomeço.
— Bertha — disse Macbeth, apontando para a janela que dava para a estação, onde a velha locomotiva preta reluzia debaixo da chuva, instalada na entrada principal sobre uma estrutura oito metros acima dos trilhos originais que corriam para Capitol. — Banquo acha que ela precisa voltar a funcionar. Que precisamos de uma atividade nova, saudável. E também acha que a cidade tem potencial.
— Vamos torcer pra isso. Mas, voltando à noite passada...
Ela ficou brincando com a taça de vinho. Sabia que ele olhava para seu decote. Estava acostumada a isso, não a fazia se sentir nem um pouco especial. Apenas sabia que seus atributos femininos às vezes podiam ser usados, e às vezes não deveriam ser usados, como qualquer recurso de negócios. Mas os olhos dele eram diferentes. Ele era diferente. Não que precisasse dele, era apenas um policial atencioso com muitos degraus a galgar, mas então por que estava gastando seu tempo com ele? Claro que poderia ter-lhe agradecido com outra coisa que não sua presença. Ela observou a mão dele ao pegar o copo de água. Veias salientes na pele bronzeada. Ele fazia questão de sair da cidade sempre que possível. perto, mas, felizmente, as adagas que uso são balanceadas. É mais difícil atirar, pra quem não tem muita experiência, mas, pra alguém experiente, é mais fácil ajustar a rotação. O segundo problema era que Collum estava sentado numa posição que só me permitia alcançar a artéria pelo lado esquerdo do rosto. Ou seja, eu teria que atirar com a mão direita. E, como você pode ver, sou canhoto. Então eu precisaria de um pouco de sorte. E geralmente não tenho sorte. Falando nisso, qual era a carta?
— O que você teria feito se Collum não tivesse aceitado o blackjack?
— Não sei — respondeu Macbeth, olhando para ela.
Olhos castanhos. As pessoas naquela cidade tinham olhos azuis, mas é claro que ela já havia conhecido homens de olhos castanhos. Mas não como aqueles. Não assim tão... intensos. Mas ainda vulneráveis. Meu Deus, será que estava se apaixonando? A essa altura da vida?
— Não sabe?
— Você disse que ele era um viciado, então tive esperança de que não conseguisse resistir à tentação de jogar mais uma vez. De apostar tudo.
— Você já esteve em muitos cassinos, dá pra notar.
— Não. — Ele riu. Um riso de menino. — Eu nem sabia se as minhas cartas eram boas.
— Dezesseis contra um ás? Eu diria que não. Mas como você tinha tanta certeza assim de que ele toparia jogar? Aquela sua história não foi nada convincente.
Ele deu de ombros. Ela baixou o olhar para o vinho. E viu o que já sabia: ele entendia o que era o vício.
— Em algum momento você se perguntou se ia conseguir detê-lo antes de ele atirar em Jack?
— Sim.
— É?
O jovem policial tomou um gole de água. Parecia não estar gostando da conversa. Seria melhor deixar aquele assunto de lado? Ela se inclinou sobre a mesa.
— Me conte mais, Macbeth.
Ele pousou o copo na mesa.
— Pra que alguém fique fora de combate antes de ter tempo de puxar o gatilho numa situação como aquela, ou você atira na cabeça ou corta a carótida. Como você viu, cortar a artéria produziu um jato de sangue curto, mas espesso, e depois o resto escorreu. O oxigênio essencial ao cérebro sai no primeiro jato, portanto a pessoa perde a consciência antes mesmo que o sangue caia na mesa. Havia dois problemas. Primeiro, a distância ideal pra jogar uma lâmina é de cinco passos. Eu estava sentado muito mais
É
— Rainha de espadas. Você perdeu.
— Não disse?
— Você não tem sorte?
— No jogo, nenhuma.
— E...?
Ele pensou um pouco.
— Também não tenho sorte no amor.
Eles riram. Brindaram e riram novamente. Ficaram escutando a chuva cair. Então ela fechou os olhos por um momento. Pensou ter ouvido gelo tilintando em copos no bar. A bolinha girando na madeira da roleta. Os próprios batimentos cardíacos.
— O quê? — Ele piscou na escuridão do quarto.
Ela repetiu:
— Você tem que matar o Duncan.
Lady ouviu o som das próprias palavras, sentiu-as crescer em sua boca e abafar as batidas de seu coração.
Macbeth se sentou na cama, estudando-a com atenção.
— Você está acordada ou falando enquanto dorme, querida?
— Acordada. E você sabe que isso tem que ser feito.
— Você estava tendo um pesadelo e agora...
— Não! Pense um pouco. É o mais lógico a fazer. É ele ou nós.
— Você acha que o Duncan nos deseja mal? Ele acabou de me promover.
— Você até pode ter o título de chefe da Unidade de Crime Organizado, mas na prática fica à mercê dos caprichos dele. Se você quiser fechar o Obelisco, se quiser expulsar os traficantes do entorno do Inverness e aumentar a presença policial nas ruas pra que as pessoas se sintam seguras, tem que ser o comissário-chefe. E isso é apenas ninharia. Pense em todas as coisas grandes que podemos alcançar com você no comando, meu amor.
Macbeth riu.
— Mas Duncan tem grandes planos.
— Não tenho dúvidas de que ele queira isso, de verdade. Mas, pra conseguir coisas grandes, um comissário-chefe deve ter amplo apoio do povo. E, pros moradores dessa cidade, Duncan é apenas um esnobe que desembarcou no alto posto, assim como Kenneth, assim como Tourtell na prefeitura. Não são as belas palavras que conquistam a população, mas quem a pessoa é por dentro. E você e eu somos parte desse povo, Macbeth. Conhecemos o que eles conhecem. Queremos o que eles querem. Escute bem: Do povo. Para o povo. Com o povo . Está me entendendo? Somos os únicos que podemos afirmar isso.
— Entendo, mas...
— Mas o quê? — Ela acariciou a barriga dele. — Você não quer estar no comando? Você não é um homem que quer chegar ao topo? Está feliz em servir aos outros?
— Claro que não. Mas basta esperarmos que chegaremos lá de um jeito ou de outro. Como chefe da Crime Organizado, sou o terceiro na linha sucessória.
— Mas o cargo de comissário-chefe não é pra pessoas como você, meu amor! Pense nisso. Eles deram esse trabalho pra você pra que pareça que somos tão bons quanto eles. Nunca vão te dar o cargo mais alto. Não de bom grado. Temos que tomá-lo.
Ele se virou e se deitou de lado, de costas para ela.
— Vamos esquecer esse assunto, querida. Assim como você esqueceu que Malcolm é quem vai assumir caso alguma coisa aconteça a Duncan.
Ela o puxou pelo ombro, para que ficassem de novo frente a frente.
— Não esqueci nada. Não esqueci que o Hécate disse que você será o comissário-chefe, e isso significa que ele tem um plano. Nós cuidamos do Duncan e ele cuida do Malcolm. E não esqueci aquela noite em que você cuidou do Ernest Collum. Duncan é Collum, meu amor. Ele está apontando uma pistola pra cabeça do nosso sonho. E você tem que resgatar a coragem que demonstrou naquela noite. Tem que ser o homem que foi naquela noite, Macbeth. Por mim. Por nós. — Ela tocou o rosto dele e suavizou o tom ao acrescentar: — A vida não dá muitas oportunidades a pessoas como nós, meu amor. Temos que agarrar as poucas que surgem.
Ele permaneceu deitado. Em silêncio. Ela esperou. Os ouvidos atentos, porém nenhuma palavra abafava as batidas de seu coração. Ele tinha ambições, sonhos e força de vontade, ela sabia, pois foram essas características que o salvaram da desordem em que se encontrava, que converteram um jovem dependente de drogas em um cadete da polícia e, mais tarde, no chefe do GOE. Era esta a afinidade entre eles: ambos superaram o passado, pagaram o preço. Por que parar agora, no meio do caminho, antes de terem a oportunidade de aproveitar as recompensas? Antes de desfrutarem do respeito e contemplarem a vista? Ele era corajoso e um homem de ação implacável, mas tinha falhas que podiam ser dispendiosas. Faltava-lhe maldade. A maldade que era necessária, mesmo que por um decisivo segundo. O segundo no qual é preciso aceitar o fato de não ter princípios morais do seu lado, quando não deve perder de vista um cenário mais amplo, não deve se atormentar perguntando se está fazendo o certo ou o mínimo necessário. Macbeth adorava o que chamava de justiça, e sua lealdade às regras dos outros era uma fraqueza que ela poderia amar nele — em tempos de paz. E odiar em tempos como agora, quando os sinos da guerra soavam. Ela desceu a mão do rosto para o pescoço dele, e então pelo peito e pela barriga. E de volta ao rosto. Ouvidos atentos. A respiração dele era regular, tranquila. Dormia.
Macbeth respirava profundamente, como se estivesse dormindo. Ela afastou a mão. Deitou-se, encaixando o corpo às costas dele. A respiração, agora, também calma. Ele tentou respirar no ritmo dela. Matar Duncan? Impossível. Claro que era impossível.
Então por que não conseguia dormir? Por que as palavras dela seguiam dando piruetas como um morcego cego em sua cabeça?
A vida não dá muitas oportunidades a pessoas como nós, meu amor. Temos que agarrar as poucas que surgem . Ele pensou nas oportunidades que a vida lhe dera. Naquela noite no orfanato, que ele não agarrou. E na oportunidade que Banquo lhe dera, que ele, sim, agarrou. Pensou em como a primeira por pouco não o matou, e a segunda o salvou. Mas será que na verdade não aproveitamos algumas oportunidades porque elas nos condenariam à infelicidade de qualquer modo, porque nos arrependeríamos pelo resto da vida, quer as agarremos ou não? Ah, a insidiosa insatisfação que sempre envenena a mais perfeita felicidade! E no entanto... Será que o destino havia aberto uma porta que logo se fecharia? Será que sua coragem o deixava na mão mais uma vez, como naquela noite no orfanato? Ele viu, em sua mente, o homem na cama naquela vez, dormindo desprevenido. Indefeso. Um homem que se punha entre ele e a liberdade que todo ser humano merece. Entre ele e a dignidade que todo ser humano deveria almejar. Entre Macbeth e o poder que teria. E o respeito. E o amor.
O dia estava nascendo quando ele acordou Lady.
— Se eu fizer isso — disse ele —, vou ficar em dívida com o Hécate.
Ela abriu os olhos como se tivesse passado a noite inteira acordada.
— Por que acha isso, querido? O Hécate só profetizou uma coisa. Não há dívidas a pagar.
— Então o que ele ganharia se eu me tornasse o comissário-chefe?
— Melhor perguntar pra ele, mas é óbvio: deve ter ouvido falar que Duncan jurou que não ia descansar enquanto não o colocasse atrás das grades. E ele deve saber que não seria de admirar que você priorizasse a ação contra as quadrilhas de drogas que fazem uso da violência e travam uma guerra entre si nas ruas.
— Os Norse Riders, cuja espinha dorsal já foi quebrada?
— Ou contra estabelecimentos que enganam pessoas boas e roubam suas economias.
— O Obelisco?
— Por exemplo.
— Hum. Você disse algo sobre as coisas grandes que poderíamos fazer. Estava pensando em algo bom pra cidade?
— Claro. Lembre-se de que o comissário-chefe é quem decide quais políticos devem ser investigados ou não. E quem conhece a câmara municipal sabe que todos aqueles que receberam cargos de poder nos últimos dez anos pagaram de formas que não suportariam a luz do dia. E que eles, por sua vez, exigiram a contrapartida. Na época do Kenneth, eles não precisavam se preocupar em camuflar a corrupção, as evidências estavam lá pra que todos pudessem ver. Nós sabemos disso, eles sabem disso, e isso significa que poderíamos controlá-los se quiséssemos, meu amor.
Ela acariciou os lábios dele com o indicador. Na primeira noite que passaram juntos, ela lhe disse que adorava sua boca. Eram lábios tão macios e a pele tão fina que ela podia sentir o gosto do sangue dele com uma leve mordidela.
— Podemos fazer com que finalmente cumpram as promessas de implementar iniciativas que salvem essa cidade — sussurrou ele.
— Exatamente.
— E botar Bertha pra funcionar de novo.
— Sim.
Ela mordiscou o lábio inferior dele, e Macbeth sentiu o frêmito de seus corpos, o batimento acelerado de seus corações.
Ele a abraçou.
— Eu te amo — sussurrou.
Macbeth e Lady. Lady e Macbeth. Agora, eles respiravam em harmonia.