Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 22 de 50

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Macbeth

Capítulo 19

 

— Bom dia a todos — disse Macbeth, trocando olhares com todos os presentes. — Exceto que não é um bom dia, pois esta é a segunda manhã depois da morte do Banquo, e tem 36 horas que seus assassinos estão vagando por aí, livres e impunes. Vamos começar com um minuto de silêncio em homenagem ao Banquo. Duff fechou os olhos. Era inusitado ver Macbeth entrar em um lugar com a expressão séria; ele costumava saudar os dias e as pessoas com um sorriso, fizesse chuva ou sol, quer as conhecesse quer não. Como da primeira vez que se viram no orfanato. Ele devia ter olhado para Duff, para suas roupas e seu cabelo, e notado quanto eram diferentes, mas mesmo assim sorriu como se os dois compartilhassem algo além daquelas superficialidades, algo que os unia, que os tornava, no fundo, irmãos. Talvez ele fizesse com que todos se sentissem assim com seu sorriso branco e incondicional. Um sorriso que transmitia a crença ingênua de que aqueles ao seu redor desejavam um ao outro tudo de bom na vida, o que fazia Duff se sentir como um cínico calculista já naquela época. E o que Duff não teria dado por um sorriso que pudesse contagiar todos à sua volta... — Duff? — sussurrou alguém. Ele se virou e topou com os olhos verde-claros de Caithness. Ela apontou para o final da mesa de reunião, de onde Macbeth o olhava.

— Perguntei se podemos ter uma posição atualizada das investigações, Duff.

Duff se endireitou na cadeira, pigarreou e sentiu o sangue subir ao rosto. Então começou. Discorreu sobre as testemunhas que tinham visto integrantes dos Norse Riders e, a julgar pelos emblemas nas jaquetas de couro que usavam, de outro clube de motoqueiros atirando contra o Volvo em frente à joalheria Jacobs & Filhos. Contou sobre o paletó e a carteira de Fleance, que tinham sido encontrados no aterro sob a ponte Kenneth, mas que, por enquanto, não havia nenhum sinal do corpo. Caithness fizera um relato abrangente das evidências forenses que apenas confirmavam o que já se sabia: que a gangue de Sweno havia assassinado Banquo e, possivelmente, Fleance.

— Há evidências que sugerem que Sweno estava presente na execução — disse Duff. — Uma guimba de cigarrilha no asfalto, ao lado do carro.

— Muitas pessoas fumam cigarrilhas — observou Lennox.

— Mas não da marca Davidoff Long Panatellas — rebateu Duff.

— Você sabe o que Sweno fuma? — perguntou Lennox, com uma sobrancelha arqueada.

Duff não respondeu.

— Não podemos permitir isso — disse Macbeth. — A cidade não nos dá o direito de permitir isso. Matar um policial é um ataque à própria cidade. Se os chefes de unidades que estão sentados nessa sala ainda quiserem ser dignos da confiança dos cidadãos amanhã, alguma coisa tem que acontecer hoje. Por esse motivo, não podemos hesitar, temos que atacar com todas as forças, mesmo correndo o risco de perder um dos nossos policiais. Isso é uma guerra, e temos que usar a retórica de guerra, que, como vocês sabem, não consiste em palavras, mas em balas. Com esse propósito, nomeei um novo chefe do GOE e outorguei a seus membros amplos poderes em termos de uso das armas e também em formular novas diretrizes pra combater o crime organizado.

— Desculpa interromper — disse Lennox. — Que diretrizes seriam essas?

— Logo vocês vão ver. Estão sendo elaboradas agora mesmo, enquanto estamos reunidos aqui.

— Quem as está redigindo? — indagou Caithness.

— O oficial Seyton — respondeu Macbeth. — O novo chefe do GOE.

— Ele está definindo sozinho as diretrizes da própria unidade? — perguntou Caithness. — Sem que nós...

— É tempo de agirmos — Macbeth a interrompeu —, não de nos preocuparmos com a redação de diretrizes. Em breve vocês verão o resultado, e tenho certeza de que ficarão tão satisfeitos quanto eu. E quanto os demais habitantes da cidade.

— Mas...

— Naturalmente, vocês poderão opinar quando elas estiverem disponíveis. Bem, dou essa reunião por encerrada. Vamos trabalhar, pessoal! — E pronto: lá estava o sorriso. — Duff, gostaria de trocar uma palavrinha com você, pode ser?

Cadeiras arranharam o piso com certa hesitação.

— Você está dispensada também, Priscilla — disse Macbeth. — E, por favor, fecha a porta quando sair. Obrigado.

A sala ficou vazia. Duff se preparou.

— Vem pra cá. Senta aqui perto — disse Macbeth.

Duff se transferiu para a cadeira ao lado dele. Tentou relaxar, respirar sem pressa, e se policiou para não contrair involuntariamente os músculos do rosto, consciente de que estava à distância de uma cuspidela do homem que matara Duncan.

— Andei pensando e queria te perguntar uma coisa — disse Macbeth. — E quero que você seja totalmente honesto.

Duff sentia a garganta apertar e o coração disparar.

— Eu queria oferecer pra outra pessoa o cargo de chefe da Crime Organizado. Sei que a sua primeira reação vai ser de decepção...

Duff assentiu. Sua boca estava tão seca que ele duvidou que a voz respondesse a qualquer comando.

— ... Mas só porque quero que você seja meu adjunto. O que acha disso?

Duff pigarreou.

— Obrigado — respondeu ele, com a voz rouca.

— Você está bem, Duff? — Macbeth se fez de preocupado e apoiou a mão no ombro de Duff. — Ou só um pouco desapontado? Sei o quanto você queria a Crime Organizado e posso entender que prefira um cargo operacional a ter que ajudar um idiota desajeitado como eu a tomar as rédeas da situação.

E ele abriu aquele sorriso branco, enquanto Duff fazia de tudo para responder alguma coisa.

— Você é meu amigo, Duff, e quero você por perto. Como é mesmo aquele provérbio?

Duff tossiu.

— Que provérbio?

— O craque dos provérbios é você, Duff, mas tudo bem. Se você insiste na Crime Organizado, vou pensar a respeito. Ainda não comentei nada com o Lennox. Você está com uma cara péssima, quer que eu pegue um copo de água?

— Não, obrigado, estou bem. Só um pouco cansado. Eu já não vinha dormindo quase nada antes da batida policial no porto, e não preguei os olhos desde o assassinato do Duncan.

— Está só um pouco cansado?

Duff ponderou. Então balançou a cabeça.

— Não, na verdade estive pensando se eu poderia tirar dois dias de folga. Sei que estamos no meio de uma investigação, mas a Caithness pode...

— Claro, claro que sim, Duff. Afinal, de que adianta matar de exaustão um cavalo só porque o cavaleiro tem pressa? Vai pra casa. Manda lembranças pra Meredith por mim e avisa que você tem que descansar por no mínimo dois dias. E essas são, acredite ou não, as ordens do comissário-chefe.

— Obrigado.

— Estou te avisando. Vou dar um pulo em Fife pra checar se você está mesmo descansando.

— Combinado.

— E daqui a três dias você volta com a resposta sobre o cargo de adjunto.

— Fechado.

Duff correu para o banheiro e vomitou na privada.

Sua camisa estava encharcada de suor, e, somente uma hora depois, quando finalmente cruzava a ponte velha, seus batimentos cardíacos começaram a voltar ao normal.

Lady cruzou o restaurante e a sala de jogos. Contou nove clientes. Tentou convencer a si mesma de que aquelas horas depois do almoço eram as menos movimentadas mesmo. Foi ter com Jack na recepção.

— Algum cliente novo hoje?

— Ainda não, senhora.

— Ainda não? Quer dizer que teremos algum mais tarde, hoje ainda?

Ele esboçou um sorriso de desculpas.

— Não que eu saiba.

— Você deu uma passada no Obelisco, como pedi?

— Naturalmente, senhora.

— E lá estava...?

— Parado, eu diria.

— Você está mentindo, Jack.

— Sim, senhora.

Lady teve que rir.

— Ah, Jack. Você sempre me animando. Foram os assassinatos aqui, não?

— Talvez. Por outro lado, uma pessoa ligou pedindo pra reservar especificamente o quarto em que Duncan morreu. E, se esse não fosse possível, o dos seguranças.

— As pessoas são doentes. Ah, falando em doença, quero que você levante informações sobre o jovem que acompanhava Tourtell. Descubra a idade dele.

— A senhora acha...?

— Vamos torcer, pro bem do rapaz, que ele tenha mais de 16. E, pro nosso bem, que tenha menos.

— Algum propósito específico pra essa informação, senhora?

— Armazenando munição, só por precaução, Jack. O prefeito é quem nomeia o comissário-chefe, e, mesmo que de hábito siga a hierarquia policial, nas circunstâncias atuais nunca podemos estar totalmente seguros de nada, não é mesmo?

— Isso é tudo?

— Bem, gostaríamos de ver Tourtell pressionar mais o comitê regulador pra que examinem as práticas empresariais do Obelisco, é claro. Venho sendo bem paciente e tentando uma abordagem gentil, mas, se isso não produzir nenhum efeito logo de uma vez, teremos que tomar medidas mais drásticas.

— Vou ver o que consigo descobrir.

— Jack?

— Sim?

— Você tem me visto andar sonâmbula?

— Não no meu expediente, senhora.

— Está mentindo de novo?

— A senhora pode ter aparecido na recepção ontem à noite, mas eu não saberia dizer com certeza se estava dormindo ou não.

Ela deu uma gargalhada.

— Jack, Jack, se todos fossem tão bondosos quanto você... Eu bem que suspeitei. A chave estava na fechadura do lado de fora da porta quando acordei.

— Algo especial perturbando sua mente? A senhora só sofre de sonambulismo quando está com alguma preocupação na cabeça.

— E o que há além de preocupações? — Lady suspirou.

— E quanto aos sonhos? Continua tendo o mesmo sonho o tempo todo?

— Já te expliquei que não são sonhos, Jack. São lembranças.

— Desculpa, mas a senhora não tem como ter certeza disso. Não tem como saber se aconteceu exatamente assim. Porque, se vê a mesma coisa todas as noites, o sonho se torna uma lembrança. Pelo que a senhora sabe, a criança teve morte natural.

— Você está sempre me consolando. Mas não preciso disso. Não preciso esquecer. Pelo contrário, preciso me lembrar. Preciso me lembrar de tudo que precisei abrir mão pra chegar aonde cheguei, pôr um preço na minha vida sem filhos todas as manhãs quando acordo entre lençóis de seda ao lado do homem que escolhi pra passar a noite, e posso descer as escadas pra aquele que é o meu lugar, pra vida que fiz pra mim. Onde sou respeitada pelo que sou, Jack.

— Não somos respeitados pelo que somos, senhora. Somos respeitados pelo que podemos fazer. Especialmente se há alguma coisa que podemos fazer contra a pessoa cujo respeito queremos...

— Você é esperto demais pra ser um recepcionista, Jack.

— E, infelizmente, é por isso que a sabedoria de um recepcionista não merece respeito. Ele é um observador inofensivo, um castrado que ocasionalmente serve pra consolar aqueles que são respeitados.

— Fico feliz por você nunca ter tido filhos, Jack. Você é a única pessoa com quem posso conversar sobre abandonar o próprio bebê sem provocar a profunda repulsa daqueles que os têm. Você é um homem inteligente e tolerante que exalta a compreensão em vez da condenação.

— E o que há pra condenar? Uma jovem que cresce num ambiente de pobreza, é estuprada aos 13 anos, engravida e, abandonada e sem teto, dá à luz uma criança que não consegue manter viva?

— E se eu não tentei o bastante?

— E se tivesse morrido tentando, é isso o que quer dizer? Treze anos. Não era adulta, mas já tinha uma mente perspicaz. Será que seu futuro deveria ser sacrificado por um recém-nascido, uma semente que ainda não sabe que está viva, que ainda não sente saudades, culpa, vergonha, amor de verdade, com certeza não é realmente humana, apenas uma responsabilidade pesada e inescapável, como um peso enorme ao redor do pescoço de uma jovem que a vida já castigara o bastante? Se essa garota de 13 anos não foi capaz de manter vocês dois vivos, mas conseguiu sobreviver, temos o que se pode chamar de um golpe de sorte em meio a um tremendo azar. Porque, afinal, veja o que ela alcançou depois. Montou um pequeno bordel, depois um maior e mais luxuoso, pra atender às necessidades de todos, desde o chefe de polícia até os políticos mais importantes da cidade, então o vendeu e inaugurou o melhor cassino da cidade. E agora... Abracadabra!, é a rainha da cidade.

Lady balançou a cabeça.

— Você está exagerando, Jack. Enaltecendo meus propósitos e concedendo anistia aos meus erros. O que é um cassino, o que são os sonhos de uns idiotas à luz da vida de uma criança? Se eu demandasse menos da minha vida, talvez conseguisse salvar a dela.

— Será que as suas demandas foram mesmo exageradas?

— Eu exigi a aceitação dos outros. Não, mais que isso: o respeito. E, sim, amor. Tudo isso são presentes que não são distribuídos a todos, mas eu exigi de mim mesma que fosse uma das poucas pessoas selecionadas. E o preço por isso é perder minha filha de novo e de novo e de novo, noite após noite.

Jack assentiu.

— E se você tivesse a opção de escolher tudo desde o começo, senhora?

Lady o encarou.

— Seres bons ou seres maus, vai ver não passamos de escravos dos nossos próprios desejos, Jack. Você acredita nisso?

— Não sei, minha senhora, mas, falando em escravos do desejo, vou dar uma pesquisada no acompanhante do Tourtell amanhã.

Macbeth saiu do elevador no subsolo e parou por alguns segundos, reconhecendo o cheiro do couro, do lubrificante de armas e de suor masculino. Mirou o lema do GOE sob um dragão vermelho que cuspia fogo: LEALDADE, FRATERNIDADE, BATIZADOS EM FOGO, UNIDOS EM SANGUE . Meu Deus, parecia uma pequena eternidade desde a última vez.

Entrou na sala do GOE.

— Olafson! Angus! Ei, que negócio é esse? Sentados. Não saltem como uma dupla de recrutas. Onde está Seyton?

— Lá dentro — respondeu Angus, em seu untuoso tom de sacerdote. — Foi muito triste o que aconteceu com Banquo. Os rapazes estão coletando dinheiro pra uma coroa de flores, mas você provavelmente não está entre...

— Não estou mais entre os rapazes? Claro que estou. — Macbeth pegou a carteira. — Pensei que estivesse de licença médica, Olafson. Cadê a tipoia?

— Dei sumiço nela. — A língua presa de Olafson fez com que ele soasse como um espanhol. — O doutor achou que todos os tendões do ombro estivessem destruídos e que eu nunca mais seria capaz de atirar. Mas então o Seyton olhou pro meu ombro e de repente sarou, ficou como novo.

— Sempre a mesma história. Não confie nos médicos.

Macbeth entregou a Olafson um monte de notas de dinheiro.

É

— É demais, senhor.

— Pega.

— Isso dá pra um caixão.

— Pega!

Macbeth entrou em sua antiga sala. Que não era um escritório, mas uma oficina, com peças de armas e munição em prateleiras e bancos. A máquina de escrever sem uso havia sido colocada sobre uma cadeira.

— E então? — perguntou Macbeth.

— Os rapazes receberam as orientações — disse Seyton, sentado com um grosso manual de instruções à sua frente. — E estão prontos.

— E nossas duas garotas Gatling? — Macbeth apontou para o manual.

— As metralhadoras chegam amanhã de manhã, às oito. Você conversou com o capitão do porto pra que o barco pudesse furar a fila?

— Não podíamos permitir que as garotas chegassem atrasadas na festa. E vai haver um trabalhinho pra vocês mais tarde, amanhã mesmo.

— Beleza. Onde?

— Em Fife.