Macbeth
Capítulo 17
— Eentão, Seyton, em que posso te ajudar? — perguntou Macbeth. Os raios de sol haviam conseguido passar por uma brecha entre as nuvens, atravessando, meio enviesados, as janelas encardidas do escritório do comissário-chefe e alcançando a mesa, onde iluminavam a foto de Lady, o calendário apontando que era uma terça-feira, o desenho da metralhadora Gatling e a careca luzidia do oficial magro e forte sentado do outro lado da mesa. — Você precisa de um segurança — disse Seyton. — É mesmo? E que tipo de segurança seria? — Alguém que consiga combater o mal com o mal. Duncan tinha dois, e, depois do que aconteceu com o Banquo, que Deus abençoe sua alma , há todos os motivos pra imaginarmos que eles também estejam atrás de você, comissário-chefe. — E quem seriam eles ? Seyton olhou para Macbeth com certa hesitação antes de responder: — Os Norse Riders. Pra mim, são eles que estão por trás dessas execuções. Macbeth assentiu. — Algumas testemunhas revelaram ter visto motociclistas no Distrito 2, alguns com jaquetas dos Norse Riders, atirando contra um Volvo que havia invadido uma joalheria. Presumimos que fosse o carro do Banquo.
— Se Malcolm estava envolvido nisso, a ameaça ao comissário-chefe pode vir de dentro da força — falou Seyton. — Não confio em todos os nossos chamados líderes. Na minha opinião, Duff é alguém que carece de espinha dorsal e de princípios morais. Quanto às ameaças externas, evidentemente há Hécate.
— Hécate é um empresário. Ser suspeito de assassinato só é bom pros negócios em casos muito raros. Sweno, por outro lado, tem um motivo que ultrapassa a lógica empresarial.
— Vingança.
— A boa e velha vingança, isso mesmo — confirmou Macbeth. — Alguns dos nossos economistas parecem desdenhar da predisposição humana a seguir os instintos mais básicos em vez do extrato bancário. Quando o amante da viúva negra se deita nas costas dela, saturado e exausto de tanto fazer amor, ele sabe que em breve será comido. No entanto, ele nunca faria uma escolha diferente. E aí você tem o Sweno.
— Então você tem menos medo do Hécate?
— Hoje mesmo me disseram que os recursos deveriam ser distribuídos de forma mais sensata, que a caça às bruxas dirigida ao Hécate tem que ser reduzida pra que possamos resolver problemas mais urgentes da cidade.
— Tais como? — perguntou Seyton.
— Pessoas honestas e trabalhadoras sendo claramente enganadas e furtadas por um dos nossos cassinos mais suspeitos. Mas, voltando ao ponto que estávamos discutindo... Os últimos comissários-chefe tiveram péssimas experiências com seus seguranças, mas não esqueci como você foi eficiente e valente quando fui atacado por aquele cachorro na casa do Cawdor. Então me dê um tempo pra pensar no assunto. Na verdade, eu estive pensando em dar a você um cargo um pouco diferente, mas não muito diferente do que você estava pedindo.
— É mesmo?
— Agora que sou o comissário-chefe e que Banquo não está mais aqui, o GOE precisa de um comandante. E você, Seyton, é o oficial mais antigo e com mais experiência.
— Obrigado, comissário. É mesmo uma honra inesperada e uma prova de confiança. O problema é que não sei se estou à altura da incumbência. Não sou político nem tenho o dom da liderança.
— Conheço o tipo. Você é um cão de guarda que precisa de um dono e de uma dona, Seyton. Mas o GOE é uma espécie de cão de guarda. Você ficaria surpreso com a quantidade de instruções minuciosas que recebe. Eu mal precisava pensar em como fazer pra prender os bandidos. E, considerando os assassinatos dos últimos dois dias, está claro que são seríssimos os riscos que quem se senta na minha cadeira está correndo e que o GOE terá que ser usado pra proteger ativamente o chefe da polícia.
— Está dizendo que o GOE vai se tornar o segurança pessoal do comissário-chefe?
— Um arranjo desses encontraria objeções, mas acredito que possam ser sufocadas. E, nesse caso, mataríamos dois coelhos com uma cajadada só. Os seus desejos e os meus seriam atendidos. O que me diz, Seyton?
O sol ia se pondo, e talvez fosse o repentino crepúsculo reduzindo a luminosidade da sala que fez com que Seyton diminuísse o tom de voz, e o que disse soou como um sussurro conspiratório:
— Desde que as ordens que eu receba venham diretamente, e em detalhes, de você, comissário-chefe.
Macbeth analisou o homem à sua frente. Que Deus abençoe sua alma, Seyton havia desejado para Banquo. Ficou imaginando que tipo de bênção havia sido.
— Minhas ordens, meu fiel Seyton, serão inequívocas. No que diz respeito a sufocar as objeções, acabei de encomendar duas dessas metralhadoras Gatling. — Ele passou o desenho para Seyton. — Entrega expressa. Um pouco mais cara, mas vamos recebê-las em dois dias. O que acha?
Seyton correu os olhos pelo desenho, assentindo lentamente.
— Interessante — comentou ele. — Linda, na verdade.
Duff bocejou enquanto dirigia, deixando para trás um céu claro e enfrentando nuvens escuras.
Ewan o havia acordado ao pular para a cama do quarto de hóspedes, seguido pela irmã.
— Papai, você está em casa!
Tomaram o café da manhã na cozinha, com o sol da alvorada ainda baixo sobre o lago. Meredith havia repreendido as crianças, mandando que parassem de brigar para se sentar no colo do pai e se apressassem, pois tinham de ir para a escola. Não tinha conseguido imprimir à voz o tom enérgico que Duff sabia que ela pretendia, e ele notara o sorriso nos olhos dela.
Agora, ele passava pela cena do crime. O carro crivado de balas havia sido rebocado, e o sangue no asfalto, lavado. Caithness e seu pessoal trabalharam com diligência e coletaram todas as evidências possíveis. E não havia muito o que ele pudesse fazer além de confirmar o óbvio: que Banquo tinha sido baleado e decapitado. Não havia sinal de Fleance, mas Duff notara que o cinto de segurança no banco do passageiro tinha sido cortado. Isso poderia significar qualquer coisa; por enquanto, só lhes restava divulgar um alerta geral de desaparecimento do jovem filho de Banquo. Aquele trecho era deserto, pois a ponte estava fechada, e era improvável que houvesse testemunhas na vizinhança; então, uma hora mais tarde, Duff decidira que, como estava a meio caminho de Fife, poderia muito bem ir dormir em casa.
Onde ficara deitado ruminando, ao som do chichiar dos gafanhotos lá fora. E foi quando soube. Soube, mas não compreendeu. Não que de repente tivesse enxergado o quadro mais amplo; não que todas as peças de repente tivessem completado o quebra-cabeça. Foi um mísero detalhe. A faca na cozinha de Caithness. Mas, enquanto refletia, outras peças haviam surgido e, aos poucos, se encaixado. Então adormeceu, e os filhos o acordaram, surpresos, ao amanhecer.
Duff dirigia pela ponte velha. Era estreita e modesta em comparação com a Kenneth, mas solidamente construída, e muitos achavam que permaneceria ali por mais tempo que a nova.
O problema era: com quem falar?
Tinha de ser alguém que não apenas tivesse poder, influência e dinamismo, mas que também fosse de confiança e não estivesse envolvido.
Entrou na garagem subterrânea da central no momento que a fresta entre as nuvens se fechava e a breve visita do sol chegava ao fim.
Lennox ergueu os olhos da máquina de escrever quando Duff entrou.
— Já é quase hora do almoço, e você está bocejando como se tivesse acabado de acordar.
— Pela última vez: essa coisa é autêntica? — perguntou Duff, apontando o queixo para um objeto amarronzado com uma massa disforme de metal enferrujado na ponta, que Lennox usava como peso de papel.
Duff se deixou desabar na cadeira ao lado da porta.
— E, pela última vez — Lennox suspirou —, herdei do meu avô. Jogaram na cabeça dele, nas trincheiras de Somme. Felizmente, como você pode ver, o alemão esqueceu de puxar o pino do detonador. E essa história virou uma piada, motivo de altas risadas entre os soldados que lutavam ao lado do meu avô.
— Está dizendo que eles riram muito em Somme?
— De acordo com o meu avô, quanto pior ficava, mais eles riam. Ele chamava isso de risada de guerra.
— Ainda acho que é mentira. Você não é do tipo que tem uma granada ativa em cima da mesa.
Lennox sorriu ao continuar datilografando.
— Meu avô a guardou em casa durante a vida inteira. Dizia que o fazia se lembrar de coisas importantes: a transitoriedade da vida, o protagonismo do acaso, a própria mortalidade e a incompetência alheia.
Duff apontou para a máquina de escrever.
— Você não tem uma secretária pra cuidar disso?
— Comecei a escrever minhas próprias cartas e a sair da central pra postá-las, eu mesmo, no correio. Ontem, a promotoria pública me avisou que uma das minhas cartas parecia ter sido aberta e lacrada novamente antes de ser entregue a eles.
— Não me surpreende. Obrigado por me receber assim, em cima da hora.
— Receber você? Que formal. Bem, do que se trata? Você não quis adiantar o assunto por telefone.
— Pois é. Como eu disse, não me surpreende que alguém abra as cartas.
— A telefonista. Você acha que...
— Não acho nada, Lennox. Concordo com você que não faz sentido correr riscos na atual situação.
Lennox assentiu lentamente e inclinou a cabeça.
— Porém, meu caro Duff, foi exatamente pra isso que você veio aqui, não foi?
— Talvez. Tenho uma prova de quem assassinou o Duncan.
A cadeira rangeu quando Lennox se empertigou. Em seguida, ele se afastou da máquina de escrever e apoiou os cotovelos na mesa.
— Fecha a porta.
Duff apenas esticou o braço e bateu a porta.
— Que tipo de prova? Tangível?
— Engraçado você usar essa palavra... — Duff pegou o abridor de cartas que estava em cima da mesa de Lennox e avaliou seu peso na palma da mão. — Como você sabe, nas duas cenas de crime, a do Duncan e a dos seguranças, tudo aparentemente se encaixa à perfeição.
— A gente usa aparentemente quando algo parece correto na superfície, mas na realidade não é.
— Exato. — O inspetor Duff equilibrou o abridor de cartas no dedo indicador, formando uma cruz. — Vamos dizer que você esfaqueia uma pessoa no pescoço com a intenção de matar. Nesse caso, você não a manteria cravada até ter certeza de que atingiu a carótida?
— Suponho que sim — respondeu Lennox, com os olhos no abridor de cartas.
— E, se você acerta a artéria de primeira, que, como sabemos, foi o que aconteceu, uma enorme quantidade de sangue escapa em alguns breves jorros, a pressão sanguínea da vítima cai, o coração para de bater e o restante do sangue apenas escorre.
— Estou entendendo. Eu acho.
— No entanto, o cabo da adaga que encontramos com Hennessy estava completamente coberto de sangue; as digitais dele estavam no sangue, e a palma da mão também estava suja com o sangue do Duncan. — Duff apontou para o cabo do abridor de cartas. — Isso significa que o assassino não estava segurando o cabo quando o sangue espirrou do pescoço do Duncan, mas que pegou o cabo depois. Ou que alguém fez com que sua mão apertasse o cabo mais tarde. Porque alguém, um outro alguém, atirou a adaga no pescoço do Duncan.
— Entendo — disse Lennox, coçando a cabeça. — Mas atirar ou esfaquear, que diferença faz? O resultado é o mesmo.
Duff entregou o abridor de cartas a Lennox.
— Tenta atirar isso naquele quadro de avisos pra que fique preso.
— Eu...
— Tenta.
Lennox se levantou. A distância até o quadro era de uns dois metros.
— Tem que atirar com firmeza — instruiu Duff. — É preciso muita força pra furar o pescoço de um homem.
Lennox atirou. O abridor de cartas bateu no quadro e caiu no chão com um baque.
— Tenta umas dez vezes — disse Duff, pegando o abridor e equilibrando-o no dedo. — Aposto uma garrafa de uísque do bom que você não vai conseguir fazer com que a ponta fique espetada no quadro.
— Não confia na minha habilidade ou na minha sorte?
— Se eu tivesse te dado uma faca que não estivesse balanceada, com um cabo mais pesado que a lâmina ou vice-versa, minhas apostas seriam maiores. Mas essa faca é tão balanceada quanto a adaga encontrada no pescoço do Duncan. Só um especialista consegue atirar. E ninguém com quem conversei aqui na central viu ou ouviu qualquer coisa que sugira que os seguranças do Duncan fossem atiradores de facas. Pra falar a verdade, conheço apenas uma pessoa que se encaixaria nessa descrição. Alguém que na verdade quase entrou pro circo pra fazer exatamente isso. E que estava no Inverness naquela noite.
— Quem?
— Aquele pra quem você entregou a Unidade de Crime Organizado. Macbeth.
Tomado de espanto, Lennox ficou de pé num salto, encarando um ponto na testa de Duff.
— Está me dizendo...?
— Sim, estou. O comissário Duncan foi morto por Macbeth. E aqueles seguranças inocentes foram assassinados a sangue-frio pelo mesmo homem.
— Deus tenha misericórdia de nós — disse Lennox, despencando na cadeira. — Você falou com a Perícia e com a Caithness sobre isso?
Duff balançou a cabeça.
— Sei que eles notaram que havia sangue no cabo, mas atribuíram isso a reflexos rápidos na hora de soltar a adaga, não levantaram a hipótese de ela ter sido atirada. Uma teoria bastante satisfatória. Afinal, é muito raro encontrar alguém com essa habilidade. E só os colegas mais chegados a Macbeth sabem disso.
— Ótimo. Não devemos contar isso pra ninguém. Ninguém. — Lennox juntou as mãos e mordiscou o nó dos dedos. — Você está ciente da situação em que isso me coloca, Duff?
— Sim. Agora que você sabe o que eu sei, não há como voltar atrás. Agora são duas cabeças por um fio. Peço desculpas por não te dar uma opção, mas o que mais eu poderia fazer? A hora da verdade chegou pra nós, Lennox.
— De fato. Se você estiver realmente certo e Macbeth for o monstro que você acredita ser, a bala não pode apenas feri-lo: isso o tornaria duplamente perigoso. É preciso um tiro certeiro.
— Sim, mas como fazer isso?
— Com astúcia e cautela, Duff. Vou ter que pensar sobre isso, e, como não sou nenhum gênio, vai levar um tempo. Vamos nos encontrar novamente. Não aqui. Não onde as paredes têm ouvidos.
— Às seis — disse Duff, levantando-se. — Na Central. Em frente a Bertha.
— A antiga locomotiva? Por que lá?
— Era onde eu tinha combinado de me encontrar com Banquo. Ele ia me contar tudo o que acabei deduzindo sozinho.
— Então me parece um local adequado. Até mais tarde.
Macbeth olhou demoradamente para o telefone em sua mesa.
Tinha acabado de falar com Sweno.
Seus nervos tremiam e se contorciam sob a pele. Precisava de alguma coisa. E não de uma coisa qualquer, sabia disso. Pegou o chapelão que Lady lhe comprara. Priscilla sorriu quando Macbeth surgiu na antessala.
— Por quanto tempo o comissário-chefe vai ficar fora?
A pedido de Macbeth, ela havia sido transferida do escritório de Lennox, e todo o processo não levou mais de duas horas. Ele tinha planejado mandar embora a antiga assistente de Duncan, mas, em vez disso, a empurrou um andar abaixo depois que o administrativo lhe explicou que, no setor público, nem um comissário-chefe podia demitir funcionários com um simples estalar de dedos.
— Uma hora — respondeu Macbeth. — Ou duas.
— Então vou dizer duas pra quem ligar.
— Pode fazer isso, Priscilla.
Entrou no elevador e apertou o T do andar térreo. Pra quem ligar. Não se alguém ligar. Porque as pessoas ligavam. Elas não paravam de ligar. Chefes de unidades, juízes, vereadores. Macbeth não tinha a menor ideia do que metade deles fazia além de importuná-lo com perguntas que ele não compreendia, e isso só aumentava a fila de gente ligando. Jornalistas. A morte de Duncan, o desaparecimento de Malcolm. E agora outro policial e seu filho. As coisas estavam saindo do controle?, indagavam. Será que o comissário-chefe podia garantir que...? Sem comentários. Posso convidá-los pra próxima coletiva de imprensa, na qual...
E havia o Sweno.
As portas do elevador se abriram; dois policiais fardados prontos para entrar recuaram. Era uma regra introduzida por Kenneth, e mais tarde abolida por Duncan, de que o comissário-chefe deveria ter o elevador só para si. Mas, antes que Macbeth pudesse dizer que eram bem-vindos, as portas do elevador se fecharam e ele seguiu sozinho.
Na calçada, deu de cara com um homem de casaco cinza lendo um jornal, que murmurou “Desculpa, Macbeth”. O que não era de estranhar, porque, quando ele ergueu os olhos, viu o próprio rosto na primeira página do jornal. TERCEIRO OFICIAL ASSUME O LEME. Até que não era uma manchete ruim. Podia ter sido sugestão de Lady. O editor era facilmente controlado por ela.
Macbeth puxou o grande chapéu sobre o rosto e caminhou a passos largos. No meio do dia, as ruas estavam tão cheias de carros que era mais rápido ir a pé do que de carro até a Estação Central. Além do mais, era bom que ninguém visse a limusine do comissário-chefe estacionada por lá.
Só Deus sabia o que Sweno teria dito a Priscilla para que ela lhe passasse a ligação. Se bem que ele não se identificou quando Macbeth atendeu. Nem precisava. Bastava ouvir sua voz uma vez para jamais esquecer. O tom grave fazia o plástico do receptor estremecer. Ele cobrava a promessa de Macbeth, da liberação imediata dos Norse Riders, e 12 horas haviam se passado. Macbeth respondeu que isso não era tão simples assim. Que documentos tinham de ser assinados por juízes e advogados, pois a denúncia já havia sido apresentada. Mas que Sweno podia preparar uma festa de boas-vindas para dali a dois dias.
— Dois dias já é demais — respondera Sweno. — E são os últimos dois dias que vou te dar. Depois de amanhã, às onze horas, um dos nossos vai telefonar pra casa de um juiz, não vou dizer qual, pra revelar sua participação no assassinato de Banquo, e vai dizer que sabíamos exatamente onde Banquo e Fleance estariam.
— Um dos seus pilotos camicases?
— Além disso, temos sete testemunhas que viram você na sede do nosso clube.
— Relaxa e pensa no seu discurso, Sweno. Vamos deixar seus meninos no portão do clube amanhã à tarde, às três e meia.
E, dito isso, Macbeth desligou.
Antes de subir os degraus da estação, ele observou a área. Viu outro casaco cinza, mas não era o mesmo de antes. O chapéu escondia seu rosto, e, afinal de contas, ele era apenas mais um dos muitos homens bem-vestidos que subiam aquela escada todos os dias para comprar aquilo que lhes permitia trabalhar tão bem.
Parou no mesmo lugar da última vez, no corredor, perto da escada para o banheiro. O garoto não estava por ali. Macbeth estava inquieto. Fazia horas que vinha sentindo o desejo, mas só agora, quando estava prestes a se satisfazer, é que ficou muito pior.
Ela surgiu depois de uma hora, ao que lhe pareceu, embora o relógio informasse que tinham sido apenas dez minutos de espera. Trazia uma bengala branca, por um motivo qualquer.
— Preciso de dois saquinhos.
— Você precisa conhecer uma pessoa — disse Strega. — Coloque isso aqui.
Ela lhe entregou protetores de ouvido e uma espécie de máscara que era meio que óculos de natação e meio que máscara de soldador, do tipo que já vira cegos usando.
— E por que eu deveria?
— Porque, se não fizer isso, não vai receber brew.
Ele relutou. Não, não relutou, apenas não se apressou. Teria plantado bananeira se fosse necessário. As lentes dos óculos eram pintadas, para que ele não visse absolutamente nada. Strega o girou várias vezes, para que ele perdesse o senso de direção. Então lhe entregou a bengala branca e o conduziu pelo caminho. Dez minutos depois, ele sabia que tinham andado na chuva, em meio a pessoas e veículos, pois os tampões de ouvido não abafavam os ruídos por completo. Strega o ajudou a subir uma parede de cimento de um metro e meio de altura e dali caminharam sobre cascalho ou areia. Então saltaram outra parede de cimento e entraram em algum espaço fechado, presumiu, pois era aquecido e o ar estava mais seco. Ela o fez se sentar em uma cadeira. Alguém lhe tirou os tampões, mas ordenou que continuasse com os óculos. Ele ouviu alguém se aproximando, até que os sons de tap-tap pararam bem à sua frente.
— Lamento ter que trazê-lo pra cá dessa maneira. — A voz era excepcionalmente gentil e suave, como a de um idoso. — Mas achei que, considerando as circunstâncias, era melhor nos encontrarmos cara a cara. Isso é, você não pode ver a minha cara, é claro. Mas, se eu fosse você, Macbeth, ficaria agradecido por isso.
— Compreendo. Isso significa que você pretende me deixar sair vivo daqui.
— Você não é esperto, mas é mais esperto do que estúpido, Macbeth. Foi por isso que escolhemos você.
— Por que você me trouxe até aqui?
— Porque estamos preocupados. Sabíamos, claro, do seu gosto pros estimulantes antes de escolhermos você, mas não sabíamos que você seria dominado tão completamente e tão rápido. Resumindo: precisamos descobrir se você é confiável ou se vamos precisar te substituir.
— Me substituir pelo quê?
— Você se acha assim tão especial? Espero que o título de comissário-chefe não tenha subido à sua cabeça e que você compreenda que não passa de um testa de ferro. Sem mim, você não é nada. Duncan acreditava que conseguiria vencer sem mim, inclusive que poderia lutar contra mim. Você também acredita nisso, Macbeth?
Ele rangeu os dentes e engoliu a raiva. Só queria pegar a droga e dar no pé. Respirou fundo.
— Pelo que posso ver, temos um esquema de colaboração do qual nós dois nos beneficiamos, Hécate. Você pode ter desencadeado os eventos que me alçaram a comissário-chefe, e vou me livrar do Sweno e garantir que a polícia não atrapalhe você nem seu monopólio.
— Hum. Então você não tem integridade de caráter?
— É claro que tenho, mas sou pragmático. Em qualquer cidade desse tamanho haverá um mercado pra vendedores de sonhos como você. Se não for você ou Sweno, será outra pessoa. A cooperação entre nós pelo menos manterá outros traficantes, talvez piores, longe daqui. Aceito você como meio pro fim de construir um bom futuro para essa cidade.
O homem velho achou graça.
— Essas palavras parecem ter saído diretamente da boca da Lady. Leves e doces ao paladar, mas sem substância. Estou em uma encruzilhada aqui, Macbeth. E, pra decidir o caminho a tomar, terei que avaliar se você é adequado a essa posição. Vejo que os jornais estão usando metáforas de que o terceiro oficial assumiu o leme. Bem, pois seu navio está no meio de um furacão. Duncan, Banquo e um cadete da polícia foram executados. Cawdor, Malcolm e dois seguranças foram mortos, tidos como corruptos. Seu navio já é um desastre físico e moral, Macbeth, então, caso eu venha a ajudar você, tenho que saber em detalhes como vai fazer para conduzi-lo a águas mais calmas.
— Evidentemente os culpados serão detidos e punidos.
— Fico feliz em ouvir isso. E quem são os culpados?
— Isso é óbvio. Os Norse Riders. Eles forçaram Malcolm e seus guardas a cooperar.
— Ótimo. Nesse caso, seremos absolvidos, você e eu. Mas e se Sweno conseguir provar sua inocência em relação ao assassinato do Duncan?
— Tenho o pressentimento de que ele não vai conseguir fazer isso.
— Hum. Espero que você tenha a capacidade de honrar o que acabou de dizer, Macbeth.
— Tenho, Hécate. E espero poder exigir o mesmo de você.
— O que você quer dizer com isso? Eu abri o caminho pra você. Isso não é suficiente?
— Não, a não ser que eu esteja protegido. O que eu vejo agora é que todo mundo está fazendo de tudo pra me pegar: juízes, jornalistas, criminosos e, provavelmente, homens de dentro da polícia. Com armas ou com palavras como armas. O telefone nunca para. E olha só pra mim: posso ser sequestrado como um cego em plena luz do dia.
— O GOE não está cuidando de você?
— E como saber se posso confiar neles? Preciso de mais proteção.
— Compreendo. E aqui está minha resposta: você já tem a minha proteção. Há algum tempo. Só não a viu.
— Onde está essa proteção?
— Nem perca tempo com isso. Você deveria saber que Hécate protege seus investimentos. A pessoa que sou, aquilo que defendo, é a garantia de que ninguém, absolutamente ninguém nessa cidade, pode te machucar enquanto você for meu, Macbeth.
— Ninguém?
— Eu te prometo isso. Está pra nascer a pessoa capaz de tocar em um fio de cabelo da sua bela cabeça. E a velha Bertha tornará a correr sobre os trilhos antes que alguém o destitua do cargo. Não está bom o suficiente pra você, Macbeth?
— Sim, essas duas promessas me satisfazem.
— Ótimo. Porque tenho uma última coisa pra te dizer. E é o seguinte: cuidado com o inspetor Duff.
— Como assim?
— Ele sabe que foi você quem matou o Duncan.
Macbeth sabia que deveria estar preocupado. Temeroso. Entrar em pânico. Mas em seu interior só cabia a familiar e abominável ânsia pela droga.
— Felizmente pra você, no momento, existe apenas um homem que sabe o que Duff sabe.
— Quem? — perguntou Macbeth.
— O mesmo homem que lançou e apoiou a sua candidatura pra chefe da Crime Organizado, sob minhas ordens. Tão discretamente que Duncan pensou depois que a ideia tinha sido dele mesmo.
— E quem foi?
— Veja com seus próprios olhos.
A perna de uma cadeira arranhou o piso quando Macbeth foi virado. Os óculos foram removidos. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi que estava diante de uma sala de interrogatório à prova de som. Tinha a mesma janela unidirecional que significava que o interrogado não via nem ouvia os que estavam do lado de fora. A diferença era que aquele local se assemelhava a um grande laboratório, com frascos de vidro, tubos de ensaio e canos que corriam em direção a um enorme caldeirão que fazia um contraste quase cômico com todo o equipamento moderno, o que lhe trouxe à memória desenhos animados que mostravam canibais cozinhando pessoas vivas em uma tina gigantesca. Na parede atrás do caldeirão havia uma placa com os dizeres: PROIBIDO FUMAR. Na frente do caldeirão, na sala intensamente iluminada e perto do vidro, estava um homem de tez pálida e cabelos ruivos, sentado ereto numa poltrona reclinável. Uma das mangas da camisa estava enrolada, o rosto virado para o teto, a boca entreaberta, os olhos meio fechados. Estava tão perto que Macbeth viu a metade da íris azul tremendo sob as pálpebras do homem. Reconheceu uma das irmãs chinesas, que segurava uma seringa com a agulha espetada no antebraço do inspetor Lennox.
A voz gentil atrás de Macbeth disse:
— Lennox semeou a ideia na cabeça do Duncan, a ideia de que ele deveria nomear alguém que não pertencesse à elite, e sim um homem que o povo considerasse um igual.
— Lennox disse a Duncan que ele deveria me nomear chefe da Unidade de Crime Organizado?
— Não. Claro que Lennox disse o contrário. Que não podia indicar você porque você não tinha qualificações formais e era muito popular. É assim que se manipula velhas mulas teimosas com egos gigantes.
— Você disse pula e Lennox pulou?
— E Lennox não disse pula, mas Duncan pulou. — Uma gargalhada soou atrás de Macbeth, e soava como alguém gorgolejando uísque. — Os labirintos da mente humana, Macbeth. Avenidas largas, essencialmente fáceis de se transitar. Lennox é meu há mais de dez anos. Um operário fiel, o inspetor Lennox.
Macbeth tentou ver o reflexo do homem atrás de si, mas avistou apenas Strega, como se o próprio Hécate não tivesse sua imagem refletida. Mas ele estava lá, porque Macbeth ouviu sua voz ao pé do ouvido:
— Mas quando eu digo pula, significa que você deve pular.
— O quê?
— Mate Duff.
Macbeth engoliu em seco.
— Duff é meu amigo. Mas você provavelmente já sabia disso.
— Banquo era um pai pra você, e isso não foi um empecilho. Matar Duff é uma necessidade, Macbeth. Além do mais, tenho um amigo melhor pra você: chama-se power.
— Não preciso de novos amigos.
— Precisa, sim. A brew torna você mentalmente instável e excêntrico. Você teve alucinações, não teve?
— Talvez. Talvez isso aqui não passe de uma alucinação. O que é esse tal de power?
— Um produto novo, mas também extremamente antigo. A brew é a power dos pobres. A power é sete vezes mais forte e causa metade do estrago. Aguça e fortalece a mente. É o que os tempos atuais demandam.
— Prefiro a brew.
— O que você prefere, Macbeth, é continuar como comissário-chefe.
— E essa nova droga vai me tornar dependente?
— Como eu disse, é antiga. E vai substituir todas as drogas das quais você já é dependente. Então, o que me diz? Duff ou power?
Macbeth viu a cabeça de Lennox cair para a frente. E ouviu Strega sussurrar algo atrás dele. A irmã endireitou o corpo de Lennox na poltrona e foi até o caldeirão.
— Eu quero.
— Como?
Macbeth pigarreou:
— Eu disse que quero.
— Dê a ele — ordenou Hécate.
Macbeth ouviu o tap-tap se afastar enquanto os óculos eram recolocados em seu rosto, e o mundo à sua volta desapareceu.