Macbeth
Capítulo 24
Fred Ziegler bocejou. — Fred, você precisa de um café. — O capitão do MS Glamis deu uma risadinha. — Não podemos ter um prático de porto sonolento nesse tempo ruim. Me diga, você está sempre cansado? — Dias agitados, tenho dormido pouco — respondeu Fred. Jamais poderia revelar ao capitão que, se estava sempre bocejando, era porque tinha medo. Fred tinha visto o mesmo sintoma em seu cachorro, mas, por sorte, bocejos são considerados um indício de que a pessoa está completamente à vontade. Ou entediada. Ou, claro, que não dormiu o suficiente. O capitão apertou o botão do interfone e seu pedido de café desceu pelo cabo até a cozinha, passando por um convés, depois outro e mais outro. O MS Glamis era um navio grande. Um navio alto. E era isso que deixava Fred Ziegler agoniado. Ele refreou outro bocejo e olhou para a outra margem do fiorde. Conhecia todos os bancos de areia, todos os parágrafos e as alíneas do regulamento da autoridade portuária sobre as manobras de atracação e desatracação, e a localização das correntes mais fortes, onde as ondas quebravam, as zonas de abrigo e o local exato dos cabeços de amarração no cais. Isso não o perturbava. O canal estava em boas condições; ele podia conduzir as embarcações para dentro e para fora do porto de olhos vendados — o que frequentemente fazia — tão bem quanto de olhos abertos. As condições do tempo tampouco o perturbavam. Soprava um vento forte, quase um vendaval, e o vidro diante deles já estava esbranquiçado de espirros de água do canal e sal. Mas ele havia pilotado navios maiores e menores em meio a furacões e coisas piores sem precisar de um farol, de uma boia charuto ou de um posto de observação. A viagem no pequeno barco-piloto que o levaria a terra firme não o perturbava, embora a embarcação fosse tão navegável quanto uma vaca: um ventinho à toa e começava a fazer água; um cheirinho de vendaval e capotava, se o timoneiro não usasse as táticas corretas para enfrentar as ondas.
Fred Ziegler bocejava porque temia o momento em que baixariam a bandeira vermelha e branca que sinalizava a presença de um prático a bordo. Ou, para ser mais exato, o momento em que deixaria o navio. Em que desceria a escada de corda.
Fazia 12 anos que trabalhava como prático e ainda não se acostumara a subir e a descer pela lateral de um navio. Não o perturbava que pudesse acabar dentro da água, embora soubesse que deveria ter medo, porque não sabia nadar.
Não, o que o perturbava era a altura.
O medo paralisante quando teria de descer de costas pela lateral. Mesmo naquelas condições climáticas, o navio era tão grande que não seria difícil descer a escada do lado de sotavento, do ponto de vista estritamente técnico. Entretanto, ver ou simplesmente saber que havia 15 metros de nada separando-o do abismo o perturbava. Sempre fora assim e sempre seria assim. Todo santo dia de trabalho estava associado a esse inferno trivial: era a primeira coisa a emergir em sua mente ao acordar de manhã e a última a submergir antes de dormir. Mas quer saber? Não havia nada de incomum nisso. Por toda parte, ele via pessoas que passavam a vida inteira realizando trabalhos ou assumindo cargos nos quais não se sentiam confortáveis.
— O senhor deve ter saído do porto tantas vezes que agora poderia pedir à guarda costeira que simplesmente te deixasse passar — comentou Fred.
— Me deixar passar? — ecoou o capitão. — Aí eu ficaria sem a sua companhia, Fred. O que foi, não gosta de mim?
É do seu navio que não gosto, pensou Fred. Sou um homem pequeno que não gosta de embarcações grandes.
— A propósito, daqui pra frente, vamos nos encontrar menos vezes — disse o capitão.
— É mesmo?
— Carga insuficiente. No ano passado perdemos a Graven, que foi à falência, e depois a Estex, que fechou. O que estamos levando agora é a raspa do tacho do estoque.
Fred percebera, pela maneira como o navio se estabilizava na água, que havia menos carga que o usual.
— Uma pena — comentou.
— Não, não tem problema — disse o capitão, com ar soturno. — Saber que esses tóxicos que a gente vinha transportando por todos esses anos são pagos com a vida de nossos concidadãos... Pode acreditar, nem sempre dormi tranquilo, e às vezes me pergunto como devia ser pro capitão de um navio negreiro. É preciso ser bem criativo pra inventar desculpas boas pra si mesmo. Podemos até saber a diferença entre o certo e o errado mesmo sem usar esse nosso maravilhoso cérebro, mas é com ele que conseguimos elaborar alguns argumentos mais sofisticados que sozinhos soam corretos e que no conjunto podem nos levar exatamente aonde queremos ir, por maior que seja o grau de insanidade envolvido. Não, Fred, não quero pedir permissão aos guardas costeiros pra navegar por essas águas contaminadas sem um prático. Na quarta-feira, estávamos formando fila pra entrar quando chegou uma mensagem do próprio capitão do porto dizendo que tínhamos prioridade máxima. Sem custo.
— Deve ter sido uma agradável surpresa.
— Bem, sim. Então resolvi dar uma olhada melhor no conhecimento de embarque. Acontece que estávamos transportando duas metralhadoras Gatling. Isso está começando a ficar parecido com o que acontecia no tempo do Kenneth. Ei, cuidado! Quer queimar nosso prático, rapaz?
O rapaz com o traje xadrez da cozinha tinha perdido o equilíbrio quando o navio foi sacudido por uma onda e derramado café no uniforme preto do prático. Depois de murmurar um pedido de desculpas, ele entregou as xícaras e saiu apressado.
— Desculpa, Fred. Mesmo nessa cidade, onde metade da população está desempregada, é difícil encontrar tripulantes com pernas de marujo. Esse cara apareceu hoje de manhã dizendo que já tinha trabalhado em cozinha de navio, mas que perdeu os documentos.
Fred tomou um gole.
— Ele não só nunca esteve a bordo como também não sabe fazer café.
— Verdade. — O capitão suspirou. — Mas dá pra aguentar, pois só vamos até Capitol. Ah, ali a Ilha de Hanstholm atrás da gente: significa que o pior já passou. Vou ligar pro seu barco e pedir pra descer a escada lateral.
— Ok — disse Fred, engolindo em seco. — Aí sim vou poder dizer que o pior já passou.
Macbeth estava sentado numa cadeira no corredor, torcendo as mãos e encarando a porta da suíte.
— O que ele está fazendo lá dentro?
— Não sei muito sobre psiquiatria — respondeu Jack. — Quer que eu vá buscar mais café, senhor?
— Não, fica aqui. Mas ele é bom, não é?
— Sim, o Dr. Alsaker é considerado o melhor da cidade.
— Ótimo. Muito bom. Que horror, que horror.
Macbeth se inclinou para a frente e enfiou o rosto nas mãos. Ainda faltava uma hora para a entrevista na rádio. Tinha acordado antes do amanhecer, com os gritos no quarto de Lady. E, quando entrou afobado no cômodo, encontrou-a em pé ao lado da cama, apontando para o bebê morto.
— Olha! — gritou ela. — Olha o que eu fiz!
— Não foi você, meu amor.
Ele tentou segurá-la, mas ela se afastou e caiu de joelhos, aos prantos.
— Não me chame de meu amor, não posso ser amada, uma assassina de crianças não deve ser amada! — Então ela se virou para Macbeth e olhou para ele com aqueles seus olhos negros enlouquecidos. — Nem um assassino de crianças deve amar uma assassina de crianças. Sai daqui!
— Vem se deitar ao meu lado, querida.
— Sai do meu quarto! E não toque na criança!
— Isso é loucura. O corpo vai ser queimado hoje.
— Se tocar na criança eu mato você, Macbeth. Juro por Deus.
Ela pegou o corpo e o embalou.
Ele engoliu em seco. Precisava de sua dose matinal.
— Vou pegar umas roupas e deixar você em paz — falou ele, indo até o armário.
Abriu a gaveta. E ficou olhando para ela, parado.
— Desculpa — disse Lady. — Você vai ter que buscar mais. Precisamos disso, nós dois.
Ele saiu e, em vez de ir buscar mais power, mandou Jack pedir ajuda a um psiquiatra.
Macbeth tornou a olhar para o relógio. Quanto tempo demoraria para corrigir o pequeno curto-circuito emocional que ela obviamente sofrera?
Em resposta, a porta se abriu. Macbeth se ergueu de um pulo. Um homenzinho de barba grisalha e pálpebras que pareciam pertencer a alguém com o dobro de seu tamanho saiu do quarto.
— E então? — indagou Macbeth. — Doutor... Doutor...
— Dr. Alsaker — completou Jack.
— Dei algo pra acalmá-la — disse o psiquiatra.
— O que há com ela?
— É difícil avaliar.
— Difícil? Disseram que o senhor era o melhor.
— É bom ouvir isso, mas nem o melhor psiquiatra conhece todos os labirintos da mente, Sr. Macbeth.
— O senhor precisa curá-la.
— Como eu disse, com o pouco que realmente sabemos sobre a mente humana, é pedir muito...
— Não estou pedindo, doutor. Estou te dando um ultimato.
— Um ultimato, Sr. Macbeth?
— Se não a fizer voltar ao normal, vou ter que prender você por charlatanismo.
Alsaker olhou para ele por baixo das pálpebras enormes.
— Posso ver que o senhor dormiu mal e que a preocupação o deixou fora de si, comissário. Recomendo que tire um dia de folga. Quanto à sua esposa...
— O senhor está enganado — retrucou Macbeth, sacando uma adaga do coldre de ombro. — E a punição por não fazer seu trabalho é draconiana durante o atual estado de emergência.
— Senhor... — começou Jack.
— Cirurgia — disse Macbeth. — Isso é o que é necessário, é o que um médico de verdade faz: arranca fora o que não presta. Extermina qualquer pensamento de dor do paciente, porque a dor só faz vacilar. O médico extirpa e destrói o item abjeto, seja um tumor ou um pé gangrenado, pra salvar o todo. Não quer dizer que o tumor ou o pé putrefato sejam maus, simplesmente que devem ser sacrificados. Não é assim, doutor?
O psiquiatra inclinou a cabeça.
— Tem certeza de que é a sua esposa que precisa ser examinada e não o senhor?
— Eu te dei seu ultimato.
— Estou indo. É melhor me esfaquear logo pelas costas com essa coisa aí, se achar que deve.
Macbeth observou Alsaker lhe dar as costas e seguir em direção às escadas. Olhou para a adaga em sua mão. O que estava fazendo?
— Alsaker! — Macbeth correu atrás do psiquiatra. Ao emparelhar com ele, ajoelhou-se. — Por favor, o senhor precisa, precisa ajudá-la. Ela é tudo o que tenho. E preciso tê-la de volta. O senhor precisa recuperá-la. Pago qualquer coisa.
Alsaker segurou a barba entre o polegar e o indicador.
— É brew? — perguntou.
— Power — respondeu Macbeth.
— Faz sentido.
— O senhor conhece?
— Sim, sob uma grande variedade de codinomes, mas a composição química é a mesma. As pessoas acham que é um antidepressivo porque a droga age como estimulante nas primeiras vezes. Mas depois os usuários começam a apresentar episódios de surto psicótico.
— Sim, sim, é o que ela toma.
— Perguntei o que o senhor toma. E agora vejo claramente. Há quanto tempo está tomando?
— Eu...
— Não tem muito tempo, é evidente. A primeira coisa que se perde são os dentes. Depois, a sanidade. E não é fácil escapar da prisão da psicose. O senhor sabe como chamam a pessoa que está completamente viciada em power? Prisioneiro de guerra.
— Escuta aqui...
— Um prisioneiro de guerra. Bacana, não acha?
— Eu não sou seu paciente, Alsaker. Peço que não vá embora enquanto não tiver feito tudo que for possível.
— Prometo voltar, mas tenho outros pacientes pra atender agora.
— Jack — chamou Macbeth, sem se mexer nem deixar de encarar o psiquiatra.
— Sim, senhor?
— Mostra pra ele.
— Mas...
— Ele é obrigado pelo Juramento de Hipócrates.
Jack desembrulhou as mantas e estendeu o volume para o médico, que recuou um passo, cobrindo o nariz e a boca com a mão.
— Lady acha que é filha dela — explicou Macbeth. — Se não for por mim nem por ela, então que seja pela cidade, doutor.
Macbeth sentiu uma estranha pressão nos ouvidos quando a porta se fechou atrás dele. Finalmente, pensou, estou no manicômio. As paredes da salinha quadrada onde três pessoas estavam sentadas o observando eram acolchoadas, embora houvesse uma janela.
— Não tenha medo — disse o homem à mesa à sua frente. — Só vou fazer algumas perguntas. Vai ser bem rápido.
— Não é das perguntas que tenho medo — falou Macbeth, ao se sentar —, mas das respostas.
O homem sorriu, a música do alto-falante acima da janela acabou, e ele tocou os lábios com o indicador em riste quando uma luz vermelha se acendeu.
— Você está ouvindo o Balanço Geral, com Walt Kite — começou o homem, curvando-se para o microfone à sua frente. — Hoje temos a visita do novo queridinho da cidade, o comissário-chefe Macbeth, que, depois de aniquilar uma das mais notórias gangues de drogas da cidade, os Norse Riders, agora está perseguindo incansavelmente colaboradores corruptos dentro da própria força policial. Ele conquistou o coração da população e fez crescer as esperanças com discursos inspiradores, nos quais garantiu que estamos entrando em uma nova era. Comissário-chefe, isso não é apenas retórica?
Macbeth pigarreou. Estava pronto para esse tipo de pergunta. Ele sentia um novo homem. E, mais uma vez, estava devidamente medicado.
— Sou um homem simples, que não sabe quase nada de retórica, Walt. Apenas disse o que estava em minha mente: que, se essa cidade tiver vontade, terá o poder de se erguer. Mas nem o comissário-chefe nem os políticos podem erguer uma cidade; cabe aos cidadãos fazerem isso.
— Mas eles podem ser inspirados e liderados?
— Claro que sim.
— Seu nome está sendo cogitado pra prefeitura. O senhor se sente atraído pela ideia, comissário?
— Sou um oficial de polícia e desejo apenas servir à cidade nas tarefas pras quais fui designado.
— Em outras palavras, como humilde servo do povo. Seu predecessor, Duncan, também via a si próprio como um servo do povo, embora não fosse tão humilde. Ele prometeu pegar o criminoso mais poderoso da cidade, Hécate, também conhecido como A Mão Invisível, no prazo de um ano. Bem, o senhor já cuidou dos Norse Riders. Que prazo estabeleceu para Hécate?
— Primeiro, preciso explicar que há uma razão pro codinome “Mão Invisível”. Sabemos muito pouco sobre o Hécate, só que ele provavelmente está por trás da fabricação da droga conhecida como brew. Mas, com uma produção e distribuição tão extensas, é provável que estejamos falando de uma rede ou de uma cadeia de fornecimento compartilhada.
— Será que ouvi o senhor dizer que não pretende dar à prisão do Hécate a mesma prioridade que Duncan deu?
— O que você ouviu foi um comissário-chefe dizer que se recusa a usar todos os seus recursos em prisões que virem manchetes, que enalteçam a polícia e que resultem em recepções regadas a champanhe nos salões da prefeitura mas que, na realidade, afetem muito pouco a vida das pessoas. Se prendermos um homem chamado Hécate, outros tomarão seu lugar, a menos que a gente resolva o verdadeiro problema.
— Que é?
— Emprego, Walt. Dar emprego pras pessoas. Essa é a melhor e mais barata iniciativa contra o crime. Podemos encher nossas prisões, mas, enquanto tivermos pessoas nas ruas sem ter o que comer...
— Agora está realmente parecendo que o senhor está pensando em se candidatar a prefeito.
— Não me importo com o que possa parecer. Só quero essa cidade de volta aos trilhos.
— E como vai fazer isso?
— Podemos fazer isso garantindo que essa se torne uma cidade onde levamos em conta tanto os investidores quanto os trabalhadores. Os investidores não devem ficar livres de pagar impostos nem podem subornar as autoridades pra obter privilégios. Mas a cidade pode dar a eles a garantia de que as leis estão sendo cumpridas. E os trabalhadores devem ter certeza de que seu local de trabalho não está acabando com a sua saúde. Nosso Banquo, herói recentemente falecido, perdeu sua esposa, Vera, há tempos. Ela respirou fumaça tóxica por muitos anos na fábrica onde trabalhou. Vera era uma linda esposa e mãe trabalhadora. Eu a conhecia e a amava. Como comissário-chefe, prometo a essa cidade que seus futuros locais de trabalho não vão tirar a vida de mais Veras. Existem outras maneiras de encontrar emprego pras pessoas. Maneiras melhores. Que darão a elas uma vida melhor.
Macbeth viu, no sorriso de Walt Kite, que o havia impressionado. E ele próprio se impressionara. Nunca tinha sido capaz de pensar nem de se expressar com tanta clareza. Só podia ser a power transportando as palavras, tão concisas e lógicas, do cérebro à língua.
— Sua popularidade cresceu rápido, exponencialmente, comissário. Será por isso que o senhor se atreve a fazer declarações que, caso eu fosse o prefeito Tourtell, consideraria um desafio ao meu cargo? Falando do ponto de vista formal, ele é seu chefe, aquele com poderes para endossar sua nomeação pro posto de comissário-chefe. Caso contrário, o senhor estará desempregado.
— Eu tenho outros chefes além do prefeito, Walt, entre eles minha própria consciência e os nossos cidadãos. E, pra mim, minha consciência e essa cidade são mais importantes que uma cadeira confortável no escritório do comissário-chefe.
— Em quatro meses haverá eleições pra prefeito, e a data final pras indicações é daqui a três semanas.
— Se é o que você diz, Walt.
Walt Kite achou graça e ergueu um dos braços acima da cabeça.
— E com isso deixo meu obrigado ao comissário-chefe Macbeth. Não tenho tanta certeza se ele está nos dizendo a verdade quando diz que não sabe nada de retórica. E agora, com vocês, Miles Davis...
Ele desceu o braço e apontou para a janela. A luz vermelha se apagou e o som suave de um trompete encheu os alto-falantes.
— Obrigado. — Kite sorriu. — Ninguém vai tirar a vida de mais Veras. Você está ciente de que pode ser eleito prefeito só com essa declaração, não?
— Obrigado pela entrevista — agradeceu-lhe Macbeth, sem se levantar.
Kite lançou-lhe um olhar de indagação.
— Será que ouvi direito o que você disse? — perguntou Macbeth, pausadamente e em voz baixa. — Você me acusou de mentir, no final?
Kite arregalou os olhos, surpreso.
— Mentir?
— Não tenho tanta certeza se ele está nos dizendo a verdade quando diz...
— Ah, mas isso... — o pomo de adão do repórter deu um salto — ... Era apenas uma brincadeira, claro, um... Só um jeito de falar, um...
— Eu estava só te provocando — disse Macbeth, com um sorriso, ao se levantar. — Até logo.
Quando Macbeth deixou o prédio da rádio, sob a chuva, concluiu que Walt Kite não seria mais um problema. E, quando se sentou no banco de trás da limusine, sentiu que o Obelisco, Duff e a doença de Lady também não mais seriam problemas. Porque seu raciocínio nunca fora mais claro.
— Dirija um pouco mais devagar — ordenou ele.
Queria aproveitar o trajeto pela cidade. Sua cidade.
Bem, ainda não era dele, mas logo seria. Porque ele era invencível. E estava perfeitamente medicado.
Enquanto aguardavam em um sinal de trânsito, seu olhar pousou sobre um homem parado no cruzamento, embora a luz para pedestres estivesse verde. O peito e o rosto estavam ocultos por um amplo guarda-chuva preto, de modo que tudo que Macbeth conseguia ver era o casaco de cor clara, os sapatos marrons e o grande cachorro preto que ele levava em uma guia. Então algumas questões pipocaram em sua mente. Será que o cachorro alguma vez havia se perguntado por que tinha um dono, por que estava sendo conduzido por uma guia? Recebia um pouco de comida, sua porção preestabelecida, apenas o suficiente para que preferisse a segurança à insegurança, para ser mantido sob controle. Isso é tudo que impede o cão de saltar sobre seu dono enquanto ele está dormindo, de rasgar-lhe a garganta e assumir o controle da casa. Pois bastaria isso. Uma vez que se aprende a abrir a porta da despensa, essa é a consequência mais natural.