Macbeth
Capítulo 29
— Bem-vindo a bordo — disse o capitão do MS Glamis quando o prático entrou na ponte de comando. — Gostaria que estivéssemos no horário hoje. Temos uma pessoa esperando por nós. — Sem problema — disse o prático, apertando a mão do capitão e assumindo sua posição ao lado dele. — Isso se os motores estiverem funcionando. — E por que não estariam? — Um dos seus engenheiros pediu meu barco emprestado pra ir a terra, pra buscar uma peça sobressalente pro primeiro-engenheiro. — Ah, foi? — questionou o capitão. — Ninguém me falou nada sobre isso. — Provavelmente não é importante. — Quem era o engenheiro? — Hutch alguma coisa. Olha, lá estão eles. — O prático apontou para o barco que se afastava rapidamente. O capitão pegou o binóculo. No convés de popa, viu um boné listrado e as costas de uma camiseta da Esso. — Algum problema? — perguntou o prático. — Ninguém sai do navio sem a minha permissão — disse o capitão. — Pelo menos não hoje. — Ele apertou o botão do interfone para chamar a cozinha. — Comissário! — Sim, capitão. — Veio a resposta. — Manda o Johnson trazer dois cafés.
— Estou indo, capitão.
— Eu disse o Johnson.
— Ele está passando mal, capitão, então deixei que ficasse de repouso até atracarmos.
— Verifique se ele está na cabine.
— Agora mesmo.
O capitão tirou o dedo do botão.
— Três graus a bombordo — disse o prático.
— Sim, sim — respondeu o primeiro-imediato.
O inspetor Seyton havia dito que a opção mais segura seria que o capitão e o telegrafista fossem os únicos a saber, para que Duff não percebesse que havia sido desmascarado. Seyton e dois de seus melhores homens estariam a postos no cais quando eles atracassem, entrariam no navio e dominariam Duff. E Seyton havia enfatizado que, quando isso acontecesse, queria a tripulação fora do caminho para que ninguém se machucasse, caso tiros fossem disparados. Embora o capitão tivesse a impressão de ter ouvido quando tiros fossem disparados.
— Capitão! — Era o comissário. — Johnson está dormindo como um anjo. Quer que eu vá acordá-lo?
— Não, deixa ele dormir. Ele está sozinho na cabine?
— Sim, capitão.
— Ótimo.
O capitão olhou para o relógio. Em uma hora tudo estaria terminado, e ele poderia ir para casa, para a esposa. E tirar alguns dias de folga. Só precisaria comparecer à empresa no dia seguinte, para tratar do relatório da seguradora apontando um número preocupante de casos do mesmo tipo de doença na tripulação que havia trabalhado no porão nos últimos dez anos. Algo a ver com sangue.
— O curso está bom — disse o prático.
— Tomara — resmungou o capitão. — Tomara.
Uma e dez. Dez minutos antes, uma grande cabeça de alce havia aparecido na janelinha do relógio de parede tipo cuco e mugido. Angus olhou em volta. Lamentou a escolha do lugar. Mesmo que fossem apenas vagabundos desempregados e bêbados n’A Muralha durante o dia agora, era o bar frequentado pelo GOE, e, se alguém da polícia o visse conversando com o repórter, a notícia logo chegaria aos ouvidos de Macbeth. Por outro lado, levantava menos suspeitas do que se sentar em um bar escondido nas ruas menos movimentadas.
Mas Angus não estava nada satisfeito. Não gostou do alce. Não gostou do fato de o jornalista ainda não ter chegado. Teria ido embora havia muito tempo se essa não fosse sua última chance.
— Desculpe pelo atraso.
O R enrolado. Angus ergueu o olhar. Apenas a voz lhe dava a certeza de que aquele homem numa capa de chuva amarela era Walter Kite. Havia lido que ele se recusara repetidamente a ter fotos suas publicadas na TV, em jornais e em revistas de celebridades, pois achava que a aparência da pessoa tirava o foco do texto jornalístico. A palavra era tudo.
— Chuva e trânsito — explicou-se Walt Kite, desabotoando a capa. Pingos de água escorriam dos finos fios de seu cabelo.
— É sempre chuva e trânsito — comentou Angus.
— É a desculpa que usamos — falou o repórter, sentando-se diante de Angus. — A verdade é que a corrente da minha bicicleta soltou.
— Achei que Walter Kite não mentisse.
— Kite, o repórter do rádio, nunca mente — explicou Kite, com um sorriso. — Walter, o indivíduo, já é outra coisa.
— Está sozinho?
— Sempre. Me diga o que não disse ao telefone.
Angus respirou bem fundo e começou a falar. Não sentiu a mesma tensão de quando compartilhara a informação com Lennox e Caithness. Talvez porque a sorte já tivesse sido lançada; não havia caminho de volta. Usou mais ou menos as mesmas palavras da véspera, na Estex, e também relatou o encontro com Lennox e Caithness. Não deixou nada por ser dito. Deu os nomes. Os detalhes sobre a sede do clube e a casa em Fife. A ordem para queimar o corpo do bebê. Enquanto eles conversavam, Kite pegou um guardanapo da caixinha na mesa e pôs-se a limpar as manchas escuras de óleo nas mãos.
— Por que eu? — indagou Kite, pegando um segundo guardanapo.
— Porque você é considerado um repórter corajoso e íntegro.
— É bom saber que as pessoas acham isso — falou Kite, dando uma boa olhada em Angus. — Seu linguajar é mais culto que o dos outros jovens policiais.
— Estudei teologia.
— Então isso explica tanto a maneira de falar como seu interesse em se expor. Você acredita na salvação por meio de boas ações.
— Está enganado, Sr. Kite. Não acredito nem em salvação nem em divindades.
— Você falou com outros jornalistas? — Ele deu um sorrisinho. — Com ou sem integridade?
Angus balançou a cabeça.
— Ótimo. Porque, se eu trabalhar nesse caso, preciso de exclusividade total. Então nem uma única palavra pra outros jornalistas nem pra ninguém. Estamos de acordo?
Angus assentiu.
— Onde posso encontrar você, Angus?
— Meu número de telefone...
— Sem telefones. Endereço.
Angus anotou o endereço no guardanapo sujo de óleo.
— O que vai acontecer agora?
Kite arfou. Do jeito que se faz quando se está convicto da imensa quantidade de trabalho que terá pela frente.
— Tenho que checar alguns dados primeiro. É um caso de grandes proporções, e eu não gostaria de ser flagrado apresentando informações falsas ou ser suspeito de estar agindo por interesses de alguém.
— Meu único interesse é que a verdade seja divulgada e que Macbeth seja impedido de continuar.
Angus percebeu que havia levantado a voz quando Kite passou os olhos na escassa clientela para se certificar de que ninguém tinha ouvido.
— Se isso tudo for verdade, então você está mentindo quando diz que não acredita em divindades.
— Deus não existe.
— Eu me referi à divindade dos homens, Angus.
— Você quer dizer a humanidade nos homens, Kite. Desejar o bem é tão humano quanto pecar.
Kite assentiu devagar.
— Bem... O teólogo é você. Embora eu confesse que acredito nisso tudo, vou ter que apurar a história e checar você, como pessoa. Acho que é isso que chamam de... — ele se levantou e abotoou a capa — ... Integridade.
— Quando você acha que pode ser publicado? — Angus respirava com sofreguidão. — É que não confio no Lennox. Ele vai direto pro Macbeth.
— Vou priorizar isso — disse Kite. — Devo ter algo pronto em dois dias. — Ele pegou a carteira.
— Obrigado. Eu pago o meu café.
— Tudo bem. — Kite tornou a guardar a carteira. — Você é uma espécie rara nessa cidade, sabia?
— E definitivamente correndo risco de extinção — disse Angus, com um sorriso débil.
Ficou observando o repórter até que ele chegasse à rua. Deu uma olhada no bar. Ninguém que chamasse a atenção. Todos pareciam ocupados com os próprios assuntos. Dois dias. Precisava tentar permanecer vivo por dois dias.
Seyton não gostava de Capitol. Não gostava das avenidas largas, dos suntuosos prédios antigos do Congresso, de nada: os parques verdejantes, as bibliotecas e a casa de ópera, os artistas de rua, as pequenas igrejas góticas e a catedral ridiculamente extravagante, as pessoas sorridentes nas mesas externas dos restaurantes, nada disso lhe agradava, nem o caríssimo teatro nacional, com suas peças pomposas, seus diálogos incompreensíveis e seus reis megalomaníacos que morrem no último ato.
Foi por isso que preferiu se posicionar de costas para a cidade, os olhos atentos ao mar.
Estavam dentro do centro administrativo do porto e já podiam ver o MS Glamis.
— Tem certeza de que não quer ajuda? — perguntou o policial com o distintivo da POLÍCIA DE CAPITOL no uniforme.
Houvera uma discussão sobre jurisdição antes de eles chegarem, mas o comissário-chefe de Capitol fora cooperativo porque, segundo ele, achavam que o assassinato de um policial de outra cidade os afetava e também porque dá para abrir exceções para ações dentro de navios.
— Obrigado mais uma vez, mas tenho certeza — respondeu Seyton.
— Tudo bem, mas quando ele for preso e trazido para terra, nós assumimos.
— Certamente. Contanto que você fique de olho na escada do costado e no navio.
— Ele não vai escapar, inspetor.
O policial de Capitol apontou para homens à paisana em dois barcos a remo a cinquenta metros do cais. Eles fingiam pescar, mas estavam prontos para pegar Duff se ele pulasse na água.
Seyton assentiu. Não fazia muito tempo, estivera esperando em outro porto. Naquela época, havia sido Duff a recusar ajuda, o completo idiota. Mas os papéis tinham se alterado. E faria questão de que Duff soubesse disso. Ele o faria sentir na pele. Por alguns infinitamente longos segundos. A Polícia de Capitol não sabia nada sobre as ordens dadas por Macbeth, naturalmente: Duff não deveria ser trazido a terra, mas carregado. Num saco.
O Glamis inverteu a marcha, e o mar foi chacoalhado abaixo da superfície. Em seguida, a água branca subiu e borbulhou como champanhe. Seyton carregou sua submetralhadora MP-5.
— Olafson. Ricardo. Prontos?
Os dois homens do GOE assentiram. Tinham as plantas baixas do navio que mostravam a cabine em que Duff se encontrava. Cabos foram jogados do Glamis para o cais, um da proa e outro da popa, aduchados em voltas circulares nos mourões e apertados. A lateral do navio esbarrou de leve nos pneus de proteção, que se queixaram aos guinchos. Um passadiço foi descido.
— Agora — disse Seyton.
Olafson e Ricardo correram pelo cais e subiram pelo passadiço. A tripulação parou para vê-los, boquiaberta; obviamente, o capitão tinha conseguido manter o segredo. Desceram correndo uma escada de ferro, passando diante de uma porta com a placa de CABINE DO PRIMEIRO-PILOTO . Desceram mais. E mais. Pararam em frente à porta da cabine 12.
Seyton apurou os ouvidos: nada além da própria respiração e do ronco dos motores. Ricardo tinha assumido uma posição mais adiante no corredor, de onde podia vigiar as portas mais próximas, caso Duff estivesse em outra cabine e, tendo percebido a presença deles, tentasse escapar.
Seyton acendeu a lanterna e fez sinal para Olafson. Então entrou. Não havia necessidade da lanterna, pois tinha luz suficiente no interior. Duff estava deitado no beliche inferior, virado para a parede, debaixo de um cobertor. Usava o boné verde que, segundo o capitão, “Johnson” nunca tirava, mantendo-o puxado até os imensos óculos. Apenas uma vez o boné subira, e foi quando o capitão viu a cicatriz. Seyton tirou a arma que seria colocada na mão de Duff e disparou dois tiros na parede atrás deles. As explosões o deixaram temporariamente surdo, e por alguns segundos Seyton só ouviu rangidos bem altos. Duff tinha ficado duro. Seyton aproximou a boca do ouvido dele.
— Eles gritaram — disse. — Eles gritaram, e foi maravilhoso ouvir. Você pode gritar um pouco também, Duff. Porque eu decidi atirar primeiro na sua barriga. Em nome do nosso antigo companheirismo, seu imbecil arrogante.
Um forte cheiro subiu de Duff. Seyton inalou. Mas não foi o encantador aroma do medo. Foi... Suor. Suor envelhecido e masculino. Mais antigo do que os poucos dias que Duff passara desaparecido.
O homem do beliche se virou para ele.
Não era o rosto de Duff.
— Hã? — disse o homem ao se sentar, e o cobertor caiu, revelando um peito nu e braços peludos.
Seyton espetou o cano da metralhadora na testa do homem.
— Polícia. O que você está fazendo aqui? Onde está o Duff?
O homem fungou.
— Estou dormindo, como você pode ver. E não faço a menor ideia de quem é esse tal de Duff.
— Johnson — disse Seyton, pressionando o cano na testa do sujeito com tanta força que ele tombou para trás no travesseiro.
Outra fungada.
— O garoto da cozinha? Você já foi olhar na cozinha? Ou nas outras cabines? Nessa viagem, a gente pega qualquer beliche que estiver livre. O que foi que Johnson fez, hein? Tá com jeito de ter sido coisa séria. Se vai fazer um buraco na minha cabeça, é melhor atirar, seu babaca.
Seyton afastou a arma.
— Olafson, pegue o Ricardo e vasculhem o navio.
Seyton observou o rosto inchado à sua frente. Deu-lhe uma cheirada. Será que o homem realmente não conhecia o medo ou era a combinação de fedores das outras funções do corpo que se sobrepunham ao cheiro do medo?
Olafson continuava parado atrás dele.
— Vasculhem o navio! — gritou Seyton.
Em seguida, ouviu os solados das botas de Olafson e Ricardo retumbando pelo corredor e o som das portas das cabines sendo abertas.
Seyton se empertigou.
— Qual é o seu nome e por que está com o boné do Johnson?
— Hutchinson. Pode ficar com o boné, se quiser. Parece que está precisando de alguma coisa pra ajudar na punheta.
Seyton atacou. A arma fez um corte no rosto do homem e o sangue correu. Mas o sujeito não mexeu um músculo, apesar de seus olhos se encherem de lágrimas.
— Responda — sibilou Seyton.
— Acordei com frio, fui colocar a minha camisa que eu deixei ali na cômoda, mas tanto a minha camisa quanto o meu boné tinham sumido, então peguei esse aqui. Eu estava com frio, tá bom?
A voz de Hutchinson tremia, mas o ódio cintilava através das lágrimas. Medo e ódio, ódio e medo, era sempre igual, pensou Seyton, limpando o sangue do cano da MP-5.
Vozes iradas vieram do corredor. Seyton já sabia. Vasculhariam o navio todo, cada canto e cada fenda, em vão. Duff já tinha fugido.