Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 6 de 50

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Macbeth

Capítulo 3

 

— Olhei em volta e, na semiescuridão, vi os caras do Norse Riders pelo chão, de cara pra baixo — contava Macbeth. — Sangue, vidro quebrado e cápsulas de bala vazias. — Jesus! — exclamou Angus, falando meio arrastado, sua voz soando acima do burburinho animado n’A Muralha, o bar frequentado pelo pessoal do GOE, que ficava atrás da central de polícia. Seus olhos azuis arregalados encaravam Macbeth de um jeito que parecia adoração. — Você acabou de exterminar os caras da face da terra! Cristo Rei! Viva! — Calma lá, meça suas palavras, ex-futuro padre — disse Macbeth, mas, quando a maioria dos 18 policiais do GOE ali presentes ergueu a caneca de cerveja em sua homenagem, ele acabou sorrindo, abanando a cabeça e então fazendo um brinde também. Depois de um longo gole, Macbeth olhou para Olafson, que segurava na mão esquerda uma pesada caneca de mais de meio litro. — Está doendo, Olafson? — Dói menos porque eu sei que um deles também foi ferido no ombro — ceceou Olafson, e, sem graça quando os outros caíram na gargalhada, ajeitou a tipoia. — Quem realmente fez as coisas acontecerem foram Banquo e Olafson — disse Macbeth —, eu só segurei o refletor feito um assistente de fotógrafo pra esses dois atores.

— Continue — pediu Angus. — Você e Duff botaram todos os Norse Riders no chão. O que foi que aconteceu? — perguntou, ajeitando o cabelo louro atrás das orelhas.

Macbeth viu a expectativa estampada naqueles rostos ao redor da mesa e trocou olhares com Banquo antes de continuar:

— Alguns gritaram que estavam se rendendo. A poeira baixou e a aparelhagem de som ficou reduzida a cacos, de modo que finalmente ficou tudo silencioso mas ainda escuro, e não estava muito nítida qual era a situação. Duff e eu resolvemos checar qual era o estado deles de onde estávamos, nos fundos do salão. Não tivemos fatalidades, mas muitos deles estavam, digamos assim, implorando por cuidados médicos. Duff então gritou que não conseguia encontrar Sweno. — Macbeth correu o dedo pela condensação no copo. — Vi uma porta atrás da ponta da mesa onde Sweno estava sentado quando chegamos, e naquele instante ouvimos o barulho de motos. Então deixamos pra trás os feridos no salão e corremos pro pátio. Foi quando vimos três motos indo em direção ao portão, e uma delas era vermelha, a do Sweno. E o vigia, um sujeito careca de bigode, montou na sua moto e seguiu os caras. Duff ficou uma fera, quis ir atrás, mas eu disse que havia uns caras numa situação bem crítica lá dentro...

— E você achou mesmo que isso faria Duff desistir? — sussurrou alguém. — Uns filhos da puta ensanguentados caídos por todo lado, quando ele podia botar as mãos no Sweno?

Macbeth se virou. O dono da voz estava sentado sozinho a uma mesa, o rosto encoberto pela sombra do armário de troféus do clube de dardos.

— Achou mesmo que Duff se incomodaria com um punhado de vidas de uns merdinhas, quando um herói valente e admirado estava ao alcance da mão dele? — Uma caneca de cerveja foi erguida nas sombras. — Há que se considerar a carreira de alguns.

A mesa de Macbeth caiu em silêncio.

Banquo tossiu.

— As carreiras que se fodam. Nós do GOE não deixamos que pessoas carentes de socorro simplesmente morram, Seyton. O que vocês da Narcóticos fazem aí eu já não sei.

Seyton se inclinou para a frente, e seu rosto ficou iluminado.

— Nenhum de nós na Narcóticos sabe ao certo o que está fazendo, esse é o problema com um chefe como o Duff. Mas não quero interromper sua história, Macbeth. Vocês voltaram pro salão e cuidaram dos feridos?

— Sweno é um assassino que voltaria a matar se tivesse a oportunidade — concluiu Macbeth, enfrentando o olhar de Seyton —, e Duff estava preocupado com a possibilidade de eles escaparem pela ponte.

— Meu medo era que eles cruzassem a ponte, como o caminhão bem que tentou fazer — contou Duff. — Então subimos de volta nas motos. E dirigimos o mais rápido possível. E mais um pouco. Um leve descuido no asfalto molhado... — Duff empurrou o dourado crème brûlée parcialmente comido pela toalha de tecido adamascado de Lyon, pegou a garrafa de champanhe no cooler e reabasteceu as outras três taças. — Passada a primeira curva fechada no fundo do vale, vi as lanternas traseiras de quatro motos e acelerei. Pelo retrovisor, vi que Macbeth continuava na perseguição.

Duff lançou um olhar furtivo para o comissário-chefe Duncan, para ver se seu relato estava sendo bem recebido. Seu sorriso gentil e amistoso era difícil de interpretar. Duncan ainda não havia feito nenhum comentário direto sobre a diligência noturna, mas o fato de ele ter comparecido àquela modesta comemoração não seria uma aceitação implícita? Talvez, mas o silêncio do comissário-chefe deixava Duff inseguro. Ele se sentia mais à vontade ao lado do chefe da Unidade Anticorrupção, o inspetor Lennox, um sujeito ruivo de pele bem clara, que, com seu habitual entusiasmo, inclinava-se sobre a mesa sorvendo cada palavra. E com a chefe da Unidade de Perícia, Caithness, cujos grandes olhos verdes lhe diziam que ela acreditava em cada naco e migalha de informação.

Duff pousou a garrafa na mesa.

— No trecho do acesso ao túnel, estávamos lado a lado e as luzes lá na frente ficavam mais fortes. Como se tivessem diminuído a marcha. Eu via os chifres do capacete do Sweno. Então, algo inesperado aconteceu.

Duncan moveu seu champanhe para perto do cálice de vinho tinto, um gesto que Duff não sabia se interpretava como tensão ou apenas impaciência.

— Duas das motos viraram logo depois do ponto de ônibus na saída pra pegar a estrada pra Forres, enquanto as outras duas seguiram pro túnel. Estávamos a segundos do cruzamento, e tive que tomar uma decisão...

Duff enfatizou a palavra decisão. Claro que ele poderia ter dito fazer uma escolha . Mas escolher era apenas algo que qualquer idiota poderia ser forçado a fazer, enquanto tomar uma decisão é uma atitude proativa que exige um processo mental e demanda personalidade, a atitude de um líder. O tipo de líder de que o comissário-chefe precisava quando fosse nomear o chefe da recém-criada Unidade de Crime Organizado, uma grande fusão da Narcóticos com a Facções — o que fazia todo o sentido, pois tudo que se referia a droga na cidade estava agora dividido entre Hécate e os Norse Riders, que engoliram as outras gangues. A questão era: quem chefiaria a nova unidade? Duff ou Cawdor, o experiente líder da Unidade de Facções, que tinha uma casa na zona oeste da cidade, já quitada e de tamanho suficiente para levantar suspeitas. O problema era que Cawdor tinha um grupo de apoio na câmara e também entre os ex-conspiradores de Kenneth na polícia, e, mesmo que todos soubessem que Duncan estava disposto a arriscar o pescoço para se livrar dos vários “Cawdors”, também tinha de mostrar algum tino político para não perder o controle na central. O que estava claro era que um deles — ou Cawdor, ou Duff — sairia vencedor, e o outro ficaria sem uma unidade para comandar.

— Fiz sinal pro Macbeth, indicando que devíamos seguir a dupla que tinha seguido pra Forres.

— Sério? — questionou Lennox. — Assim os outros dois cruzariam os limites da cidade.

— Isso mesmo, e esse era o dilema. Sweno é uma raposa astuta. Estaria ele enviando dois homens pra Forres como iscas, enquanto ele ia na direção da fronteira por ser o único dos Norse Riders contra quem tínhamos material suficiente? Ou será que estaria contando que pensaríamos que era isso que ele estava pensando e, consequentemente, faríamos o contrário?

— E tínhamos? — indagou Lennox.

— Tínhamos o quê? — retrucou Duff, tentando disfarçar a irritação por ter sido interrompido.

— Tínhamos material contra Sweno? Pelo que sei, o massacre de Stoke já prescreveu.

— Os assaltos a duas agências dos Correios no Distrito 1, há cinco anos — respondeu Duff, com impaciência. — Temos as digitais do Sweno por todo lado.

— E quanto aos outros Norse Riders?

— Zero. E também não conseguimos nada hoje, porque estavam todos de capacete. Mas continuando: quando embicamos pra Forres, vimos o capacete...

— O que é o massacre de Stoke? — perguntou Caithness.

Duff resmungou.

— Você provavelmente não era nem nascida na época — respondeu Duncan, com gentileza. — Aconteceu em Capitol, logo depois da guerra. O irmão do Sweno estava prestes a ser preso por deserção e cometeu a idiotice de sacar uma arma. Os dois policiais que lhe deram voz de prisão, e que haviam passado a guerra nas trincheiras, deram tiros certeiros nele. Meses depois disso, Sweno vingou a morte do irmão em Stoke. Ele invadiu uma delegacia e matou a tiros quatro policiais, sendo que uma delas estava nos últimos meses de gravidez. Sweno sumiu do mapa, e, quando afinal reapareceu, o crime havia prescrito. Duff, por favor, continue.

— Obrigado. Achei que eles não tivessem notado que estávamos tão perto, a ponto de reconhecer o capacete do Sweno quando ele dobrou pra Forres e a antiga ponte. Pegamos os caras alguns quilômetros depois, mais ou menos. Quer dizer, Macbeth disparou dois tiros pro ar quando eles ainda estavam bem na nossa frente, e eles pararam. Então paramos também. Já tínhamos passado do vale, então não estava chovendo mais. Boa visibilidade, luz da lua, estávamos a uma distância de cinquenta ou sessenta metros... Eu estava com a minha AK-47 e dei ordem pra que descessem das motos, dessem cinco passos na nossa direção e ajoelhassem no asfalto com as mãos atrás da cabeça. Eles obedeceram, nós desmontamos e fomos até eles.

Duff fechou os olhos.

Podia vê-los agora mesmo.

Ajoelhando-se.

O couro da jaqueta de Duff fazia uns ruídos enquanto caminhava na direção deles, e uma gota de água pendia da beirada da sua viseira aberta. Logo cairia. Logo.

— Devíamos estar a uns dez ou 15 passos quando Sweno sacou a arma — continuou Macbeth. — Duff reagiu na mesma hora. Atirou. Acertou Sweno três vezes, no peito. Morto antes mesmo do seu capacete bater no chão. Mas, nesse meio-tempo, o segundo homem tinha apontado a arma pra Duff. Felizmente, não teve tempo de apertar o gatilho.

— Cacete! — exclamou Angus. — Você atirou nele, foi isso?

Macbeth se reclinou para trás.

— Eu o peguei com uma adaga.

Banquo encarou seu superior.

— Impressionante — murmurou Seyton, ainda à sombra. — Por outro lado, Duff reagiu mais rápido do que você quando Sweno foi pegar a arma, não? Eu teria apostado que você seria mais rápido, Macbeth.

— Aí você se enganou — disse Macbeth. O que Seyton estava fazendo, o que ele queria? — Igual ao Duff — completou, levando a caneca de cerveja aos lábios.

— Cometi um erro — disse Duff, fazendo sinal para que o garçom trouxesse mais uma garrafa de champanhe. — Não quanto ao tiro, é claro. Mas ao escolher quais motos seguir.

O chefe dos garçons veio até a mesa para informar com muita discrição que, infelizmente, teriam de fechar e que era proibido vender bebida alcoólica após a meia-noite. A menos que o comissário-chefe...

— Obrigado, mas não — disse Duncan, que era mestre na arte de fingir um sorriso enquanto erguia as sobrancelhas em reprovação. — Vamos respeitar a lei.

O garçom pediu licença e se foi.

— Até os melhores podem fazer a escolha errada — disse Duncan. — Quando você se deu conta do erro? Quando tirou o capacete dele?

— Não — respondeu Duff. — Uma fração de segundo antes, quando me ajoelhei ao lado do corpo e por acaso olhei pra moto. Não era a do Sweno, o sabre não estava lá. E os Riders não trocam de moto.

— Mas trocam o capacete?

Duff deu de ombros.

— Eu devia ter previsto isso. Afinal, Macbeth e eu tínhamos acabado de lançar mão do mesmo truque. Sweno trocou de capacete, e eles reduziram pra que víssemos que o sujeito com o capacete dele estava indo pra Forres. Enquanto isso, ele atravessava o túnel, passava pela ponte e escapava.

— Uma jogada inteligente, sem dúvida — comentou Duncan. — Pena que o pessoal do Sweno não tenha sido tão inteligente.

— Como assim? — perguntou Duff, olhando para a pastinha de couro com a conta, que o garçom havia colocado diante dele.

— Por que sacar armas pros policiais, quando eles sabem, como você mesmo disse, que não temos prova alguma contra nenhum deles, exceto Sweno? Eles podiam ter aceitado a ordem de prisão, e poucas horas depois sairiam da delegacia como homens livres.

Duff deu de ombros.

— Talvez não acreditassem que fôssemos policiais. Talvez pensassem que fôssemos homens do Hécate, com ordem pra matá-los.

— Ou, como o comissário-chefe bem declarou — disse Lennox —, talvez sejam uns idiotas.

Duncan coçou o queixo.

— Quantos Norse Riders nós prendemos?

— Seis — respondeu Duff. — Quando voltamos ao clube, só os mais gravemente feridos ainda estavam lá.

— Eu não sabia que gangues como os Norse Riders deixavam seus feridos pro inimigo.

— Eles sabiam que seriam atendidos mais rápido se viessem com a gente. Estão em tratamento agora, mas devemos ter mais alguns sob custódia amanhã. E então serão interrogados sobre Sweno. Por mais que estejam com dor. Vamos encontrá-lo, senhor.

— Ótimo. Quatro toneladas e meia de anfetamina. É coisa à beça — avaliou Duncan.

— Com certeza. — Duff sorriu.

— Com um volume desse, seria prudente você se questionar por que não me informou antecipadamente da operação.

— Tempo — respondeu Duff, de imediato. Ele havia ponderado bem a resposta que daria a essa inevitável pergunta. — Não houve tempo suficiente entre o momento em que recebi a informação e o momento de entrar em ação. Como chefe da unidade, precisei avaliar os regulamentos à luz dos riscos de não impedir que mais de quatro toneladas de anfetamina chegassem às mãos dos jovens dessa cidade.

Duff encontrou o olhar de Duncan, que o contemplava pensativo. O comissário-chefe afagou o queixo, deixando o indicador correr de um lado para outro. Então umedeceu os lábios.

— Houve também muito derramamento de sangue. Graves danos à ponte. Os peixes do rio já devem ter se viciado. E Sweno ainda está à solta.

Duff praguejou mentalmente. O idiota hipócrita e arrogante deveria ser capaz de ter uma visão mais ampla.

— No entanto — continuou o comissário-chefe —, seis Norse Riders estão sob custódia. E mesmo que a gente se sinta um pouco mais agitado que o habitual ao comer peixe nas próximas semanas, é bem melhor do que a droga acabar nas mãos dos nossos jovens. Ou... — Duncan pegou a taça de champanhe — ... nas Mercadorias Confiscadas.

Lennox e Caithness acharam graça. Era sabido que muitas coisas sumiam inexplicavelmente do depósito da central.

— Então — disse Duncan, erguendo sua taça —, ao bom trabalho da polícia, Duff.

Duff pestanejou duas vezes. Seu coração batia acelerado e feliz.

— Obrigado — falou ele, bebendo toda a taça de uma só vez.

Duncan surrupiou o porta-contas de couro.

— Essa é por minha conta. — Ele pegou a notinha, esticou o braço como se para ver melhor e estreitou os olhos. — Só não consigo saber se essa conta está certa.

— E quem consegue? — perguntou Lennox, com um sorriso forçado, quando ninguém riu da piada sem graça.

— Deixa comigo — disse Caithness, pegando a conta e colocando seus óculos de armação de tartaruga em estilo antigo.

Duff sabia que ela não precisava dos óculos, que só os usava por achar que lhe acrescentavam alguns anos e disfarçavam sua beleza. Duncan tinha sido audacioso ao dar a Caithness a Unidade de Perícia e Investigação Forense. Não que duvidassem da competência profissional dela — havia sido a melhor cadete na academia de polícia, além de ser formada em química e física —, mas era a mais jovem entre os demais chefes de unidade, solteira e simplesmente bonita demais da conta para que não levantassem suspeitas de uma motivação inconfessável para a indicação. As chamas das velas fizeram brilhar a água em seus olhos sorridentes por trás dos óculos, a umidade de seus lábios vermelhos e o esmalte de seus luminosos dentes brancos. Duff fechou os olhos. O reflexo da luz no asfalto, o ruído dos pneus na pista molhada. O barulho dos esguichos. O sangue espirrando no chão quando o homem arrancara a adaga do pescoço. Era como uma imensa mão lhe apertando o peito, então ele abriu os olhos com um arquejo.

— Tudo bem? — Lennox direcionava o gargalo de uma garrafa de água para o copo de Duff, e o que restava de líquido caiu lá dentro. — Beba, Duff, para diluir o champanhe. Você ainda tem que dirigir.

— Nem pensar — falou Duncan. — Não quero meus heróis sendo presos por dirigirem embriagados ou morrendo no trânsito. Meu motorista não se incomodaria em fazer um pequeno desvio.

— Obrigado — agradeceu-lhe Duff —, mas Fife fica...

— ... Fica mais ou menos no meu caminho pra casa — completou Duncan. — Sua esposa e seus dois filhos encantadores é que deviam me agradecer.

— Com licença — pediu Duff, arrastando a cadeira para trás e se levantando.

— Um policial de primeira categoria — comentou Lennox ao observar Duff ir cambaleando até o banheiro nos fundos.

— Duff? — perguntou Duncan.

— Também, mas eu estava pensando no Macbeth. Os resultados dele são impressionantes, o pessoal que trabalha com ele o adora e, embora tenha trabalhado sob as ordens do Kenneth, nós da Anticorrupção sabemos que ele é totalmente confiável. Pena que não tenha os diplomas necessários pra assumir um posto maior.

— Não há nenhuma outra exigência especial além da formação na academia de polícia. Veja o Kenneth.

— Sim, mas Macbeth ainda não é um de nós.

— Nós?

— Bem — Lennox ergueu sua taça de champanhe com um sorrisinho torto —, você escolheu chefes que, quer gostemos ou não, são vistos como parte da elite. Todos nós viemos do lado ocidental da cidade ou de Capitol, temos instrução ou um respeitável nome de família. Macbeth é visto mais como alguém do espectro mais amplo da população, se é que você me entende.

— Entendo, sim. Escuta, estou um pouco preocupado com o andar vacilante do Duff. Você poderia...?

Felizmente, o banheiro estava vazio.

Duff fechou a braguilha, aproximou-se de uma das pias, abriu a torneira e jogou água no rosto. Ouviu a porta se abrir.

— Duncan pediu pra eu ver como você estava — disse Lennox.

— Ah. O que você acha que ele pensou?

— Sobre o quê?

Duff pegou uma toalha de papel e secou o rosto.

— Sobre... Como as coisas aconteceram.

— Deve estar pensando como todos nós: que você fez um bom trabalho.

Duff assentiu.

Lennox riu.

— Você realmente quer a Unidade de Crime Organizado, hein?

Duff fechou a torneira e ensaboou as mãos enquanto olhava pelo espelho para o chefe da Anticorrupção.

— Está me chamando de interesseiro?

— Não tem nada errado em querer progredir na carreira. — Lennox deu um sorriso ligeiramente malicioso. — Só é divertido ver como você se posiciona.

— Tenho as qualificações, Lennox. Não seria simplesmente meu dever pra com essa cidade e com o futuro dos meus e dos seus filhos fazer o que eu puder pela Unidade de Crime Organizado? Ou devo deixar a maior Unidade pro Cawdor? Uma pessoa que, como nós dois sabemos, deve ter as mãos sujas não só de suborno como de sangue, pra ter sobrevivido por tanto tempo sob as ordens do Kenneth.

— Arrá — fez Lennox. — Então é o dever que motiva você? Não é a ambição pessoal não, imagina! Bem, meu santo Duff, permita-me segurar a porta pra você. — Lennox fez uma exagerada mesura. — Presumo, então, que vá recusar aumento e outros privilégios.

— Salário, honra e fama são irrelevantes pra mim — disse Duff. — Mas, como a sociedade recompensa aqueles que contribuem para o bem comum, desdenhar do salário seria como desdenhar da sociedade.

Ele avaliou o rosto no espelho. Como você sabe que alguém está mentindo? É possível perceber isso mesmo quando a pessoa conseguiu convencer a si mesma de que o que diz é a verdade? Quanto tempo ele levaria para convencer a si próprio de que era verdade a versão que ele e Macbeth haviam engendrado para explicar como mataram os dois homens na estrada?

— Acabou de lavar as mãos, Duff? Acho que Duncan quer ir pra casa.

Os homens do GOE despediram-se na saída d’A Muralha.

— Lealdade, fraternidade — declamava Macbeth, bem alto.

Os demais responderam em uníssono, algumas vozes mais, outras menos arrastadas:

— Batizados em fogo, unidos em sangue.

Então eles se afastaram em todas as direções da bússola. Macbeth e Banquo para o oeste, passando por um músico de rua que mais uivava do que cantava “Meet me on the Corner” e percorrendo saguões e corredores desertos e dilapidados da Estação Central. Um estranho vento quente soprou forte e espalhou lixo por entre as colunas dóricas que um dia haviam sido belíssimas mas que agora estavam caindo aos pedaços após anos de poluição e descaso.

— Pois então, Macbeth — disse Banquo —, vai me contar o que realmente aconteceu?

— Você é quem tem que me contar sobre o caminhão e Kenneth. Uma queda livre de noventa metros! — A risada dele ressoou sob o teto de tijolinhos.

Banquo sorriu.

— Sem essa, Macbeth. O que foi que aconteceu lá na estrada vicinal?

— Eles disseram por quanto tempo a ponte ficará fechada pra consertos?

— Você pode conseguir mentir pra eles, mas não pra mim.

— Nós os pegamos, Banquo. Precisa saber mais?

— Preciso?

Banquo abanou a mão para afastar o fedor que vinha da escada que levava aos banheiros, onde uma mulher de idade indeterminada estava de pé, agarrada ao corrimão e curvada para a frente, o cabelo caindo no rosto.

— Não.

— Tudo bem, então — concordou Banquo.

Macbeth parou e se agachou perto de um garoto sentado recostado na parede, pedindo dinheiro com uma caneca na mão. O menino levantou a cabeça. Tinha um tapa-olho em um lado do rosto, e o outro olho parecia contemplar um mundo à parte, uma miragem alucinógena. Macbeth pôs uma nota no copo e tocou o ombro do menino.

— Como vai você? — indagou ele, baixinho.

— Macbeth — disse o garoto. — Estou desse jeito que você está vendo.

— Você consegue. Nunca se esqueça disso. Você consegue parar.

O menino mastigava as palavras, sua voz escorregando de uma vogal para outra.

— Como você pode saber?

— Acredite em mim, outras pessoas conseguiram.

Macbeth ficou de pé, e o garoto falou em voz alta e tiritante, depois que os dois se foram:

— Deus te abençoe, Macbeth.

Eles entraram no saguão do setor leste da estação, onde havia um silêncio que saltava à vista, como se estivessem em um templo. Os drogados que não estavam sentados, deitados ou de pé junto às paredes ou nos bancos cambaleavam em uma espécie de dança arrastada, como astronautas em uma atmosfera alienígena, em um campo gravitacional diferente. Alguns olhavam com desconfiança para os dois policiais, mas a maioria simplesmente os ignorava. Era como se tivessem olhos de raios X que havia muito detectaram que aqueles dois não tinham nada para vender. Quase todos eram tão magros e abatidos que era difícil avaliar quantos anos tinham vivido. Ou quantos ainda viveriam.

— Você nunca se sentiu tentado a voltar? — perguntou Banquo.

— Não.

— A maioria dos ex-viciados sonha com uma última dose.

— Eu não. Vamos embora daqui.

Dirigiram-se à escadaria que dava para a saída oeste e pararam antes de alcançarem o ponto onde a cornija não mais os protegia da chuva. Ao lado deles, apoiada em trilhos pretos sobre um suporte baixo, estava algo que naquele breu lembrava um monstro pré-histórico. Bertha, de 110 anos, a primeira locomotiva do país, símbolo maior do otimismo em relação ao futuro que era o impulso dominante mais de um século antes. Os degraus largos, majestosos e gradualmente nivelados conduziam até a sombria e deserta Praça dos Operários, que um dia fora palco de grande atividade e alvoroço, um bazar a céu aberto e gente zanzando de um lado para outro, mas que agora era um cenário fantasmagórico, uma praça onde o vento assobiava e gemia. Em um dos lados, luzes brilhavam num antigo prédio de tijolinho que no passado sediara os escritórios da Rede Ferroviária Nacional, fechados depois que a estrada de ferro fora abandonada, para mais tarde ser comprado e reformado e se tornar o edifício mais glamoroso e elegante que a cidade tinha a oferecer: o cassino Inverness. Banquo havia entrado no cassino apenas uma vez para na mesma hora perceber que não era seu tipo de lugar. Ou, para ser mais exato, que ele não era o tipo de cliente que eles desejavam. Provavelmente enquadrava-se mais no tipo do Obelisco, cujos frequentadores não eram tão bem-vestidos, as bebidas não tão caras e as prostitutas nem tão bonitas nem tão discretas.

— Boa noite, Banquo.

— Boa noite, Macbeth. Durma bem.

Banquo percebeu um leve tremor percorrer o corpo do amigo; então os dentes brancos de Macbeth brilharam na escuridão.

— Mande um oi pro Fleance e diga a ele que seu pai fez um bom trabalho essa noite. O que eu não teria dado pra ver Kenneth em queda livre da própria ponte...

Banquo ouviu ao longe a risada do amigo conforme ele ia desaparecendo na escuridão e sob a chuva que caía na Praça dos Operários; mas, quando a própria risada também acabou, sentiu um desassossego percorrer o corpo. Macbeth não era apenas um amigo e um colega de trabalho, era como um filho, um Moisés encontrado numa cesta, a quem Banquo amava tanto quanto a Fleance. E foi por isso que esperou até ver Macbeth reaparecer do outro lado da praça e ser iluminado pelas luzes da porta do cassino, da qual emergiu uma ruiva alta de cabelo flamejante, em um longo vestido vermelho, e o abraçou como se uma alma do outro mundo lhe tivesse avisado que seu amor estava a caminho.

Lady.

Talvez ela tivesse ouvido rumores sobre os acontecimentos daquela noite. Uma mulher como Lady não teria chegado aonde chegara sem informantes que lhe dissessem o que precisava saber sobre tudo que se passava sob a superfície da cidade.

Continuavam abraçados. Era uma mulher linda, e poderia muito bem ter sido ainda mais bonita quando jovem. Ninguém sabia de fato a idade de Lady, mas definitivamente já havia passado bastante dos 33 anos de Macbeth. Talvez o provérbio estivesse certo: o verdadeiro amor a tudo supera.

Ou talvez não.

Banquo se virou e rumou para o norte.

Em Fife, o motorista do comissário-chefe pegou a trilha de brita, seguindo as instruções. As pedrinhas rangiam sob os pneus.

— Pode me deixar aqui. Vou andando o restante do caminho — disse Duff.

O motorista reduziu até parar. No silêncio que se seguiu, podiam ouvir o ziziar dos gafanhotos e o farfalhar sussurrado das folhas caindo das árvores.

— Você não quer acordá-los — concluiu Duncan, olhando para o final da trilha, onde o luar revelava uma casinha estilo rural pintada de branco. — Está certo. Que nossos entes queridos durmam na santa ignorância, sentindo-se seguros. Que belo local você escolheu pra morar.

— Obrigado. E desculpe ter tirado você do seu caminho.

— Todos nós pegamos desvios na vida, Duff. Na próxima vez que tiver uma informação de coxia, como essa sobre os Norse Riders, você toma um atalho na minha direção. Combinado?

— Combinado.

Duncan passou o indicador de um lado para o outro no queixo.

— Nosso propósito é fazer dessa cidade um lugar melhor pra todos viverem, Duff. Pra isso, todas as autoridades têm que trabalhar juntas e pensar nos interesses da comunidade, não apenas nos seus próprios.

— É claro. Gostaria só de acrescentar que estou disposto a qualquer trabalho desde que seja em prol da cidade e da polícia, senhor.

Duncan sorriu.

— Nesse caso, sou eu quem deve agradecer a você, Duff. Ah, já ia esquecendo...

— Pois não?

— Você disse que 14 Norse Riders, contando com Sweno, era mais do que tinha previsto e que teria sido mais discreto da parte deles enviar apenas uns poucos homens pra levar o caminhão calma e tranquilamente, correto?

— Sim.

— Por acaso não lhe ocorreu que Sweno talvez também tenha sido avisado? Talvez ele já desconfiasse de que você estaria lá. Pois então seu medo de um vazamento talvez não fosse infundado. Boa noite, Duff.

— Boa noite.

Duff caminhou até sua casa respirando o perfume da terra e da grama orvalhada. Havia considerado essa possibilidade, agora verbalizada por Duncan. Um vazamento. Um informante. E ele, Duff, encontraria a fonte. Descobriria o nome assim que o dia amanhecesse.

Macbeth estava deitado de lado, os olhos fechados. Às suas costas, ouvia o rumor cadenciado da respiração dela e, vindo do cassino, no andar de baixo, as notas mais graves da música, como o abafado bater de um coração. O Inverness funcionava a noite toda, mas já era tarde até mesmo para apostadores obstinados e beberrões incansáveis. Do corredor vinham os passos dos hóspedes e as chaves virando nas fechaduras dos quartos. Alguns sozinhos, outros com suas esposas. Alguns com outras pessoas. Isso não era algo com que Lady se preocupasse, desde que as mulheres que frequentassem o cassino cumprissem as regras implícitas de discrição, de estarem sempre bem-vestidas, sempre sóbrias, sempre livres de doenças infecciosas e sempre, sempre, atraentes. Certa vez, ainda no início do relacionamento, Lady tinha perguntado a ele por que nem sequer lhes dirigia o olhar. E sorriu quando ele respondeu que era porque só tinha olhos para ela. Só mais tarde ela entendeu a real dimensão do que ele queria dizer: não havia necessidade de ele se virar para vê-la, pois suas feições estavam marcadas a ferro e fogo em suas retinas; onde quer que ele estivesse, bastava fechar os olhos e lá estava ela. Não houvera ninguém antes de Lady. Quer dizer, algumas mulheres haviam feito seu pulso acelerar e com certeza o coração de algumas bateram mais rápido por ele, mas Macbeth nunca tivera relações sexuais com elas. E, é claro, uma havia marcado seu coração. Quando Lady percebeu isso e, rindo, perguntou se os céus lhe haviam enviado um virgem de verdade, ele lhe contou sua história. A história que até então somente duas pessoas conheciam. E ela lhe revelou a sua.

Os lençóis de seda da suíte davam a sensação de serem pesados e caros em contato com o corpo nu dele. Como uma febre, sentia calor e frio ao mesmo tempo. Ele percebeu, pelo ressonar de Lady, que ela estava acordada.

— O que foi? — sussurrou ela, sonolenta.

— Nada. Só não consigo dormir.

Ela se aconchegou às costas dele, acariciou-lhe o peito e os ombros. Acontecia às vezes, como agora, de os dois respirarem no mesmo ritmo. Como se fossem um único organismo, como gêmeos siameses compartilhando pulmões: a mesma sensação de quando revelaram um ao outro sua história de vida, e ele soube que não estava mais sozinho.

Ela tocou seu ombro e correu a mão até o cotovelo, passando pelas tatuagens e descendo pelo braço, onde acariciou as cicatrizes. Ele lhe contara sobre elas, também. E sobre Lorreal. Não guardavam segredos um do outro. Apenas detalhes sombrios, não segredos, dos quais ele pedira para ser poupado. Ela o amava, e isso era tudo que importava, era tudo que precisava saber sobre ela. Macbeth se virou, deitando-se de barriga para cima. Ela acariciou seu abdome, parou e aguardou. Ela era a rainha. E o vassalo obedientemente se ergueu sob a seda.

Quando Duff se deitou na cama ao lado da esposa, ouviu sua respiração tranquila e sentiu o calor das costas dela, foi como se as lembranças dos eventos daquela noite começassem a se dissipar. Aquele lugar tinha esse poder sobre ele, sempre fora assim. Conheceram-se quando ele ainda era estudante. Ela vinha de uma família abastada da zona oeste da cidade e, embora seus pais não levassem fé no relacionamento, acabaram por aceitar o jovem ambicioso e trabalhador. E Duff vinha de uma família respeitável, na opinião do sogro. O restante aconteceu quase que automaticamente: casamento, filhos, uma casa em Fife onde as crianças poderiam crescer sem respirar o ar poluído da cidade, trabalho, a correria diária. Muita correria, com dias exaustivos e a sedução de uma promoção. E o tempo é um sopro. É assim que as coisas são. Ela era uma boa mulher e uma boa esposa, mas não era essa a questão. Inteligente, atenciosa e leal. E quanto a ele? Não era um bom marido? Não pagava as contas, não poupava para os estudos dos filhos, não havia construído um chalé às margens do lago? Sim. Nem ela nem o pai tinham muito do que reclamar dele. Era seu jeito, e ponto final. De qualquer forma, havia muitas coisas boas no fato de se ter uma casa, ter uma família: trazia paz. Com seu próprio ritmo de vida, sua própria agenda, e não importava o que se passava lá fora. Não muito. E ele precisava dessa percepção da realidade (ou da falta dela). Precisava daquilo. De tempos em tempos.

— Você veio pra casa... — murmurou ela.

— Pra você e pras crianças.

— ... no meio da noite — acrescentou ela.

Ficou lá deitado, ouvindo o silêncio entre eles. Tentando decidir se era bom ou ruim. Então, delicadamente, ela colocou a mão no ombro dele. Com cuidado, apertou com a ponta dos dedos os músculos cansados, onde sabia que seria relaxante.

Ele fechou os olhos.

E viu de novo.

A gota de chuva na ponta da viseira do capacete. O homem de joelhos à sua frente. Sem se mexer. O capacete com chifres. Duff quis dizer algo a ele, mas não podia. Então, ergueu a arma até o ombro. Será que aquele cara não podia ao menos se mexer? Logo a gota cairia.

— Duff — era Macbeth, a suas costas. — Duff, não...

A gota caiu.

Duff atirou. Atirou de novo. E de novo.

Três tiros.

O homem ajoelhado à sua frente caiu para o lado.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ele se agachou ao lado do morto e retirou seu capacete. Foi como levar na cara um balde de água gelada ao constatar que não era Sweno. Os olhos do jovem estavam fechados, como se dormisse tranquilamente ali, caído.

Duff se virou e lançou um breve olhar para Macbeth. Sentiu as lágrimas se acumularem. Ainda sem condições de falar, apenas balançou a cabeça. Macbeth assentiu em resposta e retirou o capacete do outro. Também jovem. Duff sentiu algo lhe sendo empurrado goela abaixo e levou as mãos ao rosto. Acima do som dos próprios soluços, ouviu os apelos do homem reverberarem como o grasnar das gaivotas nos campos desertos.

— Não, não atira! Eu não vi nada! Não vou contar pra ninguém! Por favor, nenhum juiz acreditaria em mim mesmo. Eu con...

A voz foi cortada. Duff ouviu um corpo despencar no asfalto, um curto balbucio, então tudo emudeceu.

Ele se virou. Só então notou que o outro homem usava roupas brancas. Estavam sendo tingidas pelo sangue que escorria do buraco no pescoço.

Atrás do homem de branco, Macbeth segurava uma adaga. Seu peito subia e descia.

— Agora... — disse ele, rouco. Pigarreou. — Agora paguei minha dívida com você, Duff.

Duff pressionou o ponto onde sabia que ia doer. Com a outra mão, tapou a boca do homem para abafar seus gritos e forçá-lo para baixo, para a cama do hospital. Desesperado, o homem sacudia as algemas que o prendiam à cabeceira da cama. Com as primeiras luzes do dia atravessando a janela, Duff via nitidamente a rede de estreitos vasos sanguíneos ao redor das pupilas negras dentro dos olhos esbugalhados logo abaixo da tatuagem NORSE RIDER ATÉ A MORTE na testa. O indicador e o dedo médio de Duff estavam vermelhos de tanta pressão que fazia, por baixo do curativo, na ferida no ombro, produzindo ruídos como pés chapinhando na lama.

Qualquer trabalho, pensou Duff, desde que seja em prol da cidade e da polícia .

E repetiu a pergunta:

— Quem é seu informante na polícia?

Retirou os dedos da ferida. O homem parou de gritar. Duff destapou a boca dele. O homem não respondeu.

Duff arrancou o curativo e enfiou todos os dedos na ferida.

Sabia que obteria uma resposta, era apenas uma questão de tempo. Todo homem tem um limite do que pode suportar antes de se dar por vencido, antes de quebrar qualquer juramento tatuado e fazer tudo, absolutamente tudo, que jamais imaginou que faria. Pois lealdade eterna é inumana, mas trair é humano.