Macbeth
Capítulo 39
Duff olhou para seu relógio, bocejou e afundou ainda mais na cadeira. Esticadas, suas pernas longas quase alcançavam o outro lado do corredor do hospital, onde estavam Caithness e Fleance. Os olhos de Duff encontraram os de Caithness. — Você estava certo — disse ela. — Nós dois estávamos. Fazia menos de uma hora que ele havia pulado para dentro do carro na rua 15, vociferando imprecações ao avisar que Macbeth tinha fugido. E que alguma coisa estava em andamento. Pois Macbeth dissera que o prefeito não viveria por tanto tempo. — Um atentado — dissera Malcolm. — Um golpe. Ele enlouqueceu de vez. — O quê? — As Leis Kenneth. Se o prefeito morrer ou declarar estado de emergência, o comissário-chefe assume até segunda ordem e, em princípio, tem poderes ilimitados. Tourtell precisa ser avisado. — São Jorge — disse Caithness. — Seyton está lá. — Rápido — gritou Duff, e Fleance pisou no acelerador. Levaram menos de vinte minutos, e ouviram o primeiro tiro no estacionamento ao subirem as escadas depois de pararem em frente à entrada principal do hospital. Duff fechou os olhos. Não havia dormido, e tudo já deveria ter acabado àquela altura. Macbeth deveria estar trancafiado em Fife. — Lá vêm eles — disse Caithness.
Duff abriu os olhos. Tourtell e Malcolm vinham pelo corredor em direção a eles.
— O médico disse que Lennox vai sobreviver — informou Malcolm, ao se sentar. — Está totalmente consciente e consegue falar e mexer as mãos. Mas ficou paralítico do meio das costas pra baixo, e provavelmente é irreversível. A bala atingiu a coluna.
— Foi parada pela coluna — disse Tourtell. — Se não fosse por isso, teria atravessado o corpo dele e me atingido.
— A família dele está na sala de espera — relatou Malcolm. — Entraram no quarto pra vê-lo, e o médico disse que por hoje foi suficiente. Ele foi medicado com morfina e precisa descansar.
— Vocês têm alguma notícia do Kasi? — perguntou Caithness.
— Ainda não chegou em casa — respondeu Tourtell. — Mas ele conhece bem a cidade. Pode ter ido ver um amigo ou ter se escondido em algum lugar. Não estou preocupado.
— Não está?
Tourtell fez uma careta.
— Ainda não.
— Então o que vamos fazer agora? — indagou Duff.
— Vamos aguardar alguns minutos até que a família dele tenha ido embora — disse Malcolm. — Tourtell convenceu o médico a nos dar dois minutos com Lennox. Precisamos de uma confissão dele o mais rápido possível, pra que possamos obter de Capitol um mandado de prisão federal pro Macbeth.
— Nossas declarações como testemunhas não são suficientes? — perguntou Duff.
Malcolm balançou a cabeça.
— Nenhum de nós recebeu ameaças de morte diretamente do Macbeth nem o ouviu dando ordem pra matar pessoalmente.
— E quanto a chantagem? — perguntou Caithness. — Tourtell, você acabou de contar que, quando estavam jogando blackjack na sala privada do Inverness, Macbeth e Lady tentaram forçá-lo a retirar sua candidatura, oferecendo como isca ações do Obelisco e ameaçando ir a público com uma história de comportamento indecoroso com um menino menor de idade.
— No meu ramo de trabalho, chamamos esse tipo de coisa de política chantagista — disse Tourtell. — Dificilmente passível de punição.
— Quer dizer então que Macbeth está certo? — indagou Duff. — Que não temos nada contra ele?
— Vamos torcer pra que Lennox tenha alguma coisa — disse Malcolm. — Quem deve conversar com ele?
— Eu — prontificou-se Duff.
Malcolm o olhou, pensativo.
— Tudo bem, mas é apenas questão de tempo até que alguém aqui reconheça você ou eu e dê o alarme.
— É que sei como Lennox fica quando mente — explicou Duff. — E ele sabe muito bem que eu sei.
— Mas você vai conseguir convencê-lo a revelar sua cooperação e assim...?
— Sim — disse Duff.
— Não o convença do jeito que você fez com o paciente dos Norse Riders, Duff.
— Foi uma pessoa diferente que fez aquilo, senhor. Não sou mais aquele homem.
— Não mesmo?
— Não, senhor.
Os dois se encararam por alguns segundos.
— Que bom. Tourtell, pode fazer a gentileza de levar Duff?
— Só por curiosidade — disse Duff quando ele e Tourtell seguiam pelo corredor —, quando Macbeth te deu o ultimato, por que você não falou pra ele que Kasi era seu filho?
Tourtell deu de ombros.
— Por que dizer à pessoa que aponta uma arma pra você que ela não está carregada? A pessoa vai começar a procurar outra arma.
O médico estava esperando por eles em frente ao quarto. Ele abriu a porta.
— Apenas ele — disse Tourtell, apontando para Duff.
Duff entrou.
Lennox estava branco como os lençóis nos quais estava deitado. Tubos e fios conectavam seu corpo a bolsas de soro e remédios, e monitores emitindo bipes. Ele parecia uma criança espantada ao ver Duff, os olhos e a boca muito abertos. Duff tirou o chapéu e os óculos.
Lennox fechou os olhos e tornou a abri-los.
— Precisamos que você venha a público e diga que Macbeth está por trás dessa emboscada — explicou Duff. — Está disposto a isso?
Uma saliva fina e brilhante escorria do canto da boca de Lennox.
— Escute, Lennox. Eu tenho dois minutos e...
— Macbeth está por trás disso — disse Lennox. Sua voz era rouca e fanhosa, como se tivesse envelhecido vinte anos. Mas seus olhos estavam alertas. — Ele ordenou que Seyton, Olafson e eu executássemos Tourtell. Porque queria assumir as rédeas da cidade. E porque acha que Tourtell é informante do Hécate. Mas não é ele.
— Então quem é?
— Eu conto se você me fizer um favor.
Duff inspirou com força. Concentrou-se em controlar suas palavras.
— Você quer dizer que vou ficar te devendo um favor?
Lennox tornou a fechar os olhos. Duff viu uma lágrima escapar. Sentia dor, presumiu ele.
— Não — sussurrou Lennox, com uma voz que aos poucos foi sumindo.
Duff se inclinou para perto. Havia um cheiro doce e enjoativo vindo da boca de Lennox, como o hálito de acetona dos diabéticos, enquanto ele sussurrava:
— Eu sou o informante do Hécate.
— Você?
Duff tentou digerir a informação, tentou encaixá-la no curso dos acontecimentos.
— Sim. Como você acha que Hécate conseguiu escapar por entre os nossos dedos todos esses anos, e estar sempre a um passo à nossa frente?
— Você é espião de ambos...
— Hécate e Macbeth. Sem que Macbeth saiba. E é por isso que sei que Tourtell não está no bolso do Hécate. Nem no do Macbeth. Mas não fui eu quem avisou Hécate, então deve haver outro informante. Alguém perto do Macbeth.
— Seyton?
— Talvez. Ou talvez não seja um homem.
— Uma mulher? Por que acha isso?
— Não sei. Algo invisível, algo que simplesmente está lá.
Duff assentiu lentamente. Ergueu os olhos para a escuridão do outro lado da janela.
— Qual é a sensação?
— Qual a sensação do quê?
— De dizer em alto e bom som que é um traidor. É um alívio ou um peso ainda maior quando as palavras te obrigam a perceber que é verdade, que as desgraças são culpa sua?
— Por que você quer saber?
— Porque andei pensando sobre isso — respondeu Duff. O céu lá fora estava escuro, encoberto, não dava nem resposta nem sinal. — Qual seria a sensação ao contar tudo pra minha família.
— Mas você não contou — retrucou Lennox. — Não fazemos isso. Porque preferimos destruir a nós mesmos a ver a dor no rosto deles. Mas você não teve a chance de escolher.
— Tive, sim. Escolhi. Todo dia. Ser infiel.
— Você vai me ajudar, Duff?
Duff foi arrancado de seus pensamentos. Piscou várias vezes. Precisava dormir logo.
— Ajudar?
— Um favor. O travesseiro. Coloque um travesseiro no meu rosto e segure firme. Vai parecer que sucumbi aos ferimentos. E diga aos meus filhos que o pai deles, o assassino e traidor que ele era, se arrependeu.
— Eu...
— Você é a única pessoa que eu conheço que poderia me entender, Duff. Que consegue amar tanto alguém e ainda assim traí-lo. E quando é tarde demais, é tarde demais. Tudo o que você pode fazer é... O que é certo, mas é tarde demais.
— Como salvar a vida do prefeito.
— Mas isso não basta, não é, Duff? — O riso seco de Lennox se transformou em um acesso de tosse. — Um último ato desesperado que, visto de fora, é um sacrifício, mas no fundo você espera ser recompensado com o perdão dos seus pecados e a abertura dos portões do céu. Mas isso é demais, Duff. Você não está achando que pode corrigir tudo, não é?
— Não — respondeu Duff. — Não, não posso. Mas posso começar perdoando você.
— Não! — exclamou Lennox.
— Sim.
— Não, não pode! Não faça isso, não... — Sua voz foi se fragmentando.
Minúsculas e cintilantes lágrimas rolaram por suas faces brancas.
Duff respirou fundo.
— Só vou considerar não perdoar você com uma condição, Lennox.
Lennox assentiu.
— Que você concorde em dar uma entrevista na rádio hoje à noite, contando tudo e limpando o nome do Malcolm.
Lennox levantou a mão com dificuldade e enxugou o rosto. Depois, segurou o pulso de Duff com a mão úmida de lágrimas.
— Ligue pra Priscilla e peça a ela que venha aqui.
Duff assentiu, levantou-se e soltou o braço da mão de Lennox. Olhou para ele pela última vez. Avaliando se estava diante de alguém que havia mudado ou de um homem que estava apenas tomando o caminho mais fácil.
— E então? — perguntou Tourtell, levantando-se de uma cadeira no corredor quando Duff saiu.
— Ele confirmou que Macbeth estava tentando matar você, e vai dar a entrevista — respondeu Duff. — Mas Hécate tem um informante, um infiltrado bem próximo a Macbeth. Pode ser qualquer um na central de polícia...
— Não importa. — A voz grave de Tourtell retumbava enquanto caminhavam às pressas pelo corredor. — Com a declaração do Lennox, Macbeth está acabado! Vou telefonar pra Capitol e obter a expedição de um mandado de prisão federal.
Uma enfermeira veio na direção deles.
— Senhor prefeito?
— Sim?
— Recebemos uma ligação da Agnes, sua empregada. Ela mandou avisar que Kasi ainda não chegou em casa.
— Obrigado — disse Tourtell. Continuaram caminhando. — Você vai ver, ele foi pra casa de um amigo e está esperando até que tudo tenha voltado ao normal.
— Provavelmente — disse Duff. — Sua empregada...
— O quê?
— Nunca tive empregados, mas suponho que depois de um tempo eles se tornam parte dos móveis e utensílios. Você fala o que pensa sem levar em conta que eles possam passar adiante o que não deveria ir além das quatro paredes da sua casa, não é mesmo?
— Agnes? Sim. Sim, mas isso depois de ter certeza de que podia confiar nela. Mas isso levou tempo.
— Mas você nunca sabe ao certo o que a outra pessoa pensa e sente, não é?
— Ah. Você está tentando descobrir se Macbeth tem uma secretária pessoal na central que pode estar...
— Priscilla? — disse Duff. — Bem, como você disse, leva tempo pra se confiar em alguém.
— E...?
— Você disse que jogou blackjack em uma sala particular enquanto Macbeth e Lady faziam planos para matar Hécate. Mas não são quatro à mesa?
— Como assim?
— Blackjack. Não precisa de um crupiê?
— Jack?
— Pois não, Lady?
Jack afastou a mão. Por mera casualidade, sua mão tinha ido pousar nas costas arqueadas de Billy enquanto os dois estavam de pé examinando o livro de hóspedes e Jack havia explicado como novos clientes deveriam ser registrados.
— Tenho um assunto pra tratar com você, Jack. Vamos lá pra cima.
— Claro. Você consegue segurar a barra, Billy?
— Farei todo o possível, Sr. Bonus.
Jack sorriu e percebeu que sustentou o olhar do novo funcionário por tempo demais. Então disparou escada acima atrás de Lady.
— O que está achando do novo rapaz? — perguntou Lady assim que ele apareceu ao seu lado.
— É cedo pra dizer, senhora. Um pouco jovem e inexperiente, mas não acho que seja uma negação.
— Que bom. Precisamos de dois garçons pro restaurante. Os dois que vieram hoje eram totalmente inúteis. Como os jovens vão sobreviver nesse mundo se não conseguem levar nada a sério e aprender alguma coisa? Será que acham que tudo será servido pra eles em uma bandeja de prata?
— É verdade — disse Jack, e entrou na suíte enquanto Lady segurava a porta aberta para ele. Ao se virar, ele viu que ela havia fechado a porta e despencado aos prantos em uma poltrona.
— Lady, o que houve?
— Lily — respondeu ela, aos soluços. — Lily. Ele disse o nome dela.
— Lily? Como a flor, como o lírio, senhora?
Lady escondeu o rosto nas mãos. Os soluços fizeram seu corpo tremer.
Jack não fazia ideia de como reagir. Foi em direção a ela, mas parou.
— Quer... Quer falar sobre isso?
— Não! — exclamou ela. Suspirou convulsivamente. — Não, não quero falar sobre isso. O Dr. Alsaker queria falar sobre isso. Ele é louco, você sabia? Ele mesmo me contou. Mas isso não faz dele um psiquiatra ruim, foi o que ele disse. Muito pelo contrário. Não preciso de palavras, Jack, já ouvi todas. As minhas e as dos outros, e elas já não me acalmam. Preciso de remédio. — Ela fungou e secou as lágrimas cuidadosamente com as costas da mão. — De remédio, simples assim. Sem remédio não consigo ser a pessoa que preciso ser.
— E quem é essa pessoa?
— Lady, Jack. — Ela olhou para as manchas de rímel na mão. — A mulher que vive e deixa morrer. Mas Macbeth parou de usar o remédio, então não tenho nada aqui. Quem diria. Ele é mais forte do que eu. Você não imaginaria isso, não é? Então você vai ter que comprar pra mim, Jack.
— Lady...
— Senão será a ruína aqui. Escuto o choro de uma criança o tempo todo, Jack. Vou ao salão de jogos e sorrio, converso. — Lágrimas recomeçaram a correr. — Converso em voz alta e rio pra abafar o choro da criança, mas agora não consigo mais fazer isso. Ele sabia o nome da minha criança. Ele repetiu minhas últimas palavras pra ela.
— Não estou entendendo.
— Hécate. Ele sabia. As palavras que eu disse antes de esmagar a cabeça dela, com aqueles seus inquisidores olhos azuis. Em outra vida, minha pequena Lily. Nunca contei isso pra ninguém. Nunca! Pelo menos não estando consciente. Mas talvez durante o sono. Talvez quando estivesse sonam... — Ela não terminou a frase. Franziu a testa como tivesse se dado conta de alguma coisa.
— A hipnose — disse Jack. — Você falava enquanto estava hipnotizada. Hécate sabe da existência do Dr. Alsaker.
— Hipnose? — Ela assentiu devagar. — Você acha? Você acha que o Dr. Alsaker me traiu? E foi pago pra isso, é o que você quer dizer?
— As pessoas são gananciosas, é a natureza delas, senhora. Sem ganância, o ser humano não teria vencido a luta na terra. Veja o que você mesma criou, senhora.
— Você quer dizer que tudo se resume a ganância?
— Não só por dinheiro, senhora. Acho que pessoas diferentes agem orientadas pela ganância por coisas diferentes. Poder, sexo, admiração, comida, amor, conhecimento, medo...
— E você, Jack?
— Eu? — Ele deu de ombros. — Gosto de ver os clientes felizes e satisfeitos. Sim, sou ganancioso por ver os outros felizes. Como a senhora. Quando a senhora está feliz, eu estou feliz.
Ela fixou o olhar nele. Depois se levantou, foi até o espelho e pegou a escova de cabelo em cima da mesa.
— Jack...
Ele não gostou do som da voz dela, mas buscou seus olhos no espelho.
— Pois não, senhora.
— Você deve saber alguma coisa sobre a solidão.
— A senhora sabe que sim.
Ela começou a escovar o longo cabelo ruivo que ora atraía os homens, ora era percebido como um sinal de alerta, dependendo das circunstâncias.
— Mas sabe o que é mais solitário do que nunca ter tido alguém? É acreditar que se tinha alguém, pra depois descobrir que a pessoa que você achava que era sua amiga mais íntima, não era nem nunca foi. — A escova ficou presa no cabelo, mas ela a forçou, desembaraçando o fios grossos e rebeldes. — Que você foi enganado o tempo todo. Pode imaginar a solidão de quem sofresse isso, Jack?
— Não, não posso, senhora.
Jack olhou para ela. Não sabia o que fazer nem o que dizer.
— Fique feliz por nunca ter sido enganado, Jack. — Ela pôs a escova de cabelo na mesa e lhe entregou algum dinheiro. — Você é como uma rêmora: muito pequeno pra ser enganado; só consegue mesmo enganar. O tubarão te aguenta porque você limpa parasitas ainda piores. Em troca, ele te leva pelos oceanos do mundo. E é assim que você viaja, pra felicidade dos dois, e o relacionamento é tão íntimo e próximo que pode ser confundido com amizade. Isso até que apareça um tubarão maior e mais saudável. Vá, Jack. Vá e compre um pouco de brew pra mim.
— Tem certeza, senhora?
— Diga que quer algo que funcione. Algo forte. Que possa levar alguém pro alto e pra longe. Tão alto que poderia estraçalhar o crânio se caísse. Afinal, quem quer viver em um mundo frio e sem amigos como esse?
— Vou fazer o possível, senhora.
Ele saiu e fechou a porta sem um ruído sequer.
— Ah, tenho certeza de que sabe onde encontrá-la, Jack Bonus — sussurrou ela para seu reflexo no espelho. — A propósito, mande lembranças ao Hécate. — Uma lágrima escorreu pelo seu rosto, seguindo a trilha salgada da anterior. — Meu bom e querido Jack. Meu pobrezinho Jack.
— Sr. Lennox?
Ele abriu os olhos. Olhou para o relógio: uma hora e meia para a meia-noite. As pálpebras tornaram a se fechar. Ele havia implorado por mais morfina. A única coisa que queria era dormir, mesmo que fosse o sono angustiante dos culpados.
— Sr. Lennox.
Abriu os olhos de novo. A primeira coisa que viu foi a mão que segurava um microfone. Bem atrás, vislumbrou algo amarelo que aos poucos entrou em foco. Um homem com uma capa de chuva amarela, sentado em uma cadeira ao lado de um leito de hospital.
— Você? — sussurrou ele. — De todos os jornalistas do mundo, enviaram justo você?
Walt Kite endireitou os óculos.
— Tourtell, Malcolm e os outros sabem que eu... Que eu...
— Que você está no bolso do Macbeth?
Lennox ergueu a cabeça do travesseiro. Estavam sozinhos no quarto. Ele se contorceu para alcançar o botão do alarme na cabeceira, mas o jornalista cobriu o botão.
— Não precisa — disse Kite calmamente.
Lennox tentou afastar a mão dele, mas não teve forças.
— Pra que você possa me entregar de bandeja pro Macbeth? — grunhiu Lennox. — Do jeito que entregou Angus pra nós?
— Eu estava na mesma situação que você, Lennox. Não tive escolha. Ele ameaçou a minha família.
Lennox entregou os pontos e despencou sobre o travesseiro.
— E o que você quer agora? Trouxe um facão? Veneno?
— Trouxe isso. — Kite balançou o microfone.
— Vai me matar com isso?
— Não você. Macbeth.
— Como é?
Walt Kite colocou o microfone sobre o leito, desabotoou a capa e secou os óculos embaçados.
— Quando Tourtell ligou pra mim, percebi que eles tinham o bastante para pegá-lo. Tourtell convenceu o médico a me dar cinco minutos, então temos que nos apressar. Me conte tudo, e eu vou direto pro estúdio e transmito sem cortes, sem edição.
— No meio da noite?
— Acho que consigo levar ao ar antes da meia-noite. E basta que algumas pessoas escutem. Reconheçam que é mesmo a sua voz. Escute, estou quebrando todos os princípios do bom jornalismo: o direito de resposta, o dever de checar a veracidade das declarações, pra salvar...
— Sua própria pele — completou Lennox. — Pra trocar de lado de novo. Pra ter certeza de que vai estar no time vencedor.
Ele viu Kite abrir a boca e tornar a fechá-la. Engolir em seco. E pestanejar detrás das ainda embaçadas lentes dos óculos.
— Admita, Kite. Tudo bem. Você não está sozinho. Não somos heróis. Somos pessoas comuns que talvez sonhassem ser heróis, mas que, confrontadas com a escolha entre a vida e os princípios de que tanto falamos, somos bem comuns.
Kite deu um breve sorriso.
— Você está certo. Eu tenho sido um moralista arrogante, um falastrão, um covarde.
Lennox respirou fundo, e não sabia se era ele próprio ou a morfina falando quando perguntou:
— Mas se você tivesse a chance, acredita que conseguiria fazer as coisas de forma diferente?
— O que quer dizer com isso?
— Poderia ser uma pessoa diferente? Poderia se sacrificar por uma entidade maior do que a estima por si mesmo?
— Tipo o quê?
— Tipo fazer algo que seja realmente heroico porque reduzirá a ilibada reputação do jornalista Kite a uma pilha de lixo.
Macbeth fechou os olhos. Torcia para que, quando tornasse a abri-los, tivesse acordado de um pesadelo e de uma noite excessivamente longa. Durante todo o tempo em que a voz que vinha do rádio na prateleira atrás de sua mesa não parava de falar. Cada R enrolado soava como uma saraivada de metralhadora.
— Então, inspetor Lennox, vamos resumir. Você confirma que o comissário-chefe Macbeth está por trás dos assassinatos do comissário-chefe Duncan e do inspetor Banquo, do massacre no clube dos Norse Riders, do assassinato da família do inspetor Duff, além da execução do oficial de polícia Angus, executado por você e pelo inspetor Seyton sob as ordens do próprio Macbeth? E também afirma que no início dessa tarde o comissário-chefe Macbeth, o inspetor Seyton, atual chefe do GOE, e o policial Olafson estavam por trás da tentativa fracassada contra a vida do prefeito Tourtell?
— Sim.
— Com isso, agradecemos ao inspetor Lennox, que estava falando do seu leito no São Jorge. Essa gravação foi feita na presença de testemunhas pra que possa ser usada em um tribunal, mesmo que Lennox também venha a ser assassinado. E assim, prezados ouvintes, finalmente quero acrescentar que eu, Walt Kite, fui cúmplice no assassinato do policial Angus, colocando a credibilidade com que vocês me honraram à disposição do comissário-chefe e assassino, Macbeth. No tribunal onde serei julgado e nas conversas que terei com as pessoas que me são mais próximas, uma circunstância atenuante pode vir a ser o fato de que minha família e eu fomos ameaçados. Profissionalmente, porém, isso não vale nada. Provei que posso ser ameaçado, usado e manipulado pra mentir pra vocês. Fiquei decepcionado comigo mesmo e também decepcionei vocês, ouvintes, e isso significa que essa é a última vez que vocês vão ouvir falar de mim, Walt Kite, como radialista. Vou sentir falta de vocês, bem mais do que vocês vão sentir de mim. Mostrem que são cidadãos melhores do que eu. Vão para as ruas e deponham Macbeth. Tenham uma boa noite, e que Deus abençoe nossa cidade.
Vinheta do programa.
Macbeth abriu os olhos. Mas ainda estava no escritório, Seyton ainda no sofá, Olafson ainda na cadeira e o rádio ainda ligado.
Levantou-se e desligou o rádio.
— E agora? — perguntou Seyton.
— Shh — fez Macbeth.
— O quê?
— Fica calado por um segundo!
Ele apertou a ponte do nariz com os dedos. Estava exausto, tão exausto que era difícil pensar com a clareza necessária. E ela era extremamente necessária. Porque as decisões seguintes seriam fatais, as horas seguintes decidiriam a disputa pela cidade.
— Meu nome — disse Olafson.
— O quê?
— Falaram meu nome no rádio. — Ele sorriu timidamente. — Acho que ninguém da minha família teve seu nome mencionado no rádio.
Macbeth ficou ouvindo o silêncio. O tráfego, onde estava o rotineiro clamor abafado do tráfego? Era como se a cidade estivesse prendendo a respiração. Ele se levantou.
— Vamos.
Pegaram o elevador até o porão.
Passaram diante da bandeira do GOE com o dragão vermelho.
Seyton pegou a chave da sala de munição e acendeu a luz ao entrar.
O menino estava sentado entre os suportes para metralhadora, amordaçado e amarrado ao cofre. As íris marrons de seus olhos eram apenas um fino anel ao redor das pupilas dilatadas e negras de medo.
— Vamos levá-lo pro Inverness — disse Macbeth.
— O Inverness?
— Não estamos mais seguros aqui, nenhum de nós. Mas no Inverness podemos fazer com que Tourtell fique de joelhos.
— De que nós você está falando?
— Os derradeiros fiéis. Aqueles que serão recompensados quando a vitória for alcançada.
— Você, eu e Olafson? Vamos fazer a cidade se ajoelhar diante de nós?
— Pode confiar em mim. — Macbeth acariciou a cabeça de Kasi como se ele fosse um cãozinho obediente. — Hécate precisa de nós e está nos protegendo.
— Contra toda a cidade? — perguntou Olafson.
— Os ajudantes do Hécate constituem um exército, Olafson. São tão invisíveis quanto ele, mas estão por aí, já me salvaram duas vezes. E temos as irmãs Gatling e as Leis Kenneth do nosso lado. Quando Tourtell se render e declarar estado de emergência, a cidade será minha. E então? Lealdade, fraternidade?
Olafson fechou os olhos.
— Batizados em fogo — sussurrou ele.
Seyton fez uma careta para eles. Mas depois, lentamente, um sorriso se abriu em seus lábios finos.
— Unidos em sangue.