Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 29 de 50

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Macbeth

Capítulo 26

 

 

Duff engoliu o vômito. Era seu quarto dia a bordo e ainda não havia indícios de melhora. Uma coisa era o mar, outra bem diferente era o cheiro rançoso que vinha da cozinha. Lá dentro, atrás da porta vaivém, era um misto de gordura podre e leite azedo; do outro lado, no refeitório, onde os homens se sentavam para comer, era suor e tabaco. O comissário havia deixado o café da manhã por conta de Duff, dizendo que ele deveria ser capaz de cuidar daquilo sozinho. Separe o pão, as carnes e os queijos, cozinhe os ovos e faça café. Qualquer marujo de primeira viagem mareado saberia fazer isso. Duff tinha sido acordado às seis, e a primeira coisa que fez foi vomitar no balde ao lado da cama. Ainda não havia passado duas noites na mesma cabine, pois, na falta de beliches, tinha de pedir emprestado a cama de alguém de plantão. Por sorte, só tinha pegado a cama de baixo, de modo que não precisava dormir com o balde em cima da cama. Havia acabado de vestir o suéter quando sentiu enjoo novamente. Ao descer para a cozinha, teve de parar para vomitar no banheiro ao lado da cabine do imediato e na pia antes da última escada íngreme. O café da manhã fora servido, e a tripulação de plantão parecia ter acabado de comer. Hora de retirar tudo para começarem a preparar o almoço. Duff inspirou o ar intragável três vezes pela boca, levantou-se e foi para o refeitório.

Quatro pessoas estavam sentadas à mesa mais próxima. A conversa era liderada por um engenheiro de máquinas quase obeso que falava alto, usava uma camiseta da Esso manchada de óleo com anéis escuros de suor debaixo dos braços peludos e um boné listrado do Hull City Tigers. Quando ele falava, dava uma fungada antes e outra depois, como se fossem aspas. O que vinha entre elas sempre humilhava os subalternos.

— Ei, Sparks! — chamou o engenheiro, para ter certeza de que todos ficassem sabendo que ele se dirigia ao rapaz de óculos na ponta da mesa. — Que tal você pedir pro rapaz novo da cozinha esquentar um pedaço de torta de peixe pra você enfiar seu pau lá dentro e aproveitar o mais perto que vai chegar de uma boceta? — Ele fungou antes de cair na gargalhada. Isso provocou não mais do que um breve riso forçado dos outros. O jovem radiotelegrafista deu um sorrisinho sem graça e abaixou a cabeça o mais que pôde em seu prato. O engenheiro, a quem Duff ouvira os outros chamarem de Hutch, fungou. — Mas, a julgar pelo café da manhã de hoje, duvido que você saiba aquecer uma torta de peixe, não é mesmo, meu chapa? — Outra fungada.

Duff manteve a cabeça baixa como o telegrafista. Era só o que precisava fazer até chegarem às docas de Capitol. Manter-se discreto, boca fechada, proteger sua identidade.

— Diz aí, rapaz da cozinha! Você chama isso de ovo mexido?

— Algo errado? — perguntou Duff.

— Errado? — O engenheiro revirou os olhos e se voltou para os demais. — O novato me pergunta se tem algo errado. Só que esse ovo mexido está com cara e com gosto de vômito. Seu vômito. Das suas guelras verdes e asquerosas.

Duff olhou para o engenheiro. O cara estava sorrindo, e havia um rutilar maligno em seus olhos cintilantes. Duff já tinha visto olhos iguais àqueles. Em Lorreal, o diretor do orfanato.

— Sinto muito se o ovo mexido não atendeu às suas expectativas — disse Duff.

— Não atendeu às suas expectativas — remedou o engenheiro, antes da segunda fungada. — Está achando que isso aqui é restaurante chique, é? No mar a gente quer comida, não essa gororoba. O que vocês acham, pessoal?

Os homens à volta dele concordaram com risadas, mas Duff viu dois deles constrangidos, de cabeça baixa. Provavelmente, fingiram concordar para não se tornarem os alvos seguintes de chacota.

— O comissário vai assumir o almoço — disse Duff, colocando os pratos sujos e as caixas vazias de leite numa bandeja. — Espero que esteja melhor.

— O que não é nada melhor — disse o engenheiro — é a sua cara. Está com piolho? É por isso que usa esse boné? E esses pentelhos de xereca que você acha que é barba? O que foi que aconteceu, garoto? No lugar do rosto, tem a boceta da sua mãe?

O engenheiro olhou em volta esperando novas risadas, mas dessa vez todos disfarçaram, baixando os olhos.

— Tenho uma sugestão — disse Duff, mesmo sabendo que deveria ficar de boca fechada. Sabendo que havia prometido a si mesmo que não falaria nada. — Sparks pode enfiar o pinto no seu sovaco. Assim ele sente o que é uma boceta e você finalmente arranja um pau.

A mesa ficou tão calada, mas tão calada, que só se ouviam os ruídos que Duff fazia ao botar os pratos de queijo, salsicha e pepino na bandeja. Nenhuma fungada dessa vez.

— Vou repetir a parte que mais te interessa — disse Duff, botando a bandeja na mesa. — Você finalmente arranja um pau. — Ele enfatizou as vogais, para que ninguém tivesse dúvidas do que havia dito. Então se virou para a mesa.

O engenheiro se levantara e vinha em sua direção.

— Tira os óculos — ordenou ele.

— Não vejo porra nenhuma sem eles — falou Duff. — E com eles eu vejo um imbecil.

O engenheiro moveu ostensivamente o braço para trás, anunciando para todos de onde o golpe viria, e arremeteu. Duff recuou um passo, e, quando o punho manchado de óleo do engenheiro tinha passado, deu dois passos à frente, agarrou a outra mão do oponente, que ainda tentava recuperar o equilíbrio, e forçou-a para trás contra seu punho, depois agarrou o cotovelo dele e deixou que seu impulso o levasse para a frente enquanto ele próprio, Duff, escapulia para trás. O engenheiro gritou, instintivamente inclinando-se para a frente para aliviar a excruciante pressão no punho, enquanto Duff o esmurrava na parede, a cabeça na dianteira. Então o puxou de volta para trás. E tornou a empurrá-lo para a frente. Contra a antepara. Levantou ainda mais o braço inoperante do engenheiro, sabendo que logo algo cederia, que algo se quebraria. O grito do engenheiro se transformou em um gemido muito alto, e seus dedos se lançaram desesperadamente na direção do boné de Duff. A reação foi imediata, e Duff bateu a cabeça do outro na parede pela terceira vez. Quando estava preparando um quarto golpe, ouviu uma voz:

— Já chega, Johnson!

Levou um segundo para lembrar que Johnson era o nome que havia assinado no registro de entrada. E que aquela era a voz do capitão. Ergueu os olhos. O capitão estava bem na frente deles. Duff soltou o engenheiro, que caiu de joelhos com um soluço.

— O que está acontecendo aqui?

Só então Duff notou que estava ofegante. A provocação. A raiva.

— Não é nada, capitão.

— Eu sei a diferença entre nada e alguma coisa, Johnson. O que houve? Hutchinson?

Duff não teve certeza, mas o homem ajoelhado parecia estar chorando.

Duff pigarreou.

— Uma aposta entre amigos, capitão. Eu queria mostrar que a chave de braço de Fife é mais eficaz que o soco haymaker. Acho que me empolguei. — Ele deu um tapinha nas costas arfantes do engenheiro. — Desculpa, amigo, mas vamos concordar que Fife venceu Hull dessa vez, certo?

O engenheiro assentiu, ainda soluçando.

O capitão tirou o boné e ficou olhando para Duff.

— A chave de Fife, foi isso que você disse?

— Sim.

— Hutchinson, você está sendo requisitado na sala de máquinas. E vocês aí: de volta ao trabalho.

Rapidamente o refeitório ficou vazio.

— Me dê um café e sente-se aí — ordenou o capitão.

Duff lhe obedeceu.

O capitão levou a xícara aos lábios algumas vezes. Mirou o líquido preto e murmurou alguma coisa. Justamente quando Duff começava a matutar se o capitão o esquecera, ele ergueu a cabeça.

— Em geral, nunca acho que vale a pena conhecer o passado das pessoas, Johnson. A maioria da tripulação é de origem humilde, com capacidade mental limitada, com históricos que o melhor é que nunca sejam revelados e futuros que não acontecerão a bordo do MS Glamis. Como não estarão sob meu comando nem farão parte dos meus problemas por muito tempo, sei que não vale a pena me envolver demais. Só o que me interessa é como trabalham como equipe, como minha tripulação.

O capitão tomou mais um gole do café e fez uma careta. Duff não tinha ideia se era por causa do café, de alguma dor repentina ou da conversa.

— Você parece um homem culto e ambicioso, Johnson, mas não vou perguntar como veio parar aqui. Duvido que fosse dizer a verdade. Mas meu palpite é que você sabe como as organizações funcionam. Sabe que sempre haverá uma hierarquia, e que todos terão seu papel, seu lugar nessa ordem. O capitão no topo, o recruta na base. Desde que todos aceitem não só suas posições, como as posições dos outros na hierarquia, então teremos uma equipe de trabalho. Exatamente como eu quero. No momento, no entanto, temos alguma desordem na extremidade inferior da hierarquia do MS Glamis. Temos três ferrados em potencial na base. Sparks porque é o mais novo; você porque é a sua primeira vez; e Hutchinson porque é o mais estúpido e com mais dificuldade de atrair simpatia.

Outro gole.

— Sparks vai sobreviver a essa viagem como o ferrado de baixo. Ele é jovem, razoavelmente inteligente e vai aprender. E você, Johnson, subiu de patamar na hierarquia, foi o que acabei de ver, depois do que fez com Hutchinson. Pelo que sei, foi um enfrentamento que você inventou pra conseguir exatamente isso. Mas se bem conheço Hutch, ele começou. E o estúpido, o idiota, expôs-se a outra derrota. E é por isso que está procurando uma nova pessoa pra ficar debaixo dele. Provavelmente será um infeliz que vai se registrar em Capitol, onde precisaremos de alguns homens novos, já que toda hora tem gente se desligando. Você entende?

Duff deu de ombros.

— E esse é o meu problema, Johnson. Hutch vai continuar tentando, mas é o eterno ferrado da base. Eu gostaria de alguém diferente na base, alguém que aceitasse seu destino tranquilamente. Mas, como Hutch é um encrenqueiro mal-educado que acha que já recebeu sua cota de surras da vida e que agora é a vez de outra pessoa, vai continuar criando um ambiente desagradável a bordo. Ele não é um engenheiro ruim, mas faz com que a minha tripulação trabalhe pior quando está por perto. — Ele tomou o gole seguinte fazendo ruído. — Então por que não me livro dele?, você poderia me perguntar. E perguntaria isso porque não é um homem do mar e não sabe nada sobre as cláusulas dos contratos de trabalho do sindicato, que estipulam que estou ligado ao Hutch até conseguir algo que me dê uma coisa que eles chamam de justa causa pra me livrar dele. E atacar fisicamente um colega seria uma dessas causas...

Duff assentiu.

— Então? Tudo o que preciso de você é um sim e uma assinatura pro sindicato. Posso conseguir o resto com as testemunhas.

— Foi só uma brincadeira, capitão. Não vai acontecer de novo.

— Não, não vai. — O capitão cofiou o queixo. — Como eu disse, não tenho por hábito investigar o passado da tripulação se não houver necessidade. Mas devo dizer que só vi a chave de braço que você deu no Hutch duas vezes na vida, e dada por gente da polícia militar e da guarda portuária. Então eu gostaria de ouvir a verdade.

— A verdade?

— Sim. Ele atacou você?

Duff olhou para o capitão. Ele presumiu que desde o início o capitão soubesse que seu nome verdadeiro não era Cliff Johnson e que o garoto da cozinha nunca havia trabalhado em um restaurante. Só o que o capitão pedia era um sim e uma assinatura falsa. Se e quando houvesse algum problema ligado à verdadeira identidade desse tal Johnson, Duff seria um idoso e estaria morando bem longe dali.

— Entendi. A verdade — disse Duff, observando o capitão se debruçar sobre a mesa — é que estávamos apenas brincando, capitão.

O capitão reclinou o corpo. Levou o café à boca. Seu olhar, por cima da beirada da xícara, estava fixo em Duff. Não nos olhos: mais acima, na testa. O pomo de adão subia e descia conforme ele engolia. Então ele bateu a xícara na mesa com força.

— Johnson.

— Sim, capitão?

— Gosto de você.

— Capitão?

— Não tenho motivos pra acreditar que você goste de Hutch um pouco mais do que o resto de nós. Mas não é um alcaguete. O que é uma péssima notícia pra mim como capitão, mas prova a sua integridade. E eu respeito isso, então não vou tocar nesse assunto de novo. Você está mareado e está mentindo, mas mesmo assim seria bom ter mais pessoas como você na minha tripulação. Obrigado pelo café.

O capitão se levantou e saiu.

Duff permaneceu sentado por alguns segundos. Então levou a xícara vazia para a cozinha e colocou-a na pia. Fechou os olhos, apoiou as mãos no metal frio e reprimiu o enjoo. O que estava fazendo? Por que não tinha contado a verdade, que Hutch era um valentão?

Abriu os olhos. Viu seu reflexo na panela pendurada num gancho na prateleira à sua frente. Seu coração deu um salto. O boné havia subido até a linha do cabelo sem que ele percebesse. Provavelmente isso aconteceu durante a briga. A cicatriz brilhava em sua pele como um rastro branco e espesso deixado por um avião no céu. A cicatriz: era para ela que o capitão estava olhando antes de bater a xícara na mesa.

Duff fechou os olhos, disse a si mesmo para relaxar e raciocinar.

O navio tinha saído tão cedo que os jornais ainda não estavam disponíveis nas bancas, então o capitão não poderia ter visto a foto dele com a tarja de PROCURADO. A menos que tivesse visto seu rosto na coletiva de imprensa da véspera, transmitida pela TV. Mas o capitão demonstrara certo choque ao ver a cicatriz — se é que a vira? Não. Porque o capitão era um bom ator e não queria demonstrar que o havia reconhecido até que o pegassem de surpresa mais tarde. Será? Como pouco podia fazer a respeito, decidiu que o capitão não tinha percebido; mas e quanto aos outros? Não, ele havia passado o tempo todo de costas para eles, e depois o capitão os mandara sair. Fora Hutchinson quem ficara de joelhos na frente dele. No entanto, mesmo que tivesse visto a cicatriz, Duff não achava que Hutchinson fosse o tipo de homem que gostava de se manter bem-informado.

Abriu os olhos de novo.

Dali a dois dias, quarta-feira, atracariam.

Quarenta e oito horas. Manter-se discreto por dois dias. Achava que poderia conseguir.

O órgão começou a tocar. De pé entre as fileiras dos bancos da catedral, ele sentiu os pelos do corpo se arrepiarem. Não por causa da música, nem das elegias do padre e do prefeito, nem pelo caixão de Duncan vindo pela nave central carregado por seis homens, nem pelo fato de não ter usado nada de power. Era por causa do novo e pavoroso uniforme que usava. Sempre que se mexia, a lã áspera arranhava sua pele e lhe dava arrepios. O antigo uniforme era de tecido mais barato e estava mais desgastado e confortável. Ele poderia, é claro, ter escolhido o novo terno preto entregue na central de polícia, cujo remetente só podia ser Hécate. A qualidade da lã era muito superior, mas, estranhamente, coçava até mais que o uniforme. Além disso, teria sido uma quebra da tradição comparecer ao enterro de um colega de farda usando outra coisa que não fosse o uniforme.

O caixão passou pela fileira de Macbeth. A viúva de Duncan e os dois filhos seguiam o féretro de cabeça baixa, mas, quando um dos meninos por acaso ergueu o rosto para na direção dele, Macbeth automaticamente baixou o olhar.

Então todos se dirigiram para a nave central e se juntaram ao cortejo. Macbeth se posicionou de tal maneira que acabou ao lado de Tourtell.

— Belo discurso — elogiou Macbeth.

— Realmente, sinto muito que a câmara não tenha aprovado o pedido pra que o enterro fosse custeado com verbas públicas. Com as fábricas desativadas e a queda nas receitas fiscais, temo que essas homenagens póstumas estejam no final da lista de prioridades. Mas, se quer saber o que eu acho, não é nada civilizado.

— A câmara tem minha compreensão.

— Duvido que a família do Duncan pense da mesma forma. A viúva me telefonou e disse que deveríamos ter conduzido o caixão pelas ruas e dado às pessoas a oportunidade de demonstrar o quanto o admiravam. Elas queriam o que Duncan queria.

— E você acha mesmo que as pessoas teriam feito isso?

Tourtell deu de ombros.

— Sinceramente, não sei, Macbeth. Na minha opinião, as pessoas dessa cidade não se importam com as chamadas reformas a menos que resultem em comida na mesa e dinheiro pra mais uma cerveja. Achei que as mudanças estivessem começando a acontecer na cidade, mas, se fosse assim, o assassinato do Duncan teria revoltado as pessoas. Em vez disso, tenho a impressão de que todos aceitaram, convencidos de que, aqui, o bem sempre sai perdendo. A única pessoa que abriu a boca foi o Kite. Você vai ao enterro de Banquo e do filho dele amanhã?

— Claro. Na Igreja dos Operários. Banquo não era muito religioso, mas a esposa dele, Vera, está enterrada lá.

— Mas fui informado de que a esposa e os filhos do Duff vão ser enterrados na catedral.

— Sim. Não estarei lá pessoalmente.

— Pessoalmente?

— Vamos ter policiais de prontidão, caso Duff decida mostrar as caras.

— Verdade. Os pais devem acompanhar os filhos até a sepultura. Sobretudo quando sabem que foram parcialmente responsáveis pela morte deles.

— Tem razão. O curioso é como a culpa marca a pessoa pela vida, enquanto honra e glória escapam pelo ralo ao se lavar na mesma noite.

— Agora, por um instante, você soou como um homem que entende um pouco de culpa.

— Então, me permita confessar aqui e agora que matei a pessoa que me era mais querida e mais próxima.

O prefeito estacou e o encarou.

— O que disse?

— Minha mãe. Morreu no parto. Vamos continuar andando.

— E o seu pai?

— Deu no pé quando soube da gravidez. Foi trabalhar num navio e nunca mais foi visto. Cresci num orfanato. Duff e eu. Dividimos um quarto. Mas você provavelmente nunca viu um quarto de orfanato, não é mesmo, Tourtell?

— Ah, inaugurei um ou dois orfanatos.

Eles haviam chegado aos degraus da catedral, onde foram recebidos por uma rajada gélida do noroeste. Pelo caminho de cascalho, Macbeth viu o caixão balançar perigosamente.

— Bem — disse Tourtell —, o mar também é uma rota de escape.

— Está criticando meu pai, Tourtell?

— Eu não o conheci. Nem você. Só estou dizendo que o mar está cheio de homens que não aceitam as responsabilidades que a natureza lhes impõe.

— Então homens como você e eu devem assumir ainda mais responsabilidades.

— Exatamente. E então, o que decidiu?

Macbeth pigarreou.

— Vejo que, pro bem da cidade, é melhor que o comissário-chefe continue sendo o comissário-chefe e mantenha uma relação boa e próxima de cooperação com o prefeito.

— Sábias palavras, Macbeth.

— Desde que essa cooperação se mantenha, é claro.

— A que você está se referindo?

— Aos rumores de que o Obelisco está administrando uma rede de prostituição sob os auspícios do cassino e oferecendo crédito ilegal a alguns jogadores.

— A primeira é uma acusação de longa data; a última é nova. Mas, como você sabe, é dificílimo chegar ao âmago de tais rumores, então eles tendem a seguir como rumores e não vão dar em parte alguma.

— Tenho informações específicas relacionadas a pelo menos dois jogadores, e, com métodos eficazes de interrogatório e promessas de perdão, provavelmente vou descobrir se o Obelisco ofereceu crédito a eles. Com base nesses testemunhos, o Comitê de Jogos provavelmente terá que fechar o lugar, enquanto o alcance das irregularidades é examinado mais profundamente.

O prefeito deu uns leves beliscões no mais baixo de seus queixos.

— Quer dizer fechar o Obelisco em troca de você não se candidatar?

— Quero dizer que os líderes políticos e administrativos da cidade precisam ser mais firmes na aplicação das leis e dos regulamentos. Isso se não quiserem que recaia sobre eles a suspeita de terem sido corrompidos por aqueles que não as cumprem.

O prefeito estalou a língua em desagrado. Como uma criança ao provar uma azeitona, pensou Macbeth. O tipo de comida que se leva anos para apreciar.

— Não estamos falando de uma série de possíveis irregularidades — disse Tourtell, como se para si próprio. — E, como eu disse, é difícil chegar ao fundo de tais rumores. Pode levar tempo.

— Muito tempo — disse Macbeth.

— Vou deixar o comitê de sobreaviso dizendo que há algumas diligências sendo realizadas que podem vir a determinar o fechamento do cassino. Onde está Lady, falando nisso? Imaginei que, como ela e Duncan...

— Ela não está se sentindo bem. Mas vai melhorar logo.

— Entendo. Mande lembranças e diga a ela que desejo melhoras. Está na hora de descermos e oferecermos nossas condolências à família.

— Pode ir primeiro. Vou logo em seguida.

Macbeth ficou observando Tourtell descer as escadas, apertar a mão da Sra. Duncan e seus lábios se mexerem enquanto ele inclinava a cabeça em sinal de profunda condolência. Ele parecia uma tartaruga. Mas algo que Tourtell dissera... O mar estava cheio deles. Homens que tinham fugido.

— Tudo bem, senhor?

Era Seyton. Havia esperado do lado de fora. Detestava igrejas, foi o que alegou; sem problema, pois aqueles que desgostavam do comissário-chefe provavelmente não estariam lá dentro.

— Nós checamos todos os barcos de passageiros que saíram da cidade — disse Macbeth —, mas alguém pensou em verificar os outros navios?

— Em busca de passageiros clandestinos, o senhor quer dizer?

— Sim. Ou simplesmente de pessoas que conseguiram um trabalho a bordo.

— Não.

— Envie uma descrição detalhada do Duff pra todas as embarcações que partiram desde ontem. Agora!

— Sim, senhor.

Seyton desceu as escadas de dois em dois degraus e logo sumiu de vista.

Meredith. Meredith não mais existia. Mas a cicatriz no coração dele ainda estava lá. No entanto, Macbeth não ia ao enterro. Pois fazia muito tempo que ela havia deixado de existir, tanto tempo que ele tinha esquecido quem ela era. Tanto tempo que havia se esquecido de quem ele mesmo tinha sido.

Ajeitou a posição do corpo, ainda parado, e sentiu o tecido roçar sua coxa. Fedia a lã molhada. Sentiu um arrepio.