Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 17 de 50

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Macbeth

Capítulo 14

 

Macbeth foi dirigindo pelo caminho de terra batida, entre as antigas fábricas. Era mais uma daquelas manhãs de segunda-feira com nevoeiro tão baixo e tão espesso que era difícil enxergar quais chaminés lançavam fumaça, embora desse para ver os portões com avisos de FECHADO ou com correntes amarradas em forma de bizarras gravatas-borboletas. A coletiva de imprensa havia sido indolor. Indolor porque ele estava dopado demais para sentir qualquer coisa. Havia se concentrado em ajeitar-se confortavelmente na cadeira, cruzar os braços e deixar que Lennox e Caithness cuidassem das respostas — salvo aquelas dirigidas especificamente a ele, às quais respondera com uma fórmula padrão: “Por ora, não podemos tecer comentários a respeito desse assunto”, pronunciada de tal forma que passava a impressão de terem muitas informações e estarem no controle de tudo. Voz calma e confiante. Pelo menos essa tinha sido a impressão que pretendera passar. Um comissário-chefe interino que não se deixava levar pela histeria reinante, que respondia às perguntas impertinentes dos jornalistas (“O público não tem o direito de saber?”) com um sorriso um tanto resignado e tolerante. Muito embora Kite, o repórter com o “r” embolado, tivesse declarado, em seu programa de rádio após a coletiva de imprensa, que o comissário-chefe interino havia bocejado o tempo todo, dera a impressão de estar alheio ao que se passava e não parava de olhar no relógio. Mas Kite que fosse para o inferno. O pessoal do Departamento de Patrulhas tinha certeza de que o novo comissário-chefe estava bastante comprometido com o trabalho, pois tinha ido até eles e redirecionado as equipes do Distrito 2 Oeste para o Distrito 1 Leste, explicando que já era hora de os bairros de pessoas comuns também terem segurança. Uma mensagem importante estava sendo enviada: a polícia não priorizava os distritos ricos e poderosos. E, enquanto Kite estava incomodado, Banquo ficara feliz em receber um convite para jantar, com instruções de levar Fleance.

— Bom pro rapaz ir se acostumando a estar no meio dos marmanjos — disse Macbeth. — E também acho que você deveria decidir o que quer fazer. Assumir o GOE, a Crime Organizado ou se tornar o comissário-chefe adjunto?

— Eu?

— Não precisa ficar nervoso, Banquo. Só pensa um pouco, tá?

E Banquo tinha dado uma gargalhada e balançado a cabeça. Amável, como sempre. Como se não tivesse um único pensamento perverso. Ou, pelo menos, como se não tivesse consciência de tê-los. Bem, naquela noite, o traidor iria ao encontro de seu criador e carrasco.

Não havia vivalma no portão do clube dos Norse Riders. Provavelmente não sobrara ninguém para ficar encarregado da segurança.

Macbeth desceu do carro e foi até o salão do clube. Parou à porta e olhou em volta. Sentiu como se tivesse passado uma eternidade desde a última vez que havia parado bem ali, com Duff ao lado, e passado os olhos pelo mesmíssimo lugar. Agora, a mesa comprida não estava mais lá, e no bar havia três homens de pança flácida e caída, usando a jaqueta de couro do clube, e duas mulheres de seios nada flácidos e bem empinados. Uma delas segurava um bebê que não sossegava, no braço musculoso e maternal em que tinha tatuado o nome SEAN.

— Colin, aquele não é o...? — sussurrou ela.

— Sim — respondeu, em voz baixa, o homem completamente careca com bigodão de morsa. — Foi esse que pegou o Sean.

Macbeth se lembrou do nome que constava dos registros. Era estranho como vivia esquecendo os nomes de conhecidos, mas nunca os daqueles que apareciam em relatórios. Sean. Era o que haviam encontrado montando guarda no portão, aquele que Macbeth esfaqueara no ombro e usara como refém; ainda estava preso.

O homem lançou um olhar de poucos amigos para o oficial da polícia, o queixo retesado demonstrando sua fúria. Macbeth respirou fundo. Estava tudo tão silencioso que dava para ouvir as tábuas do assoalho rangendo sob a sola de seus sapatos enquanto caminhava até o bar. Dirigiu-se ao sujeito de jaqueta de couro no balcão e já ia abrindo a boca quando lhe ocorreu que não deveria ter cheirado aquela última carreirinha antes de deixar a central. A brew tendia a torná-lo arrogante. E sua preocupação foi confirmada pelo que ouviu sair da própria boca:

— Oi, como está vazio isso aqui, cadê todo mundo? Ah, sim. Atrás das grades. Ou na geladeira. Um Glendoran, por favor.

Macbeth notou os olhos do barman dispararem para o lado, percebeu um ataque iminente vindo da esquerda, e ainda lhe restava um mundaréu de tempo. Sempre tivera bons reflexos, mas, sob efeito da brew, era como uma mosca: sobrava-lhe tempo para bocejar, coçar as costas e acompanhar o ponteiro de segundos incrivelmente lento do relógio, isso tudo enquanto o punho vinha em sua direção. Mas então, quando Colin do bigode de morsa achou que estava prestes a acertá-lo, Macbeth se esquivou para trás, e a mão que se dirigia para suas têmporas recém-aparadas cortou o ar. Ele se aprumou e jogou o cotovelo para o lado, mal sentindo o impacto, apenas ouviu o ranger dos ligamentos se rompendo, os passos cambaleantes e os bancos sendo derrubados.

— Com gelo — completou Macbeth.

Então ele se virou para o homem ao seu lado a tempo de ver que o sujeito tinha fechado a mão direita e torcido o ombro para trás, pronto para dar um murro. Quando o soco veio, Macbeth ergueu a mão e encontrou a de Colin no meio do caminho. Mas, em vez da vibração sonora da batida de osso contra osso, ouviu-se o som suave de aço contra carne, seguido de um baque surdo quando os ossos da mão de Colin se chocaram contra o cabo. Em seguida, um grito arrastado ao ver a lâmina se cravar em sua mão e ir rasgando a carne até o braço. Macbeth arrancou a adaga com um puxão.

— ... E uma soda.

O homem de bigode de morsa caiu de joelhos.

— Que porra é essa?

A voz vinha da porta da garagem. O homem tinha uma barba grande e uma jaqueta de couro com três divisas em cada ombro. Nas mãos, uma espingarda de caça.

— Estou fazendo um pedido — disse Macbeth, virando-se para o barman, que continuava imóvel.

— Pedido de quê? — perguntou o homem, se aproximando.

— Uísque. Entre outras coisas.

— E o que mais?

— Você é o sargento. Aquele que administra o ponto quando Sweno não está, correto? A propósito, onde ele está se escondendo dessa vez?

— Diga o que veio dizer e cai fora, policial de merda.

— Não concordo com nada que disserem de ruim sobre o lugar, mas o serviço podia ser mais amistoso e mais rápido. Que tal você e eu conversarmos em paz numa das salas lá atrás, sargento?

O homem observou Macbeth por alguns instantes. Por fim, baixou o cano da arma.

— Tudo bem. Até porque não sobrou muita coisa pra você destruir aqui.

— Sei disso. E Sweno vai gostar do meu pedido, posso te garantir.

O apertado escritório do sargento (era de fato um escritório) tinha pôsteres de motos nas paredes e um pequeno sortimento de partes de motor nas prateleiras, além de uma mesa, um telefone e uma caixa de entrada e saída de documentos.

— Vamos logo com isso.

— Meu pedido é pra um assassinato de aluguel.

Se o sargento ficou surpreso, não demonstrou.

— Endereço errado. Não fazemos mais isso pra vocês.

— Então o boato é verdadeiro? Vocês faziam esses trabalhos pro pessoal do Kenneth?

— Se não tem mais nada a...

— Só que dessa vez não é um concorrente de vocês que teriam que despachar pra outro mundo — disse Macbeth, inclinando-se para a frente na cadeira. — São dois policiais. E a recompensa, a ser efetivada no ato da entrega do serviço, é que o seu Norse Riders ficará livre e as acusações contra ele serão arquivadas.

O sargento ergueu as sobrancelhas

— E como você faria isso?

— Erro processual. Provas danificadas. O tipo de coisa que acontece o tempo todo. E, se o comissário-chefe disser que não temos um caso, então não temos um caso.

O sargento cruzou os braços.

— Continua.

— Quem tem que ser despachado é o cara que fez de tudo pra que o carregamento que seria o ganha-pão de vocês fosse parar no rio. Inspetor Banquo. — Macbeth observou o sargento assentir lentamente. — O outro é um recruta que vai estar no mesmo carro.

— E por que eles devem ser despachados?

— Isso importa?

— Normalmente eu não perguntaria, mas, como são policiais, vai dar muita dor de cabeça pra gente.

— Não com esses. Sabemos que o inspetor Banquo está trabalhando pro Hécate, mas simplesmente não temos como provar isso, então precisamos nos livrar dele de outra forma. Essa é a melhor opção, do nosso ponto de vista.

O sargento assentiu novamente. Macbeth sabia que ele entenderia o raciocínio.

— Que garantia eu tenho de que você vai cumprir a sua parte, se fecharmos esse acordo?

— Bem — respondeu Macbeth, olhando para a garota do calendário de parede acima da cabeça do sargento —, temos cinco pessoas no bar que podem testemunhar que o comissário-chefe interino, Macbeth, esteve aqui pessoalmente e fez um pedido. Você por acaso acha que seria do meu interesse dar motivo pra isso vir a público?

O sargento se recostou na cadeira, esticando-se tanto para trás que acabou tocando na parede, e deu uma boa avaliada em Macbeth enquanto soltava uns grunhidos e repuxava fios da barba.

— Quando e onde seria feito o serviço em potencial?

— Hoje à noite. Conhece a Colina dos Enforcados, no Distrito 2 Oeste?

— Foi onde enforcaram meu tataravô.

— No viaduto da estrada principal sobre as ruas onde os moradores da Zona Oeste vão às compras tem um grande cruzamento.

— Sei onde é.

— Eles vão estar num Volvo preto, no sinal, em algum momento entre às seis e meia e sete da noite. Provavelmente às seis e quarenta e cinco. Ele é pontual.

— Hum... Tem sempre muitos carros de patrulha por lá.

Macbeth sorriu.

— Não hoje à noite

— Tem certeza? Vou pensar e te dou uma resposta às quatro.

Macbeth riu.

— Sweno vai pensar, você quer dizer. Ótimo. Pega uma caneta, vou te passar meu número e a placa do Volvo. Ah, tem mais uma coisa.

— Hum?

— Quero a cabeça deles.

— De quem?

— Dos dois policiais. Quero a cabeça deles. Entrega em domicílio.

O sargento o encarou como se o achasse doido.

— O cliente precisa de um recibo — argumentou Macbeth. — Da última vez que contratei um assassinato de aluguel, cometi o erro de não pedir. Meu serviço não foi feito.

No final da tarde, Duff tomou uma decisão.

Sua mente havia trabalhado por horas em um cérebro no qual o trânsito era tão lento, e o trajeto tão pleno de alternativas quanto a rua à sua frente. Ainda não haviam consertado as grades da ponte Kenneth, de modo que o fluxo para o leste estava sendo redirecionado para a ponte antiga, provocando um engarrafamento que ia até o Distrito 2, para onde o carro de Duff avançava a passos de lesma de um cruzamento ao outro, e cada uma delas suscitava as dúvidas: esquerda?, direita?, em frente? Qual é o mais rápido?

Já seu dilema pessoal era outro.

Deveria conversar com Macbeth e os outros sobre o que o garoto no cais lhe contara? Ou guardar para si? Mas e se o caolho estivesse mentindo ou se Banquo apresentasse álibis capazes de desmentir as acusações? Quais seriam as consequências para Duff se, em meio àquela situação caótica, ele levantasse falsas acusações contra Banquo, que, com a ascensão de Macbeth, havia se tornado, de súbito, uma figura de poder?

Duff poderia, é claro, apenas repetir fielmente o que ouvira e deixar que Lennox e Macbeth avaliassem a questão, mas, nesse caso, perderia a chance de obter um triunfo — e como precisava de um triunfo! — ao desmascarar e prender Banquo sozinho.

Por outro lado, não podia se dar ao luxo de outro fiasco depois de sua incursão policial no terminal de contêineres. Custara-lhe sua nomeação para a Crime Organizado, e um deslize a mais poderia lhe custar o emprego.

Outro dilema: a Crime Organizado voltaria a ser alvo de disputa caso Macbeth fosse nomeado o novo comissário-chefe, e, se Duff aproveitasse a oportunidade naquele momento, se fosse ousado e tudo desse certo, a chefia da unidade poderia ser dele.

Pensou em pedir a opinião de Caithness, mas, se fizesse isso, não poderia bancar o inocente e seria forçado a fazer alguma coisa. A assumir o risco.

Por fim, encontrou uma saída que não envolvia grandes riscos, mas que ainda lhe dava a chance de receber todo o crédito se tudo acontecesse conforme planejado.

Saindo da pequena ponte ferroviária, entrou no pátio diante de um modesto prédio de tijolinhos que ficava do outro lado. Levara quase uma hora para cobrir a curta distância entre a central e a casa de Banquo.

— Duff — disse Banquo, abrindo a porta segundos depois de ouvir a campainha. — O que aconteceu?

— Está de saída pra uma festa?

— Sim, e não consigo me decidir se levo isso ou não — respondeu Banquo, erguendo o coldre com a pistola de serviço.

— Deixa isso aí. Só vai criar um volume no seu terno. Mas esse nó de gravata não está bom.

— Não? — Banquo apertou o colarinho branco da camisa com o queixo, tentando em vão dar uma espiada no nó. — Bom, faz cinquenta anos que esse nó tem prestado, desde que fui crismado.

— É nó de pobre, Banquo. Deixa eu te mostrar...

Banquo afastou a mão solícita dele e protegeu o nó.

— Eu sou pobre, Duff. E suponho que você tenha vindo até aqui pra pedir ajuda, não pra oferecer.

— É verdade. Posso entrar?

— Eu gostaria de poder te oferecer ajuda e um café, mas estamos de saída. — Banquo colocou o coldre na chapeleira atrás de si e gritou para o alto das escadas: — Fleance!

— Já vou! — Foi a resposta.

— Podemos conversar ali fora enquanto isso — disse Banquo, abotoando o paletó.

Pararam nos degraus brancos debaixo do alpendre. A chuva gorgolejava animadamente nas calhas quando Banquo ofereceu um cigarro a Duff e foi logo acendendo o seu, enquanto o inspetor recusava.

— Voltei ao terminal de contêineres hoje — começou Duff. — Fui me encontrar com um garoto, um dos nossos jovens viciados, que pediu pra falar comigo. Ele tem um olho só e me contou como perdeu o outro.

— Hum.

— Estava em abstinência e precisava desesperadamente comprar droga, mas não tinha grana. Então ele viu um idoso na Estação Central e pediu esmola pra ele. O homem usava uma bengala de castão dourado.

— Hécate?

— O idoso parou, pegou um saquinho que ficou balançando na cara do garoto, dizendo que estava cheio de brew da melhor qualidade, que estava fresquinha. E que seria dele caso fizesse duas coisas. A primeira era responder à pergunta: qual dos cinco sentidos você teria mais medo de perder? Quando o garoto respondeu que era a visão, o homem disse que queria um dos olhos dele.

— Sim, era o Hécate.

— Quando o garoto perguntou por que o velho queria o olho dele, Hécate respondeu que já tinha tudo, portanto lhe faltava a coisa mais preciosa pro comprador, e não pra si. E que, afinal, era apenas metade da sua visão. Quer dizer, nem isso, porque, afinal, seu segundo olho passaria a ser muito mais valioso. E que, assim, o ganho compensaria a perda.

— Não entendo por que fazer isso.

— Você pode não entender, mas é assim que algumas pessoas são. Elas desejam o poder em si, mais do que qualquer coisa que o poder possa lhes oferecer. Preferem ser donos de uma árvore infrutífera do que comer a fruta que cresce nela. Isso só pra poderem apontar pra árvore e dizer: “É minha.” E derrubá-la.

Banquo soltou uma nuvem de fumaça.

— O que o garoto resolveu fazer?

— Ele recebeu a ajuda de um homem-mulher que estava com o velho, pra arrancar o olho. E depois, quando recebeu a dose prometida, toda a dor que já sentira na vida se foi. A droga apagou todas as cicatrizes e fez desaparecer todas as lembranças ruins. Disse que foi tão maravilhoso que mesmo hoje não pode dizer que se arrepende da troca. E ainda corre atrás da droga perfeita.

— E o que ele estava querendo quando vocês se encontraram hoje?

— O mesmo. E também queria acabar com a pessoa que arrancou o olho dele pela simples razão de que podia fazer isso.

— Ele vai ter que entrar na fila. Está todo mundo atrás do Hécate.

— A ideia dele era colaborar com a gente na caça ao Hécate.

— E como um miserável viciado em brew faria isso?

— A suposta carta de suicídio do Malcolm aponta pros Norse Riders. Mas o garoto acha que quem está por trás de tudo, tanto da carta quanto do assassinato do Duncan, é o Hécate. E também que Hécate está mancomunado com o Malcolm. E talvez com outros policiais.

— Uma teoria popular nos dias de hoje. — Banquo deu um peteleco nas cinzas do cigarro e olhou para o relógio. — E ele recebeu uma grana por isso?

— Não — respondeu Duff. — Não, nada. Recebeu depois de me contar que viu Malcolm no terminal antes de darem falta dele. E que ele estava com você.

O cigarro estancou a caminho da boca de Banquo. Depois de achar graça, ele disse:

— Eu? Não acredito.

— Ele descreveu você e o seu carro.

— Nem eu nem o meu carro estávamos lá. E acho duro de acreditar que você tenha desperdiçado dinheiro público em uma história dessas. Só me diz uma coisa: qual de vocês está blefando? O viciado ou você?

O vento frio soprou com força, e Duff sentiu um arrepio.

— O garoto disse que viu Malcolm com um homem mais velho, e que ele já tinha visto com Macbeth. E um sedã da Volvo. E uma arma. Agora me responde: você não teria pagado por essa informação, Banquo?

— Só se estivesse desesperado. — Banquo apagou o cigarro no corrimão de ferro que flanqueava os degraus. — Na verdade, nem assim, caso se tratasse de um colega.

— Porque você sempre deu muito valor à lealdade, não é mesmo?

— Uma força policial não pode funcionar sem a lealdade dos seus pares. É um pré-requisito.

— Então até onde vai sua lealdade à nossa força policial?

— Sou um homem simples, Duff, e não estou entendendo aonde você quer chegar.

— Se é verdade o que você diz sobre lealdade, então tem que nos devolver o Malcolm. Pelo bem da força policial.

Duff apontou para a poça em frente a eles que parecia um caldeirão cinzento de chuva e névoa.

— Pelo bem dessa cidade. Me diga onde o assassino do Duncan está escondido em Capitol?

Banquo arrancou a brasa da ponta do cigarro e enfiou a guimba no bolso do paletó.

— Não sei nada sobre o Malcolm. Fleance! Desculpa, inspetor, mas estamos saindo pra jantar.

Banquo desceu os degraus. Duff foi atrás dele.

— Pode se abrir comigo, Banquo! Sei que você está sendo atormentado pela culpa e pela consciência pesada. Você não é um homem mau nem desonesto, apenas cedeu à tentação, incitado por alguém de uma patente mais alta em quem confiava totalmente. E depois foi traído. E esse alguém tem que ser preso, Banquo!

— Fleance! — gritou Banquo, na direção da casa, enquanto abria a porta do carro.

— Você quer que a gente continue nessa espiral descendente, em direção ao caos e à anarquia, Banquo? Nossos antepassados construíram estradas de ferro e escolas. Nós construímos bordéis e cassinos.

Banquo entrou no carro e buzinou duas vezes. A porta da casa se abriu, e um Fleance de terno e gravata surgiu nos degraus, onde iniciou uma batalha para abrir o guarda-chuva.

Banquo abriu o vidro um pouquinho, provavelmente porque o vapor estava embaçando o interior do carro, então Duff apoiou as mãos na abertura e pressionou o vidro para baixo enquanto falava:

— Escuta, Banquo. Se você fizer isso, se confessar, não há muito que eu possa fazer por você, como você bem sabe, mas prometo que ninguém vai tocar no Fleance. No futuro, ele não será visto como filho de um traidor, e sim filho de um homem que se sacrificou pela cidade. Eu te dou minha palavra de honra.

— Oi. Inspetor Duff, não é?

Duff se virou.

— Oi, Fleance. Isso mesmo. Divirtam-se.

— Obrigado.

Duff esperou até que Fleance entrasse e Banquo ligasse o motor. Então foi andando para o próprio carro.

— Duff!

Ele se virou.

A porta do lado de Banquo estava aberta.

— Não é o que você está pensando — gritou ele lá de dentro.

— Não?

— Não. Me encontre na Bertha à meia-noite.

Duff assentiu.

O Volvo deu a partida, então pai e filho atravessaram o portão e sumiram na névoa baixa que cobria a rua.