Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 23 de 50

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Macbeth

Capítulo 20

 

 

Manhã de quinta-feira. Fife se via banhada pela luz do sol. Duff nadava. Os longos e contínuos movimentos do nado de peito abriam caminho através da água fria e pesada. No princípio, ele preferia a água salgada do fiorde, que achava mais leve para nadar. O que parecia realmente uma incoerência, pois havia aprendido que a água salgada propiciava maior flutuabilidade, o que significava que tinha maior densidade, o que, por sua vez, indicava ser mais pesada que a água doce. No entanto, até pouco antes preferia o fiorde, que também era gelado, porém tão poluído que se sentia sujo toda vez que saía da água. Mas agora estava limpo. Acordou cedo, fez exercícios no chão frio de madeira do quarto de hóspedes, preparou o café da manhã para a família, cantou um breve parabéns para Ewan, levou as crianças à escola e depois caminhou com Meredith os cerca de oitocentos metros até o lago. Ela falou sobre o número de maçãs que havia nas árvores nesse outono, sobre a primeira carta de amor que a filha recebera — embora no fundo estivesse decepcionada por ter sido de um menino três anos mais novo — e sobre o desejo de Emily de ganhar um violão em seu aniversário de 12 anos. Ewan se envolvera em uma briga na escola e trouxera um bilhete de advertência para os pais assinarem. O menino havia concordado com a mãe que ele mesmo teria de contar ao pai, mas que isso podia esperar até depois da festa de aniversário — quando teriam bastante tempo. Duff perguntou se adiar o momento ruim não deixava Ewan com medo por um tempo desnecessariamente longo.

— Não sei o que é pior pra ele — confessou Meredith, com um sorriso. — A ansiedade ou o medo do encontro com você. O garoto com quem o Ewan brigou ontem é um ano mais velho, e ele contou que foi esse menino que começou, chutando o pequeno Peter.

— Quem?

— O melhor amigo do Ewan.

— Ah, sim — disfarçou Duff.

— Ewan disse que estava arrependido, mas que era seu dever defender o amigo; que seu pai teria feito a mesma coisa. E ele está ansioso pra ouvir o que você tem a dizer.

— Então vou ter que ser imparcial. Reprovar a conduta, mas elogiar a coragem. Dizer alguma coisa sobre tomar a iniciativa de fazer as pazes, em vez de travar uma guerra. Reconciliação. O que você acha?

— Acho ótimo.

E, enquanto deslizava pela água com Meredith, Duff decidiu que nunca nadaria em nenhum outro lugar que não fosse seu pequeno lago em Fife.

— Chegamos — disse Meredith, ofegando atrás dele.

Duff se virou de costas na água para vê-la, agitando as mãos e os pés para não afundar. Ele tinha o corpo pálido, com um tom esverdeado sob a água, enquanto o dela, sob a mesma luz, era bronzeado.

Estava passando tempo demais na cidade; tinha de pegar mais sol.

Ela passou nadando por ele e subiu em uma grande rocha desgastada pela ação da água.

Não era uma rocha qualquer. Era a deles. Onde haviam concebido a filha, em um dia de verão 11 anos antes. Tinham ido a Fife para escapar do alvoroço da cidade e haviam encontrado aquele lago quase por acaso. Pararam ao verem uma pequena fazenda abandonada que Meredith achou uma graça. De lá, viram o cintilar da água e, após uma caminhada de dez ou 15 minutos, encontraram o lago. Embora as únicas outras criaturas à beira da água fossem uma dupla de vacas, eles haviam nadado até aquela rocha meio escondida na outra margem, onde era improvável que alguém os avistasse. Um mês depois daquele dia, Meredith lhe contou que estava grávida, e, em completa felicidade, voltaram a Fife e compraram a casa que ficava entre o lago e a estrada principal e, depois que o segundo filho nasceu, Ewan, adquiriram também o terreno à beira do lago, onde agora ficava a cabana.

Duff foi se sentar ao lado dela. De onde estavam, podiam ver a cabana vermelha.

Deitou-se de costas na rocha aquecida pelo sol. Fechou os olhos e sentiu ondas de prazer percorrerem seu corpo. Às vezes valia a pena ficar com frio para depois se deleitar ao sol, pensou.

— Você voltou pra casa, Duff?

Quando perdemos algo e o reencontramos, a alegria é maior do que a que sentíamos antes da perda.

— Sim — respondeu ele.

A sombra dela caiu sobre ele.

E, quando se beijaram, ele se perguntou por que só agora — e não antes — percebia que a boca de uma mulher molhada de água doce era mais saborosa do que quando molhada de água salgada. Então chegou à conclusão de que devia ser o próprio corpo, a certa altura, avisando que a água doce podia, ao contrário da água salgada, ser ingerida.

Depois que terminaram e se deitaram entrelaçados, suados por causa do sol e do sexo, ele disse que precisava ir à cidade.

— Tá bom. Betasuppe no horário de sempre?

— Volto bem antes. Só tenho que pegar o presente do Ewan. Está na minha gaveta no escritório.

— Ele queria a roupa de agente policial secreto, não é isso?

— Sim, e tem outra coisa que preciso resolver o mais rápido possível.

Ela lhe acariciou a testa e o nariz.

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim e não. É algo que eu devia ter resolvido há muito tempo.

— Nesse caso... — o dedo dela, que o conhecia tão bem, acariciou-lhe os lábios — ... faça o que precisa ser feito. Estarei aqui esperando você.

Duff se apoiou nos cotovelos e olhou para ela.

— Meredith...

— Sim?

— Eu te amo.

— Eu sei, Duff. Você só andou meio esquecido.

Duff sorriu. Depois de lhe dar mais um beijo, levantou-se. Já ia mergulhar novamente, mas parou.

— Meredith?

— Sim?

— O Ewan disse quem venceu a briga?

— O comissário-chefe explicou por que eles têm que ser entregues na sede do clube? — perguntou o motorista.

O guarda da prisão remexeu o molho de chaves para encontrar aquela que serviria na cela seguinte.

— Provas insuficientes pra manter os caras sob custódia.

— Provas insuficientes? Que inferno, a cidade inteira sabe que foram os Norse Riders que pegaram a droga no porto. E eles sabem que foram os Norse Riders que mataram aquele policial e o filho dele. Mas eu não perguntei por que estavam sendo libertados. Estou acostumado com esses absurdos. Só queria saber por que simplesmente não abrimos a porta pra eles e pronto. Quando transporto prisioneiros, geralmente é de uma prisão pra outra, não fico servindo de táxi pros desgraçados não precisarem ir a pé pra casa.

— Nem me pergunte — disse o guarda, destrancando a cela. — Ei, Sean! Fora da cama e já pra sua patroa e pra sua filha!

— Viva Macbeth! — Veio um grito de dentro da cela.

O guarda balançou a cabeça e se virou para o motorista.

— É melhor você parar o ônibus na saída e nos reunirmos lá. Vamos mandar dois policiais armados com você.

— Por quê? Esses caras não estão livres?

— O comissário-chefe quer ter certeza de que eles serão entregues no lugar combinado sem contratempos.

— Posso botar algemas nas pernas também?

— As regras não falam nada sobre isso, mas faça como quiser. Ei, Sean! Anda logo com esses sapatos, não temos o dia inteiro.

— Tá falando sério? Os bons tempos estão de volta, como na época do Kenneth?

— Calma lá. É um pouco cedo pra dizer isso, mas Macbeth está se mostrando promissor. É o que estão dizendo.

— O problema dele são os assassinatos não solucionados dos policiais. Se você não resolve as coisas de um jeito inteligente, logo se fode.

— Talvez. Kite disse hoje no rádio que Macbeth é uma catástrofe. — Ele repetiu “catástrofe” exagerando no “r” enrolado.

O motorista achou graça. Mas sentiu um arrepio ao ver a tatuagem na testa do prisioneiro.

— Transporte de gado — murmurou ele enquanto o guarda empurrava o prisioneiro para fora.

Duff abriu a porta de sua sala, enfiou o presente do filho na jaqueta e saiu tão apressado quanto entrara. Na Unidade de Perícia, no segundo andar, avisaram que Caithness estava na câmara escura, na garagem. Ele pegou o elevador e entrou no local — tempos antes, quando Caithness dividia apartamento com uma amiga, Duff convencera o zelador do prédio de que, como chefe da Narcóticos, seria útil se tivesse uma chave do lugar onde a Perícia tinha uma sala de tiro para análise balística, um laboratório químico, uma câmara escura para revelar fotos de cenas de crime, além de uma área aberta com um portão que dava para a rua, onde poderiam guardar objetos maiores, como carros, que precisassem ser periciados em busca de provas. Depois do expediente, praticamente ninguém fazia hora extra naquele porão frio e úmido; caso necessário, usavam os escritórios no segundo andar. Por um ano, Duff e Caithness se encontraram no porão depois do trabalho, bem como, uma vez por semana, tiravam a hora do almoço para irem ao quarto 323 do Grand Hotel, usando o nome Mittbaum. Depois que Caithness comprou o apartamento no sótão, Duff passou a sentir saudades daqueles encontros apressados, por mais estranho que parecesse.

Agora, ao abrir a porta e ser recebido por uma lufada impiedosa, concluiu que eles deviam estar muito apaixonados mesmo. No meio da garagem via-se o Volvo de Banquo, cravejado de balas. Estava coberto por uma lona, provavelmente porque a porta do passageiro havia sido arrancada e precisavam proteger as possíveis evidências de ataques dos ratos que vagavam à solta durante a noite. Duff parou à entrada do laboratório onde revelavam-se fotos e respirou fundo. A decisão estava tomada. Agora, faltava apenas agir. Agir. Girou a maçaneta e entrou na escuridão. Fechou a porta. Ficou inalando o cheiro de amônia do fixador, esperando que as pupilas se expandissem.

— Duff? — Ouviu.

A mesma voz doce e ligeiramente hesitante que o acordara na sala de reuniões no dia anterior. A mesma voz doce e ligeiramente hesitante que o despertara tantas manhãs no apartamento no sótão. A voz doce e hesitante que ele não ouviria mais, não da mesma maneira, não ali dentro.

— Caithness, não podemos...

— Roy, pode nos deixar a sós por alguns minutos? — pediu ela.

Os olhos de Duff se ajustaram à escuridão a tempo de ver o fotógrafo forense sair.

— Você viu isso? — perguntou Caithness, apontando uma luz vermelha para três imagens que pingavam penduradas em uma linha.

A primeira mostrava o carro de Banquo. A segunda, o corpo de Banquo sem a cabeça, estirado no asfalto. A terceira era um close da pele do pescoço de Banquo, no local do corte. Ela apontou para esse último detalhe.

— Achamos que o pescoço foi cortado com uma lâmina grande, como o sabre que você disse que Sweno tinha.

— Hum — fez Duff, olhando para a foto.

— Encontramos vestígios de sangue de outra pessoa na coluna vertebral. Não é curioso?

— O que isso significa?

— Sweno, ou seja lá quem for o assassino, evidentemente não foi muito cuidadoso ao limpar o sabre, então, quando a lâmina decepou a espinha dorsal, aqui — ela apontou para o local —, deixou vestígios de sangue ressecado. Se conseguirmos determinar qual é o grupo sanguíneo, isso pode nos ajudar em outros casos de assassinato.

Sentindo o estômago se revirar, Duff se apoiou em um banco.

— Ainda está se sentindo mal? — indagou Caithness.

Ele respirou fundo algumas vezes.

— Sim. Não. Eu só precisava sair daqui. Temos que conversar.

— Sobre o quê?

Ele percebeu, pela voz dela, que Caithness já sabia. Provavelmente havia percebido no instante que ele abrira a porta com violência; a conversa sobre as fotos tinha sido para controlar o medo.

— Sobre nossos encontros — respondeu ele. — Não podemos continuar.

Ele tentou ver o rosto dela, mas estava escuro demais.

— Foi só isso o que tivemos? — perguntou ela, em tom choroso. — Encontros?

— Não. Não, você tem razão. É claro que tem. Foi mais do que isso. O que é mais uma razão pra que isso termine.

— Você quer terminar, me descartar, aqui, em pleno trabalho?

— Caithness...

Sua risada amarga o interrompeu.

— Bom, faz sentido. Um relacionamento às escuras só pode terminar numa câmara escura.

— Sinto muito. Estou fazendo isso pelas...

— Por você. Você, Duff. Não pelas crianças, não pela sua família, mas por você. A pessoa mais egoísta que eu já conheci. E não vem me dizer que é por causa de outra pessoa.

— Como quiser. Estou fazendo isso por mim.

— E de onde veio essa decisão, Duff? Foi motivada por uma garota ainda mais jovem, ainda mais ingênua, que você sabe que não vai encher o seu saco, que não vai tentar forçar você a assumir um compromisso ou a renunciar alguma coisa? Quer dizer, por enquanto, não é?

— Será que ajuda se eu disser que estou pensando apenas no bem-estar puramente pessoal e egoísta que espero sentir por imaginar que estou fazendo a coisa certa por aqueles a quem devo minha dedicação? Que estou terminando com você porque morro de medo de não ser incluído entre as almas que serão salvas no Dia do Julgamento Final?

— E você acha que será incluído?

— Não. Mas a decisão foi tomada, Caithness, só falta você me dizer como quer que eu extraia o dente, aos poucos ou de uma única vez?

— E por que o tormento deveria terminar agora? Passa lá em casa às quatro.

— Pra quê?

— Pra me ouvir chorar, xingar e implorar. Não posso fazer isso aqui.

— Prometi jantar com a minha família às cinco.

— Se você não for, primeiro vou atirar tudo o que é seu na rua, depois vou ligar pra sua mulher e contar tudo sobre suas escapadas...

— Ela já sabe, Caithness.

— E pros seus sogros. Vou contar que você traiu a filha e os netos deles.

Duff engoliu em seco.

— Caithness...

— Às quatro. Se você tiver a consideração de me escutar, ainda vai chegar em casa a tempo do seu maldito jantar.

— Tudo bem, tudo bem, eu vou. Mas não pensa que isso vai mudar alguma coisa.

O fotógrafo da Perícia estava recostado na porta da garagem, fumando, quando Duff saiu.

— Uma monstruosidade — comentou ele.

— O quê?

— Cortar a cabeça dele assim.

— Assassinatos são sempre monstruosos — disse Duff, dirigindo-se à saída.

Lady estava no quarto, parada diante do guarda-roupa de Macbeth. Ouvia os ratos de rio correndo de lá para cá no piso de madeira. Disse a si mesma que os ruídos eram fruto de sua imaginação; o piso era coberto por um carpete bem alto e espesso. Sons em sua cabeça. Logo seriam vozes. As vozes que, como sua mãe havia dito, não a deixariam em paz, as mesmas vozes que a mãe de sua mãe havia escutado: seus antepassados falando, ordenando que caminhassem sonâmbulas à noite, movendo-se apressadas para a morte. Tinha sentido tanto medo ao ver Macbeth tendo alucinações à mesa do jantar... Medo de haver infectado seu único e verdadeiro amor.

As patas apressadas dos ratos permeavam sua imaginação havia muito tempo e se recusavam a desaparecer.

Só lhe restava fugir às pressas. Fugir dos sons, de sua imaginação.

Abriu o guarda-roupa.

Puxou a gaveta sob a prateleira. Havia um saquinho de power. A válvula de escape de Macbeth. Será que funcionava? Será que ela se libertaria se visitasse o mesmo lugar que ele? Duvidava muito disso. Fechou a gaveta.

Olhou para a prateleira no alto. Para o pacote que Jack recebera. Estava embrulhado em papel, amarrado com barbante e com plástico transparente por cima. Era apenas um pacote. E ainda assim era como se o embrulho a encarasse.

Abriu a gaveta novamente e pegou o saquinho. Espalhou um pouco de pó na mesa sob o espelho, fez um rolinho com uma nota de dinheiro e, sem saber exatamente como proceder, enfiou uma ponta na narina e a outra encostou no pó. Inspirou. Parte com o nariz, parte com a boca. Não funcionou. Depois de algumas tentativas, montou uma carreirinha de pó, tornou a enfiar a nota na narina e inalou com força enquanto fazia deslizar a outra ponta ao longo da linha, aspirando tudo. Sentou-se e ficou examinando a si mesma no espelho. O ruído dos ratos correndo desapareceu. Então foi para a cama e se deitou.

— Lá vêm eles! — gritou o sargento.

À entrada principal do clube dos Norse Riders, ele observava o ônibus amarelo da prisão vindo pela estrada. Eram três e meia, a hora combinada. Olhou para aqueles que se reuniam do lado de fora sob a chuva fina. Todos no clube eram obrigados a dar as boas-vindas aos feridos que tiveram de deixar para trás, nas mãos da polícia, naquela noite. As mulheres também apareceram — as garotas que namoravam os prisioneiros libertados e as que estavam sempre por ali, com um e com outro. O sargento sorriu para o bebê que ria no colo de Betty; Betty, que esperava seu Sean. Até os primos do sul vieram novamente, para a festa que já prometia entrar para a história. Sweno dera ordens para que houvesse bebida e droga suficientes para entreter uma cidade inteira, porque estavam celebrando algo maior do que a libertação de seus companheiros. Os Norse Riders tinham se vingado das perdas sofridas matando Banquo e, ainda mais importante, firmado uma poderosa aliança. Segundo Sweno, Macbeth vendera sua alma ao diabo quando fora pessoalmente ao clube encomendar um assassinato, e não havia a possibilidade de cancelamento da transação. Agora, Macbeth estava no bolso deles tanto quanto eles no de Macbeth.

O sargento foi até a rua e fez sinal para o ônibus parar em frente ao portão. Ninguém exceto os membros de carteirinha tinha permissão para entrar, essa era a nova regra do clube.

Então eles desceram do ônibus enquanto a aparelhagem de som da sede tocava “Let’s Spend the Night Together”. Alguns iam caminhando, outros iam dançando até o portão, onde eram recebidos pelos companheiros com palmas e punhos erguidos e, pelas mulheres, com abraços e beijos molhados.

— Está tudo muito bom — gritou o sargento —, mas a bebida está lá dentro.

Clamores e risadas. Todos entraram. Mas o sargento ficou à porta, checando as redondezas mais uma vez. O ônibus estava voltando pela estrada; Chang, que havia recebido o reforço de mais dois homens, vigiando o portão. Os prédios abandonados das fábricas ali perto tinham sido vasculhados com antecedência para que eles se certificassem de que não havia ninguém espreitando o clube. O céu a oeste, indicando que um pouco de azul estava a caminho. Agora, talvez pudesse relaxar um pouco. Talvez Sweno estivesse certo: talvez tempos melhores estivessem mesmo a caminho.

O sargento entrou. Recusou os destilados e levou uma caneca de cerveja à boca. Fosse uma festa ou não, eram tempos difíceis. Olhou ao redor. Sean e Betty se beijavam num canto, o bebê espremido entre eles, e o sargento pensou que seria um jeito bizarro de acabar com a vida de uma criança. Mas havia muita coisa bem pior do que ser sufocado por uma paixão intensa.

— Norse Riders! — gritou ele.

Alguém diminuiu o volume da música, e as conversas cessaram.

— Hoje é um dia de alegria. E um dia de tristeza. Ainda não esquecemos os que morreram em combate. Mas há momentos pras lágrimas e momentos pros sorrisos, e hoje estamos festejando. Saúde!

Ovação e brindes. O sargento tomou um grande gole da cerveja e limpou a espuma da barba.

— E esse é um novo começo... — continuou ele.

— Do discurso? — gritou Sean, e todos acharam graça.

— Nós perdemos alguns homens; eles perderam alguns homens — continuou o sargento. — As drogas da Rússia são águas passadas. — Nenhuma risada. — Mas, como me disse hoje um homem que vocês sabem quem é, “Com esse doido de comissário-chefe, a maré vai virar pro nosso lado”.

Mais aplausos. O sargento poderia se estender um pouco mais, dizer algumas coisas sobre o clube, sobre camaradagem e sacrifício, mas já havia tomado tempo e espaço suficientes. Ninguém além do sargento sabia que Sweno estava aguardando nos bastidores. Era hora da entrada triunfal.

— E agora — disse ele —, passo a palavra...

Na pausa dramática que se seguiu, ele entreouviu alguma coisa. O rugido grave de um caminhão com motor potente em marcha muito lenta. Bem, havia muitos motoristas inexperientes por aí.

— ... Pra...

Ele ouviu um estrondo. Entendeu que o portão tinha sido lançado pelos ares. E que a grande atração da noite tinha um rival.

Duff parou diante do prédio cinza de cinco andares. Olhou para o relógio: cinco para as quatro. Tempo de sobra para chegar à festa de aniversário. Tocou a campainha.

— Sobe — disse a voz de Caithness, pelo interfone.

Depois da conversa que tiveram no laboratório, ele tinha ido à Muralha e pedido uma cerveja. Poderia, é claro, ter passado aquele tempo no escritório, trabalhando, mas Macbeth exigira que ficasse em casa, em Fife. Tomou uma segunda cerveja. Dando a si mesmo tempo para refletir.

Subiu as escadas, não com os passos arrastados e pesados de alguém indo para o cadafalso, mas com os passos rápidos e leves de alguém querendo terminar logo a discussão e sair dali vivo. De alguém que tinha uma outra vida para a qual queria voltar.

A porta do apartamento estava aberta.

— Entra. — Ouviu Caithness gritar lá de dentro.

Suspirou de alívio ao ver que ela havia juntado tudo que era seu na mesa do corredor. Uma bolsa com artigos de higiene. Um barbeador. Umas duas camisas e roupas íntimas. A raquete de tênis que ela lhe dera de presente, já que os dois jogavam, mas que nunca tinha sido usada. Um colar e brincos de pérolas. Duff acariciou as joias que comprara para ela e que haviam sido usadas incontáveis vezes.

— Aqui — gritou ela. Do quarto.

O som estava ligado. Elvis. “Love Me Tender”.

Dirigiu-se à porta aberta do quarto, primeiro hesitante, depois não tão devagar. De onde estava, dava para sentir o perfume dela.

— Duff — disse ela, com uma fungada, quando ele apareceu à porta. — Estou devolvendo o que você me deu, mas quero um presente de despedida.

Estava deitada na cama, usando um corpete preto e cinta-liga. Também comprados por ele. À cabeceira havia um balde de champanhe com uma garrafa aberta, que ela obviamente estava bebendo já fazia um tempo. Ele a contemplou, totalmente fascinado. Era a mulher mais linda e mais espetacular com quem já tinha estado. Toda vez que a via, ficava impressionado com sua beleza — como se fosse a primeira vez. Ainda podia sentir cada carícia que trocaram, cada noite de sexo arrebatadora que tiveram. E agora ele renunciava a isso. Agora e para sempre.

— Caithness — disse Duff, sentindo a garganta apertar. — Minha querida, minha linda Caithness.

— Vem cá.

— Não posso...

— Claro que pode. Sempre pôde tanto, tantas vezes, essa é a última. Você me deve isso.

— Você não vai gostar. Não vai ser bom pra você nem pra mim.

— Não quero gostar, Duff. Quero um desfecho. Quero que você rasteje pela primeira vez. Quero que você engula sua integridade e faça o que eu quero. E agora é isso que eu quero. Só isso. Depois, pode ir pro inferno e pra casa jantar com a mulher que você não ama mais. Mas agora vem. Posso ver daqui que você está pronto pra...

— Não, Caithness. Não posso. Você disse que ficaria satisfeita com o que pudesse ter do meu coração. Mas não posso te dar nem esse pouco. Senão eu estaria traindo em dobro... Estaria traindo você e a mãe dos meus filhos. E dizer que eu não a amo não é verdade. — Ele respirou fundo. — É porque eu tinha esquecido. Mas então lembrei. Que a amo e sempre a amei. E fui infiel a você com minha própria esposa.

Ele viu as palavras a derrubarem. Viu o fino e falso verniz da sedução se desmancharem em um choque profundo. Então lágrimas brotaram em seus olhos, e ela se encolheu, puxou o lençol e se cobriu.

— Adeus, Caithness. Me odeie como devo ser odiado. Estou indo.

Na porta do apartamento, Duff botou as roupas e os outros objetos debaixo do braço. A raquete podia ficar. Não dá para jogar tênis em um terreno pequeno. Ele ficou olhando os brincos e o colar. Ouviu, do quarto, os soluços tristes de Caithness. Joias caras. Custaram-lhe mais do que, a rigor, podia pagar, mas agora, em sua mão, não tinham valor nenhum. Não havia ninguém para quem pudesse dar, exceto para uma casa de penhores. Mas não suportaria a ideia de vê-las no corpo de uma desconhecida.

Hesitou. Olhou para o relógio. Largou as outras coisas, pegou as joias e voltou para o quarto. Ela parou de chorar quando o viu. O rosto úmido de lágrimas, o rímel borrado. Um último soluço fez seu corpo estremecer. Uma das meias havia descido, assim como uma das alças do corpete.

— Duff... — sussurrou ela.

— Caithness...

Ele engoliu em seco. Tesão, sangue disparando pelo corpo. As joias caíram no chão.

O sargento pegou o rifle atrás do balcão e correu para a janela; os outros já estavam a caminho do armário de armas. Lá fora havia um caminhão com a lateral quase encostada na parede do clube, o motor ligado, o portão pendurado no para-choque dianteiro. Assim como o corpo de Chang. O sargento colocou o rifle no ombro justamente quando a lona que cobria a traseira do caminhão desceu. E lá estavam os homens do GOE, com seus horrendos uniformes pretos e suas armas apontadas. Havia, porém, algo ainda mais feio a bordo do caminhão, algo que fez o sangue nas veias do sargento congelar. Três monstros. Dois deles de aço, sobre suportes, com carregadores de munição, canos rotativos e câmaras de resfriamento. O terceiro estava no meio dos outros dois, era calvo, magro e musculoso, e, mesmo que o sargento nunca o tivesse visto, sabia que sempre o conhecera, que sempre estivera próximo. Esse homem ergueu a mão e gritou:

— Lealdade, fraternidade!

Os outros responderam: batizados em fogo, unidos em sangue!

Então, um único comando:

— Fogo.

Claro. Fogo.

Depois de mirar no homem, o sargento puxou o gatilho. Um tiro. O último.

A gota de chuva veio do céu, através da bruma, para a imunda cidade portuária abaixo. Descia em direção à claraboia de um sótão sob a qual um casal fazia amor. O homem estava calado enquanto subia e descia os quadris devagar mas com força. A mulher debaixo dele amarfanhava o lençol ao recebê-lo aos soluços e impaciente. O disco havia parado de tocar a doce melodia havia algum tempo, mas a agulha continuava batendo monotonamente, tal como o homem, no rótulo da gravadora que ordenava: Love Me Tender. Mas os amantes não pareciam notar, não pareciam notar nada além do movimento repetitivo em que estavam presos, nem mesmo notavam um ao outro enquanto golpeavam os demônios, golpeavam a realidade, o mundo ao redor, aquela cidade, aquele dia, por alguns poucos minutos, por uma breve hora. Mas a gota de chuva nunca alcançou a claraboia acima dos dois. Uma rajada gélida do vento noroeste a levou por sobre o leito seco do rio que dividia a cidade ao comprido e para a linha férrea em desuso que a dividia na diagonal. Caiu no distrito fabril, para além das chaminés apagadas da Estex e mais para o leste, em direção ao prédio de madeira delimitado por uma cerca entre as fábricas fechadas. Lá, a gota terminou sua viagem pelo ar, atingindo a cabeça brilhante de um homem magro, escorrendo pela testa dele, parando por um instante em seus cílios curtos e enfim descendo como uma lágrima pela lateral do rosto que jamais havia conhecido uma lágrima de verdade.

Seyton não percebeu que havia sido atingido. Nem por uma gota de chuva ao léu, nem pelo tiro do sargento. Ficou de pernas abertas plantadas no piso, a mão erguida, sentindo apenas as vibrações do caminhão quando as metralhadoras começaram a cuspir fogo, sentindo-as se propagarem das solas dos sapatos até os quadris, sentindo o som bater cadenciado nos tímpanos, um som que passou de um murmúrio trepidante para um rugido e, depois, para um uivo coordenado à medida que os canos cuspiam balas cada vez mais rápido. E quando o clube em frente foi reduzido a um monte de escombros, ele sentiu o calor das duas máquinas. Porque eram duas máquinas demoníacas com uma única função: engolir o metal com que eram alimentadas e cuspi-lo fora como robôs bulímicos, só que bem mais rápido do que qualquer outra coisa no mundo. Até aquele momento, os operadores das armas não tinham visto os danos causados que aos poucos se descortinavam conforme janelas e portas tombavam e pedaços de paredes simplesmente se dissolviam. Um corpo de mulher apareceu no chão, do lado de dentro da porta. Partes de sua cabeça haviam desaparecido e o corpo estrebuchava como se levasse choques elétricos. Seyton sentiu que estava tendo uma ereção. Deviam ser as vibrações do caminhão.

Uma das metralhadoras parou de atirar.

Seyton se virou para o operador.

— Algo errado, Angus?

— A missão está concluída — gritou Angus de volta, empurrando a franja loura para o lado.

— Ninguém para até que eu ordene.

— Mas...

— Entendeu? — berrou Seyton.

Angus engoliu em seco.

— Por Banquo?

— Foi o que eu disse! Por Banquo! Agora!

A metralhadora de Angus voltou a funcionar. Mas Seyton viu que ele tinha razão: a operação fora concluída. Não havia sequer um decímetro quadrado diante deles que não estivesse esburacado. Não havia nada que não estivesse destruído. Nada que não estivesse morto.

Continuou aguardando. Fechou os olhos, os ouvidos estavam atentos. Mas era hora de deixar as duas bonecas descansarem.

— Parem! — gritou.

As metralhadoras se calaram.

Uma nuvem de pó escapou da sede destruída do clube. Seyton tornou a cerrar os olhos e inspirou o ar. Uma nuvem de almas.

— O que houve? — ciciou Olafson, do fundo do caminhão.

— Vamos poupar munição — falou Seyton. — Temos um trabalho hoje à tarde.

— Está sangrando, senhor! Seu braço.

Seyton olhou para a própria jaqueta, que havia grudado no cotovelo no ponto em que o sangue escorria por um buraco. Levou a mão à ferida.

— Vai dar tudo certo — disse. — Aprontem as pistolas, todos vocês. Vamos entrar e fazer a contagem dos corpos. Se acharem Sweno, me avisem.

— E se encontrarmos sobreviventes? — indagou Angus.

Alguém deu uma risada.

Seyton espanou uma gota de chuva do rosto.

— Vou repetir. A ordem do Macbeth foi que nenhum dos assassinos do Banquo sobrevivesse. Essa resposta basta pra você, Angus?