Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 31 de 50

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Macbeth

Capítulo 28

 

— Aonde você está indo? — sussurrou Meredith. — Não sei — respondeu Duff, esticando-se, em vão, para acariciar-lhe o rosto. — Tenho um endereço, mas não sei de quem é. — Então por que está indo pra lá? — É uma anotação, feita pouco antes do Banquo e do Fleance morrerem. Diz que é um lugar seguro, e, se eles estavam tentando escapar, talvez seja seguro pra mim também. Não sei. É tudo o que eu tenho, amor. — Nesse caso... — Onde você está? — Aqui. — Onde é aqui ? E o que você está fazendo? Meredith sorriu. — Estamos esperando você. Ainda é o dia do aniversário. — Doeu? — Um pouco. Mas foi rápido. Duff sentiu um nó na garganta. — Ewan e Emily... Eles ficaram assustados? — Shh, querido, não vamos falar sobre isso... — Mas... Ela cobriu-lhe a boca com a mão. — Shh. Eles estão dormindo. Não vamos acordá-los. A mão dela. Ele não conseguia respirar. Tentou afastá-la, mas era pesada demais. Abriu os olhos.

Na escuridão, viu um vulto acima dele, e esse vulto apertava sua boca. Tentou gritar e agarrou o pulso peludo, mas a pessoa era muito forte. Ele soube quem era quando o ouviu fungar. Era Hutchinson, que se debruçou sobre ele e sussurrou em seu ouvido:

— Nem um pio, Johnson. Ou melhor, Duff.

Já era seu disfarce. Será que havia uma recompensa pela sua cabeça, vivo ou morto? A oportunidade de vingança havia surgido para Hutchinson. Faca? Furadeira? Martelo?

— Presta atenção, Johnson. Se o cara no beliche de cima acordar, você está morto. Entendeu?

Por que o tinha acordado? Por que não o matara?

— A polícia vai estar esperando você quando atracarmos em Capitol. — Ele tirou a mão de cima da boca de Duff. — Agora você sabe, e estamos quites.

A cabine se iluminou por um instante quando a porta se abriu, mas rapidamente se fechou, e o engenheiro foi embora.

Duff abriu e fechou os olhos várias vezes, sem saber ao certo se Hutchinson também era parte do sonho. Alguém tossiu na cama de cima. Duff não sabia quem era. O comissário havia explicado que a falta de catres era porque tinham transportado “algumas caixas de munição muito valiosas” na última viagem, então tiveram de remover alguns beliches e usar duas das cabines, pois os regulamentos só permitiam que armazenassem até certa quantidade de explosivo em um determinado lugar de um navio. Apenas a tripulação com listras no uniforme tinha cabine própria. Duff se levantou e foi às pressas até o corredor. Viu as costas de uma camiseta suja da Esso descendo para a sala de máquinas.

— Espera!

Hutchinson se virou.

Duff correu até ele.

Os olhos do engenheiro luziam. Mas o brilho perverso se fora.

— Do que você está falando? — perguntou Duff. — Polícia? Quites?

Hutchinson cruzou os braços. Deu uma fungada.

— Fui ver Sparks pra... — outra fungada — ... pra pedir desculpas. O capitão estava falando no rádio. Eles estavam de costas pra mim, não me ouviram chegar.

Duff sentiu o coração dar um salto e cruzou os braços.

— Continua.

— O capitão disse que havia um Johnson a bordo que correspondia à descrição. Cicatriz no rosto, a data batia. A voz no rádio disse pro capitão não fazer nada, já que Duff era perigoso, e que a polícia estaria esperando no desembarque. O capitão respondeu que ficava aliviado em ouvir isso depois de ter visto você em ação no refeitório. — Hutchinson correu dois dedos pela testa.

— Por que você está me alertando?

O engenheiro deu de ombros.

— O capitão disse pra eu pedir desculpas pro Sparks. E, que se eu ainda tinha um emprego, era porque você tinha se recusado a me dedurar. E eu quero manter esse emprego...

— E você conseguiu?

Ele deu uma fungada.

— Provavelmente. É a única coisa em que eu sou bom, de acordo com o primeiro-engenheiro.

— Ah, ele falou isso?

Hutchinson sorriu.

— Ele veio me avisar que eu não ia rodar. Que eu sou um furúnculo no cu desse navio, mas que sou um bom engenheiro. E foi embora. Gente estranha nesse navio, não é não? — Ele riu. Parecia quase feliz. — Vou indo pra onde precisam de mim.

— Espera — pediu Duff. — De que vale dizer a um condenado que ele tem uma corda em volta do pescoço? Não tenho como escapar antes de atracarmos.

— Aí não é problema meu, Johnson. Estamos quites.

— Será mesmo? Esse navio transportou as metralhadoras que mataram minha esposa e meus filhos, Hutchinson. Não, não é problema seu, assim como não era problema meu quando o capitão me pediu que desse a ele um motivo justo pra demitir você.

Fungada.

— Pula no mar e vai embora. Não é longe. O tempo estimado de chegada é de nove horas, Johnson. — Fungada.

Duff ficou observando o engenheiro desaparecer nas entranhas do navio.

Então foi até uma vigia e olhou para o mar. O dia amanhecia.

Oito horas até o porto. As ondas estavam altas. Por quanto tempo sobreviveria naquele clima, em águas tão geladas? Vinte minutos? Trinta? Sem falar que, quando estivessem se aproximando da costa, certamente o capitão colocaria alguém para vigiá-lo. Duff apoiou a testa no vidro.

Não havia saída.

Voltou para a cabine. Olhou para o relógio: quatro e quarenta e cinco. Quinze minutos até ter de zarpar, como eles diziam. Deitou-se no beliche e fechou os olhos. Podia ver Meredith: ela lhe acenava da rocha. Acenava para que nadasse até ela.

— Estamos esperando você.

Como um sonho, pensou Macbeth. Ou como nadar debaixo da água em uma caverna. O sonambulismo devia ser mais ou menos isso. Ele segurava a lanterna em uma das mãos e Lady na outra. A luz da lanterna iluminou o outro lado da mesa da roleta e as cadeiras vazias. Sombras se moviam como fantasmas pelas paredes. A imitação de cristal acima deles brilhava.

— Por que não tem ninguém aqui? — perguntou Lady.

— Foi todo mundo pra casa — respondeu Macbeth, iluminando com a lanterna um copo de uísque pela metade sobre uma mesa de pôquer, e, instintivamente, sua mente foi para as drogas. Começava a sentir falta, mas estava se segurando. Ele era um homem forte, mais forte que nunca. — Somos só você e eu, meu amor.

— Mas nós nunca fechamos. — Ela soltou a mão dele. — Você fechou o Inverness? E você mudou tudo. Não reconheço mais nada! O que é isso?

Haviam entrado em outra sala, onde o cone de luz iluminou uma fileira de máquinas caça-níqueis. Lá estavam elas, como um bando de ladrões de um braço só, um exército de pequenos robôs adormecidos, pensou Macbeth. Caixotes mecânicos que jamais tornariam a acordar.

— Olha, caixões de crianças — disse Lady. — E são tantos, tantos... — Sua voz foi se apagando, dando lugar ao choro silencioso.

Macbeth a puxou para si, e foram se afastando dos caça-níqueis.

— Não estamos no Inverness, querida. Esse é o Obelisco. Eu queria te mostrar o que fiz por você. Olha, está fechado. Cortaram até a luz. Olha, é a nossa vitória. Esse é o belo campo de batalha do inimigo, querida.

— É feio, é horrível! E fede. Não está sentindo? Fede a cadáver. O cheiro vem do guarda-roupa!

— Querida, querida, é da cozinha. A polícia expulsou todo mundo de imediato, pra que ninguém pudesse mexer nas evidências. Olha, ainda tem carne nos pratos.

Ele iluminou as mesas: toalhas brancas, velas derretidas e restos de comida nos pratos. Enrijeceu quando a luz refletiu dois olhos amarelos e brilhantes voltados para eles. Lady deu um grito. Ele chegou a enfiar a mão na jaqueta, mas vislumbrou apenas um corpo magro e robusto antes de sumir em meio à escuridão. E descobriu que tinha nas mãos uma adaga de prata.

— Relaxa, querida. Era só um cachorro. Deve ter sentido o cheiro de comida e arranjou um jeito de entrar. Pronto, ele já foi.

— Quero sair! Me tira daqui! Quero ficar longe desse lugar!

— Ok, já vimos o suficiente. Agora vamos voltar pro Inverness.

— Eu disse que quero ficar longe desse lugar!

— Como assim? Longe onde?

— Longe!

— Mas...

Ele não completou a frase, apenas o pensamento. Eles não tinham outro lugar para ir. Nunca tiveram, mas agora ele se deu conta disso. Todos tinham família, a casa em que cresceram, parentes, uma propriedade de verão, amigos. Eles dois tinham apenas um ao outro e o Inverness. Nunca lhe passara pela cabeça que isso não seria o suficiente. Nunca até agora, quando eles haviam desafiado o mundo e Macbeth estava prestes a perdê-la. Ela tinha de voltar; tinha de acordar; ele precisava tirar Lady daquele lugar escuro onde ela estava presa — por isso a levara até ali. Mas nem o triunfo deles era capaz de trazê-la de volta à realidade. E ele precisava dela agora, precisava de seu cérebro desperto, de sua mão firme, não de uma mulher que derramava lágrimas silenciosas e que não tinha noção do que acontecia ao seu redor.

— Encontramos Duff — disse ele, conduzindo-a rapidamente pela escuridão em direção à saída. — Seyton pegou um voo pra Capitol, e o MS Glamis vai atracar às duas horas.

Havia luz lá fora, mas, no Obelisco, todas as janelas tinham cortinas, e a noite ali era uma criança, a festa não terminava nunca. Mesas de jogos pelas quais ele não se lembrava de ter passado apareceram de repente sob a luz da lanterna, bloqueando o caminho dos dois. O som de seus passos era abafado pelo carpete, e ele pensou ter ouvido o rosnado e o estalar de mandíbulas de cães atrás de si. Merda! Onde fica? Onde ficava a saída?

Lennox estava de pé na grama verde. Havia estacionado na estrada principal e colocado os óculos de sol.

Esse era um dos motivos para nunca morar em Fife. Luminosidade demais. Já sentia o sol queimando sua pele rosada, quase branca, como se ele fosse pegar fogo, como um vampiro.

Mas ele não era um vampiro. Algumas coisas só podem ser vistas bem de perto. Como a casa de fazenda pintada de branco bem à sua frente. Só mesmo chegando bem perto é que via que a brancura estava salpicada de pequenos buracos pretos.