Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 34 de 50

Páginas do PDF

Macbeth

Capítulo 31

 

Lennox estava em pé à janela. Olhava lá para fora. Avaliava o peso da granada em sua mão. Angus, Angus. Ainda não havia contado a ninguém sobre o encontro que tiveram na Estex. Por quê? Não saberia dizer. A única coisa que sabia era que não tinha feito absolutamente nada o dia inteiro. Nem no dia anterior. Nem no anterior ao anterior. Toda vez que tentava ler um documento, perdia a concentração. Era como se as letras trocassem de lugar e formassem novas palavras. Reformar virava informar e descrição virava traição . Sempre que tirava o fone do gancho para fazer uma ligação, o receptor pesava uma tonelada e ele desistia. Tentou ler o jornal e descobriu que o velho Zimmerman estava concorrendo a prefeito. Zimmerman não era um candidato que despertasse polêmica nem tinha um pingo de carisma; era respeitado por sua competência, até onde sabia, mas não era um concorrente de peso para Tourtell. Também começou a ler um artigo sobre a escalada do tráfico de drogas, que, segundo a ONU, havia se tornado o segundo maior negócio, atrás apenas do tráfico de armas, mas parou ao perceber que estava apenas olhando as palavras, não lendo-as. Oito dias haviam se passado desde que Duff escapara do cerco para sua captura em Capitol. Quando Lennox e Seyton se apresentaram no gabinete do comissário-chefe, Macbeth ficou tão furioso que literalmente espumava pela boca. Havia bolhas brancas de saliva nos cantos de seus lábios, enquanto, aos gritos, ele se queixava de ter feito papel de idiota em Capitol. E, se Lennox e Seyton tivessem trabalhado direito e pegado Duff enquanto ele ainda estava na cidade, isso nunca teria acontecido. No entanto, Lennox sentiu certo alívio, apesar da incoerência, ao saber que Duff estava vivo e livre.

Não havia muita luz lá fora, mas seus olhos ardiam. Talvez precisasse de uma dose extra hoje. Apenas para vencer aquele dia; amanhã tudo seria melhor.

— Isso é mesmo uma granada de mão ou é pra ser um cinzeiro?

Lennox se virou para a voz que vinha da porta.

Macbeth estava parado em uma pose estranha, inclinando-se para a frente com os braços largados nas laterais do corpo, como se estivesse resistindo a uma ventania. A cabeça estava inclinada para baixo, de modo que as pupilas que encaravam Lennox se encontravam no alto das pálpebras.

— Foi atirada no meu avô na Primeira Guerra Mundial.

— Mentira. — Macbeth sorriu ao entrar na sala e fechar a porta. — É um modelo alemão, Stielhandgranate 24, granada de bastão, e não foi usada antes de 1924. É um cinzeiro.

— Não acho que o meu avô...

Macbeth arrancou a granada da mão de Lennox e começou a puxar o pino.

— Não!

Macbeth ergueu uma das sobrancelhas e olhou para o assustado chefe da Unidade Anticorrupção, que continuou:

— Vai detonar...

— ... A história do seu avô? — Macbeth colocou o cordão e a granada de volta no lugar. — Não queremos isso, não é? Então me diz o que estava pensando, inspetor?

— Corrupção — respondeu Lennox, guardando a granada em uma gaveta. — E anticorrupção.

Macbeth puxou a cadeira para a frente.

— O que é a corrupção na verdade, Lennox? Será corrupto um revolucionário convicto que recebe dinheiro pra se infiltrar em nossa máquina estatal? Será corrupto um funcionário público obediente mas passivo, que não faz nada além de receber regularmente o salário um pouco alto demais em um sistema que ele sabe ser baseado em corrupção?

— Existem muitas áreas cinzentas, comissário-chefe. Como regra, a própria pessoa sabe se é corrupta ou não.

— Então, pra você, é uma questão de sentimento? — Macbeth se sentou, e Lennox fez o mesmo para ficar mais alto que ele.

— Então, se você não se sente corrupto porque a família que você mantém depende da sua renda, você não é corrupto? Se a sua motivação é boa, se faz isso pro bem da família ou da cidade, podemos simplesmente parafrasear a palavra corrupção por, vamos dizer, política pragmática.

— Acho que é o contrário — respondeu Lennox. — Acho que, quando se sabe que não há nada além de ganância, a pessoa recorre a paráfrases pra si mesmo. Já o crime moralmente justificado não requer paráfrases. Podemos chamá-lo pelo nome certo. Corrupção, roubo, assassinato.

— Então é isso que você faz? Passa o tempo aqui pensando. Perguntando a si mesmo se é corrupto ou não.

— Eu? — Lennox riu. — Estou falando das pessoas que investigamos, é claro.

— Mas, mesmo assim, sempre falamos de nós mesmos. E eu repito que situações de desespero fazem as pessoas chamarem a própria corrupção por outro nome. E o pagamento que você recebe pra tirar vantagens da sua posição não é dinheiro, e sim altruísmo. Vida. A vida da sua família, por exemplo. Você entende?

— Não sei... — falou Lennox.

— Me deixe dar um exemplo. Um repórter de rádio, conhecido por sua integridade, é contatado por um jovem policial que acha que tem informações capazes de derrubar a autoridade máxima da polícia de uma cidade. O que esse oficial traiçoeiro, vamos chamá-lo de Angus, não sabe é que esse repórter tem certa... certa relação com o comissário-chefe. O repórter teme por sua família, com razão, se não fizer o que o tal comissário-chefe deseja. Então o repórter o informa do crime de insubordinação do policial. O repórter promete voltar a se comunicar com o jovem policial, e o comissário-chefe diz ao repórter pra marcar o encontro em um local onde ninguém possa vê-los nem ouvi-los. Onde o chefe ou seus auxiliares possam... Você sabe.

Lennox não disse nada. Secou as mãos na calça.

— Assim o chefe se protege. Mas ele se pergunta, naturalmente, quem é o corrupto nesse caso: o jovem policial, o repórter de rádio ou... Ou quem, Lennox?

Lennox pigarreou e hesitou.

— O comissário-chefe?

— Não, não, não — Macbeth balançou a cabeça. — A terceira pessoa. Aquela que deveria ter informado o comissário-chefe antes. A terceira pessoa que sabia sobre os planos de Angus, que não faz parte desses planos diretamente, mas, indiretamente, sim, enquanto não for ao chefe alertá-lo. O que ele ainda não fez. Porque precisa pensar. E pensar. E, enquanto pensa, está se colocando na posição de corrupto, não está?

Lennox buscou os olhos de Macbeth. Mas era como encarar o sol.

— O encontro na Estex, Lennox. Não tenho como saber quando você pretendia me contar.

Lennox não parava de piscar.

— Eu... Eu estive pensando.

— Sei, é difícil parar. Os pensamentos continuam vindo, não é mesmo? E por mais que achemos que nossa vontade é livre, ela é governada por pensamentos, sejam os voluntários ou os involuntários. Quem foi procurar você, Lennox?

— Essa pessoa...

— Fala o nome.

— Ele é...

— Fala o nome!

Lennox respirou fundo.

— O oficial de polícia Angus.

— Continua.

— Você conhece o Angus. Jovem. Impulsivo. E, com tudo o que vem acontecendo, qualquer pessoa pode reagir de forma um pouco irracional. Foi nisso que pensei antes de vir até você com essas acusações graves, inclusive tentei incutir nele um pouco de bom senso. Dar tempo pra esfriar a cabeça.

— E, enquanto isso, você me mantém na ignorância? Por presumir que sua opinião a respeito da situação seja melhor que a minha? Que eu não deixaria que Angus, que eu mesmo contratei pro GOE, tivesse outra chance? Que eu teria sua cabeça ardorosa, porém inocente, cortada na hora?

— Eu... — Lennox procurou palavras para completar a frase.

— Mas você se enganou, Lennox. Sempre dou aos meus subordinados duas chances. E essa regra se aplica tanto a você quanto ao Angus.

— Fico feliz em saber disso.

— Acredito na magnanimidade. Então, eu teria esquecido toda essa história se o Angus tivesse mostrado sinais de arrependimento e se recusado a encontrar o repórter quando ele ligou pra marcar uma segunda entrevista. E a coisa acabava por aí. A vida teria seguido seu rumo. Infelizmente, Angus não fez isso. Ele aceitou. E eu não tenho uma terceira face pra dar.

Macbeth se levantou e foi até a janela.

— O que me leva à sua segunda chance, Lennox. Meu repórter foi informado de que você e Seyton estão indo ao seu encontro. Vai acontecer essa noite, na fábrica da Estex, e o Angus acredita que também vai estar presente um fotógrafo, pra fazer registros de um forno em que ele acredita que o corpo de uma criança foi incinerado. E, lá, você mesmo vai punir o traidor.

— Punir?

— Vou deixar que escolha o meio de punição. Minha única exigência é que o resultado seja a morte.

Macbeth se virou para Lennox, que respirava pela boca.

— Depois, Seyton vai ajudar você a descartar o corpo.

— Mas...

— Terceiras chances existem, provavelmente. No céu. Por falar nisso, como vai a sua família?

Lennox abriu a boca, deixando escapar um som.

— Ótimo — disse Macbeth. — Seyton vai buscar você às seis. Dependendo da punição que você escolher, tudo deverá estar terminado em uma hora e meia, por isso sugiro que ligue pra sua charmosa esposa e avise que chegará um pouco atrasado pro jantar. Fiquei sabendo que ela foi ao mercado providenciar os ingredientes pra um bom chouriço de sangue.

Macbeth fechou a porta silenciosamente ao sair. seguras nesses tempos tão agitados. É por isso que o Tourtell será reeleito agora.

Lennox levou as mãos à cabeça. Um molusco. Uma criatura sem um osso sequer no corpo.

Uma dose. Ele precisava de uma dose.

Macbeth ia batendo os calcanhares no piso enquanto caminhava pelo corredor. Tentava abafar a voz que gritava que ele tinha de tomar uma dose de power. Ou de brew. Ou outra coisa qualquer. Agora fazia uma semana que estava limpo. Ficaria pior antes de melhorar, mas melhoraria. Já havia feito isso antes e faria de novo. O problema era aquele suor insuportável. E como fedia! Fedia a ressentimento, medo e dor. Mas passaria. Tudo passaria. Tinha de passar. Entrou na antessala de seu escritório.

— Comissário-chefe.

— Sem recados, sem telefonemas, Priscilla.

— Mas...

— Agora não. Mais tarde.

— O senhor tem uma visita.

Macbeth estacou na hora.

— Você deixou alguém entrar... — ele apontou para a porta do gabinete — ... lá?

— Ela insistiu...

Macbeth notou a expressão de desespero de Priscilla.

— É a sua esposa.

— O quê? — foi sua resposta atônita.

Ele fechou o botão inferior do seu uniforme e entrou no gabinete.

Ela estava de pé atrás de sua mesa, observando o quadro na parede.

— Querido! Você precisa muito fazer alguma coisa a respeito disso aqui.

Macbeth olhou para Lady sem acreditar no que via. Ela usava uma roupa elegante sob um casaco de pele; estava claro que tinha vindo direto do cabeleireiro e parecia tranquila e cheia de vigor. Ele se aproximou dela com cuidado.

— Como... Você está, querida?

— Excelente. Essa pintura é nitidamente uma propaganda ideológica, mas o que está tentando dizer?

Macbeth não conseguia tirar os olhos dela. Onde estava a mulher louca que tinha visto na véspera? Sumira.

— Meu amor?

Macbeth olhou fixamente para a pintura. Viu as características grosseiras dos trabalhadores.

— Alguém colocou isso aí, mas vou substituir esse quadro. Estou tão feliz por você estar se sentindo melhor. Já... Tomou seu remédio?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Sem remédio. Parei de tomar. Parei com todos.

— Porque acabou?

Ela sorriu de leve.

— Vi a gaveta vazia. Você parou de tomar também. — Ela se sentou na cadeira dele. — Um pouco... Apertada, não?

— Talvez.

Macbeth se sentou em uma das cadeiras das visitas. Talvez a loucura de Lady tivesse sido apenas um labirinto e ela houvesse enfim encontrado a saída.

— Que bom que você concorda. Tive uma conversa rápida com o Jack hoje de manhã. Sobre o plano que vocês traçaram pras eleições.

— E o que você achou?

Ela fez beicinho e balançou a cabeça.

— Vocês fizeram o melhor que podiam, mas esqueceram uma coisa.

— O quê?

— Na sua opinião, devemos vazar as informações sobre Tourtell e aquele rapaz pouco antes das eleições. E então você, o herói que pegou Sweno, vai rapidamente preencher o vazio antes que as pessoas depositem seus votos na urna.

— Sim! — exclamou Macbeth, cheio de entusiasmo.

— O problema é que o vazio foi preenchido quando Zimmerman anunciou que estava se candidatando.

— Aquele chato? Ninguém se importa com ele.

— Zimmerman não tem grande atrativos, é verdade, mas as pessoas o conhecem e sabem o que esperar dele. Isso é, elas se sentem seguras com ele. E é importante pras pessoas se sentirem

É

— Você acha mesmo que eu perderia pro Zimmerman?

— Acho — respondeu Lady. — A menos que você conte com o apoio oficial de um Tourtell cuja imagem não tenha sido atingida pelo escândalo e que também tenha dado um jeito no Hécate. Organize essas duas coisas e será imbatível.

Macbeth sentiu um alívio exaurido. Lady escapara do labirinto. Estava ali, tinha voltado para ele.

— Tudo bem, mas como?

— Dando a Tourtell um ultimato. Ele pode sair de cena por vontade própria, alegando idade avançada e saúde fraca, e concedendo a você seu irrestrito apoio oficial, ou podemos forçá-lo a se retirar ameaçando desmascará-lo como o porco pervertido que ele realmente é, e então ele será preso e jogado na cadeia, onde ele sabe o que acontece com os pederastas. Não deve ser a decisão mais difícil de tomar.

— Hum. — Macbeth coçou a barba. — Teremos um inimigo.

— Tourtell? Pelo contrário. Ele entende os embates políticos pelo poder e vai ficar agradecido pela alternativa misericordiosa que demos a ele.

— Vou pensar nisso.

— Não precisa, querido. Não há nada pra pensar. Agora, quanto ao titereiro. Hécate. É hora de se livrar dele.

— Não tenho tanta certeza de que isso seria prudente, querida. Lembre-se de que ele é nosso patrocinador e vai nos apoiar se tivermos que enfrentar adversários.

— Hécate ainda não veio cobrar sua parte por ter feito de você o comissário-chefe, mas logo o dia da prestação de contas vai chegar. E nesse dia você vai fazer isso. — Ela ergueu um cotovelo como se estivesse sendo suspenso por uma corda. — E isso. — Deu um chute. — Você quer ser marionete de Hécate, meu amor? Reduzir os ataques contra ele não será suficiente; ele vai querer mais e mais, e ao final vai querer tudo. Pessoas como ele são assim. Então a pergunta é: quer deixar Hécate controlar a cidade através de você? Ou — ela colocou os cotovelos na mesa — quer tomar pra si as marionetes? Ser o herói que pegou Hécate e se elegeu prefeito?

Macbeth olhou fundo nos olhos dela. Então assentiu devagar.

— Vou convidar Tourtell pra uma partida reservada de blackjack — disse Lady, levantando-se. — E você vai mandar uma mensagem pro Hécate dizendo que gostaria de se encontrar com ele cara a cara.

— E por que você acha que ele ia concordar?

— Porque você vai entregar a ele uma maleta de ouro em agradecimento por ele ter colocado nós dois no topo.

— E você acha que ele vai morder a isca?

— Algumas pessoas ficam cegas pelo poder, outras pelo dinheiro. Hécate pertence a esse último grupo. Você vai saber os detalhes mais tarde.

Macbeth a acompanhou até a porta.

— Querida — disse ele, apoiando a mão nas costas dela e acariciando o casaco de pele espessa —, é bom ter você de volta.

— Sinto o mesmo — disse ela, oferecendo o rosto para um beijo. — Seja forte. Vamos tornar um ao outro forte.

Ele a observou cruzar a antessala com seu andar deslizante e ficou matutando se algum dia conseguiria entendê-la completamente. Mas será que ele queria isso mesmo? Não era exatamente o mistério que a tornava tão irresistível?

Lennox e Seyton haviam estacionado do outro lado da rua, em frente à entrada da Estex. Estava tão escuro que Lennox não conseguia ver a chuva fina que caía, mas ouvia o sussurro que ela produzia no teto do carro e no para-brisa.

— Lá está o jornalista — disse Seyton.

O farol de uma moto oscilava de um lado para o outro na estrada. Então cruzou o portão e sumiu de vista lá dentro.

— Vamos dar a ele dois minutos — falou Seyton, checando a metralhadora.

Lennox bocejou. Por sorte, tinha conseguido uma dose.

— Agora — falou Seyton.

Eles saíram do carro. Correram na escuridão, passaram pelo portão e entraram no prédio da fábrica.

Vozes vinham do alto, onde ficava a sala do encarregado.

Seyton farejou o ar. Foi na direção da escada de aço.

Subiram pé ante pé, e Lennox sentiu a maravilhosa ausência de pensamento e o aço do corrimão, que estava tão gelado que queimava a palma das mãos. Os dois pararam diante da porta. O efeito da droga lhe dava a sensação de estar no quarto aquecido, vendo a si próprio. O zunido das vozes lá dentro fez com que Lennox se lembrasse dos pais conversando na sala quando ele, ainda pequeno, já tinha ido para a cama.

— Quando vai ser publicado? — Era a voz de Angus.

A resposta veio numa fala arrastada em tom arrogante com longos Rs embolados:

— Sem levar em conta que no rádio não publicamos nada, espero que...

Quando Seyton abriu a porta, foi como se alguém tivesse pressionado o botão stop do toca-fitas. Os olhos de Walt Kite atrás dos óculos se esbugalharam. Medo? Inquietação? Alívio? Definitivamente, não era surpresa. Lennox e Seyton tinham sido pontuais.

— Boa noite — disse Lennox, sentindo um sorriso caloroso se abrir no rosto.

Angus se levantou jogando a cadeira no chão ao enfiar a mão no casaco. Mas congelou ao ver a metralhadora de Seyton.

No silêncio que se seguiu, Kite abotoou a capa de chuva amarela. Foi como estar no banheiro masculino: nenhuma troca de olhares, nenhuma palavra dita; ele simplesmente saiu rápido dali, de cabeça baixa. Tinha cumprido seu papel. Aos outros cabia o trabalho sujo.

— O que está esperando, Lennox? — indagou Angus.

Lennox tomou ciência do próprio braço estendido e da arma que segurava.

— O repórter se afastar, pra não ouvir o tiro — respondeu ele.

O pomo de adão de Angus subia e descia.

— Então você vai atirar em mim?

— A menos que você tenha outra sugestão. Tenho total liberdade pra escolher como isso deve acontecer.

— Ok.

— Ok de eu entendo ou ok de sim, quero levar um tiro?

— De...

Lennox atirou. Naquele espaço fechado, sentiu a pressão da explosão nos tímpanos. Abriu os olhos. Angus permanecia em pé à sua frente, só que de queixo caído. E havia um buraco na pasta de arquivo sobre a prateleira atrás dele.

— Desculpe — disse Lennox, dando dois passos à frente. — Achei que um tiro repentino na cabeça seria a solução mais humana nesse caso. Mas a cabeça humana é muito pequena. Fique parado, por favor...

Uma risadinha nervosa lhe escapou.

— Inspetor Lennox, sem...

O segundo tiro acertou o alvo. E o terceiro.

— Não entenda como uma crítica — disse Seyton, observando o corpo sem vida —, mas teria sido mais prático se você o tivesse mandado entrar em um dos fornos lá embaixo. Agora vamos ter que carregá-lo até lá.

Lennox não respondeu. Estava fascinado pela crescente poça formada pelo sangue que brotava do corpo do jovem e vinha em sua direção. Havia algo estranhamente belo nas formas e na gradação das cores, no vermelho intenso, na maneira como se estendia em todas as direções, como balões vermelhos. Carregaram Angus escada abaixo, depois foram buscar as cápsulas vazias, lavar o piso e arrancar a primeira bala que ficara na parede. Então desceram de novo, tiraram o relógio e a correntinha com uma cruz de ouro antes de manobrarem o corpo para dentro de um forno, fecharam a porta e acenderam o fogo. Esperaram. Lennox olhou para a calha que ia do fundo da fornalha para um tanque no piso.

Um silvo baixo e prolongado escapou da fornalha.

— O que acontece com...?

— Evapora — disse Seyton. — Tudo evapora ou se transforma em cinzas quando a temperatura chega a mais de dois mil graus. Exceto metal, que simplesmente derrete.

Lennox assentiu. Não conseguia tirar os olhos da calha. Uma gota cinzenta e vacilante apareceu coberta por uma membrana, como um revestimento.

— Chumbo — comentou Seyton. — Derrete a 350 graus.

Esperaram. Afinal, o silvo parou.

Então veio uma gota dourada.

— Chegamos a mil agora — disse Seyton.

— O que... O que é isso?

— Ouro.

— Mas nós tiramos...

— Dentes. Vamos esperar até que alcance mais de 1.600 graus, pro caso de ter aço no corpo. Depois disso, é só aspirar as cinzas. Ei, você está bem?

Lennox assentiu.

— Um pouco tonto. Eu nunca... nunca tinha atirado em ninguém. Você já, então tenho certeza de que lembra como foi a primeira vez.

— Sim — confirmou Seyton em voz baixa.

Lennox ia perguntar como ele se sentira, mas o cintilar nos olhos de Seyton fez com que mudasse de ideia.