Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 7 de 50

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Macbeth

Capítulo 4

 

 

Levou vinte minutos. Em um intervalo de vinte minutos Duff entrou no hospital, enfiou os dedos na ferida do homem com a tatuagem na testa e saiu, maravilhado, com uma boa quantidade de informações sobre quem, onde e quando — o suficiente para ser impossível que a pessoa em questão as negasse, a menos que fosse inocente. Maravilhado porque — agora que as coisas haviam ficado tão feias a ponto de terem um espião no meio deles — era bom demais para ser verdade. Levou trinta minutos. Em um intervalo de trinta minutos Duff entrou no carro, dirigiu debaixo da chuva que caía devagar sobre a cidade como mijo de velho, estacionou em frente à delegacia central, recebeu um amável aceno de cabeça da senhora na antessala do comissário-chefe indicando que podia entrar, sentou-se diante de Duncan e articulou uma única palavra. Cawdor. E o comissário-chefe se inclinou sobre a mesa, perguntou a Duff se ele tinha certeza — afinal de contas, estavam falando do chefe da Unidade de Facções —, recostou-se na cadeira e esfregou o rosto com as mãos, então Duff ouviu o primeiro palavrão da boca de Duncan. Levou quarenta minutos. Em um intervalo de quarenta minutos Duncan anunciou que Cawdor estava de folga naquele dia, tirou o fone do gancho e ordenou a Macbeth que o prendesse, e então oito homens do GOE cercaram a casa de Cawdor, que ficava em um vasto terreno com vista para o mar tão a oeste da cidade que o lixo ainda era coletado e os mendigos, removidos das ruas, e o prefeito Tourtell era seu vizinho mais próximo. A equipe do GOE estacionou a certa distância e se aproximou da casa às escondidas, dois homens em cada direção.

Macbeth e Banquo sentaram-se na calçada, as costas apoiadas no muro alto do portão. Como a maioria de seus vizinhos, Cawdor havia cimentado cacos de vidro no alto do muro, mas o GOE tinha material próprio para superar obstáculos desse tipo. A operação seguia o procedimento usual, as equipes se comunicando via rádio ao chegarem a suas posições predeterminadas. Macbeth olhou para o outro lado da rua, onde um menino de 6 ou 7 anos jogava uma bola na parede de uma garagem quando eles chegaram. Agora, o garoto tinha parado e olhava para eles boquiaberto. Macbeth levou o dedo aos lábios, e o menino assentiu como um sonâmbulo. Viu aquela mesma expressão no rosto do jovem de branco ajoelhado na estrada, na noite anterior, lembrou Macbeth.

— Acorda.

Era Banquo sussurrando no ouvido dele.

— O quê?

— Todas as equipes estão em posição.

Macbeth respirou fundo algumas vezes. Naquele momento, precisava afastar da cabeça suas outras preocupações, precisava se concentrar. Apertou o botão no rádio e falou:

— Cinquenta segundos pra entrar. Norte? Desligo.

A voz de Angus tinha aquele untuoso tom de canto dos padres:

— Tudo ok. Não vejo nenhum movimento lá dentro. Desligo.

— Oeste? Desligo.

— Tudo ok. — Era a voz do substituto, Seyton. Monótona, tranquila. — Espera. A cortina da sala foi aberta. Desligo.

— Ok. — Macbeth nem precisou pensar; aquilo fazia parte dos procedimentos “e se” que eles repetiam todos os dias. — Acho que fomos vistos, rapazes. Vamos adiantar a contagem regressiva e entrar. Três, dois um... Agora!

E lá estava ela, a zona de foco. Era como um aposento onde você fechava a porta atrás de si e então não existia nada além da missão, de você e de seus homens.

Os dois se levantaram, e, enquanto Banquo jogava o acolchoado sobre os cacos de vidro no alto do muro, Macbeth viu o menino com a bola acenar lenta e roboticamente com a mão livre.

Em questão de segundos, estavam do outro lado do muro, correndo pelo jardim, e Macbeth tinha a sensação de absorver cada detalhe ao redor. Ouviu um galho rangendo ao vento, viu um corvo alçar voo do telhado da casa vizinha, sentiu o cheiro de uma maçã apodrecendo na grama. Subiram os degraus aos saltos. Banquo usou a placa da coronha da arma para quebrar a janela ao lado da entrada, meteu a mão pelo buraco e destrancou a porta por dentro. Ao entrarem, ouviram vidro sendo quebrado em outro canto da casa. Oito contra um. Quando Macbeth perguntara a Duncan se tinham algum motivo para esperar resistência de Cawdor, o comissário-chefe respondera que não era por isso que queria uma captura em grande escala.

— É pra servir de aviso, Macbeth. Que não tratamos os nossos com mais leniência. Muito pelo contrário. Quebre vidros, chute portas, faça a maior barulheira e leve Cawdor pra fora algemado pela porta da frente, de modo que todos vejam e espalhem a notícia.

Macbeth foi o primeiro a entrar. Um rifle de assalto firme no ombro enquanto olhava em volta, fazendo a varredura do hall. Manteve-se com as costas para a parede lateral da sala. Gradativamente, seus olhos foram se adaptando à escuridão, depois da forte luminosidade do lado de fora. Parecia que todas as cortinas da casa estavam fechadas. Banquo apareceu ao seu lado e avançou pela sala.

Quando Macbeth se afastou da parede para segui-lo, aconteceu.

O agressor surgiu veloz e silencioso, vindo da escuridão que recobria uma das duas escadarias, e atingiu Macbeth no peito, fazendo-o cair para trás.

Macbeth sentiu um bafo quente na garganta, mas conseguiu segurar o cano da arma entre ele e o cachorro e bater na lateral do focinho do bicho, de modo que os grandes caninos afundaram em seu ombro, não no pescoço. Gritou de dor quando uma bocarra arreganhou os dentes e rasgou sua pele e sua carne. Tentou reagir, mas a mão livre tinha ficado enganchada na alça do rifle.

— Banquo!

Supostamente, Cawdor não tinha um cachorro. Sempre verificavam isso antes de operações do gênero. Mas aquilo era um cachorro, sem a menor sombra de dúvida, e dos fortes. O cão empurrou o cano da arma. Estava mirando a garganta. Logo furaria sua carótida.

— Banq...

O cão se enrijeceu. Macbeth virou a cabeça e encarou olhos caninos vítreos. Então o corpo do animal ficou mole e despencou sobre ele. Macbeth o empurrou de cima de si e ergueu os olhos.

Seyton estava de pé à sua frente, a mão estendida.

— Obrigado — agradeceu-lhe Macbeth, erguendo-se sem ajuda. — Cadê o Banquo?

— Ele e Cawdor estão ali dentro — respondeu Seyton, apontando para a sala.

Macbeth foi até o vão da porta. Eles haviam aberto as cortinas, e, na claridade vinda por trás, viu apenas as costas de Banquo, a cabeça erguida para o teto. Acima dele pairava um anjo com uma auréola luminosa, a cabeça curvada como se implorasse perdão.

Levou uma hora.

Uma hora a partir do instante em que Macbeth disse “Agora!” até o momento em que Duncan reuniu todos os chefes de departamento e de unidades na vasta sala de conferências da central de polícia.

Duncan se postou atrás da tribuna e remexeu em alguns papéis; Duff sabia que ele havia escrito algumas palavras para dizer de um determinado jeito, mas que deixaria margem para o improviso, dependendo do desenrolar do momento e da situação. Não porque o comissário-chefe fosse imprevisível, longe disso. Duff sabia que ele tinha controle das palavras, era tanto guiado pelo coração como pela razão, alguém que falava exatamente o que sentia e vice-versa. Alguém que compreendia a si próprio e, via de regra, aos outros, na opinião de Duff. Um líder. Alguém que as pessoas seguiriam. Alguém que Duff gostaria de ser, ou de poder vir a ser.

— Todos aqui presentes sabem o que aconteceu — começou Duncan, em voz baixa e solene, porém verbalizadas como se as tivesse gritado. — Eu só queria informá-los acerca de tudo antes da coletiva de imprensa que farei hoje à tarde. Um dos nossos policiais mais confiáveis, o inspetor Cawdor, foi seriamente acusado de corrupção. E, no presente momento, tudo indica que a suspeita seja justificada. À luz de sua estreita ligação com os Norse Riders, contra quem empreendemos uma operação bem-sucedida ontem, havia nitidamente o risco de ele tentar destruir provas ou fugir, dadas as circunstâncias. Por esse motivo, às dez da manhã de hoje dei ordem ao GOE para prender o inspetor Cawdor de imediato.

Duff tinha esperança de que seu nome fosse mencionado, mas sabia que Duncan não divulgaria nenhum detalhe. Se tem uma coisa que você aprende na polícia é que regras são regras, mesmo as não escritas. Por isso, ficou surpreso quando Duncan olhou em volta e falou:

— Inspetor Macbeth, poderia fazer a gentileza de vir até aqui e apresentar um breve relato da detenção?

Duff se virou e viu seu colega avançar por entre filas de cadeiras até a tribuna. Ficou óbvio que ele também havia sido pego de surpresa. O comissário-chefe não costumava delegar em tais contextos; geralmente dizia suas palavras de forma curta e direta e dava por encerrada a reunião, para que todos pudessem voltar ao trabalho de fazer da cidade um lugar melhor para se viver.

Macbeth parecia pouco à vontade. Ainda usava o uniforme preto do GOE, mas o zíper no pescoço estava aberto, expondo um curativo muito branco no ombro direito.

— Bem... — começou ele.

Não exatamente uma abertura eloquente, mas ninguém esperava que o chefe do GOE fosse um orador tarimbado. Macbeth olhou no relógio como se tivesse um compromisso. Todos na sala sabiam por quê: era a reação instintiva dos policiais quando convocados a apresentar um relato de operação, pois se sentiam inseguros. Olhavam para o relógio como se as obrigatórias menções ao horário dos eventos transcorridos estivessem escritos ali, ou como se o mostrador do relógio fosse refrescar sua memória.

— Às dez e cinquenta e três — continuou Macbeth, e tossiu duas vezes —, o GOE fez uma incursão à casa do inspetor Cawdor. Uma das portas da varanda estava aberta, mas não havia sinal de invasão nem de abuso de força, nem qualquer evidência de que alguém tivesse chegado ao local antes de nós. À exceção de um cachorro. Nem sinais de que outra pessoa além do próprio Cawdor estivesse presente... — Macbeth parou de olhar para o relógio e dirigiu-se aos ouvintes. — Havia uma cadeira caída perto da porta da varanda. Não vou me adiantar às conclusões da perícia, mas a impressão era de que Cawdor não tinha apenas afastado a cadeira ao se enforcar, mas dado um salto, e que seu corpo, ao balançar, lançou a cadeira para o outro lado da sala. Isso coincide com o fato de que as fezes do falecido estavam espalhadas pelo piso. O corpo estava frio. Suicídio parece a mais óbvia causa da morte, e um dos rapazes perguntou se poderíamos ignorar os procedimentos e cortar logo a corda para tirar o corpo dali, considerando que Cawdor foi policial durante a vida toda. Eu neguei...

Duff notou a pausa dramática de Macbeth ao interromper a fala, como se para permitir que a plateia escutasse seu silêncio. Era um estratagema do qual o próprio Duff lançaria mão, um método que ele, com toda certeza, tinha visto Duncan usar, mas que jamais teria imaginado que o pragmático Macbeth adotasse em suas técnicas de comunicação. Ou talvez não tivesse feito exatamente isso, posto que voltou a olhar no relógio.

— Dez e cinquenta e nove.

Macbeth ergueu o olhar e puxou a manga, cobrindo o relógio, indicando que havia terminado.

— De modo que Cawdor ainda está pendurado lá. Não por conta de qualquer propósito investigativo, mas porque era um policial corrupto.

O silêncio era tamanho que Duff ouvia a chuva batendo com força na janela do alto. Macbeth se virou para Duncan e assentiu rapidamente. Em seguida, desceu da tribuna e voltou para sua cadeira.

Duncan esperou até que Macbeth se sentasse para dizer:

— Obrigado, Macbeth. Isso não fará parte da coletiva de imprensa, mas acho que é uma conclusão apropriada para essa reunião interna. E lembrem-se de que a condenação do que é mau e fraco no homem pode também ser vista como um tributo otimista ao que é bom e forte. Agora, de volta ao nosso bom e velho trabalho.

A jovem enfermeira parou no vão da porta e ficou observando o paciente tirar a camisa. Ele havia puxado os longos cabelos pretos para trás enquanto a médica desenrolava a atadura de gaze manchada de sangue de seu ombro esquerdo. Tudo que ela sabia sobre o paciente era que se tratava de um policial. E que era musculoso.

— Minha nossa — disse a médica. — Isso aí vai precisar de pontos. E você vai ter que tomar uma vacina antitetânica, que é o procedimento usual pra mordidas de cachorro. Mas, antes, um pouco de anestesia. Maria, você pode...?

— Não — disse o paciente, encarando fixamente a parede.

— O quê?

— Sem anestesia.

Seguiu-se um silêncio.

— Sem anestesia?

— Sem anestesia.

A médica estava prestes a dizer algo sobre a dor quando viu as cicatrizes nos antebraços do paciente. Velhas cicatrizes. Do tipo que ela já vira com bastante frequência desde que viera morar naquela cidade.

— Tudo bem. Sem anestesia.

Duff se recostou na cadeira de sua sala na delegacia e levou o fone à orelha.

— Oi, amor. Sou eu. O que vocês estão fazendo?

— A Emily foi nadar com os amigos. O Ewan está com dor de dente. Vou levá-lo ao dentista.

— Então tá. Vou trabalhar até tarde hoje, amor.

— Por quê?

— Talvez eu tenha que passar a noite aqui.

— Por quê? — repetiu ela.

Seu tom de voz não transparecia aborrecimento nem frustração. Parecia ser apenas uma informação que ela gostaria de ter, talvez para explicar sua ausência às crianças. Não porque precisasse dele. Não porque...

— Logo vai estar nos noticiários — respondeu ele. — Cawdor se matou.

— Que pena. Quem é Cawdor?

— Você não sabe?

— Não.

— O chefe da Unidade de Facções. Ele era um forte candidato pro cargo na Crime Organizado.

Silêncio.

Ela nunca havia demonstrado grande interesse pelo trabalho dele. Sua vida se resumia a Fife, aos filhos e — pelo menos quando ele estava em casa — ao marido. O que para ele estava ótimo. Assim não precisava envolvê-los nas vilanias de sua função. Por outro lado, a falta de interesse dela em suas ambições fazia com que nem sempre mostrasse muita compreensão pelo que seu trabalho demandava do tempo que ele tinha. Pelos sacrifícios que fazia. Pelo... Pelas necessidades dele, mas que droga.

— O chefe da Unidade de Crime Organizado, que será o número três na hierarquia da central, depois do Duncan e do vice-comissário, Malcolm. Então, sim, é muito importante, o que significa que é onde preciso estar. Provavelmente também pelos próximos dias.

— Apenas me diga se estará aqui pro pré-aniversário.

O pré-aniversário. Ah, merda! Era uma tradição deles. Na véspera do aniversário de cada filho, eram apenas os quatro, nossa tradicional betasuppe e os presentes da mamãe e do papai. Ele tinha mesmo esquecido o aniversário de Ewan? Talvez a data lhe tivesse escapado da memória com a sucessão dos eventos dos últimos dias, mas Duff havia saído para comprar o que Ewan dissera que queria depois que ele havia cochichado no ouvido do filho contando como os agentes secretos trabalhavam na Unidade de Narcóticos, vez ou outra usando disfarces para não serem reconhecidos. Na gaveta diante de Duff havia uma caixa de presente lindamente embrulhada contendo uma barba falsa e cola, óculos falsos e chapéu de lã verde, todos em tamanho adulto, para garantir a Ewan que era exatamente o que o papai e os outros da Unidade usavam.

Uma luz piscou no telefone. Chamada interna. Ele desconfiava de quem poderia ser.

— Só um segundo, amor. — Apertou o botão amarelo abaixo da luz. — Pronto?

— Duff? É o Duncan. É sobre a coletiva de hoje.

— Diga.

— Gostaria de provar que não ficamos inertes depois do que aconteceu e que estamos voltados pro futuro. Por isso vou anunciar o nome do chefe interino da Unidade de Crime Organizado.

— Crime Organizado? Hã... já?

— Eu teria anunciado no final do mês de qualquer maneira, mas como a Facções não tem mais chefe, o mais conveniente é nomear um interino imediatamente. Você pode vir à minha sala?

— Claro.

Duncan desligou. Duff permaneceu sentado, o olhar fixo na luz que se apagava. Não era comum o comissário-chefe em pessoa ligar; era sempre a secretária dele ou um dos assistentes que convocavam as reuniões. Chefe interino. Que provavelmente assumiria o cargo de vez quando a burocracia — fase de seleção, deliberações do conselho de nomeação e assim por diante — chegasse ao fim. Sua visão captou outra luz. Esquecera totalmente que a esposa estava na outra linha.

— Amor, aconteceu uma coisa. Tenho que correr.

— Hum. Nada terrível, espero.

— Não — disse Duff, com uma risada. — Nada terrível. Não mesmo. Acho que você devia ver o noticiário essa tarde pra saber sobre a nova nomeação pra Unidade de Crime Organizado.

— Hum.

— Beijo no pescoço. — Fazia anos que não usavam essa expressão de afeto.

Duff desligou e saiu da sala correndo — não conseguiu se conter —, depois subiu com pressa as escadas até o último andar. Subindo, subindo, subindo, mais alto e mais alto.

A secretária o mandou entrar direto.

— Estão aguardando você.

Ela sorriu. Sorriu? Ela nunca sorria.

Ao redor da mesa de carvalho redonda no espaçoso e arejado gabinete sobriamente decorado do comissário-chefe estavam sentadas quatro pessoas além de Duncan. O vice-comissário, Malcolm, um homem precocemente grisalho e de óculos. Ele havia estudado filosofia e economia em Capitol, o que ficava nítido em sua forma de falar, e era visto por muitos como um estranho no ninho. Um velho amigo de Duncan, que afirmava tê-lo trazido para perto por precisar de sua ampla gama de habilidades gerenciais. Havia quem dissesse que era porque Duncan precisava do “suporte” não qualificado de Malcolm nas reuniões administrativas. Ao lado de Malcolm, o albino Lennox se inclinava para a frente, ansioso como sempre. Seu departamento, a Unidade Anticorrupção, tinha sido instituído durante a reestruturação realizada por Duncan. Houve uma breve discussão sobre o cabimento do prefixo anti no nome, alguns argumentavam que não se dizia Unidade Antinarcóticos nem Unidade Anti-Homicídios. Se bem que, sob a chefia de Kenneth, a Narcóticos era conhecida extraoficialmente como unidade da corrupção. Do outro lado de Duncan sentava-se uma assistente responsável pelas atas da reunião, e, ao lado dela, a inspetora Caithness.

Como Duncan não permitia que ninguém fumasse em seu gabinete, não havia na mesa um cinzeiro com guimbas de cigarro, o que teria dado a Duff uma ideia de quanto tempo estavam reunidos ali, mas ele registrou mentalmente as marcas de café em alguns dos blocos de anotação sobre a mesa e algumas xícaras praticamente vazias. E a atmosfera descontraída, receptiva, quase amistosa sugeria que haviam chegado a uma decisão.

— Obrigado por vir tão rápido, Duff — agradeceu-lhe Duncan, indicando com a mão aberta a única cadeira desocupada. — Vou direto ao ponto. Estamos avançando na ideia da fusão da sua Unidade de Narcóticos com a de Facções como a nova Unidade de Crime Organizado. Essa é nossa primeira crise desde que assumi a cadeira de... — Duff olhou na direção apontada por Duncan, para a mesa. A cadeira do comissário-chefe tinha o espaldar alto e era bem larga, mas não parecia exatamente confortável. Um pouco reta demais. Sem estofado macio. Uma poltrona ao gosto de Duff. — Então sinto que é importante mostrarmos algum vigor.

— Parece razoável — disse Duff, mas se arrependeu no mesmo instante. O comentário podia dar a impressão de que havia sido chamado para avaliar as conclusões da alta administração. — Ou melhor, tenho certeza de que você está certo.

Houve um instante de silêncio à mesa. Será que ele havia exagerado e ido para o outro extremo, dando a entender que não tinha opinião própria?

— Precisamos ter cem por cento de convicção de que a pessoa não é corrupta — prosseguiu Duncan.

— É claro — concordou Duff.

— Não só porque não podemos nos dar ao luxo de um escândalo semelhante a esse envolvendo Cawdor, mas porque precisamos de alguém que possa nos ajudar a pegar um peixe mais graúdo. E não estou falando do Sweno, e sim do Hécate.

Hécate. O silêncio na sala depois de o nome ser proferido foi retumbante.

Duff se endireitou na cadeira. Era sem dúvida uma grande missão. Mas, claramente, era o que o cargo exigia: assassinar o dragão. E era magnífico. Pois começava agora. A vida como um homem diferente e melhor.

— Você liderou esse ataque bem-sucedido contra os Norse Riders — disse Duncan.

— Não fiz isso sozinho, senhor.

Havia uma recompensa por demonstrar certa humildade, sobretudo em situações em que não fosse necessário; era precisamente nesses momentos que era possível dar-se ao luxo de ser humilde.

— Verdade — concordou Duncan. — Macbeth ajudou você. Bastante, pelo que soube. Me diga, qual a sua opinião sobre ele?

— Opinião, senhor?

— Sim, vocês foram do mesmo ano na academia. É nítido o bom trabalho que ele tem feito no GOE, e todos lá estão entusiasmados com a capacidade de liderança que ele tem demonstrado. Mas, é evidente, o Grupo de Operações Especiais é uma unidade altamente especializada. Você o conhece, e é por isso que gostaríamos de saber se acredita que Macbeth pode ser o homem certo pro posto.

Duff teve de engolir em seco umas duas vezes antes de conseguir fazer suas cordas vocais produzirem um som.

— Se Macbeth pode ser a pessoa certa pra chefiar a Unidade de Crime Organizado, é isso?

— Sim.

Duff precisou de alguns segundos. Cobriu a boca com a mão, ergueu as sobrancelhas e franziu a testa na esperança de que parecesse imerso em profunda reflexão, e não em profunda frustração.

— E então, Duff?

— Uma coisa é liderar um grupo de homens numa incursão numa casa, atirar em criminosos e salvar reféns — falou Duff. — E Macbeth é bom nisso, não há a menor dúvida. Liderar uma unidade de crime organizado exige qualificações ligeiramente diferentes.

— Nisso estamos de acordo — comentou Duncan. — Exige qualificações ligeiramente diferentes, mas não completamente diferentes. Liderar é liderar. E quanto ao caráter do Macbeth? Ele é confiável?

Duff apertou o lábio superior com o polegar e o indicador. Macbeth. Maldito Macbeth! O que ele deveria dizer? Aquela promoção pertencia a ele, Duff, não a um sujeito que poderia igualmente ter terminado como malabarista ou atirador de faca num circo itinerante! Seu olhar se fixou no quadro na parede atrás da mesa. Ação, lealdade, liderança e solidariedade. Em sua mente, ele os via na estrada vicinal: Macbeth, ele próprio, os dois mortos. A chuva lavando o sangue.

— Sim — respondeu Duff. — Macbeth é digno de confiança. Mas ele é um executor. Imagino que isso tenha ficado patente hoje, no pronunciamento que ele fez.

— Concordo — disse Duncan. — Foi justamente por isso que eu o chamei à tribuna, pra ver como ele se sairia. E nós aqui reunidos concordamos por unanimidade que hoje ele mostrou ser não apenas um excelente exemplo prático de obediência às rotinas de informe de operação, como também demonstrou possuir as habilidades de um verdadeiro líder, capaz de motivar e inspirar. Cawdor ainda está pendurado lá porque era um policial corrupto.

Risadinhas abafadas foram ouvidas quando Duncan imitou o modo não refinado de falar de Macbeth, típico da classe operária.

— Se ele realmente tem essas qualidades — disse Duff, escutando uma vozinha interna sussurrando-lhe que não deveria falar nada daquilo —, é o caso de indagar a si mesmo por que ele não galgou postos mais altos desde que saiu da academia.

— É verdade — concordou Lennox. — Mas esse é um dos argumentos mais fortes a favor do Macbeth. — Ele riu: uma risada inoportuna e estridente. — Nenhum de nós aqui a essa mesa ocupava cargos altos na época do último comissário-chefe. Nem nós nem Macbeth participamos das jogadas, muito menos aceitamos subornos. Tenho fontes que podem garantir com absoluta certeza que foi isso que estagnou a carreira do Macbeth.

— Então você já respondeu à pergunta — declarou Duff, categórico. — E, claro, vocês consideraram o relacionamento dele com a proprietária do cassino.

Malcolm lançou um olhar pra Duncan. Ao receber um gesto de ok como resposta, disse:

— A Unidade de Fraudes está fazendo uma devassa nos negócios que tiveram autorização pra prosperar durante a administração anterior e, em função disso, acabaram de realizar uma investigação minuciosa no Inverness. A conclusão deles é inequívoca: o cassino é administrado de forma exemplar no que diz respeito à contabilidade, ao recolhimento de impostos e às leis trabalhistas. O que não é pouca coisa nessas espeluncas de jogatina. Agora, eles estão averiguando com mais atenção as cartas do Obelisco. E, pra ser franco, aquilo ali é uma zona. Como eles dizem, aquilo ainda vai render muito pano pra manga. Em resumo: não temos objeções a Lady nem a seu estabelecimento.

— Macbeth é do ponto mais afastado da zona leste da cidade, e um azarão — disse Duncan —, enquanto todos nós aqui à mesa somos considerados da elite. Somos conhecidos por ter feito oposição a Kenneth, representamos uma mudança de cultura da força policial, mas também estudamos em instituições privadas e viemos de lares abastados. Acho que é um gesto que passa uma boa mensagem: na polícia, na nossa força policial, todos podem ascender na carreira, não importa seu passado, suas conexões, desde que levem o trabalho a sério e sejam honestos, com ênfase em honestos.

— Bem pensado, senhor — reforçou Lennox.

— Perfeito — disse Duncan, juntando as palmas das mãos. — Duff, gostaria de acrescentar algo?

Não viram as cicatrizes nos braços dele?

— Duff?

Não viram as cicatrizes nos braços dele?

— Algo errado, Duff?

— Não, senhor. Não tenho nada a acrescentar. Tenho certeza de que Macbeth é uma boa escolha.

— Ótimo. Então quero agradecer a todos por terem comparecido a essa reunião.

Macbeth encarava as luzes vermelhas do sinal de trânsito enquanto os limpadores do para-brisa iam e voltavam no Volvo PV544 de Banquo. O carro era tão pequeno quanto Banquo, e um bocado mais antigo que os outros ao redor deles, mas totalmente funcional e confiável. Tinha alguma coisa no design, sobretudo no caimento para trás do capô e na frente protuberante, que dava ao carro uma aparência retrô pré-guerra, mas no interior e sob o capô havia, de acordo com o dono, tudo que um homem esperava de um carro moderno. Os limpadores se esmeravam para afastar a chuva, e as gotas que corriam nas laterais lembravam a Macbeth vidro derretido. Um menino com um casaco impermeável atravessou a rua correndo na frente deles, e Macbeth viu o homenzinho verde do sinal para pedestres ficar vermelho. Um corpo humano coberto com sangue da cabeça aos pés. Estremeceu.

— O que foi? — perguntou Banquo.

— Acho que estou febril — respondeu Macbeth. — Continuo tendo visões.

— Visões e sinais — disse Banquo. — Então é gripe. Não me admira nada. Ensopado de chuva ontem e mordido por um cachorro hoje.

— Por falar nisso, conseguimos descobrir de onde o cachorro veio?

— Só sabemos que não era do Cawdor. Deve ter entrado pela porta da varanda que ficou aberta. Ainda não sei como ele morreu.

— Não te contei? Seyton matou o bicho.

— Disso eu sei, mas não vi nenhuma ferida. Ele estrangulou o cachorro?

— Não sei. Pergunta pra ele.

— Já perguntei, mas ele não me deu uma resposta direta, só...

— Tá verde, pai.

O jovem no banco de trás se inclinou para a frente entre os dois homens. Macbeth deu uma olhadela no rapaz magrela de 19 anos. Fleance tinha herdado mais o recato da mãe do que a jovialidade e o bom humor do pai.

— Quem está dirigindo, você ou o seu pai, meu filho? — perguntou Banquo, com um sorriso amigável, e acelerou.

Macbeth olhou para as pessoas na calçada, as donas de casa fazendo compras, os desempregados em frente aos bares. Nos últimos dez anos, a cidade havia se tornado mais e mais movimentada de manhã. Isso deveria ter gerado uma atmosfera de agitação, mas a verdade é que resultara no contrário: rostos apáticos e resignados que mais faziam lembrar mortos-vivos. Ele tinha buscado sinais de mudança nos últimos meses. Para ver se a liderança de Duncan resultara em alguma diferença. Os crimes de rua mais flagrantes e brutais talvez fossem mais raros, provavelmente porque havia mais patrulhas. Ou talvez simplesmente tivessem se deslocado para ruas mais distantes, em áreas de maior declínio.

— Palestras à tarde na academia — comentou Macbeth. — Não tinha isso na minha época.

— Não é uma palestra — disse o menino. — Eu e uns colegas vamos participar de um colóquio.

— Colóquio? O que é isso?

— Fleance e alguns dos garotos mais entusiasmados metem a cara nos estudos juntos antes das provas — explicou Banquo. — É uma boa ideia.

— Meu pai acha que devo estudar Direito. Que a academia de polícia não basta. O que você acha, tio Mac?

— Acho que você deve ouvir os conselhos do seu pai.

— Mas você também não fez Direito — contestou o rapaz.

— E olha aonde ele chegou — comentou Banquo, com uma risada. — É sério, Fleance. Você tem que voar mais alto que seu pobre pai e esse pateta aqui.

— Mas você fala que eu não tenho perfil de liderança — disse Fleance.

Macbeth arqueou uma sobrancelha e olhou para Banquo.

— Ei, eu pensava que o dever de um pai fosse fazer os filhos acreditarem que, com esforço, podem fazer qualquer coisa.

— E é — afirmou Banquo. — Eu não disse que ele não tem perfil inato de liderança, só disse que ainda não adquiriu as competências. E isso significa que ele tem que se empenhar. Ele é esperto; só precisa aprender a confiar no próprio julgamento, ou seja, tomar a iniciativa, nem sempre seguindo os outros.

Macbeth se virou para o banco de trás.

— Seu pai é osso duro de roer.

Fleance deu de ombros.

— Algumas pessoas querem dar ordens e estar no controle, enquanto outras não fazem questão disso. O que tem de tão esquisito nisso?

— Não é esquisito — disse Banquo. — Mas, se você quiser chegar a algum lugar, precisa fazer um esforço pra mudar.

— Você mudou? — indagou Fleance, com um toque de irritação.

— Não, eu era como você — respondeu Banquo. — Estava feliz em deixar os outros assumirem o controle. Mas eu queria ter tido alguém que me dissesse que a minha opinião era tão boa quanto a de qualquer outra pessoa. Às vezes, até melhor. E se você tem mais discernimento, você deve liderar, é seu maldito dever pra com a comunidade.

— O que você acha, tio? Dá pra mudar e se tornar um líder?

— Não sei — respondeu Macbeth. — Acho que algumas pessoas são líderes natos e vão se tornar líderes naturalmente. Como Duncan. Pessoas cuja firmeza de convicção meio que gruda em você; pessoas que levam você a morrer por uma causa. Enquanto outros que conheço não têm nem convicção nem habilidades de liderança e são impulsionados somente pelo desejo de ascender e ascender, até conseguir a cadeira de chefe. Podem ser inteligentes, charmosos e ter talento pra persuadir e convencer as pessoas na lábia, mas na verdade não compreendem as pessoas. Porque eles não as veem. Porque compreendem e veem apenas uma coisa: eles mesmos.

— Está se referindo ao Duff? — indagou Banquo, com um sorriso.

— Quem é Duff? — perguntou Fleance.

— Não importa — disse Macbeth.

— Importa sim. Qual é, tio, estou aqui pra aprender. É ou não é?

Macbeth suspirou.

— Duff e eu somos amigos desde o orfanato e também da academia, e agora ele é chefe da Unidade de Narcóticos. Tomara que ele aprenda algo que o faça mudar.

— Mudar? Ele? — indagou Banquo, com uma risada.

— A Unidade de Narcóticos... — disse Fleance. — É aquele com a cicatriz em diagonal na cara?

— Ele mesmo — respondeu seu pai.

— Onde ele arrumou aquilo?

— É de nascença — explicou Macbeth. — Pronto, chegamos. Se comporte.

— Tá, tá, tio Mac.

O “tio” vinha de quando Fleance era pequeno; agora, chamá-lo assim era quase sempre irônico. Mas, enquanto Macbeth observava Fleance correndo debaixo de chuva na direção dos portões da academia de polícia, emocionou-se, apesar dos pesares.

— Ele é um bom rapaz — disse ele.

— Você devia ter filhos — soltou Banquo, afastando-se do meio-fio. — São um presente que a vida dá pra gente.

— Eu sei, mas é um pouco tarde pra Lady.

— Então tenha com uma mulher mais jovem. Que tal alguém da sua idade?

Macbeth não respondeu. Ficou olhando pela janela, pensativo.

— Quando vi o homenzinho vermelho do sinal de trânsito, pensei na morte — confessou ele.

— Você ainda está com Cawdor na cabeça. Falando nele, conversei com Angus enquanto ele estava paralisado vendo o corpo do Cawdor pendurado balançando.

— Ele estava rezando?

— Não. Ele só disse que não conseguia entender o que levava pessoas ricas e privilegiadas a se matar. Mesmo que Cawdor tivesse perdido o emprego e talvez fosse obrigado a cumprir pena na cadeia, ainda tinha recursos pra viver uma vida longa e despreocupada. Tive que explicar ao rapaz que é a derrota que acarreta isso. E também o desapontamento, quando a pessoa percebe que seu futuro não será à altura das suas expectativas. Por isso é importante não ter expectativas tão altas, começar devagar, não ter sucesso quando se é muito jovem. Dar tempo ao tempo; uma ascensão planejada, não acha?

— Você está prometendo ao seu filho uma vida melhor se ele estudar Direito.

— É diferente com os filhos. Eles são extensões da nossa vida. É obrigação deles buscar um desenvolvimento contínuo.

— Não era no Cawdor.

— Hã?

— Não era no Cawdor que eu estava pensando.

— Não?

— Era em um dos rapazes da estrada vicinal. Ele estava... — Macbeth olhou pela janela — ... vermelho. Ensopado de sangue.

— Para de pensar nisso.

— Sangue-frio.

— Do que você está falando?

Macbeth respirou fundo.

— Os dois homens de Forres, eles se renderam. Mesmo assim, Duff matou o cara que estava usando o capacete do Sweno.

Banquo balançou a cabeça.

— Eu sabia que tinha sido algo assim. E o outro?

— Era uma testemunha. — Macbeth fez uma careta. — Eles tinham fugido da festa, e esse estava só de camisa e calça brancas. Saquei minhas adagas. Ele começou a implorar; sabia o que ia acontecer.

— Não preciso ouvir mais nada.

— Eu me coloquei atrás dele. Mas não consegui. Fiquei com a adaga no ar, paralisado. Mas então olhei pro Duff. Ele estava sentado, as mãos no rosto, soluçando como uma criança. Então eu fiz.

O som de uma sirene ao longe. Um carro de bombeiro. O que diabos poderia estar pegando fogo naquele temporal?, pensou Banquo.

— Não sei se foi por causa das roupas dele que estavam ensopadas — disse Macbeth —, mas o sangue o cobria por inteiro. A camisa e a calça. E deitado ali no asfalto, com os braços pra baixo e ligeiramente de lado, ele me lembrou o homenzinho do semáforo. “Para. Não atravessa.”

Seguiram em silêncio, passando em frente à entrada para a garagem no subsolo da central. Somente chefes de unidades e oficiais de alto escalão tinham vagas exclusivas ali. Banquo se dirigiu ao estacionamento nos fundos do prédio, parou e desligou o motor. A chuva castigava o capô.

— Eu entendo — disse Banquo.

— Entende o quê?

— Duff sabia que, se você prendesse Sweno, se o arrastasse pro tribunal com um juiz ganancioso na cidade mais corrupta do país... quanto tempo ele pegaria? Dois anos? Três, no máximo? Seria absolvido? E eu entendo você.

— Será?

— Sim. Quanto tempo Duff pegaria se o lacaio do Sweno contasse isso tudo? Vinte anos? Vinte e cinco? Na força policial, nós cuidamos uns dos outros. Não podemos contar com mais ninguém. E, o que é mais importante, outro escândalo envolvendo policiais faria um mal danado justamente quando temos um comissário-chefe que está começando a dar de volta ao público certa fé na lei e na ordem. Você precisa ter uma visão mais ampla da situação. E às vezes a crueldade está do lado do bem, Macbeth.

— Talvez.

— Esqueça isso, meu amigo.

A água que escorria pelo para-brisas distorcia a fachada do prédio da central. Permaneceram ali, como se precisassem digerir o que fora dito entre eles para então saírem do carro.

— Duff deveria te agradecer — disse Banquo. — Se você não tivesse agido, ele teria que fazer tudo sozinho. Vocês dois estavam cientes disso. Mas agora vocês conhecem o lado condenável um do outro. Equilíbrio do terror. É o que permite que as pessoas durmam à noite.

— Duff e eu não somos os Estados Unidos e a União Soviética.

— Não? O que vocês são então? Eram inseparáveis na academia, mas agora mal se falam. O que aconteceu?

Macbeth deu de ombros.

— Nada de mais. Provavelmente formávamos um par improvável, de qualquer maneira. Ele é um Duff. A família a certa altura tinha propriedades, e esse tipo de coisa se mantém. O linguajar, os modos da classe alta. No orfanato, ele ficou isolado e desprotegido; então, sem mais nem menos, buscou refúgio em mim. Viramos uma dupla que ninguém encarava. Mas na academia dava pra ver que ele era atraído por gente do tipo dele, de sobrenome. Ele foi lançado numa selva como um leão domesticado. Duff fez faculdade, conheceu uma garota de classe alta e se casou com ela. Depois vieram os filhos e acabamos nos afastando.

— Ou você apenas ficou de saco cheio de ver o cara se comportar como o filho da puta egoísta e arrogante que ele é?

— As pessoas fazem uma ideia errada do Duff. Na academia, nós dois juramos pegar os peixes graúdos. Duff quer sinceramente mudar essa cidade, Banquo.

— Foi por isso que você salvou a pele dele?

— Duff é competente e trabalhador. E tem muita chance de ser indicado pra Unidade de Crime Organizado, todos sabem disso. Então, por que um erro no calor da batalha deveria botar um ponto final na carreira de um homem que pode fazer algo de bom pra todos nós?

— Porque não é do seu feitio matar um homem indefeso daquele jeito.

Macbeth deu de ombros.

— Talvez eu tenha mudado.

— As pessoas não mudam. Mas percebo agora que você enxergou tudo como um nobre dever do soldado. Você, Duff e eu estamos lutando do mesmo lado nessa guerra. Vocês interromperam a vida de dois Norse Riders pra que eles não pudessem continuar a interromper a vida dos nossos filhos com o veneno deles. Mas você não exerce seu dever por escolha. Eu sei quanto te custa, de repente, ver seus inimigos mortos nos sinais de trânsito. Você é um homem melhor que eu, Macbeth.

Macbeth deu um sorriso de lado.

— Você vê com mais clareza que eu na névoa da batalha, meu velho, então é um consolo pra mim que eu receba seu perdão.

— Não vejo melhor que ninguém, sou só um tagarela que tem a dúvida como único norte.

— Dúvidas, sim. Elas não acabam com você às vezes?

— Não — respondeu Banquo, com o olhar perdido. — Às vezes não. O tempo todo.

Macbeth e Banquo foram caminhando do estacionamento à entrada de funcionários nos fundos da central, um prédio de 200 anos no centro do Distrito 3 Leste. À época, tinha sido uma casa de detenção e havia rumores de execuções e gritos vindos das salas de tortura. Muitos dos que trabalhavam até mais tarde também afirmavam sentir uma corrente de ar inexplicavelmente gelado atravessando os escritórios e ouvir gritos ao longe. Banquo havia dito a Macbeth que era apenas o zelador meio maluco que diminuía a calefação exatamente às cinco em ponto todos os dias e que era ele quem gritava quando via alguém sair de sua mesa de trabalho sem apagar a luz.

Macbeth notou duas mulheres aparentemente asiáticas na calçada, entre uns sujeitos desocupados. Elas tremiam de frio e olhavam em volta como se estivessem esperando alguém. As prostitutas da cidade costumavam se reunir na rua Thrift, atrás do prédio da Rede Ferroviária Nacional, até que a prefeitura as expulsara dali alguns anos antes, e agora o mercado de prostitutas se dividia em dois: as que tinham beleza suficiente para trabalhar nos cassinos e as que eram forçadas a suportar as extremas condições das ruas e por isso se sentiam mais seguras trabalhando perto da central de polícia. Além disso, quando a pressão dos políticos ou da imprensa obrigava a polícia a “limpar” as ruas da “imundície do sexo” com detenções em massa, era melhor para todas as partes envolvidas que as operações fossem curtas e rápidas. Logo tudo voltaria ao normal, e não se poderia excluir a possibilidade de que alguns dos parceiros das meninas viessem da própria central. Macbeth já havia tantas vezes recusado educadamente os convites das meninas que elas agora o deixavam em paz. Foi por isso que, quando ele viu as duas se aproximando, presumiu que fossem novas no ramo. E ele se lembraria delas. Mesmo para o baixo padrão das ruas, a aparência delas não era nada boa. Pela experiência de Macbeth, era difícil avaliar a idade das asiáticas, mas, fosse qual fosse, aquelas duas já deviam ter passado por incontáveis maus momentos. Via-se isso nos olhos delas. Eram do tipo impassível e inescrutável que não expõem o que há dentro de si, que são apenas reflexos de seus arredores e delas mesmas. Tinham a postura vergada para a frente e usavam roupas ordinárias, mas havia algo mais que chamou a atenção dele, algo que não batia: a desfiguração de seus rostos. Uma delas abriu a boca para falar, revelando uma sequência de dentes malcuidados, imundos e marrons.

— Desculpa, senhoras — disse Macbeth como um gracejo, antes que ela dissesse qualquer coisa. — Gostaríamos muito de aceitar o convite, mas eu tenho uma esposa que tem um ciúme louco de mim e ele tem uma grave doença venérea.

Banquo murmurou algo e balançou a cabeça

— Macbeth — disse uma delas, num padrão de fala desarticulado como a voz de uma boneca, o que não combinava nada com a frieza de seu olhar.

— Banquo — chamou a outra, com a mesma fala desconexa e a mesma voz.

Macbeth parou. Os longos cabelos pretos das duas lhes cobriam o rosto, provavelmente para escondê-los, mas elas não conseguiam disfarçar os compridos narizes vermelhos, nada asiáticos, que pendiam acima da boca como vidro incandescente na ponta da cana de vidreiro.

— Vocês sabem nossos nomes — comentou ele. — Como podemos ajudar vocês, senhoras?

Não responderam. Apenas voltaram o olhar para uma casa do outro lado da rua. E lá, na penumbra de uma arcada, uma terceira pessoa apareceu à luz do dia. O contraste com as outras duas não poderia ser maior. Aquela mulher — se é que era uma mulher — era alta e tinha ombros largos como os de um leão de chácara e vestia um macacão justo com estampa de leopardo que ressaltava suas curvas femininas do mesmo jeito que um golpista ressalta os supostos benefícios de sua mercadoria. Mas Macbeth conhecia o produto que ela vendia, ou pelo menos o que costumava vender. Assim como conhecia seus falsos benefícios. Tudo nela era em demasia: a altura, a largura, os seios grandes, as unhas vermelhas que se curvavam como garras nos dedos fortes, os olhos bem abertos, a maquiagem teatral, as botas de salto fino e cano longo até as coxas. Para ele, o único choque era ela não ter mudado nada. Tantos anos haviam se passado sem deixar, ao menos na aparência, uma única marca.

Ela atravessou a rua com dois passos gigantes, ou foi essa a impressão que deu.

— Cavalheiros — disse ela, com uma voz tão grave que Macbeth julgou ter ouvido as janelas atrás de si tremerem.

— Strega — falou Macbeth. — Há quanto tempo.

— Digo o mesmo. Você não passava de um moleque naquela época.

— Então você se lembra de mim?

— Não esqueço nenhum cliente, inspetor Macbeth.

— E quem são essas duas?

— Minhas irmãs — respondeu Strega, com um sorriso. — Trazemos os votos de parabéns por parte do Hécate.

Ao som daquele nome, Macbeth viu Banquo automaticamente buscar algo dentro da jaqueta e colocou a mão no braço do amigo para que ele fosse cauteloso.

— Parabéns pelo quê?

— Por sua nomeação pra chefia da Unidade de Crime Organizado. Salve, Macbeth!

— Salve, Macbeth! — ecoaram as irmãs.

— Do que você está falando? — perguntou Macbeth, observando rapidamente os desocupados do outro lado da rua. Havia captado um movimento quando Banquo buscara a arma.

— Uns perdem, outros ganham — disse Strega. — É a lei da selva. Mais mortos, mais pães. E quem vai ficar com os pães, eu me pergunto, se o comissário-chefe morrer?

— Ei! — Banquo deu um passo na direção dela. — Se isso for uma ameaça do Hécate...

Macbeth o deteve. Agora percebera: três dos homens do outro lado da rua haviam trocado olhares entre si e se aprumavam. Estavam em pé, afastados uns dos outros, mas ainda em grupo, e havia algo em comum: todos usavam um casaco cinza.

— Deixa ela falar — sussurrou Macbeth.

Strega sorriu.

— Não é nenhuma ameaça. O Hécate não vai fazer nada; está apenas observando um fato interessante. Ele acha que você será o próximo comissário-chefe.

— Eu? — Macbeth deu uma risada. — O vice do Duncan assumiria, é claro, e o nome dele é Malcolm. Agora já chega.

— As profecias do Hécate nunca erram — disse o homem-mulher. — Você bem sabe disso.

Ela se postou diante de Macbeth sem se mexer, e o inspetor percebeu que ela continuava mais alta que ele.

— Bem — disse ela —, a dama do cassino mantém você limpo?

Banquo viu Macbeth ficar tenso. E achou que Strega agora ficaria aliviada em ser vista como mulher. Macbeth bufou e deu a impressão de que ia falar alguma coisa, mas se calou. Apoiava o peso do corpo ora num pé, ora no outro. Tornou a abrir a boca. De novo, nada saiu. Então ele se virou e seguiu a passos largos para a entrada da central.

A mulher alta ficou observando-o se afastar.

— E você, Banquo, não está curioso pra saber o que o futuro te reserva?

— Não — respondeu ele, e foi atrás de Macbeth.

— Ou ao seu filho, Fleance?

Banquo parou.

— Um bom menino, trabalhador — continuou Strega. — E Hécate promete que, se ele e o pai se comportarem e seguirem as regras do jogo, também um dia se tornará comissário-chefe.

Banquo a encarou.

— Uma ascensão planejada — disse ela. E, depois de uma curta mesura, sorriu, virou-se e deu o braço às outras duas mulheres. — Vamos, irmãs.

Banquo ficou olhando para aquele trio bizarro até que elas virassem a esquina. Pareciam tão fora daquele contexto que, quando sumiram de vista, ele ficou se perguntando se tinham estado mesmo ali.

— Só tem doido nas ruas hoje em dia — comentou Banquo, ao alcançar Macbeth no vestíbulo antes do balcão da recepção.

— Hoje em dia? — repetiu Macbeth, apertando o botão do elevador com impaciência. — Os doidos sempre se deram muito bem aqui na cidade. Você notou que elas tinham guarda-costas?

— O exército invisível do Hécate?

As portas do elevador se abriram.

— Duff — cumprimentou Macbeth, dando-lhe passagem. — Como...?

— Macbeth. Banquo — disse o homem louro, avançando às pressas na direção da porta que dava para a rua.

— Misericórdia — disse Banquo. — Que sujeito estressado.

— É o que acontece quando se tem um cargo de chefia.

Macbeth sorriu, entrou e apertou o botão para o subsolo, o andar do GOE.

— Já notou que os sapatos do Duff estão sempre guinchando? — comentou Banquo.

— É porque ele sempre compra um número maior.

— Por quê?

— Não faço a menor ideia — respondeu Macbeth, ao correr para deter as portas que se fechavam na cara de um funcionário que vinha apressado da recepção.

— Acabei de receber uma ligação do gabinete do comissário-chefe — disse ele, afobado. — Pediram que o senhor fosse até lá assim que chegasse.

— Tudo bem — disse Macbeth, liberando as portas.

— Problemas? — indagou Banquo, depois que as portas se fecharam.

— Provavelmente — respondeu Macbeth, apertando o botão para o quarto andar e sentindo os pontos de sutura no ombro começarem a coçar.