Macbeth
Capítulo 41
Oelevador transportou Duff, Malcolm e o zelador até o porão da central de polícia. — Sei que é fim de semana, mas você tem certeza de que não tem mais ninguém aqui? — indagou Duff ao zelador, com quem Malcolm havia conversado longamente ao telefone, da casa de Tourtell. — Ao contrário — respondeu ele. — Estão esperando você. Duff não teve tempo de reagir antes de o elevador chegar e as portas se abrirem à sua frente. Três policiais, todos armados e com o uniforme preto do GOE. Duff prendeu a respiração. — Obrigado — agradeceu-lhes Malcolm — por atenderem ao meu chamado tão repentino. — Pela cidade — disse um deles. — Por Angus — falou o segundo. — Pelo comissário-chefe — disse o terceiro, um negro de postura empertigada. — Em nosso registro, o nome que consta agora é Malcolm. — Obrigado, Ricardo — disse Malcolm, saindo do elevador. O policial muito ereto tomou a dianteira. — O senhor falou com mais alguém? — Passei a noite toda ao telefone. Não esperava que fosse fácil convencer as pessoas a arriscar a vida e o emprego pra lutar contra uma conspiração da qual só vieram a tomar conhecimento por mim. E sobretudo quando acrescento que não podemos esperar ajuda imediata de Capitol. No entanto, tenho cerca de trinta oficiais da polícia, algo em torno de dez ou 15 da Defesa Civil e talvez dez do Corpo de Bombeiros.
— O caso pode não parecer muito convincente, mas o senhor é, Malcolm.
— Obrigado, Ricardo, mas acho que as atitudes do Macbeth falam por si.
— Não estava pensando nas suas palavras, senhor. Sua coragem fala mais alto.
— Tudo me foi tirado, e não tenho muito a perder, Ricardo. No entanto, tive que voltar pra cuidar da minha filha, que agora está em segurança. É você quem mostra coragem. Você não é controlado pelo coração de um pai, está agindo por vontade própria, governado pelo próprio senso de justiça. O que prova que nessa cidade há pessoas que querem o que é bom.
Passaram adiante da bandeira do dragão.
— E onde está o prefeito? — perguntou Ricardo.
— Ele tem outras preocupações em mente no momento.
Ricardo parou diante de uma porta pesada de ferro, igual à entrada de um abrigo antiaéreo. Estava aberta.
— Aqui.
Lá dentro, as prateleiras acomodavam caixas de metal para munição e armas de fogo. No centro do piso havia um cofre. Malcolm pegou uma das metralhadoras da prateleira.
— Alguém levou as Gatling e as munições — disse Ricardo. — Então isso é tudo o que temos. Além de um blindado. Posso providenciar pra que o veículo seja levado à Estação Central imediatamente. Não há armas suficientes pra todos, mas os bombeiros não têm treinamento com armas de fogo. Meus homens e eu podemos atacar hoje à noite.
— Claro que o melhor seria que Macbeth se entregasse voluntariamente — disse Malcolm. — A contagem nos diz que ele provavelmente tem dois homens: Seyton e Olafson. Quando ele vir quantos conseguimos mobilizar, espero que liberte Kasi e se renda.
— Negociação. — Ricardo assentiu. — Táticas modernas em situações com reféns.
— Exatamente
— Modernas e inúteis em se tratando do Macbeth. Ele foi meu chefe, senhor. E tem os dois melhores atiradores do país e duas metralhadoras Gatling. Enquanto nós temos pouquíssimo tempo.
— O que se pode fazer contra duas Gatling? — indagou Malcolm, pegando uma bazuca da prateleira.
Duff ficou paralisado. Havia visto o que estava atrás da bazuca.
— Não funciona bem a longa distância — falou Ricardo. — Mas estou disposto a elaborar um plano pra invadir o Inverness caso Macbeth não se renda.
— Ótimo — disse Malcolm, olhando para o que Duff havia encontrado. — Céus, de onde saiu isso?
— Dos escombros da sede dos Norse Riders — esclareceu Ricardo. — Não deixa de ser uma arma, ainda que seja apenas um sabre.
— Não é um sabre qualquer — disse Duff, segurando o cabo com firmeza. Ele brandiu o sabre de um lado para o outro e sentiu o peso do aço. — É o sabre do Sweno.
— Você não está pensando em levar isso, está? Não serve pra nada.
— Errado. — Duff passou o indicador na lâmina. — Pode abrir barrigas de mulheres e rostos de crianças.
Malcolm se virou para Ricardo.
— Você consegue transportar as armas pra Estação Central uma hora antes do sol nascer?
— Considere feito.
— Obrigado. Vamos ver se o restante de nós consegue fechar os olhos por algumas horas.
— Senhor?
Macbeth levantou a cabeça do peito frio de Lady. Era Jack. Havia retornado e estava à porta.
— Tem uma pessoa na recepção querendo falar com o senhor.
— Você de-de-deixou alguém entrar?
— Ele está sozinho e não parava de bater. Tive que abrir. E agora ele se recusa a ir embora.
— Quem é?
— Um jovem com o nome de Sivart.
— Sivart?
— Ele diz que o senhor o salvou no cais durante o ataque aos Norse Riders.
— Ah, o refém. O que ele q-q-quer?
— Oferecer seus serviços. Disse que Malcolm o procurou e está reunindo pessoal pra atacar o Inverness.
— B-bem — disse Macbeth, voltando a descansar a cabeça no peito de Lady e fechando os olhos —, mande-o embora.
— Ele não irá embora, senhor.
Macbeth suspirou pesadamente, levantou-se e estendeu a mão.
— Me passe a arma que te dei, Jack.
Desceram para a recepção, onde o jovem esperava ansiosamente. Ainda na escada, Macbeth apontou a arma para ele.
— Fora!
— Comissário-chefe... — balbuciou o homem.
— Fora! Você foi enviado pelo Malcolm pra me matar. Fora daqui!
— Não, não, eu...
— Agora! Vou contar até três! Um...
O homem recuou aos tropeços e agarrou a maçaneta, mas a porta estava trancada.
— Dois!
Jack correu com a chave e o ajudou a abrir a porta.
— Três!
A porta bateu, e eles ouviram passos apressados sumindo ao longe.
— O senhor realmente acha que ele...
— Não — respondeu Macbeth, devolvendo-lhe a arma. — Mas um jovem como ele aqui poderia atrapalhar.
— Vocês não são muitos. E ele tem a mesma idade do Olafson, senhor.
— Você fez o que eu te pedi, Jack?
— Estou fazendo, senhor.
— Me avise quando terminar. Estarei no salão de jogos.
Macbeth abriu as portas duplas que davam para a área central do cassino. Pelas janelas via-se que a noite já ia alta e acinzentada.