Macbeth
Capítulo 15
Lady subiu os últimos degraus da escada de alumínio que dava para o telhado plano do Inverness, abriu a porta e contemplou a escuridão. Só se ouvia o murmurar suave da chuva. Parecia que tudo e todos tinham seus segredos. Estava prestes a se virar para entrar novamente quando a explosão de um relâmpago iluminou a noite, e ela o viu. De pé na beirada do telhado, olhando para a rua Thrift, que passava atrás do cassino. Antes de Lady convencer a prefeitura a fazer uma limpeza geral, era naquele breu que as prostitutas faziam ponto, e não apenas se oferecendo para um programa, mas também prestando seus serviços ali mesmo: nas passagens, dentro dos carros, no capô dos carros ou nos muros e encostadas nas paredes. Quando a Rede Ferroviária Nacional funcionava ali, dizia-se que o diretor havia mandado tapar com tijolos todas as janelas que davam para a Thrift, a fim de que seus funcionários se concentrassem no trabalho, e não naquela imundície. Ela abriu o guarda-chuva e foi até Macbeth. — Tomando chuva aqui fora, querido? Estava procurando você. Os convidados já devem estar chegando. Ela correu os olhos pelas paredes lisas, pretas e sem janelas, como uma fortaleza, que desciam para a Thrift. Conhecia cada centímetro daquela rua. E isso era motivo suficiente para manter os tijolos onde deveria haver janelas. — O que está vendo lá embaixo? — Um precipício — respondeu ele. — Medo. — Meu amor, não seja tão soturno.
— Não?
— Que sentido teriam todas as suas vitórias se não trouxessem um sorriso ao seu rosto?
— Só vencemos algumas batalhas. A guerra mal começou, e o medo já toma conta de mim. Só Deus sabe de onde ele vem. Prefiro uma gangue de motociclistas armados vindo na minha direção do que essa serpente que esfaqueamos mas não matamos.
— Para com isso, meu amor. Ninguém pode nos deter agora.
— Duncan. Eu o vejo lá embaixo. E tenho inveja dele. Está morto, e fui eu que dei paz a ele. E tudo que ele me oferece em troca é ansiedade e esses pesadelos.
— É a brew, não é? É a brew que está fazendo você ter pesadelos.
— Querida...
— Você não se lembra do que disse sobre o Collum? Você mesmo falou que a brew faz as pessoas terem alucinações. Você tem que parar de usar isso ou vai perder tudo que conquistamos! Está me ouvindo? Nem mais um grão!
— Mas os pesadelos não são um produto da minha imaginação. O sargento me ligou. O negócio está fechado. Ou você se esqueceu da gravidade da ação que planejamos pra essa noite? Está evitando pensar que meu único pai e meu melhor amigo serão mortos?
— Não sei do que você está falando, nem você mesmo sabe. O que está feito está feito, é inútil ficar se lamentando. E a brew não vai te dar nem conforto nem coragem. É hora da sua alma receber a recompensa. Portanto, chega de brew! Trate de botar a gravata, meu amor. E vista também um sorriso. — Ela tomou sua mão. — Vem, vamos destruí-los com nosso charme.
Refestelada em uma poltrona e com uma taça de vinho tinto na mão, Caithness ouvia, ao fundo, a chuva tamborilar na vidraça do sótão e escutava Kite no rádio. Ele falava sobre o problema de um comissário-chefe interino ter, na prática, mais poder que um prefeito democraticamente eleito, tudo por causa das leis e dos regulamentos adulterados por Kenneth. Ela gostava do jeito dele de pronunciar o “r” e de sua voz pausada. Gostava do fato de Kite não ter medo de se sobressair pela erudição e inteligência. Acima de tudo, gostava de ele ser sempre contra alguma coisa. Contra Kenneth, contra Tourtell e, sim, até contra Duncan, que era, ele próprio, contra um bocado de coisas. Devia ser um caminho solitário. E quem iria querer ficar só se tivesse alternativa?
De vez em quando ela se perguntava se deveria enviar uma carta anônima para a rádio, expressando que achava reconfortante saber que ainda havia pessoas com princípios morais como ele, alguém que assumia o papel de um cão de guarda solitário e intrépido. Falando nisso... Não era a segunda vez que escutava um som vindo da porta? Abaixou o volume. Prestou atenção. Pronto, ouviu de novo. Foi pé ante pé até a porta e encostou a orelha nela. Um rangido familiar. Abriu a porta.
— Duff. O que você está fazendo?
— Eu? Hã... Estou parado aqui. Pensando.
Ele estava com as mãos enfiadas nos bolsos do paletó e se balançava nos sapatos largos, cujos solados rangiam.
— Por que não tocou a campainha?
— Eu toquei. É que... Não está funcionando.
Ela abriu completamente a porta, mas ele ainda parecia indeciso.
— Por que está tão abatido, Duff?
— Abatido? Eu?
— Desculpa, sei que não há muita coisa pra se comemorar no momento, mas dá pra você se decidir se vai entrar ou não?
Ele olhou em volta.
— Posso ficar até a meia-noite?
— Claro, mas entra logo. Estou congelando.
O sargento descansou as mãos no guidão de sua Honda CB450, uma “Black Bomber”. Fazia menos de cinco anos que a comprara e em dias bons conseguia arrancar dela uns 160 quilômetros por hora, mas parecia um pouco ultrapassada com o lançamento da possante CB750. Olhou o relógio: faltavam 16 minutos para as sete da noite. A hora do rush chegava ao fim, e a noite caíra mais cedo. De tocaia no acostamento, ele via todos os carros que vinham na direção do cruzamento da Colina dos Enforcados. Sweno enviara reforços do clube do sul: três membros, conhecidos como “primos”, estavam em suas motos perto das bombas de gasolina de um posto de estrada por onde o carro supostamente passaria. E se mantinham atentos aos modelos e às placas. Mais adiante, do outro lado do cruzamento, ele via Colin com esporas nos pés para se manter no alto de um dos postes, perto da caixa de passagem dos fios. O único divertimento que haviam tido até então foi quando, ao fazerem um teste, Colin meteu a chave de fenda e girou. Pneus cantaram no asfalto quando o sinal ficou vermelho de repente. Segundos depois, ao voltarem para o verde, os motores reagiram com hesitação, e carros atravessaram o cruzamento enquanto o sargento piscava os faróis da moto para dar o ok a Colin.
O sargento voltou a olhar no relógio: seis e quarenta e cinco.
Sweno havia levado certo tempo para se decidir, mas o sargento tinha a sensação de que fora mais por prudência do que por dúvida. E isso só se confirmou quando os três primos do sul apareceram ao portão do clube: uma Harley-Davidson chopper com guidão alto, uma Harley FL 1200 Electra Glide e uma Russian Ural com assento lateral e metralhadora montada. O cara na Electra Glide carregava uma espada, não curvada como o sabre de Sweno, mas que serviria ao propósito.
Seis e quarenta e seis.
— Fleance...
Algo na voz de Banquo despertou a atenção de Fleance. Seu pai estava sempre calmo, mas, quando havia algo errado, sua voz ficava ainda mais calma. Como naquela vez em que Fleance tinha 7 anos e o pai voltou para casa depois de visitar a mãe dele no hospital e chamou pelo filho daquela mesma maneira, de uma placidez sombria.
— Mudança de planos pra essa noite — disse Banquo, trocando de faixa e se metendo atrás de um Ford Galaxy. — E pros próximos dias.
— Sério?
— Você vai pra Capitol. Hoje ainda.
— Capitol?
— Aconteceu um problema. Você terá muitas perguntas a fazer, meu rapaz, mas ainda não receberá resposta alguma. Você vai me deixar no Inverness e seguir direto pra casa. Pegue apenas o necessário e vá. Mantenha uma velocidade segura, não corra, e você deve chegar amanhã à noitinha. Entendeu?
— Sim, mas o que...
— Sem perguntas. Vai ficar por lá alguns dias, ou algumas semanas. Como você sabe, sua mãe herdou um pequeno apartamento. Pegue o bloco que está no porta-luvas.
— A quitinete que ela chamava de buraco de rato?
— É. Não me admira nunca termos conseguido vender aquilo. Ainda bem, admito isso agora. O endereço é rua Tannery, 66, Distrito 6. Ao lado da boate Dolphin. Segundo andar à direita. Lá você vai estar em segurança. Anotou tudo?
— Sim. — Fleance arrancou a página do bloco e o guardou novamente no porta-luvas. — Mas vou precisar da chave, não? Quem vai abrir pra mim se está vazio?
— Não está vazio.
— Está alugado?
— Não exatamente. Dei permissão pra que o pobre do primo Alfie ficasse lá. Ele está tão velho e surdo que talvez nem escute a campainha, então você vai ter que improvisar.
— Pai?
— O quê?
— Isso tem alguma coisa a ver com o que Duff queria? Ele parecia tão... tenso.
— Sim, mas chega de perguntas, Fleance. Você só tem que ficar lá. Estude pelos livros que levar, até cansar, mas nada de telefonemas, nada de cartas, não diga a ninguém onde está. Você precisa fazer o que estou mandando, e eu vou te avisar quando for seguro.
— E você está seguro?
— Você ouviu o que eu disse.
Fleance assentiu.
Seguiram em silêncio, as borrachas gastas dos limpadores de para-brisa rangendo e soando como se quisessem lhes dizer alguma coisa.
— Sim — respondeu Banquo. — Estou seguro. Mas não preste atenção no noticiário daqui pra frente. Você só vai ver mentiras. Tem mais alguém no apartamento, por ora. Acho que ele dorme num colchão no chão, então você vai ter que ficar no sofá. Isso se os ratos não tiverem comido.
— Muito engraçado. Você jura que não está correndo perigo?
— Não se preocupe...
— O sinal fechou!
Banquo meteu o pé no freio e por pouco não bateu no para-choque do Galaxy, que pelo visto também não tinha notado o sinal vermelho.
— Toma — disse Banquo, entregando ao filho uma velha carteira bem recheada. — Fica com o dinheiro. Deve dar pra você se virar por uns tempos.
Fleance pegou as notas.
— Sinal demorado... — Ele ouviu o pai resmungar.
Fleance olhou no retrovisor. Já se formara uma longa fila de carros atrás deles. Por fora, uma sequência de motos vinha na direção deles.
— Estranho — comentou Banquo. E, de novo, naquela voz arrastada: — Parece que o sinal mais à frente também está vermelho. E há um bom tempo.
— Pai, tem umas motos vindo.
Fleance viu o pai olhar de relance pelo retrovisor. Então pisou no acelerador, virou o volante para a direita e soltou a embreagem. O velho carro derrapou no asfalto molhado e oleoso, mas conseguiu se espremer pela direita da fila de carros. As calotas bateram no meio-fio alto, e ouviu-se um ranger de carrocerias como se tivessem se machucado quando o Volvo raspou a lateral do Galaxy, arrancando o retrovisor ao passar.
Fortes roncos de motor vinham lá da frente. O sinal abrira.
— Pai! Para!
Mas ele não parou; pelo contrário, acelerou mais ainda. Estavam a toda a velocidade, direto para o cruzamento, em rota de colisão com um caminhão que vinha da esquerda e um ônibus da direita. Então ouviram duas buzinas, uma de cada lado, rugindo um acorde estridente, quando passaram entre eles. Fleance olhou no retrovisor quando desceram a Colina dos Enforcados em disparada no sentido centro, e a dolorosa música entrava em sintonia atrás eles. Ele viu que o sinal havia mudado para verde novamente e que as motos já tinham ultrapassado o cruzamento.
* * *
Macbeth plantou-se nos sólidos azulejos da entrada do Inverness, embora ainda se sentisse em alto-mar. À sua frente, um obeso de terno preto pelejava para sair de uma limusine. O porteiro do Inverness, de vermelho e segurando um guarda-chuva, mantinha a porta do carro aberta e hesitava entre puxar o sujeito para fora ou permitir que ele mantivesse a dignidade. Quando o homem finalmente conseguiu vencer a batalha por conta própria, ainda que um pouco resfolegante, Lady correu para recebê-lo.
— O nosso... O meu prefeito!
Ela sorriu e lhe deu um abraço. O que não era uma tarefa simples, pensou Macbeth, e se pegou dando uma risadinha malvada enquanto observava as mãos esguias de Lady pegando as gorduchas de Tourtell.
— A cada vez que nos encontramos você está mais bonito e mais viril — elogiou ela, toda animada.
— E você, Lady, sempre mais linda e mais mendaz. Olá, Macbeth...
Eles se cumprimentaram com um aperto de mão, e Macbeth ficou fascinado com a forma como a carne da mão do prefeito escapava por baixo de seu polegar.
— E quem é esse jovem? — indagou Lady.
Um rapaz de olhos castanhos, pele macia e aparência feminina, tão imberbe quanto um adolescente, deu a volta na limusine, tendo saído da porta traseira do outro lado. Ele deu um sorrisinho tímido para Tourtell, como se buscasse ajuda.
— Esse jovem, Lady, é meu filho.
— Bobinho, você não tem filhos — falou Lady, dando um tapinha na lapela do prefeito.
— Meu filho ilegítimo — elucidou Tourtell, acariciando a região lombar do menino e dando uma piscadela marota para Macbeth. — Faz pouco tempo que fiquei sabendo. Não acha que somos parecidos, Lady?
— Você é e sempre será esperto como uma raposa, querido Tourtell. Vamos dar um nome pra ele?
— Que tal Kasi Tourtell Jr.? — sugeriu o prefeito, cofiando o bigode à la Salvador Dalí e soltando uma gargalhada ao ver Lady revirar os olhos.
— Venham se servir aqui dentro, onde está mais quentinho — disse Lady.
Os dois atravessaram a porta enquanto ela se aproximava de Macbeth.
— Como ele se atreve, o canalha safado — disse Macbeth. — E eu que achava que Tourtell fosse um dos caras respeitáveis.
— Ele é um dos caras respeitáveis, e isso é o que conta, querido. O poder lhes confere a liberdade de fazerem o que quiserem, sem que as pessoas percam o respeito por eles. Viu? Pelo menos agora você está sorrindo.
— Estou?
— Como um palhaço desengonçado. — Lady já estava sorrindo para o táxi que se aproximava da porta. — Não exagere no sorriso, querido. Chegou o Janovic, incorporador de Capitol.
— Mais um pra comprar os terrenos das nossas fábricas por uma bagatela?
— O negócio dele são cassinos. Seja simpático e diga olá. Em algum momento, deixe escapar um comentário sobre o declínio no índice de crimes de rua.
Fleance gritou de surpresa e se abaixou quando o vidro traseiro explodiu.
— Quantos são? — perguntou Banquo, com toda a calma, e deu uma guinada forte para a direita, descendo por uma rua lateral de paralelepípedos.
Fleance se virou. O ronco das motos atrás deles aumentou em volume como um dragão enfurecido.
— Cinco ou seis — gritou Fleance. — Me dá a sua arma!
— Minha arma preferiu ficar em casa — respondeu Banquo. — Segura firme.
Ele girou o volante; as rodas bateram no meio-fio, e o Volvo deu um salto e cortou caminho passando em frente a uma loja de roupas elegantes a fim de virar à esquerda para pegar uma rua ainda mais estreita. Fleance entendeu a manobra: naqueles becos de mão única pelo menos os motoqueiros não conseguiriam emparelhar com eles e matá-los. Mas estavam cada vez mais perto. Outro tiro soou lá atrás. Fleance ainda não aprendera a diferenciar as armas de fogo pelo som, coisa que era fácil para o pai, mas até ele identificou que era uma espingarda. O que, afinal, era melhor que...
Uma chuva de balas martelou a carroceria do carro.
... Uma automática.
O pai deu outra guinada repentina sem um pingo de hesitação, como se soubesse aonde estava indo. Estavam bem na área do shopping, mas as lojas estavam fechadas e as ruas, quase desertas com a chuva. Será que ele conhecia a saída daquele labirinto? Em resposta, Banquo de repente virou à direita, passando por uma placa que trazia más notícias.
— Pai, é uma rua sem saída!
Banquo não reagiu.
— Pai!
Ainda nenhuma reação, os olhos fixos em profunda concentração, as mãos agarradas ao volante. Fleance só então viu que sangue escorria pelo rosto do pai e por dentro da camisa, onde o colarinho branco, como papel absorvente, ganhara um tom avermelhado. E havia algo faltando no ponto onde o sangue descia da cabeça do pai. Fleance desviou o olhar do volante. E entendeu por que ele não respondia. A orelha! A orelha estava grudada no painel, um pequeno pedaço de pele clara, fiapos de carne e sangue.
Fleance olhou para o para-brisa. E lá viu, literalmente, o fim. O beco sem saída terminava em uma casa de madeira de aparência sólida. O térreo era uma grande vitrine parcialmente iluminada. Aproximavam-se rápido e não davam indícios de que parariam.
— Aperta o cinto, Fleance.
— Pai!
— Anda.
Fleance pegou o cinto de segurança, passou-o sobre o peito e só conseguiu afivelá-lo quando os pneus dianteiros bateram no meio-fio e o carro alçou voo. O capô bateu no meio da vitrine, e Fleance teve a sensação de que o que havia à sua frente se abriu, de que voavam para dentro daquela loja através de uma cortina de vidro branco. Então, tomado de espanto, olhou ao redor e percebeu que algo estava fora de esquadro. Houve uma brecha no curso dos eventos, e ele achou que provavelmente desmaiara. Em seus ouvidos, um zumbido infernal. Seu pai estava imóvel, a cabeça no volante.
— Pai!
Fleance o sacudiu.
— Pai!
Nenhuma reação. O para-brisa sumira e alguma coisa brilhava sobre o capô. Fleance pestanejou algumas vezes antes de se dar conta de que era mesmo o que parecia ser. Anéis. Colares. Pulseiras. E bem na parede à sua frente estava escrito, em letras douradas: JACOBS & FILHOS. JOALHERIA. Eles haviam estilhaçado uma porra de uma joalheria. E o zumbido não vinha de sua cabeça, mas do alarme contra roubo. Então ele entendeu. O alarme. Todos os bancos, cassinos e as grandes joalherias da cidade estavam conectados à central telefônica da polícia, que imediatamente entrava em contato com as patrulhas do distrito. Seu pai sabia o que estava fazendo.
Fleance tentou se livrar do cinto de segurança, mas não conseguiu. Puxou e puxou, mas a fivela se recusou a se soltar.
Sentado na moto, o sargento contava os segundos e olhava para a metade do carro que ainda se via para fora da loja à frente deles. O alarme suplantava quaisquer outros sons, e ele via a fumaça saindo do cano de descarga, indicando que o motor ainda estava ligado.
— O que é que a gente está esperando, hein? — perguntou o cara na Electra Glide. Havia um quê de irritante em sua maneira de falar. — Vamos pegar eles.
— Vamos esperar mais um pouco — disse o sargento e começou a contar em voz alta: — Vinte e um, vinte e dois...
— Até quando, hein?
— Até termos certeza de que o cara que encomendou o serviço cumpriu sua promessa — respondeu o sargento. — Vinte e cinco, vinte e seis...
— Droga. Quero acabar logo com essas degolas e ir embora dessa cidade de merda.
— Espera — disse o sargento, observando-o de viés.
O cara parecia um adulto. Dois adultos. Tão grandalhão quanto uma porta de celeiro e cheio de músculos no corpo todo, inclusive no rosto. Mas usava aparelho nos dentes, como um menino. O sargento já tinha visto isso, na prisão, onde os presos que puxavam ferro e tomavam esteroides anabolizantes desenvolviam um queixo avantajado e dentes deslocados. Vinte e nove, trinta. Trinta segundos e nenhuma sirene.
— Vai lá — falou o sargento.
— Valeu.
O grandalhão sacou uma Colt de cano longo do cós da calça e pegou uma espada no estojo, desceu da moto e seguiu em direção ao carro. Despreocupadamente, correu a lâmina da espada ao longo da parede e no poste com a placa de PROIBIDO ESTACIONAR. O sargento ficou analisando as costas da jaqueta de couro dele. Uma bandeira de pirata com um crânio no centro de uma suástica. Refinamento zero. Suspirou.
— Dê cobertura com a espingarda, Colin.
Colin alisou o bigode de morsa com a mão enfaixada, depois abriu a espingarda de cano curto e a carregou com duas cápsulas.
O sargento viu alguns rostos aparecerem nas janelas do outro lado da rua, mas, até ali, nenhuma sirene, apenas o monótono e incessante alarme enquanto o cara entrava na loja e se aproximava do carro. Colocou a espada debaixo do braço, abriu a porta do passageiro e apontou o revólver para a pessoa sentada ali. O sargento automaticamente cerrou os dentes, esperando o estrondo.
Fleance tentou e tentou se livrar do cinto de segurança, mas a porcaria da trava não soltava. Tentou, então, escorregar o corpo por baixo do cinto. Levou os joelhos ao queixo, girou para o lado ainda sentado, apoiou os pés na porta do passageiro e impulsionou o corpo em direção ao banco do motorista. Naquele momento, viu um homem entrar na loja com uma espada e um revólver. Tarde demais para escapar, e Fleance nem sequer teve tempo de pensar no medo que sentia.
A porta do passageiro foi aberta com um puxão. Fleance viu um aparelho ortodôntico cintilar e um revólver sendo erguido e percebeu que o homem estava fora de alcance do chute que havia planejado dar. Então, no desespero, deu um pontapé em direção à porta aberta. Um sapato normal não teria se encaixado no puxador interno da porta, mas o de bico fino e longo herdado de Macbeth entrou direto ali. Deu uma espiada na eternidade negra da boca do revólver e puxou a porta com a maior força possível. Ouviu-se um baque quando a porta bateu no pulso do homem, espremendo-o no vão. E um ruído surdo quando o revólver caiu no chão.
Ao som de obscenidades, Fleance fechou a porta com uma das mãos enquanto procurava a arma com a outra.
A porta tornou a ser aberta com violência, e lá estava o cara de aparelho, com a espada erguida acima da cabeça. Fleance apalpou o tapete, inclusive sob os bancos. Onde que a droga da arma tinha ido parar? O cara de aparelho obviamente se deu conta de que o vão da porta era estreito demais para brandir a espada, então teria de perfurar a vítima em vez de arrancar sua cabeça. Ele puxou o braço, mirou a ponta da espada e investiu. Fleance contra-atacou com as duas pernas, fazendo com que o cara fosse cambaleando de costas até finalmente estilhaçar um balcão de vidro ao cair.
O sargento suspirou.
— Colin, faz o favor de ir lá e acabar com esse show de acrobacias.
— Beleza, chefe.
Antes de descer da moto, Colin checou se ainda conseguiria puxar o gatilho com a mão que Macbeth havia empalado com a adaga.
Fleance tinha desistido de lutar, pois não conseguiria se libertar do cinto a tempo, então se inclinou e viu o cara da espada sair de trás do balcão destruído, com cacos de vidro caindo de seus ombros largos. Dessa vez, ele foi mais cuidadoso: tomou posição fora do alcance de Fleance e checou se empunhava direito a espada. Fleance sabia que ele mirava um ponto em que pudesse causar danos instantâneos e ainda se manter a uma distância segura. A virilha.
— Merda de cidade — rosnou o homem.
Então deu uma cusparada na espada, ajeitou o braço, posicionou-se o mais perto possível e mostrou uma fileira de dentes cerrados. A iluminação suave e cálida da loja fez o aparelho cintilar, como se pertencesse ao estoque da joalheria. Fleance pegou a arma e disparou. Viu de relance a expressão de surpresa e um pequeno buraco negro bem no centro do aparelho ortodôntico antes que o homem tombasse.
Os sons suaves e discretos do piano-forte estavam deixando Macbeth impaciente.
— Caros convidados, colegas e amigos do cassino — começou, olhando para os rostos que o cercavam —, embora nem todos tenham chegado, gostaria, em nome da mulher que todos vocês conhecem e temem — risadinhas contidas e acenos para uma risonha Lady —, desejar-lhes nossas calorosas boas-vindas e propor um brinde antes de tomarmos nossos lugares à mesa.
Colin parou quando viu o primo do sul despencar. O barulho do tiro suplantou o do alarme, e ele viu uma mão estendida para fora do carro segurando um revólver. Reagiu instantaneamente. Deu um tiro. Viu o projétil atingir o alvo, viu a cor clara do painel da porta se tornar avermelhada, o vidro da porta explodir e o revólver cair no chão.
Correu para o carro imóvel. A adrenalina tornara seus sentidos tão receptivos que ele absorvia tudo. A fraca vibração do cano de descarga, a ausência de cabeças no vidro traseiro quebrado e um som que ele acabara de reconhecer, mesmo embrenhado no zumbido do alarme. O de aceleração do motor. Merda!
Correu até o vão da porta. No banco do passageiro estava sentado um garoto de terno em uma posição muito estranha: com o cinto de segurança, uma das mãos coberta de sangue e a perna esquerda esticada até o motorista caído, sem vida, sobre o volante. Colin levantou a espingarda quando o motor acelerou, pegou tração e o carro disparou de ré. A porta aberta foi de encontro ao seu peito, mas ele conseguiu, com a mão esquerda, agarrar-se à parte superior dela. Saíram da loja praticamente voando, mas Colin continuou firme. Ainda tinha a espingarda na dolorida mão direita, mas, para atirar, teria de passá-la por baixo do braço esquerdo...
Fleance havia conseguido alcançar os pedais, afastar o pé do pai e pisar na embreagem para trocar o câmbio de ponto neutro para ré. Então foi tirando o pé do pedal aos poucos enquanto apertava o acelerador com o bico do sapato. A porta direita havia batido em um homem, que continuava pendurado ao carro, mas o automóvel já tinha saído da loja e ia de ré. Fleance não enxergava porcaria nenhuma, mas pisou fundo no acelerador, torcendo para não bater em nada.
O sujeito na porta estava tentando fazer alguma coisa, e de repente Fleance entendeu. O cano de uma espingarda apareceu por baixo do braço do cara. No momento seguinte, um disparo.
Fleance piscou.
O cara da arma tinha sumido. E também a porta do passageiro. Olhou por cima do painel e viu ambos enlaçados no poste que exibia a placa de PROIBIDO ESTACIONAR.
Então viu uma rua lateral.
Pisou no freio e apertou a embreagem antes que o motor morresse. Pelo retrovisor, viu quatro homens descendo das motos e vindo em sua direção. As motos estavam estacionadas lado a lado, bloqueando a rua estreita; o Volvo não conseguiria passar por cima deles de ré. Fleance agarrou a alavanca de câmbio, e foi quando viu que sua mão sangrava. Tentou engatar a primeira, mas não conseguiu, provavelmente porque naquela posição não dava para pisar na embreagem até o fundo. Merda, merda, merda. O motor tossiu e engasgou, prestes a dar seu último suspiro. Pelo retrovisor, viu que eles tinham sacado as armas. Não, metralhadoras. Já era. Fim da linha. Então um pensamento muito estranho lhe ocorreu. Que pena que não faria a última prova de Direito, justo agora que tinha decifrado o código e compreendido o conceito: a diferença entre errado e ilegal, entre valores e regras. Entre poder e crime.
Sentiu algo quente pousar sobre sua mão na alavanca.
— Quem está dirigindo, filho? Você ou seu pai?
Os olhos de Banquo estavam um pouco turvos, mas ele se aprumou no assento com as duas mãos no volante. No instante seguinte, o velho ruído do motor converteu-se em um rugido rouco, e o carro foi derrapando nos paralelepípedos enquanto as metralhadoras estalavam e crepitavam atrás deles como se fosse comemoração do Ano-Novo Chinês.
Macbeth olhou para Lady, sentada a duas cadeiras dele. Conversava animadamente com seu vizinho de mesa, um tal de Jano qualquer coisa. O barão do setor imobiliário de Capitol. Havia pousado a mão no braço dele. No ano anterior, um dos donos de fábrica mais poderosos havia se sentado na mesma cadeira ora ocupada pelo tal Jano e capturado a atenção dela. Este ano, porém, com a desativação da fábrica, seu dono não havia sido convidado.
— Você e eu deveríamos ter uma conversa — disse Tourtell.
— Sim — concordou Macbeth, voltando-se para o prefeito, que empurrava um garfo copiosamente carregado de vitela para dentro da bocarra. — Sobre o quê?
— Sobre o quê? Sobre a cidade, é claro.
Macbeth observava, fascinado, as muitas pregas do queixo do prefeito se expandirem e se contraírem enquanto ele mastigava, como um acordeão de pele humana.
— Sobre o que é melhor pra cidade — acrescentou Tourtell, com um sorriso. Como se fosse uma piada.
Macbeth sabia que deveria se concentrar na conversa, mas estava difícil manter os pensamentos organizados, amarrá-los no aqui e agora que se passava na terra. Naquele momento, por exemplo, indagava a si mesmo se a mãe do bezerrinho estaria viva. E, caso positivo, se ela sentia que, naquele momento, naquele exato momento, seu filho era comido.
— Aquele radialista — disse Macbeth. — Kite. Ele espalha boatos e, visivelmente, tem interesses lamentáveis. Como se neutraliza uma pessoa como essa?
— Jornalistas — falou Tourtell, com ar de tédio. — Olha, isso não é fácil. Eles só prestam contas aos editores. E mesmo que esses editores só prestem contas aos donos dos jornais, que só pensam nos lucros, os jornalistas estão solenemente convencidos de que servem a um propósito superior. Muito complicado. Você não está comendo, Macbeth. O que há com você? Está preocupado?
— Eu? De modo algum.
— Jura? Mesmo com um comissário-chefe morto, o adjunto desaparecido e toda a responsabilidade pesando nos seus ombros? Olha, se você não estiver preocupado, aí quem vai ficar preocupado sou eu!
— Não foi isso que eu quis dizer. — Macbeth procurou Lady com o olhar, em busca de ajuda, mas, embora estivesse sentada do outro lado do prefeito, ela conversava com uma mulher que era assessora financeira da câmara municipal ou algo assim. — Com licença — disse Macbeth, levantando-se.
Sob um olhar desconfiado e ligeiramente preocupado de Lady, ele seguiu a passos largos até a recepção.
— Me empresta o telefone, Jack.
O recepcionista passou-lhe o telefone, e Macbeth discou o número da central de polícia. Atenderam no quinto toque. Seria um tempo longo ou curto para um cidadão ter uma resposta? Não sabia, nem nunca havia considerado isso. Mas agora teria de pensar nesse tipo de coisa. Também.
— Me coloque em contato com as Patrulhas.
— Ok.
Ouviu que a ligação havia sido transferida, e o telefone do ramal começou a tocar. Olhou para o relógio. Não tinham pressa para atender.
— Nunca vejo você na sala de jogos, Jack.
— Não trabalho mais como crupiê, senhor. Desde... Bem, desde aquela noite, o senhor sabe qual.
— Entendi. Leva um tempo pra superar.
Jack deu de ombros.
— Mas não é só por isso. Na verdade, acho que o cargo de recepcionista combina mais comigo. Então não vejo como uma tragédia.
— Mas o salário de crupiê não é bem maior?
— Se você se sente um peixe fora d’água, não importa quanto ganha. O peixe não consegue respirar e morre ao lado de um saco cheio de dinheiro. Isso sim é uma tragédia, senhor.
Macbeth já ia responder quando uma voz anunciou que sua ligação fora transferida.
— Aqui é o Macbeth. Queria saber se você teve algum relato de tiroteio na Colina dos Enforcados nas últimas horas.
— Não. Por quê? Deveríamos ter tido?
— Um cliente nosso disse que acabou de passar por lá e ouviu um estrondo. Vai ver foi só um pneu que estourou.
— É, deve ter sido.
— Então não tem nenhuma ocorrência no Distrito 2 Oeste?
— Só um arrombamento em uma joalheria, senhor. A viatura mais próxima estava muito distante, mas estamos indo pra lá agora.
— Entendi. Bem, boa noite então.
— Pro senhor também, inspetor.
Desligou. Macbeth baixou o olhar para o tapete, para a estranha tapeçaria, as formas de flores. Nunca prestara atenção naquele desenho, mas agora era como se quisesse lhe dizer alguma coisa.
— Senhor?
Macbeth ergueu o olhar. Jack parecia preocupado.
— Senhor, seu nariz está sangrando.
Macbeth levou a mão ao rosto e, percebendo que o recepcionista tinha razão, correu para o banheiro.
Banquo acelerava pela estrada principal. O vento uivava lá fora, passando pelo buraco deixado pela porta arrancada. Passaram diante do Obelisco. Não faltava muito para chegarem à Estação Central.
— Está vendo eles?
Fleance respondeu alguma coisa.
— Mais alto!
— Não.
Banquo não escutava nada do ouvido direito, fosse porque o canal auditivo estivesse coberto de sangue, fosse porque a bala tivesse destruído também sua audição. No entanto, não era esse tiro que o incomodava. Olhou para o medidor de gasolina e notou que o ponteiro havia descido abruptamente nos últimos quatro ou cinco minutos, desde que saíram da área do shopping. As metralhadoras podiam ter soado inofensivas, mas tinham esburacado o tanque. Mas tampouco eram esses tiros que o incomodavam, pois tinham gasolina suficiente para chegar ao Inverness.
— Quem são eles, pai? Por que estão atrás da gente?
Ali, logo ali na frente deles, via-se a Central.
— Não sei, Fleance.
Banquo se concentrava na estrada. E em respirar. Precisava respirar, fazer com que o ar entrasse nos pulmões. Siga em frente. Siga em frente até que Fleance esteja a salvo. Era isso, só isso o que importava. Não estava nem aí para o asfalto que havia começado a embaçar diante dele, ou a bala que o atingira.
— Alguém devia saber que viríamos por esse caminho, pai. Os sinais de trânsito desregulados... Isso não é normal. Eles sabiam exatamente quando passaríamos pela Colina dos Enforcados.
Banquo já tinha encontrado uma explicação para isso. Mas nada daquilo importava no momento. O importante agora é que haviam passado pela Central e que as luzes do Inverness estavam acesas mais à frente. Estacionar na entrada, levar Fleance para dentro.
— Estou vendo eles agora, pai. Estão a uns duzentos metros.
Mais do que suficiente, se não encontrassem nenhum impedimento. Ele deveria ter no carro o giroscópio de luz azul e a sirene. Banquo olhou para o Inverness. O cassino estava todo iluminado. Conseguiria atravessar a praça num piscar de olhos. As sirenes. Algo ficou entalado em sua garganta. Em sua mente.
— Você ouviu alguma sirene, Fleance?
— Quê?
— Sirenes. Carros da patrulha. Ouviu sirenes se dirigindo à joalheria?
— Não.
— Tem certeza? Sempre tem dezenas de patrulhas no Distrito 2 Oeste.
— Certeza absoluta.
Banquo sentiu a dor e a escuridão chegarem.
— Não — sussurrou. — Não, Macbeth, meu menino...
Agarrou o volante e deu uma guinada à esquerda.
— Pai! Esse não é o caminho pro Inverness.
Banquo meteu a mão na buzina do Volvo, ultrapassou o carro da frente e acelerou. A dor paralisante das costas começava a irradiar para o peito. Logo não conseguiria mais manter a mão direita ao volante. Provavelmente a bala não tinha feito um grande buraco no assento, mas o tinha atingido. E esse era o tiro que o preocupava.
Diante deles, nada além do terminal de contêineres, o mar e a escuridão.
Mas havia uma última chance.
Macbeth examinou o rosto no espelho acima da pia. O sangramento havia estancado, mas ele sabia o que significava. A mucosa do nariz estava ferida, e ele teria de parar com a brew por um tempo. Era diferente de quando mais jovem: o corpo aguentava qualquer dose de flagelo. Mas, agora, caso insistisse, o nariz ficaria dolorido e sangraria, e sua mente começaria a girar e a rodar até a cabeça se desatarraxar do pescoço. Precisava dar uma parada. Então por que, enquanto chegava a essa conclusão, ele pegou uma nota, fez dela um rolinho e a posicionou ao final de uma carreira de pó em cima da pia? Porque aquilo era uma exceção. Era o momento crítico, quando mais precisava. Precisava da droga para encarar, de um lado, o prefeito obeso e pervertido e, do outro, a gangue Norse Rider, que dava a impressão de não ter conseguido cumprir o trato. E ainda havia Lady. Não, ela não era um problema, ela era o alfa e o ômega, seu nascimento, sua vida e sua morte. Sua razão de ser. Mas, assim como o amor entre eles podia lhe trazer uma alegria imensa, Macbeth também podia sentir dor ao pensar no que lhe poderia ser tirado: o poder dela agora consistia em não amá-lo tanto quanto em amá-lo. Ele inalou, fungou com força, sugando a brew para o cérebro, até a parte interna do couro cabeludo, ou assim parecia. Novamente, olhou-se no espelho. Seu rosto se contorceu e as feições mudaram. Os cabelos ficaram brancos. Os lábios se tornaram vermelhos como os de uma mulher. Uma cicatriz atravessou seu rosto. Novos queixos cresceram sob o seu. Os olhos se encheram de lágrimas que escorreram. Tinha de parar. Vira pessoas que tinham inalado tanto que acabaram tendo de usar próteses nasais. Era preciso parar enquanto ainda havia tempo, enquanto ainda havia algo para ser salvo. Tinha de passar para a seringa.
O sargento viu as lanternas traseiras do Volvo se aproximando. Acelerou sabendo que os outros teriam dificuldade para manter o mesmo ritmo, muito embora seu motor tivesse apenas 450 cilindradas. Na pista molhada e oleosa, experiência e sensatez eram mais importantes para a aderência ao asfalto do que a potência do motor. Foi então, com surpresa, que viu pelo retrovisor uma moto se aproximar a toda a velocidade. E, mesmo sem acreditar nos próprios olhos, ele a reconheceu. E reconheceu o capacete do motociclista. A Indian Chief vermelha passou tão rente que por pouco a ponta de um chifre não o arranhou. O farol de sua moto iluminou o sabre quando a Indian Chief o ultrapassou. De onde ele tinha vindo? Como ficara sabendo? Como ele sempre sabia quando precisavam dele? O sargento diminuiu a marcha. Deu passagem para que Sweno fosse à frente e os liderasse.
Banquo fez o mesmo trajeto usado na perseguição ao caminhão russo, realizando algumas ultrapassagens imprudentes e aumentando por alguns instantes a distância entre eles e as motos. Logo eles tornariam a alcançá-los, mas talvez ainda houvesse tempo. Havia uma barreira na entrada do túnel com uma placa avisando que a ponte estava fechada para reparos. Estilhaços voaram quando a frente do Volvo bateu nessa barreira e os faróis abriram um rombo na escuridão do túnel. Ele dirigia com uma das mãos ao volante; a outra jazia em seu colo como a mão de um cadáver. Já podiam enxergar a saída quando ouviram o ladrar furioso dos motores dos Norse Riders entrando no túnel atrás deles.
Banquo freou ao se aproximar da curva acentuada de acesso à ponte e depois tornou a acelerar.
E logo foram recebidos pelo súbito silêncio da noite, sob um céu claro e um luar que fazia o rio brilhar como cobre, bem abaixo deles. Tudo que se ouvia era o motor do Volvo operando no máximo. E a borracha dos pneus cantando no asfalto quando Banquo freou subitamente no meio da ponte onde antigamente havia a estátua de Kenneth e entrou no acostamento onde a brisa agitava a fita vermelha da Highway Agency para isolamento do local onde o ZIS-5 havia mergulhado levando consigo a grade de proteção. Perplexo, Fleance se virou para o pai, que acabara de botar o carro em ponto morto. Banquo se inclinou sobre o filho com um canivete e cortou o cinto de segurança defeituoso.
— O que...?
— Estamos com um vazamento, meu filho. Daqui a pouco vamos ficar sem gasolina, então me escuta. Nunca fui muito de dar sermão, você sabe disso, mas quero te dizer uma coisa... — Banquo se recostou à porta ao seu lado, ergueu os joelhos e girou no assento da mesma maneira que Fleance havia feito. — Você pode ser o que quiser, Fleance. Então não seja o que eu fui. Não seja um lacaio pros lacaios.
— Pai...
— E caia sempre em pé.
Ele apoiou a sola dos sapatos no quadril e no ombro do filho, viu Fleance tentar se agarrar a alguma coisa e depois o empurrou com todas as suas forças. O filho gritou, implorou, apavorado como ao nascer, mas então se viu lá fora, o último cordão umbilical cortado, sozinho no mundo, em queda livre em direção ao seu destino.
Banquo gemeu de dor ao se virar, engatar o carro e acelerar em direção ao próprio destino.
Quando a gasolina acabou, três quilômetros depois de sair da ponte, já tinham quase o alcançado. O carro ainda percorreu os últimos metros. Banquo se sentia zonzo, sonolento, e recostou a cabeça para trás. Um calafrio se espalhou por suas costas e pelo seu estômago, irradiando para o coração. Ele pensou em Vera. E, quando finalmente choveu naquele lado do túnel, foi chuva de chumbo. Chumbo que perfurou carroceria, os assentos e o corpo de Banquo. Ele olhou pela janela, para a encosta da montanha. E, quase no topo, viu aquilo que parecia um tributo ao mal, quando visto da cidade. Mas, dali, era uma cruz cristã brilhando ao luar. Estava tão perto. Mostrava o caminho. O portão estava aberto.
— Uma ascensão planejada — murmurou Banquo. Uma ascen...