Macbeth
Capítulo 7
Lady observou Macbeth: como ele ficava charmoso de smoking... Então se virou e conferiu se o garçom tinha colocado luvas brancas, como ela ordenara. E se as taças de champanhe na bandeja de prata eram as altas e finas. Resolvera acrescentar na bandeja, mais como uma brincadeira secreta, um elegante mexedor de prata, embora soubesse que seriam poucos os que já tivessem visto um daquele e menos ainda os que soubessem para que servia. Com os pés afundando no espesso carpete do Inverness, Macbeth se remexia ligeiramente e tinha os olhos pregados na porta. Havia passado o dia inteiro meio nervoso. Só quando os dois repassaram os detalhes práticos do plano é que ele recobrou a concentração, voltando a ser o agente de um grupo policial de elite especializado em reações rápidas e esquecendo que seu alvo tinha um nome. Duncan. Quando os seguranças lá fora abriram a porta, uma rajada de vento trouxe a chuva para dentro. Os primeiros convidados. Lady acionou seu mais feliz e empolgado sorriso. Meteu a mão sob o braço de Macbeth e o sentiu aprumar-se por instinto. — Banquo, meu velho amigo! — chamou ela. — E trouxe o Fleance! Que belo jovem ele está se tornando. Ainda bem que não tenho nenhuma filha! — Abraços e taças brindando. — Lennox! Precisamos ter uma conversinha, mas, antes, champanhe. Caithness! Você está divina, minha querida! Por que não consigo encontrar vestidos como esse seu? Comissário-chefe adjunto! Malcolm, o título do seu cargo é simplesmente longo demais. Tudo bem se eu chamar você apenas de chefe? Não espalhe, mas às vezes peço ao Macbeth que me chame de diretora-geral, só para sentir como soa.
Ela mal havia trocado algumas palavras com a maioria deles, mas conseguiu fazê-los se sentir como se tivessem uma relação de anos. Porque enxergava dentro deles, via como gostariam de ser vistos — dentre todas as suas maldições, tinha a bênção da hipersensibilidade. Isso significava que podia ignorar os desacertos do preâmbulo e ir direto ao epílogo. Talvez fosse seu jeito despretensioso que os fizesse confiar nela. Lady quebrava o gelo revelando-lhes detalhes aparentemente íntimos de sua vida, o que lhes estimulava a ousadia, e, quando percebiam que seus pequenos segredos eram recompensados com um “Ah!” e uma risadinha conspiratória, arriscavam confissões um pouco mais íntimas. Era pouco provável que alguém naquela cidade soubesse mais sobre seus moradores do que a anfitriã dessa noite.
— Comissário-chefe Duncan!
— Lady. Perdoe meu atraso.
— Imagina. Nós é que temos o privilégio de contar com a sua presença. Não queremos um comissário-chefe que seja o primeiro a chegar. Faço questão de chegar sempre depois da hora, no caso de alguém ter dúvidas quanto a quem é a rainha.
Duncan riu com comedimento, e ela pousou a mão em seu braço.
— Você está rindo. Bom, então, pra mim, a noite já é um sucesso. Mesmo assim, experimente nosso champanhe especial, querido comissário-chefe. Imagino que seus seguranças não...
— Não, provavelmente vão trabalhar a noite toda.
— A noite toda?
— Quem ameaça Hécate publicamente precisa dormir com pelo menos um olho aberto. Eu durmo com dois pares abertos.
— A propósito, seus seguranças estão em um quarto adjacente à sua suíte, com uma porta de comunicação, conforme eles solicitaram. As chaves estão na recepção. Mas eu insisto que eles pelo menos provem a limonada da casa, que juro que não foi feita com a água potável local.
Ela chamou um garçom que levava dois copos em uma bandeja.
— Nós... — começou um dos seguranças, pigarreando.
— Se recusarem, vou levar pro lado pessoal — cortou Lady.
Os seguranças trocaram olhares com Duncan, e em seguida cada um pegou um copo, bebeu todo o conteúdo e o devolveu à bandeja.
— Muito magnânimo da sua parte oferecer essa festa, senhora — disse Duncan.
— É o mínimo que posso fazer depois de você ter nomeado meu marido chefe da nova unidade.
— Marido? Eu não sabia que vocês eram casados.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Você é do tipo que se atém às formalidades, comissário?
— Se por formalidade você quer dizer regras, eu diria que sim. É da natureza do meu trabalho. Assim como do seu, presumo.
— O sucesso ou o fracasso de um cassino depende de todos entenderem que as regras se aplicam a todos os casos, sem exceção.
— Devo confessar que nunca pisei em um cassino antes. Sei que você tem suas obrigações como anfitriã, mas posso pedir uma rapidíssima visita guiada quando lhe convier?
— Com todo o prazer. — Lady sorriu e lhe deu o braço. — Vamos.
Ela o levou pelas escadas até o mezanino. Se os olhos e os mais recônditos pensamentos de Duncan se sentiram atraídos pelo decote profundo de seu vestido enquanto ela avançava, não transpareceu. Postaram-se na balaustrada. Era uma noite tranquila. Quatro apostadores na mesa de roleta; as mesas de blackjack vazias; quatro jogadores de pôquer à mesa logo abaixo. Os convidados da festa haviam se reunido no bar, ocupado quase que exclusivamente por eles. Lady notou que Macbeth dava sinais de nervosismo ao mexer sem parar no copo de água. Estava ao lado de Malcolm e Lennox, tentando dar a impressão de estar atento à conversa.
— Doze anos antes, esse prédio não passava de ruínas vandalizadas e repletas de infiltrações. Foi o que a administração da ferrovia deixou pra trás. Como você sabe, somos o único município do país que permite a instalação de cassinos.
— Graças ao comissário-chefe Kenneth.
— Graças à sua alma degenerada. Nossa mesa de roleta segue o modelo de Monte Carlo. Você pode apostar em casas idênticas nos dois lados da roleta, que é feita basicamente de mogno, um pouco de jacarandá e marfim.
— Sinceramente, é incrível o que você criou aqui, Lady.
— Obrigada, comissário, mas foi a um custo bem alto.
— Compreendo. Às vezes a gente se pergunta o que motiva a nós, humanos.
— Então me diga o que o motiva.
— A mim? — Ele ponderou por alguns segundos. — A esperança de que um dia essa cidade venha a ser um bom lugar pra se viver.
— Por trás disso. Por trás das boas razões que podemos enunciar com facilidade. Quais são suas razões egoístas e emocionais? Qual é o motivo sombrio, aquele que sussurra no seu ouvido à noite e assombra você depois de feitos todos os discursos festivos?
— É uma pergunta incisiva, Lady.
— É a única pergunta, meu caro comissário-chefe.
— Talvez. — Ele girou os ombros por baixo do paletó do smoking. — E talvez eu não precise de uma motivação tão forte. Recebi cartas boas, pois nasci em uma família com bons recursos, em que educação, ambição e carreira eram algo natural, costumeiro. Meu pai era uma pessoa franca e discutia abertamente sobre a corrupção no setor público. Provavelmente por isso não foi muito longe na carreira. Acho que continuei de onde ele parou e aprendi com os erros estratégicos que ele cometeu. A política é a arte do possível, e às vezes é preciso usar da maldade pra derrubar a maldade. Faço tudo que preciso fazer. A imprensa gosta de me retratar como santo, mas estou longe disso.
— Os santos conseguem pouco além de serem canonizados. Sou mais adepta do seu estilo tático, comissário. Sempre fui por esse caminho.
— Posso entender. Embora não conheça detalhes da sua vida, sei que precisou percorrer um caminho mais longo e mais íngreme que eu.
Lady deu uma risada.
— Você vai me encontrar nas pastas desbotadas dos seus arquivos. A profissão mais antiga do mundo foi o que me sustentou por alguns anos, isso não é nenhum segredo. Mas todos nós temos um passado. Como você disse, todos fizemos o que foi preciso. O comissário gosta de apostas? Será por cortesia da casa essa noite.
— Obrigado pela generosidade, Lady, mas quebraria minhas regras se aceitasse.
— Mesmo como uma pessoa privada?
— Quando você se torna comissário-chefe, sua vida privada deixa de existir. Além do mais, não é do meu feitio jogar, senhora. Prefiro, em vez de confiar nos deuses do destino, fazer por merecer meus ganhos.
— Mas, como você mesmo disse, chegou aonde chegou porque os deuses do destino te deram boas cartas ao nascer.
Ele sorriu.
— Eu disse prefiro. Na vida, ou a gente joga com as cartas que tem, ou se retira do jogo.
— Posso te fazer uma pergunta, comissário? Por que está sorrindo?
— Por causa da sua pergunta, senhora. Acho que você vai perguntar de qualquer modo.
— O que eu queria dizer, meu caro Duncan, é que acho você uma pessoa muito correta. Um homem com espinha dorsal, e respeito quem você é e os princípios que advoga. Especialmente por ter ousado dar a alguém novo em folha como Macbeth uma posição proeminente na sua equipe gerencial.
— Obrigado, senhora. Macbeth só tem a agradecer a si mesmo.
— Essa nomeação faz parte da sua campanha anticorrupção?
— A corrupção é como um percevejo: às vezes temos que demolir a casa inteira pra nos livrarmos da praga. E reconstruí-la com material não infectado. Como Macbeth. Ele não está infectado porque não fazia parte do sistema.
— Ao contrário do Cawdor.
— Ao contrário do Cawdor.
— Sei quanto custa retirar a carne infectada. Tive dois funcionários desleais. — Ela se inclinou por cima do parapeito e apontou para a mesa de roleta. — Cheguei a chorar ao despedi-los. Ser tentado pelo dinheiro e pela riqueza é uma fraqueza humana muito comum. Eu fui coração mole. Em vez de esmagar os percevejos com o pé, deixei que eles fossem embora. E o que ganhei com isso? Eles usaram as minhas ideias, a expertise que eu lhes dei e provavelmente o dinheiro que roubaram de mim pra abrir um estabelecimento suspeito que não apenas está destruindo a reputação da indústria como também tirando o pão da mesa das pessoas que montaram esse negócio, de nós. Se você expulsa os percevejos, eles voltam. Eu devia ter feito como você, comissário.
— Como eu?
— Como fez com o Cawdor.
— Eu não podia deixar que ele saísse impune depois de se associar ao Sweno.
— Você soube como agir. Afinal, tudo que tinha contra ele era o testemunho de um Norse Rider que até o juiz ou o jurado mais despreparado sabia que estaria disposto a confessar qualquer coisa pra se livrar da prisão. Cawdor poderia ter saído ileso.
— Tínhamos um pouco mais que isso, senhora.
— Mas não o bastante pra uma condenação incontestável. O percevejo, nesse caso, poderia ter voltado. E o escândalo teria se arrastado indefinidamente. Seria um processo judicial infernal, com tanta merda jogada no ventilador que ficariam manchas pra todos os lados. Não exatamente o melhor dos cenários pra uma polícia que está tentando recuperar a confiança da sociedade. Você tem meu total apoio, comissário. Precisa esmagá-los. É só pisar com força e acabará de vez com eles.
Duncan sorriu.
— Que análise detalhada! Só espero que não esteja sugerindo que eu tive algo a ver com a morte prematura do Cawdor, senhora.
— Não, Deus me livre. — Ela pousou a mão no braço dele. — Estou apenas repetindo o que Banquo sempre diz: há várias maneiras de se esfolar um gato.
— Tais como?
— Hum... Tal como ligar pra avisar que o Julgamento Final está chegando. Que as evidências são tão irrefutáveis que em questão de minutos o GOE vai bater à sua porta, e ele será humilhado publicamente, perderá todas as suas honras, seu nome será arrastado pela lama e execrado em praça pública. Ele só tem alguns minutos.
Duncan ficou examinando a mesa de pôquer lá embaixo.
— Se eu tivesse um binóculo — disse ele —, conseguiria ver as cartas deles.
— Com certeza.
— Onde conseguiu seu binóculo, senhora? Foi um presente ao nascer?
Ela riu.
— Não, tive que pagar por eles. Com experiências de vida. Não saiu barato.
— Claro que eu não disse nada, mas Cawdor serviu na polícia por muitos anos. E, como a maioria das pessoas, não era nem cem por cento bom nem cem por cento ruim. Talvez ele merecesse, talvez a família dele merecesse que ele mesmo pudesse escolher de que jeito se retirar.
— Você é mais nobre que eu, comissário. Eu teria feito o mesmo, mas por razões puramente egoístas. Santé!
Eles ergueram as taças e brindaram.
— Falando sobre binóculos — disse Lady, indicando com a cabeça o pessoal no bar. — Dá pra ver que o inspetor Duff e a jovem Caithness têm suas antenas sintonizadas.
— Ah, é? — Duncan ergueu as sobrancelhas. — Eles estão em lados opostos do bar, pelo que consigo ver.
— Exatamente. Estão mantendo o máximo de distância. Mas a cada 15 minutos olham pra ver onde o outro está.
— Pouca coisa escapa à sua visão, hein?
— Eu vi alguma coisa quando perguntei a você quais eram seus motivos sombrios e egoístas.
Duncan riu.
— Também consegue ver no escuro?
— Essa minha percepção foi herdada, comissário. Durante o sono, eu me levanto e ando na escuridão total sem me machucar.
— Suponho que o motivo pro mais nobre ato de caridade possa ser qualificado como egoísmo, mas minha visão simplista é que os fins justificam a motivação.
— Então você quer uma estátua como a do Kenneth? Ou quer o amor das pessoas, que foi o que ele não teve?
Duncan sustentou o olhar dela, conferiu se os seguranças atrás deles permaneciam fora do alcance de suas vozes, terminou sua bebida e tossiu.
— Quero ficar em paz com minha consciência, senhora. Quero a satisfação de ter cumprido meu dever. De ter mantido e aprimorado a casa dos meus antepassados, por assim dizer. Sei que é perverso, então não conte a ninguém.
Lady respirou fundo, afastou-se da balaustrada e exibiu um grande e alegre sorriso.
— Mas o que a sua anfitriã está fazendo interrogando seus convidados, quando isso deveria ser uma festa! Vamos descer e nos juntar aos outros? Depois vou à adega pegar a garrafa que venho guardando pra uma ocasião como essa.
Despois de ter sobrevivido à arrastada análise de Malcolm sobre as lacunas nas novas regras de tributação, Duff inventou uma desculpa e foi sentar-se ao balcão do bar para se recompensar com um uísque.
— E então? — disse alguém atrás dele. — Como foi seu dia longe da família?
— Bom, obrigado — respondeu ele, sem se virar.
Dirigindo-se ao garçom, apontou para uma garrafa e ergueu dois dedos, mostrando que queria uma dose dupla.
— E hoje? — perguntou Caithness. — Ainda quer passar a noite no... no hotel?
O código para a cama dela. Mas ele sentiu que a pergunta não se resumia àquela noite, mas às noites futuras. Ela queria que ele repetisse o velho refrão: queria a certeza de que ele a desejava, de que não pretendia voltar para sua família em Fife. Mas isso tudo demandava tempo, e havia muitas questões a considerar. Ele não entendia como Caithness podia não saber, como podia duvidar que era isso o que ele realmente desejava. Talvez por isso ele respondeu, em tom de provocação, que lhe tinha sido oferecido um quarto no cassino.
— É o que você quer? Ficar aqui?
Duff suspirou. O que as mulheres queriam? Será que todas iriam amarrá-lo, acorrentá-lo à cabeceira da cama e alimentá-lo de modo que pudessem sugar sua conta bancária e seus testículos para sobrecarregá-lo com mais prole e culpa na consciência?
— Não — respondeu ele, com os olhos em Macbeth. Considerando que ele era o centro da festa, era estranho parecer aflito e pouco à vontade. Será que a responsabilidade e a importância de seu novo cargo já intimidavam o rapazola feliz e despreocupado que habitava nele? Bem, agora era tarde demais, tanto para Macbeth como para si próprio. — Vai na frente, vou daqui a pouco.
Ele sentiu que ela hesitava, atrás dele. Encontrou seu olhar no espelho atrás das prateleiras de bebidas. Viu que ela fazia menção de tocá-lo. Repreendeu-a com um olhar. Ela desistiu. E foi embora. Céus.
Duff meteu a bebida para dentro num gole só. Então se levantou e foi até Macbeth, que estava apoiado na ponta do balcão. Hora de cumprimentá-lo corretamente. Mas Duncan se colocou entre eles. Outros se achegaram, e Macbeth foi engolfado pela aglomeração. E, quando Duff o viu de novo, Macbeth estava indo embora, correndo atrás do rabo da saia de Lady, que ele viu saindo do salão.
Macbeth foi dar com Lady quando ela abria a adega.
— Não posso — disse ele.
— O quê?
— Não posso matar meu comissário-chefe.
Ela o encarou.
Segurou-o pelas lapelas do paletó, puxou-o para dentro e fechou a porta.
— Não me decepcione agora, Macbeth. Duncan e seus guardas estão instalados em seus quartos. Está tudo pronto. A chave mestra está com você, não está?
Macbeth pegou a chave no bolso.
— Toma. Não posso fazer isso.
— Não pode ou não vai fazer?
— Os dois. Não vou fazer porque não consigo reunir coragem pra tal vilania. É errado. Duncan é um bom comissário-chefe, e não há nada que eu possa fazer melhor do que ele, então qual é o propósito, além de alimentar minha ambição?
— Nossa ambição! Porque, afora fome, frio e luxúria, não há nada além da ambição, Macbeth. Porque a honra é a chave pro respeito. E aí está a chave mestra. Use-a!
Ela ainda o segurava pelas lapelas, a boca tão perto da dele que Macbeth sentia o gosto da fúria em seu hálito.
— Querida...
— Não! Se você acha que Duncan é tão honrado, escute como ele matou Cawdor pra se proteger das revelações embaraçosas que ele poderia ter vazado, caso tivesse sobrevivido.
— Isso não é verdade!
— Pergunte pra ele.
— Você só está dizendo isso pra... pra...
— Pra fortalecer sua determinação — completou ela, soltando-o e colocando as mãos com firmeza no peito dele, como se lhe sentisse o coração. — Apenas pense que vai matar um assassino, da mesma forma que matou o Norse Rider. Assim será fácil.
— Eu não quero que seja fácil.
— Se são seus princípios morais que estão atrapalhando você, lembre-se de que está obrigado a cumprir a promessa que me fez ontem à noite, Macbeth. Ou está tentando me dizer que aquilo que vi e interpretei como coragem quando você matou Ernest Collum não passava de imprudência de um jovem porque não era sua própria vida que estava em jogo, mas a do meu crupiê? E, agora, quando tem que se expor ao risco, foge como uma hiena covarde.
Eram palavras injustas, mas alcançaram o efeito desejado.
— Você sabe que não é isso — disse ele, em desespero.
— Então como não consegue cumprir a promessa que me fez, Macbeth?
Ele engoliu em seco. Buscou freneticamente por palavras.
— Eu... Você pode afirmar que cumpre todas as suas promessas?
— Eu? Eu? — Ela soltou uma risada aguda de assombro. — Pra manter uma promessa que fiz a mim mesma, arranquei do meu peito a filha que mamava e esmaguei a cabeça dela na parede. Como poderia quebrar uma promessa feita a você, meu único amor?
Macbeth ficou parado, olhando para ela. Inalava seu hálito, seu hálito venenoso. Sentia que o enfraquecia, segundo a segundo.
— Mas você não percebe que, se isso der errado, Duncan vai cortar a sua cabeça também?
— Não vai dar errado. Preste atenção: vou dar uma taça desse borgonha ao Duncan e vou insistir pra que os seguranças dele pelo menos provem. Eles não vão perceber nada de diferente, mas podem ficar um pouco confusos com o cair da noite. E vão dormir como uma pedra ao se deitarem...
— Sim, mas...
— Shh! Você vai usar suas adagas, não há a menor chance de eles acordarem. Quando terminar, esfregue o sangue das lâminas nas roupas dos guardas e largue as adagas em suas camas. E mais tarde, quando você for acordá-los...
— Eu me lembro perfeitamente do seu plano. Mas tem pontos fracos, e...
— O plano é seu, meu amor — disse ela, agarrando o queixo dele e mordendo com força o lóbulo de sua orelha. — E é perfeito. Todos vão concluir que os guardas foram comprados pelo Hécate, que apenas estavam bêbados demais pra esconder as provas do crime.
Macbeth cerrou os olhos.
— Você é a fêmea alfa.
Lady deu uma risadinha baixa. Beijou-o no pescoço.
Macbeth segurou-a pelos ombros e a afastou.
— Você será minha morte, Lady, sabia?
Ela sorriu.
— E você sabe que, aonde quer que vá, eu vou também.