Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 46 de 50

Páginas do PDF

Macbeth

Capítulo 43

 

Os sinos da igreja badalavam ao longe. O garoto caolho no terminal de passageiros da Estação Central contemplava a luz do dia. Era uma visão notável. Antes, a Bertha sempre bloqueara a vista para o Inverness, mas agora a velha locomotiva abrira um buraco na fachada do cassino. Mesmo sob aquele sol forte, dava para ver as luzes rotativas azuis no teto das viaturas e os flashes dos fotógrafos. As pessoas tinham corrido para a praça, e às vezes também era possível notar o brilho de um flash atrás das janelas do Inverness. Devia ser a Perícia tirando fotografia dos mortos.

O garoto se virou e seguiu pelo corredor. Ao se aproximar da escada que ia dar no banheiro, ouviu um barulho. Um uivo baixo e contínuo, como o de um cachorro. Tinha escutado isso antes, de um viciado sem grana que acabara sem droga. Espiou por cima do corrimão e viu pedaços de roupa clara brilhando na escuridão fétida. Estava prestes a ir embora quando ouviu um clamor, parecido com um grito:

— Espera! Não vai! Eu tenho dinheiro!

— Foi mal, vovô. Eu não tenho droga e você não tem dinheiro. Tenha um péssimo dia.

— Mas eu tenho o seu olho!

O menino congelou. Voltou até o corrimão. Olhou para baixo. Aquela voz. Seria mesmo...? Foi até a escada e olhou ao redor. Não havia mais ninguém ali. Então desceu para a escuridão úmida e fria. O fedor piorava a cada degrau.

O homem estava deitado ao comprido debaixo do limiar da porta do banheiro masculino. Vestia o que talvez, algum dia, tivesse sido um terno de linho branco. Agora era um emaranhado de farrapos encharcados de sangue. Igual ao homem. Um maltrapilho coberto de sangue. Um caco de vidro triangular se projetava da testa sob a franja escura. E lá estava a bengala com castão dourado. Era ele mesmo! O homem que ele vinha procurando todos aqueles anos. Hécate. Aos poucos, o olho do menino se adaptou à escuridão, e ele viu a ferida aberta, um corte que ia da barriga ao peito. E saía sangue, mas não muito, como se estivesse secando. Entre uma e outra golfada de sangue, ele chegou a ver o asqueroso intestino rosado.

— Acabe com o meu sofrimento — pediu o velho, numa voz esganiçada. — Pode ficar com o dinheiro que tenho no bolso.

O menino olhou para o homem. O homem de todos os seus sonhos, suas fantasias.

Lágrimas de dor escorriam pelas bochechas molengas do velho. Se o garoto quisesse, poderia sacar o canivete que usava para picar pó, o de lâmina curta, que uma vez removera um olho da órbita. E poderia cravá-lo no velho. Seria uma espécie de justiça poética.

— Tem um buraco no seu estômago? — perguntou o menino, remexendo nos bolsos do paletó do velho. — Tá indo ácido gástrico pra dentro da ferida? — Ele examinou o conteúdo da carteira.

— Rápido! — soluçou o velho.

— Macbeth morreu — disse o menino, contando rapidamente as notas. — Você acha que isso faz do mundo um lugar melhor?

— O quê?

— Acha que os próximos vão ser melhores, mais justos ou mais compreensivos? Existe alguma razão pra pensar que eles vão ser tudo isso?

— Cala a boca, garoto, e acaba logo com isso. Use a bengala, se preferir.

— Se a morte é seu bem mais precioso, Hécate, não vou tirar isso de você como você tirou o meu olho. Sabe por quê?

O velho franziu a testa, encarou-o, e o menino viu sinais de compreensão nos olhos cheios de lágrimas.

— Porque acho que temos capacidade de mudar e de virarmos pessoas melhores — falou o menino, colocando a carteira no bolso da calça rota. — É por isso que eu acho que os substitutos do Macbeth vão ser um pouco melhores. Aos pouquinhos, devagarinho, mas vai melhorar. Um pouco mais humanos. Pensando bem, não é estranho usar a palavra humano pra falar do que é bom e misericordioso? — O menino puxou o canivete e a lâmina saltou fora. — Considerando tudo que fizemos uns aos outros ao longo da história, entende?

— Aqui — gemeu o velho, e apontou para o próprio pescoço. — Rápido.

— Lembra que eu mesmo tive que arrancar o meu olho?

— Quê?

O garoto botou o canivete na mão do homem.

— Faz você mesmo.

— Mas você disse... mais humano... eu não consigo... por favor!

— Aos pouquinhos, devagarinho — disse o menino, levantando-se e dando tapinhas no bolso. — Estamos melhorando, mas não vamos virar santos da noite pro dia, sabe como é.

Os uivos seguiram o menino pela estação, por todo o caminho até ele sair para a gloriosa luz do sol.