Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 14 de 50

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Macbeth

Capítulo 11

 

 

Sentado no porão mal iluminado, Banquo ouvia o vaivém ribombante de Fleance no piso acima. O rapaz queria sair. Encontrar amigos. Talvez uma garota. Seria bom para ele. Deixou a corrente deslizar por entre os dedos. Dissera sim a Macbeth. Por quê? Por que havia cruzado essa fronteira tão facilmente? Teria sido por causa da promessa de Macbeth, de que ele era do povo, para o povo e com o povo, de um jeito que alguém da elite, como Malcolm, jamais poderia ser? Não. Mas simplesmente porque era impossível dizer não quando envolvia um filho. E mais impossível ainda quando envolvia dois. Macbeth explicara que era para seguir um chamado do destino, para abrir caminho para o gabinete do comissário-chefe. Não dissera nada sobre Lady ser o cérebro por trás de tudo. Nem precisava. Macbeth preferia planos simples. Planos que não demandavam muita ponderação em momentos críticos. Banquo cerrou os olhos. Tentou imaginar como seria. Macbeth assumindo o cargo de comissário-chefe e administrando a cidade com mãos de ferro, da forma como Kenneth havia feito, mas com o objetivo sincero de torná-la um lugar melhor para todos os seus habitantes. Se o objetivo é fazer as necessárias e drásticas mudanças, a lentidão da democracia e a liberdade que ela dá à credulidade e à ingenuidade não são boas companheiras. Mãos fortes e equânimes. E então, quando Macbeth estivesse velho demais para a função, deixaria que Fleance assumisse o comando. Até lá, Banquo teria morrido de velhice, feliz. Talvez fosse por isso que não conseguia imaginar isso.

Banquo ouviu a porta da frente bater com violência.

Mas era óbvio, mesmo que visões dessa natureza levassem um tempo para se definir com clareza.

Calçou as luvas.

Eram cinco e meia, e a chuva martelava os paralelepípedos e o para-brisa do Chevelle 454 SS de Malcolm, que seguia o trajeto sinuoso das ruas da cidade. Ele sabia que tinha sido uma estupidez adquirir um beberrão de gasolina em meio à crise do petróleo, mesmo que o tivesse comprado de segunda mão pelo que considerava uma pechincha, mas ainda assim ficava a dever em termos de responsabilidade ambiental. Primeiro perante a filha, que se dedicava ao estudo da ecologia, e também frente a Duncan, que havia enfatizado a importância de os líderes agirem com moderação. Afinal, Malcolm acabou confessando que, desde criancinha, era apaixonado pelos carrões americanos, ao que Duncan comentou que ao menos servia para provar que os economistas também eram humanos.

Não tardou para chegar à sua casa, pois felizmente era domingo e havia pouco trânsito. Tomou um banho e trocou de roupa. Uma concentração de repórteres o aguardava na entrada da central de polícia, sem dúvida à espera de um comentário ou de uma fotografia melhor do que conseguiriam na coletiva das sete e meia. O prefeito, Tourtell, já tinha feito uma aparição na TV para dar uma declaração: “Incompreensível”, “tragédia”, “nossos pensamentos estão com a família” e “a cidade deve ficar unida contra esse mal” — foi basicamente isso o que ele disse, só que de forma bem mais prolixa. Quanto a Malcolm, seu único comentário foi pedir compreensão à imprensa; seu foco estava na investigação, e ele orientou os repórteres a comparecerem à coletiva.

Malcolm desceu a rampa para o estacionamento no subsolo, acenou para o guarda que abriu a cancela e entrou rapidamente. A distância entre sua vaga e o elevador estava em proporção direta à sua posição hierárquica. E, enquanto entrava de ré na vaga, se deu conta de que, do ponto de vista formal, podia ter estacionado na que estava mais próxima.

Estava prestes a tirar a chave de ignição quando a porta do passageiro se abriu e alguém se acomodou no banco traseiro, sentando-se atrás do motorista. Pela primeira vez desde o assassinato de Duncan, teve de encarar de frente um pensamento: com o cargo de comissário-chefe vinha não só uma vaga mais perto do elevador, como também uma ameaça de morte, não importava a hora nem o lugar; segurança era um privilégio concedido àqueles que estacionavam mais afastado.

— Liga o carro — ordenou a pessoa no banco de trás.

Malcolm olhou pelo retrovisor. A pessoa havia se movido tão rápida e silenciosamente que ele só pôde concluir que o treinamento do GOE era eficiente.

— O que está acontecendo, Banquo?

— Descobrimos planos pra um ataque à sua vida, senhor.

— Dentro da central?

— Sim. Dirija devagar, por favor. Temos que sair daqui. Ainda não sabemos quem está envolvido, mas presumimos que sejam as mesmas pessoas que mataram Duncan.

Malcolm sabia que deveria estar com medo. E estava. Mas não tanto quanto poderia. Em geral, eram as situações triviais — como estar no alto de uma escada dobrável ou rodeado de vespas iradas — que tinham o poder de desencadear reações patéticas semelhantes a um ataque de pânico. Mas, agora, naquela manhã, era como se a situação não permitisse esse tipo de medo. Muito pelo contrário: aguçava sua capacidade de pensar rápido e racionalmente, fortalecia sua determinação e, paradoxalmente, o acalmava.

— Se isso for verdade, como vou saber que você não é uma delas, Banquo?

— Se eu quisesse te matar, você já estaria morto, senhor.

Malcolm assentiu. Algo no tom de voz de Banquo lhe disse que aquele homem, menor e muito mais velho, provavelmente teria sido capaz de matá-lo com as próprias mãos, se assim o desejasse.

— Então pra onde estamos indo?

— Pro terminal de contêineres, senhor.

— Por que não pra casa, pra...

— Não vamos envolver sua família nisso, senhor. Eu explico quando chegarmos lá. Dirija. Vou me abaixar no banco. Melhor que ninguém me veja, pra não saberem que o senhor foi informado.

Malcolm se dirigiu à saída do estacionamento, recebeu um aceno do guarda, a cancela foi levantada, e então se viu de volta na chuva.

— Tenho uma reunião em...

— Vamos cuidar disso.

— E a coletiva de imprensa?

— Também. No momento, o senhor deve pensar em si mesmo. E na sua filha.

— Na Julia?

Agora Malcolm sentia. O pânico.

— Ela vai receber todos os cuidados, senhor. Agora só dirija. Vamos chegar rápido.

— O que vamos fazer?

— Tudo que tem que ser feito

Cinco minutos depois, eles cruzaram o portão do terminal de contêineres, que nos últimos anos vinha sendo deixado aberto, já que todas as tentativas de manter os mendigos e ladrões do lado de fora só tiveram como resultado cercas tombadas e fechaduras arrancadas. Era domingo, e o local estava deserto.

— Para o carro atrás daquele barracão ali — ordenou Banquo.

Malcolm seguiu as instruções, estacionando ao lado de um sedã da Volvo.

— Assina isso — disse Banquo, estendendo papel e caneta no vão entre os bancos da frente.

— O que é isso?

— Algumas linhas escritas em sua máquina de escrever. Pode ler em voz alta.

— Os Norse Riders ameaçaram matar minha filha...

Malcolm parou.

— Continua.

Malcolm pigarreou.

— ... Julia, caso eu não os ajudasse a matar o comissário-chefe — leu ele. — Mas agora eles me têm em suas mãos e querem me obrigar a fazer outros serviços para eles. Compreendo que, enquanto eu estiver vivo, minha filha estará correndo perigo. É por isso, e também pela vergonha por ter feito o que fiz, que decidi me afogar.

— Isso é verdade — disse Banquo. — Apenas a sua assinatura nessa carta pode salvar a sua filha.

Malcolm se virou para Banquo. Deu de cara com a boca do cano da arma que ele segurava com a mão enluvada.

— Não há nenhum atentado contra a minha vida. Você mentiu.

— Sim e não.

— Você me enganou pra me trazer até aqui, me matar e me atirar no canal.

— Você vai se jogar, conforme diz a carta.

— E por que eu faria isso?

— Porque, se não fizer, dou um tiro na sua cabeça agora, vou até a sua casa e a carta de suicídio fica assim. — Banquo lhe entregou outro papel. — Apenas o final foi alterado.

— Enquanto minha filha e eu estivermos vivos, estaremos sob ameaça. Por isso decidi tirar nossas vidas, para poupá-la da vergonha pelo que fiz e de uma vida de medo sem fim.

Malcolm fechou os olhos. Ele entendia as palavras, elas faziam sentido, mas ainda assim foi preciso reler a carta.

— Assina, Malcolm. — A voz de Banquo soava quase reconfortante.

Malcolm fechou os olhos. Estava tão silencioso no carro que ele ouvia os estalidos da mola do gatilho da arma de Banquo. Por fim, abriu os olhos, pegou a caneta e assinou seu nome na primeira carta. Um retinir de metal no banco de trás.

— Toma — falou Banquo. — Passa em volta da cintura, por baixo do paletó.

Malcolm avaliou as correntes de pneu para neve que Banquo lhe entregava. Um lastro.

Envolveu-as em torno da cintura enquanto seu cérebro buscava uma saída.

— Deixa eu ver — disse Banquo, ajustando mais as correntes.

Então passou um cadeado e o fechou. Botou a carta assinada no banco do passageiro e, por cima, uma chave que Malcolm supôs que fosse do cadeado.

— Vem.

Saíram para a chuva. Com a arma, Banquo incitava Malcolm a seguir ao longo da beirada do cais que acompanhava um canal estreito margeando as docas principais. Os contêineres eram como paredões nas duas margens do canal. Mesmo se alguém estivesse caminhando no cais, não os veria.

— Para aqui.

Malcolm olhou para o negrume do mar, sua superfície alisada pela chuva intensa. Baixou os olhos para a água escura, esverdeada, coberta por uma camada de óleo, antes de se virar e encarar Banquo.

Banquo ergueu a arma.

— Pula, senhor.

— Você não parece o tipo de pessoa que pretende matar alguém, Banquo.

— Com todo o respeito, senhor, não acho que saiba como são essas pessoas.

— Tem razão. Mas sou bom em julgar o caráter delas.

— Tem sido até agora.

Malcolm estendeu os braços para os lados.

— Me empurre, então.

Banquo umedeceu os lábios. Mudou a pressão no gatilho.

— E então? Mostre o assassino que há em você.

— Até que, pra um burocrata, o senhor tem bastante sangue-frio.

Malcolm abaixou os braços.

— É porque sei de uma coisa sobre a perda, Banquo. Igual a você. Aprendi que somos capazes de perder a maioria das coisas. Mas há aquelas que não podemos perder, que nos farão deixar de existir mais do que se perdermos nossa própria vida. Sei que você perdeu sua esposa pra doença que essa cidade dá aos seus moradores.

— Ah, é? Como sabe disso?

— Duncan me contou. Ele me contou porque perdi minha primeira esposa pra mesma doença. E discutíamos sobre como poderíamos ajudar a fazer dessa cidade um lugar onde isso não tornaria a acontecer, onde mesmo os empresários mais poderosos fossem condenados por violar a lei, onde um assassinato fosse um assassinato, quer causado por uma arma de fogo quer pelos gases tóxicos que vão envenenando os habitantes até que seus olhos fiquem amarelos e eles exalem o cheiro de cadáver.

— Então você já perdeu o que não se pode perder.

— Não. Você pode perder a sua esposa e a sua vida ainda tem um significado. Porque você tem um descendente. Uma filha. Um filho. Imperdíveis são os nossos filhos, Banquo. Se a minha morte vai poupar a Julia, então é assim que tem que ser, valerá a pena. E outros virão depois de mim e do Duncan. Você pode até não acreditar em mim, mas esse mundo está cheio de pessoas que querem o que é bom, Banquo.

— E quem decide o que bom? Você ou os outros chefões?

— Pergunte ao seu coração, Banquo. Seu cérebro vai te enganar. Pergunte ao seu coração.

Malcolm achou que Banquo pareceu hesitar. Sentia a boca e a garganta secas, já estava rouco.

— Você pode me cingir com quantas correntes quiser, Banquo, não vai fazer a mínima diferença, porque vamos subir até a superfície. O bom tem flutuabilidade. E eu juro que vou voltar à tona e revelar suas maldades.

— Elas não são minhas, Malcolm.

— Hécate. Suas. Vocês estão no mesmo barco. E nós dois sabemos qual rio o barco vai atravessar e onde você vai acabar em breve.

Banquo assentiu devagar.

— Hécate — disse ele. — Exatamente.

— O quê?

Banquo parecia fitar um ponto na testa de Malcolm.

— Está certo, senhor. Trabalho pro Hécate.

Malcolm tentou decifrar o sorriso frouxo de Banquo. Água escorria pelo rosto dele, como se chorasse, pensou. Será que realmente hesitava? Malcolm sabia que precisava continuar falando, precisava fazer Banquo falar, porque cada palavra, cada segundo prolongava sua vida. Aumentava a reduzida chance de que Banquo mudasse de ideia ou de que alguém aparecesse.

— Por que afogamento, Banquo?

— Hã?

— Atirar em mim no carro e fazer com que parecesse suicídio teria sido bem mais fácil.

Banquo deu de ombros.

— Há várias maneiras de se esfolar um gato. Se a cena do crime é embaixo da água, não há provas, caso suspeitem de assassinato. E o afogamento é menos cruel. É como cair no sono.

— Por que você acha isso?

— Porque eu sei. Quase morri afogado duas vezes quando era jovem.

O cano da arma de Banquo não havia abaixado quase nada. Malcolm calculou a distância entre eles.

Engoliu em seco.

— Por que você quase se afogou, Banquo?

— Porque cresci na zona leste da cidade e nunca aprendi a nadar. Não é engraçado que numa cidade como essa, à beira-mar, as pessoas ainda morram afogadas? Por isso tentei ensinar meu menino a nadar. O esquisito é que ele também não aprendeu. Talvez porque era alguém que não sabia nadar que estava tentando ensinar. Se nós afundamos, eles afundam, é assim que o nosso destino é passado adiante. Mas pessoas como você conseguem nadar, Malcolm.

— Daí as correntes, presumo.

— Sim.

O cano da arma foi erguido mais uma vez. A hesitação se foi e a determinação retornou aos olhos de Banquo. Malcolm respirou fundo. A chance tinha estado lá e agora se fora.

— Boas pessoas ou não — disse Banquo —, você tem a flutuabilidade que nos falta. E preciso ter certeza de que vai ficar debaixo da água. De que não vai subir à superfície. Caso contrário, significa que não fiz meu trabalho. Você entende?

— Se eu entendo?

— Me dá seu distintivo da polícia.

Malcolm pegou o distintivo de bronze no bolso do paletó e o entregou a Banquo, que o atirou fora imediatamente. O emblema voou sobre a borda do cais, bateu na água e afundou.

— É de bronze. Brilha, mas vai bater direto no fundo. Isso se chama gravidade, senhor, e arrasta tudo pro lodo. Você precisa desaparecer, Malcolm. Desaparecer pra sempre.

Na sala de reuniões, Macbeth olhou para o relógio: seis e vinte e nove da tarde. A porta se abriu novamente e uma moça que Macbeth reconheceu como a assistente de Lennox enfiou a cabeça na sala para avisar que ainda não tinham conseguido entrar em contato com Malcolm. Só o que sabiam era que ele chegara à central, dera meia-volta na garagem mesmo e fora embora. Ninguém, nem sua filha, sabia de seu paradeiro.

— Obrigado, Priscilla — agradeceu-lhe Lennox e se virou para os presentes. — Sendo assim, acho que deveríamos dar início a essa reunião com...

Macbeth sabia que aquele era o momento. O momento a que Lady havia se referido, o momento de vácuo de liderança, quando todos, inconscientemente, veriam como seu novo líder aquele que assumisse o controle da situação. Por essa razão, sua interrupção foi firme e clara:

— Um minuto, Lennox. — Macbeth se virou para a porta. — Priscilla, pode organizar uma busca por Malcolm e pelo carro dele? Por enquanto, acione só os carros da patrulha. E transmita a mensagem da forma mais discreta possível, dizendo que a central deseja entrar em contato com ele assim que possível... Esse tipo de coisa. Obrigado. — Então ele se virou para os outros. — Desculpa por me apoderar de sua assistente, Lennox, mas acho que a maioria de nós aqui compartilha da minha preocupação. Então, vamos começar a reunião. Alguém se opõe a que eu assuma os trabalhos até que Malcolm chegue?

Correu os olhos pela mesa. Caithness. Lennox. Duff. Viu como tiveram de pensar antes de concluírem o que Lennox enfim declarou, muito teso, após um pigarrear:

— Você é o próximo na linha de comando, Macbeth. Vá em frente.

— Obrigado, Lennox. Aliás, se incomoda de fechar a janela atrás de você? Vamos começar pelos seguranças. A Unidade Anticorrupção já tem alguma informação sobre eles?

— Ainda não — respondeu Lennox, tentando fechar os trincos da janela. — Não há nada que sugira irregularidades nem nada que possa ser considerado suspeito. Na verdade, a falta de irregularidades é o único ponto suspeito.

— Nada suspeito, nenhuma conexão nova, nenhuma compra incomum de artigo de luxo ou movimentação fora do padrão nas contas bancárias?

— Não — respondeu Lennox. — Parecem tão limpos quanto uma armadura brilhante.

— Acho que eles estavam limpos — falou Duff. — Mas mesmo os cavaleiros de armadura brilhante podem ser subornados e corrompidos se você descobrir apenas uma fissura em sua armadura. E o Hécate achou essa fissura.

— Se ele achou, nós também vamos achar — afirmou Macbeth. — Continue procurando, Lennox.

— Claro. — Seu tom sugeria um espaço para “senhor” ao final. Não foi verbalizado, embora tenha sido ouvido por todos.

— Você mencionou que falou com os oficiais infiltrados da sua antiga unidade, Duff. E então?

— Eles dizem que o assassinato foi um choque pra todos na rua. Ninguém sabia de nada. Mas, de antemão, são da opinião de que o Hécate está por trás disso. Um garoto lá na Estação Central mencionou alguma coisa sobre ter visto um policial procurando drogas. Não posso garantir que não era um dos nossos homens à paisana, mas tenho certeza de que não era um dos seguranças. Vamos continuar procurando pistas que possam nos levar ao Hécate. O que é, como todos sabemos, tão difícil quanto achar o Sweno.

— Obrigado, Duff. Cena do crime, Caithness?

— Resultados previstos — respondeu ela, consultando as anotações à sua frente. — Identificamos várias impressões digitais no quarto do falecido, e elas correspondem às das três camareiras, dos seguranças e dos que encontraram o corpo: Lady, Macbeth e Duff. Além de um conjunto de impressões que não tínhamos conseguido por um tempo, mas que agora temos uma correspondência com as impressões dos ocupantes anteriores do quarto. Então, quando digo resultados previstos, não é exatamente verdade; geralmente, quartos de hotel estão repletos de impressões digitais não identificadas.

— A proprietária do Inverness leva a limpeza muito a sério — informou Macbeth secamente.

— O setor de patologia confirmou a causa direta da morte: duas facadas. As feridas coincidem com as adagas que foram encontradas. E, embora tenham sido limpas no lençol e nas roupas dos próprios seguranças, ainda havia mais que o suficiente de sangue nas lâminas e nos cabos pra afirmar que era do falecido.

— Podemos dizer Duncan em vez de falecido? — pediu Macbeth.

— Claro. Uma adaga tem mais sangue que a outra, indicando que foi aquela que cortou a carótida do fa... do Duncan, o que explica os respingos de sangue no edredom, como podem ver nessa fotografia. — Caithness fez deslizar para o centro da mesa uma foto em preto e branco, que todos examinaram prontamente. — O relatório completo da necropsia estará pronto amanhã de manhã. Então saberemos mais.

— Mais sobre o quê? — indagou Duff. — O que ele comeu no jantar? Isso todos sabemos, já que comemos a mesma coisa. Ou as doenças que ele tinha e que não o mataram? Se quisermos manter o ritmo, é essencial que nos concentremos nas informações importantes.

— Uma necropsia — começou Caithness, e Macbeth notou um tremor em sua voz — pode confirmar ou desmentir a suposta sequência de eventos. Presumo que isso seja muito importante.

— E é, Caithness — disse Macbeth. — Mais alguma coisa?

Ela mostrou novas fotografias, discorreu sobre outras evidências médicas e técnicas, mas nenhuma apontava para uma direção diferente daquele que era o consenso geral à mesa: os seguranças haviam matado Duncan. Todos concordavam também que os dois não pareciam ter um motivo, portanto outras forças deviam estar por trás do assassinato, mas a subsequente discussão — se alguém além de Hécate teria sido o responsável — não apenas foi breve, como também improdutiva.

Macbeth sugeriu adiar a coletiva para as dez horas, dependendo de onde Malcolm estivesse e de suas instruções. Lennox observou que às nove seria um horário mais conveniente para a imprensa, já que as matérias precisavam ser entregues mais cedo no domingo.

— Obrigado, Lennox, mas o que conta é nossa agenda e não os cifrões das vendas de jornais — disse Macbeth.

— Acho isso uma estupidez — falou Lennox. — Como a nova equipe gestora, não é prudente nos tornarmos impopulares diante da imprensa logo na primeira oportunidade.

— Sua opinião foi registrada — firmou Macbeth. — A menos que Malcolm apareça e diga algo diferente, vamos nos encontrar aqui às nove e então revisamos o que deve ser dito na coletiva.

— E quem vai dar a coletiva? — indagou Duff.

Antes que Macbeth tivesse a chance de responder, a porta se abriu. Era Priscilla.

— Desculpe interromper. É que uma das nossas viaturas de patrulha informou que encontrou o carro do Malcolm estacionado no terminal de contêineres. Vazio, sem nenhum sinal dele.

Macbeth sentiu o silêncio na sala. Saboreou o conhecimento que só ele tinha. E o controle que isso lhe dava.

— Em que parte do terminal? — indagou ele.

— No cais ao longo de um dos canais.

Macbeth foi assentindo aos poucos.

— Envie mergulhadores.

— Mergulhadores? — questionou Lennox. — Não é um pouco prematuro?

— Acho que Macbeth está certo — interrompeu-o Priscilla, que recebeu os olhares perplexos de todos ali. Ela engoliu em seco. — Eles encontraram uma carta no banco do carro.