Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 19 de 50

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Macbeth

Capítulo 16

 

Duff ficou acompanhando a respiração de Caithness. Quando a notou mais suave, desenlaçou-se dos braços dela e se virou para a mesinha de cabeceira. — Já deu meia-noite, Cinderela? — perguntou ela, num sussurro. — Temos bastante tempo, mas não posso chegar atrasado. — Você está olhando no relógio a cada meia hora desde que chegou. Parece até que está louco pra ir embora. Ele se virou na cama. Acariciou-lhe a nuca. — Não é por isso, minha linda. É que perco toda a noção do tempo quando estou com você — disse ele e lhe deu um beijo de leve. Ela achou graça. — Que belas palavras, meu gentil Romeu. Mas eu ando pensando... — Isso é assustador. — Para com isso. Ando pensando que te amo. E... — Assustador! — Para, já disse. E não quero você só aqui e agora. Não quero que você desapareça como se fosse um sonho que eu tive pela metade. — Eu também não quero, meu amor, mas... — Chega de “mas”, Duff. Você sempre diz que vai contar pra ela sobre nós, mas aí vem esse repetitivo “mas”, que significa que você tem que adiar, diz que é em consideração a ela, aos filhos, ao...

— É muita coisa pra levar em consideração, Caithness. Você precisa entender isso. Tenho uma família, e com ela vem...

— Responsabilidades das quais não posso fugir — ela o imitou. — Que tal ter alguma consideração por mim? Você não tem problema nenhum em fugir de mim.

— Você sabe muito bem que não é assim. Você é jovem, tem opções.

— Opções? O que você quer dizer com isso? Eu amo você!

— Só quis dizer que a Meredith e as crianças estão passando por uma fase difícil. Se esperarmos até que nossos filhos estejam um ano mais velhos, vai ser mais fácil, e aí eu vou poder...

— Não! — Caithness bateu no edredom. — Quero que você conte pra ela agora, Duff. E você percebeu uma coisa? Essa foi a primeira vez que você falou o nome dela.

— Caithness...

— Meredith. É um nome bonito. Tive inveja desse nome por muito tempo.

— Por que tanta pressa de repente?

— Cheguei a uma conclusão nesses últimos dias. Pra gente conseguir o que quer, não dá pra ficar parado, esperando. A pessoa tem que ser firme, talvez até agressiva, mas uma atitude drástica é melhor. Acredite, pra mim não é fácil pedir que você faça isso, que abra mão da sua família. Sei que essa atitude afeta pessoas inocentes, e isso não é da minha natureza.

— Não, não é mesmo da sua natureza, Caithness. Então de onde você tirou essa ideia tão drástica?

— Duff. — Ela se sentou de pernas cruzadas no meio da cama. — Você me ama?

— Sim! Meu deus, claro que sim.

— Então vai fazer isso? Por mim?

— Me escuta, Caithness...

— Prefiro Meredith.

— Querida. Amo você acima de qualquer coisa. Daria minha vida por você. Minha própria vida, sim, sem pensar duas vezes. Mas e quanto à vida de outros?

Duff balançou a cabeça. Pegou fôlego para falar, mas acabou por soltar o ar. Uma atitude drástica? Tinha de ser agora? A ideia o deixou aturdido. Será que estivera naquele caminho o tempo todo, sem saber? Um caminho que o afastava de Caithness, que o levava para casa, para Fife? Tomou fôlego de novo.

— Minha mãe, a quem nunca conheci, sacrificou a vida por mim. Sacrificou a própria vida pra que eu pudesse viver. Então, mesmo se for da minha natureza, como era da natureza da minha mãe, sacrificar a vida por amor, o amor a um filho é o maior amor que existe. Só a ideia de sacrificar qualquer coisa menor que a minha vida pelos meus filhos, tal como privá-los da própria família pelo meu amor egoísta a outra mulher, é como se eu estivesse cuspindo na memória da minha mãe.

Caithness cobriu a boca com a mão, e um soluço involuntário escapou enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Então ela se levantou e saiu do quarto.

Duff fechou os olhos. Bateu a cabeça no travesseiro atrás de si e foi atrás dela. Encontrou-a na sala, de pé junto a uma das janelas do sótão, olhando para fora da casa. Nua e cintilantemente branca sob a luz neon que vinha da rua e que realçava as trilhas de chuva na vidraça, tornando-as iguais às lágrimas que escorriam pelo rosto dela.

Ele abraçou seu corpo nu por trás. Sussurrou em seu cabelo:

— Se quiser que eu vá embora agora, eu vou.

— Não estou chorando porque não posso ter você por inteiro, Duff. Estou chorando por causa do meu coração impiedoso. Enquanto você... Você é um homem com um coração leal, meu querido. Um homem em quem uma criança pode confiar. Não consigo deixar de amar você. Me perdoe. E se não posso ter tudo, me dê o que pode me oferecer do seu coração puro.

Ele não respondeu, apenas a abraçou. Beijou seu pescoço e correu a mão pelo seu corpo. Ela começou a mexer os quadris. Ele pensou na hora marcada. Em Banquo. No encontro à locomotiva. Mas ainda faltava muito para a meia-noite.

— Cassino Inverness, Jack falando.

— Boa noite, Jack. Gostaria de falar com o Macbeth.

— Ele está em um jantar. Quer deixar um...

— Vá chamar ele, Jack. Anda.

Pausa.

O sargento passou os olhos pelas motos reunidas em volta da cabine telefônica, todas deformadas pelo serpentear dos grossos pingos de chuva que desciam do outro lado do vidro, mas mesmo assim era a visão mais bela que conhecia: motores sobre duas rodas. E os irmãos que os dirigiam.

— Posso tentar, senhor. Quem gostaria?

— Diz que é o telefonema que ele está esperando.

— Entendi, senhor.

O sargento esperou, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Trocando o embrulho sujo de sangue de um braço para o outro.

— Alô, é o Macbeth.

— Boa noite. Estou ligando pra informar que o peixe grande foi pego e destripado, mas o menor fugiu da isca.

— Pra onde?

— Olha, a chance de um único peixinho sobreviver no mar é de uma em mil, então acho que nesse caso podemos acreditar que ele esteja morto no fundo do mar.

— Certo. E então?

— A cabeça do peixe está a caminho. E devo dizer que você ganhou meu respeito, Macbeth. São poucos os que têm paladar, ou estômago, pra esse tipo de iguaria.

Macbeth botou o fone no gancho e se apoiou no balcão enquanto tentava recuperar o ar.

— Tem certeza de que está se sentindo bem, senhor?

— Estou sim. Obrigado, Jack. Estou só um pouco tonto.

Macbeth reprimiu todos os pensamentos e as imagens. Então ajeitou o paletó e a gravata e voltou ao salão de jantar.

Os convidados sentados à longa mesa conversavam e brindavam, mas não se podia descrever o ambiente como em clima festivo. Bem, vai ver aquelas pessoas não estivessem acostumadas a comemorar com o fervor do pessoal do GOE, ou será que o fantasma da morte de Duncan estava mais presente do que Lady gostaria de admitir? O prefeito acenou para que Macbeth voltasse logo. Ao ver que havia alguém em sua cadeira, Macbeth presumiu que fosse o companheiro de Tourtell, mas não. Estacou quando o reconheceu. Parecia que seu coração tinha parado de bater.

Banquo.

Estava ali, sentado. Agora.

— O que foi, meu amor? — Era Lady. Tinha se virado e olhava para ele sem entender. — Sente-se.

— Meu lugar está ocupado — disse ele.

Tourtell também se virou.

— Vem, Macbeth. Senta aqui.

— Onde?

— Na sua cadeira — respondeu Lady. — Qual é o problema?

Macbeth gritou quando Banquo virou a cabeça toda para trás, como uma coruja. Acima do colarinho branco havia um corte longo e contínuo que parecia dar a volta em seu pescoço. O sangue escorria da ferida como da borda de um cálice de vinho que alguém não parava de encher.

— Quem... Quem fez isso com você?

Macbeth gemeu e colocou as mãos no pescoço de Banquo, apertando para estancar o sangue. Mas era um líquido fino que escorria por entre seus dedos como vinho diluído em água.

— O que você está fazendo, meu amor? — perguntou Lady, a voz tensa, e deu uma risada nervosa.

A boca de Banquo se abriu.

— Foi... você... meu filho.

As palavras eram proferidas em tom monótono, o rosto inexpressivo como o de um boneco de ventríloquo.

— Não!

— Eu... vi... você... mestre... estou... esperando... você... mestre.

— Cala a boca!

Macbeth apertou com mais força.

— Você... está... me... estrangulando... Assassino.

Aterrorizado, Macbeth o soltou. E sentiu alguém puxar seu braço com força.

— Vem. — Era Lady. Estava prestes a se livrar dela, quando Lady sussurrou em seu ouvido: — Agora! Enquanto você ainda é o comissário-chefe.

Ela colocou a mão sob o braço dele, como se o seguisse, e juntos singraram porta afora ao vento dos olhos dos convidados.

— O que está acontecendo? — sibilou ela quando os dois se viram a portas fechadas em sua suíte.

— Você não viu? O Banquo! Ele estava no meu lugar.

— Meu Deus, você está drogado. Está vendo coisas! Quer que o prefeito pense que escolheu um demente como novo comissário-chefe?

— Escolheu?

— Cadê a maldita brew? Cadê? — Ela enfiou a mão no bolso da calça dele. — Isso vai acabar agora!

Macbeth agarrou o punho dela.

— O prefeito me escolheu?

— Tourtell vai nomear você, Macbeth. Providenciei esse encontro entre vocês dois porque achei que, no mínimo, você não iria destruir a impressão de que é o homem certo pro cargo. Me solta, está me machucando!

— Pois Tourtell que faça o que quiser! O que tenho contra ele é o bastante pra trancafiá-lo amanhã mesmo. E, se não for o bastante, posso conseguir mais provas. Eu sou o comissário-chefe, mulher! Você não entende o que isso significa? Estou no comando de seis mil pessoas, duas mil delas armadas. Um exército, querida!

Macbeth notou que os olhos dela se suavizavam.

— Muito bem — sussurrou ela. — Agora você está fazendo sentido, meu amor.

Ele ainda segurava seu pulso fino, mas Lady mexia no bolso da calça dele.

— Agora posso sentir você de novo — disse ela.

— Vem, vamos...

— Não, agora não. — Ela puxou a mão. — Temos convidados. Mas tenho uma coisa pra você. Um presente pela sua nomeação.

— Ah, é?

— Olha na gaveta da cabeceira.

Macbeth pegou um estojo na mesinha. Dentro havia uma adaga brilhante, reluzente. Ele a ergueu à luz.

— É de prata?

— Eu ia te dar depois do jantar, mas acho que você precisa dela agora. A prata, como todos sabem, é o único material capaz de matar fantasmas.

— Obrigado, meu amor.

— Não há de quê. Agora me diga, em alto e bom som, que Banquo está morto.

— Banquo está morto. Morto.

— Isso. Então vamos chorar a morte dele mais tarde, porque agora é hora de nos juntarmos aos demais. Diga que tudo não passou de uma brincadeirinha entre marido e mulher. Vamos.

Eram onze e dez da noite.

Caithness ainda estava na cama. Duff já se vestira e estava de pé junto ao balcão da cozinha. Havia preparado uma xícara de chá e achado um limão na geladeira, mas a única faca limpa era mais apropriada para esfaquear alguém do que para cortar frutas. Fez um furo na casca com a ponta, e um borrifo de sumo escapou. Àquela hora da noite, provavelmente levaria metade do tempo para chegar à Central, encontrar uma vaga e caminhar até Bertha. Ele não tinha a menor intenção de se atrasar. Banquo parecia não precisar de desculpas para não lhe contar o que sabia. No entanto, Duff percebera que ele queria conversar com alguém. Desafogar-se de alguma coisa... De quê? Culpa? Ou apenas do que sabia? Banquo não era o carneiro de guia com um chocalho no pescoço, e sim uma ovelha, não mais que um elo de conexão. E Duff torcia para ficar sabendo, de uma vez por todas, quem eram os outros. De posse dessa informação, ele iria... O silêncio reinante foi interrompido pelo toque do telefone na parede ao lado do quadro de cortiça.

— Telefone! — gritou ele.

— Eu ouvi! Vou atender aqui — respondeu Caithness, do quarto.

Ela tinha um aparelho em cada cômodo, o que era uma das coisas que o faziam se sentir velho ao seu lado. Talvez Meredith e ele fossem um pouco antiquados por achar que bastava um aparelho por residência. Afinal, não custava nada correr para atender. Encontrou um pano e limpou a mão com ele. Tentou ouvir que tipo de conversa era aquela, quem estaria ligando às altas horas da noite. Meredith? O nome foi rejeitado assim que surgiu em sua mente. A segunda suspeita resistiu por mais tempo: um amante. Quer dizer, outro amante, só que mais jovem. Não, um admirador, um amante em potencial. Alguém à espera nos bastidores, pronto para entrar em cena caso Duff não lhe desse a resposta que ela queria naquela noite. Sim, essa era a razão de sua pressa repentina. E Duff não atendera às exigências, agora que o ultimato do outro amante se tornara o ultimato dela. E ela escolhera o outro. No instante que articulou esse pensamento, quase desejou que fosse o tal admirador. Como são estranhos os seres humanos.

— Pode repetir isso? — ouviu Caithness dizer, do quarto. Em seu tom de voz profissional. Apenas mais agitado que o usual. — Estou a caminho. Ligue pros outros.

Definitivamente, era trabalho. De Perícia.

Ouviu movimentos no quarto dela e torceu para que a missão não fosse em Fife, que ela não sugerisse que ele a levasse até lá. Sentiu a mão grudenta. Lambeu-a enquanto olhava para o limão. O sumo havia penetrado em um dos cortes que ganhara ao levar um tombo no cais. Ficou imóvel por um segundo. Então pegou a faca e tornou a cravá-la no limão. Mais forte e mais rápido dessa vez. Soltou a faca de imediato e afastou a mão, mas a ferida voltou a doer. Era impossível. Impossível enfiar a faca e tirar a mão antes de se sujar.

Caithness entrou correndo na cozinha, com a maleta preta de médico.

— O que foi? — indagou Duff ao ver a expressão preocupada dela.

— Era da central. O adjunto do Macbeth no GOE...

— Banquo? — Duff sentiu a garganta apertar.

— Sim — confirmou ela, abrindo uma gaveta. — Foi encontrado na ponte Kenneth.

— Encontrado? Você quer dizer...?

— Sim.

Ela procurava algo freneticamente na gaveta.

— Como?

As perguntas se acumulavam, numerosas demais, e Duff levou a mão à testa, impotente.

— Não sei ainda, mas a equipe presente no local disse que o carro dele está crivado de balas. E a cabeça foi removida.

— Removida? Tipo... Cortada fora?

— Logo veremos — disse ela, encontrando enfim um par de luvas descartáveis na gaveta e guardando-o na maleta. — Você pode me levar?

— Caithness, eu tenho um compromisso, então...

— Você não disse onde, mas, se tiver que fazer um desvio longo...

Ele tornou a olhar para a faca.

— Vou com você — disse Duff. — Claro que eu vou. Sou chefe da Homicídios, e esse caso é da máxima prioridade.

Então ele se virou e arremessou a faca com toda a força no quadro de cortiça. A faca girou no ar uma vez e meia antes de bater no gancho do quadro e, depois, atingir o piso da cozinha com um tinido.

— O que você está tentando fazer? — perguntou ela.

Duff encarava a faca.

— Algo que demanda muita prática pra ter sucesso. Vamos.