Macbeth
Capítulo 27
Na cozinha, Duff observava os homens no refeitório. Haviam acabado de almoçar e estavam enrolando cigarros e conversando em voz baixa, rindo, acendendo os cigarros, tomando café. Em outra mesa, um sujeito sozinho. Hutchinson. Um grande curativo cor da pele na testa anunciava, para aqueles que não tinham presenciado, a surra que ele havia levado. Hutchinson tentava passar a impressão de estar perdido em lucubrações mentais que demandavam extrema concentração enquanto fumava, mas seu talento para a encenação era uma nulidade. — Vamos atracar amanhã — disse o comissário, que também havia acendido um cigarro, o corpo apoiado no fogão. — Você pegou o jeito rápido. Vai querer mais faxina? — Como é? — Vai ficar pra próxima viagem? — Não — respondeu Duff. — Mas obrigado por perguntar. O comissário deu de ombros. Duff viu alguém que chegava atrasado para o almoço pegar um prato de sopa e ir na direção da mesa de Hutchinson; mas, ao constatar quem estava ali, mudou de rumo e foi se espremer na mesa abarrotada. E Duff viu que Hutchinson havia percebido o desvio e que ele passou a tragar mais forte enquanto franzia a sobrancelha com raiva. — Ainda tem aquele cheesecake de ontem? Duff se virou. Era o primeiro-engenheiro, à porta, com uma cara esperançosa.
— Lamento — respondeu o comissário —, mas não sobrou nada.
— Espera um pouco — disse Duff. — Acho que guardei uma fatia pequena. — Ele foi à câmara frigorífica e trouxe um prato embrulhado em papel alumínio. — Está um pouco frio.
— Tudo bem — respondeu ele, passando a língua nos lábios. — Gosto frio mesmo.
— Uma coisa...
— Sim?
— Hutchinson...
— Hutch?
— É. Ele parece um pouco... deprimido. É que fiquei pensando numa coisa que o capitão me disse. Que Hutch era um bom engenheiro. É verdade?
O primeiro-engenheiro inclinou a cabeça de um lado para o outro, olhando para Duff com desconfiança.
— É, é bom o bastante.
— Talvez seja uma boa ideia dizer isso pra ele.
— Dizer o quê?
— Que ele é bom.
— Por quê?
— Acho que ele precisa ouvir isso.
— Não sei, não... Se você elogia as pessoas, elas logo querem mais dinheiro e mais folgas.
— Quando você era novato, por acaso algum primeiro-engenheiro fez você sentir que estava fazendo um bom trabalho?
— Sim, mas eu estava.
— Tenta se lembrar do quanto você era realmente bom.
O primeiro-engenheiro ficou boquiaberto.
Nesse momento, o navio balançou. Gritos vieram do refeitório, e ouviu-se um estrondo atrás de Duff.
— Merda! — gritou o comissário, e, quando Duff se virou, viu que a enorme terrina de sopa havia caído.
Duff olhou para a sopa de ervilha, espessa e verde, escorrendo pelo piso. Sem dar aviso, seu estômago se revirou, ele sentiu o vômito na garganta e mal deu tempo para se agarrar ao batente da porta quando tudo jorrou de sua boca.
— Bem, recruta — disse o primeiro-engenheiro —, algum outro bom conselho? — indagou ele antes de se virar e sair.
— Porra, Johnson. Ainda não terminou isso aí? — resmungou o comissário, entregando a Duff um rolo de papel toalha.
— O que aconteceu? — perguntou Duff, limpando a boca.
— Batemos num vagalhão — respondeu o comissário. — Acontece.
— Vai dar uma respirada. Eu limpo isso.
Ao terminar a limpeza do chão, Duff foi ao refeitório para recolher a louça suja. Havia apenas três caras, sentados junto a uma mesa, além de Hutch, que não arredara do lugar.
Duff ficou acompanhando o papo deles enquanto empilhava pratos e copos numa bandeja.
— Esse vagalhão deve ter vindo de um terremoto ou de um deslizamento de terra, qualquer coisa assim — falou um deles.
— Vai ver foi um teste nuclear — sugeriu outro. — Estão dizendo que os soviéticos estão aprontando alguma coisa no Mar de Barents, e parece que essas ondas de choque dão uma volta ao mundo.
— Recebemos alguma mensagem sobre isso, Sparks?
— Não. — Sparks riu. — A única emoção é que estão procurando um cara com uma cicatriz branca no rosto.
Duff sentiu o corpo retesar. Continuou empilhando os pratos enquanto escutava.
— É, vai ser bom chegar em terra firme amanhã.
— Uma ova. Minha patroa disse que está grávida de novo.
— Não olha pra mim.
Risadas bem-humoradas ao redor da mesa.
Duff se virou com a bandeja nas mãos. Hutchinson havia erguido a cabeça e de repente se aprumou na cadeira. Nas poucas vezes que se cruzaram depois da briga, Hutchinson tinha olhado para baixo e evitado o rosto de Duff, mas agora o encarava com os olhos bem abertos. Como um abutre que de repente tivesse localizado um animal desamparado e ferido.
Duff abriu a porta da cozinha com o pé e ouviu-a bater às suas costas. Colocou a bandeja na bancada. Droga, droga, droga! Não agora, não com menos de 24 horas para aportar.
— Reduza um pouco — pediu Caithness, olhando através do para-brisa.
O motorista do táxi tirou o pé do acelerador, e eles passaram devagar diante do Obelisco, de onde uma enxurrada de pessoas saía pela porta principal. Dois carros da polícia estavam estacionados na calçada. As luzes azuis giravam sem pressa.
— O que está acontecendo? — perguntou Lennox, enfiando o rosto tingido de azul pelas luzes no vão entre os bancos da frente. Assim como Caithness, ainda estava de uniforme, pois vinham do enterro de Duncan. — Será que foi o alarme de incêndio?
— O Comitê de Jogos fechou o lugar hoje — respondeu Caithness. — Há suspeita de irregularidades.
Viram um dos policiais levando embora um homem de terno claro, camisa florida e costeletas impressionantes, que gesticulava raivosamente. Ele parecia tentar explicar algo para o policial, que, obviamente, o ignorava.
— Triste — comentou o motorista.
— O que é triste? — perguntou Lennox. — A lei sendo aplicada?
— Às vezes. Pelo menos no Obelisco ainda dava pra tomar uma cerveja e jogar sem precisar se arrumar todo e voltar pra casa falido. A propósito, vocês sabem que a fábrica pra onde querem ir está fechada?
— Sim — respondeu Caithness. Percebendo que isso era tudo que sabia a respeito.
O oficial Angus havia ligado naquela manhã e implorado a ela que fosse com o inspetor Lennox, da Anticorrupção, até a Estex. O resto ficariam sabendo ao chegar lá. Tratava-se de corrupção no nível mais alto de poder, mas, por enquanto, não podiam mencionar nada a ninguém sobre o encontro. Quando ela disse ao telefone que não conhecia nenhum Angus, ele explicara que era o cara de cabelo comprido do GOE, a quem ela sorria e dava bom-dia no elevador. Ela lembrou. Um gato. Mais parecia um hippie simpático e meio desligado do que um oficial do GOE.
Seguiram pelas ruas. Ela viu desempregados encostados nas paredes para se abrigarem da chuva, guimba entre os lábios, casacos encharcados, olhos famintos e cansados. Hienas. Não porque tivessem nascido assim; era culpa da cidade. Duncan costumava dizer que, se no seu cardápio só há carniça, você come carniça, pouco importando quem julga ser. E, independentemente do que fizessem na central de polícia, a melhor maneira de reduzir o crime era dar empregos aos cidadãos.
— Vocês estão reabrindo a Estex? — perguntou o motorista, virando-se para Caithness.
— Por que o senhor acha isso?
— Eu acho que o Macbeth é mais esperto que o cabeça-dura do Duncan.
— Hum.
— Fechar uma grande fábrica só porque está vazando um limo viscoso? Pelo amor de Deus, todo mundo que trabalhava lá fumava, vão todos morrer de um jeito ou de outro. Foram 5 mil empregos. Cinco mil empregos necessários nessa cidade! Só uns metidos a besta de Capitol pra fazer uma coisa dessas. Macbeth não, ele é um de nós. Tem visão e age. Vamos deixar o Macbeth assumir o controle por um tempo e talvez as pessoas voltem a pegar táxi nessa cidade.
— Falando no Macbeth — disse Caithness, virando-se para o banco de trás. — Ele cancelou a reunião duas manhãs seguidas e parecia muito pálido na igreja. Será que ele está doente?
— Ele não — respondeu Lennox —, mas a Lady está. Ele mal tem ido à central.
— É claro que é bom que cuide da esposa, mas ele é o comissário-chefe e temos uma cidade sob nossa responsabilidade.
— Sorte dele que estamos lá. — Lennox sorriu.
O táxi parou em frente ao portão da fábrica, do qual pendia uma corrente com cadeado. A placa FECHADO caíra no asfalto esburacado. Caithness desceu do táxi e ficou ao lado da janela aberta do motorista, observando o terreno deserto da fábrica abandonada, enquanto aguardava o troco. Não havia cabines telefônicas, e as linhas da fábrica provavelmente haviam sido desligadas.
— Como vamos chamar um táxi quando quisermos voltar? — indagou ela.
— Vou esperar aqui — prontificou-se o motorista. — Não tem trabalho mesmo...
No pátio interno havia uma empilhadeira enferrujada e uma montanha de paletes meio apodrecidos. A entrada de pedestres ao lado do imenso portão retrátil estava aberta.
Caithness e Lennox entraram na propriedade. Estava frio lá fora, e mais frio ainda sob o teto alto e abobadado. Os fornos pareciam gigantescos bancos de igreja no galpão retangular que se alongava até onde os olhos podiam ver.
— Olá? — chamou Caithness, e o eco da própria voz lhe causou arrepios.
— Aqui!
A resposta veio do alto, onde ficavam a sala do encarregado e uma plataforma de vigilância. Lembrava a torre de vigia das prisões, pensou Caithness. Ou um púlpito de igreja.
O jovem apontou lá de cima para uma escada de aço.
Caithness e Lennox subiram.
— Oficial Angus — apresentou-se ele, dando um aperto de mão em cada um. Suas feições sinceras revelavam um misto de nervosismo e determinação.
Os dois o seguiram até o escritório que cheirava a uma vinha-d’alhos de suor seco e tabaco. As amplas janelas que davam para a área central eram cobertas por um estranho esmalte amarelo fosco que parecia ter sido fundido a fogo no vidro. Sobre as mesas de trabalho havia arquivos abertos que claramente tinham sido retirados das prateleiras ao longo das paredes. Angus estava com barba por fazer e usava uma calça jeans apertada e desbotada e uma jaqueta militar verde.
— Obrigado por terem vindo tão rápido, assim sem sobreaviso — disse ele, indicando cadeiras de madeira descascada.
— Sem querer pressionar nem nada, mas espero que seja importante — disse Lennox, sentando-se. — Tive que adiar uma reunião importante.
— Como vocês não têm muito tempo, na verdade nenhum de nós, vou direto ao assunto.
— Obrigado.
Angus cruzou os braços. Suas mandíbulas revelavam espasmos repetidos e seus olhos vagueavam, mas havia firmeza em sua atitude — era alguém consciente de estar certo.
— Por duas vezes na minha vida eu acreditei — começou ele, engolindo em seco, e Caithness percebeu que ele estava verbalizando algo previamente escrito e ensaiado para a ocasião. — E duas vezes deixei de acreditar. A primeira foi em Deus. A segunda, em Macbeth. Macbeth não é nenhum salvador, e sim um assassino corrupto. Eu quis começar assim, direto, pra vocês entenderem por que estou fazendo isso. Pra livrar a cidade do Macbeth.
No silêncio que se seguiu, eles podiam ouvir os respingos das gotas de água que caíam no piso da fábrica. Angus tomou fôlego.
— Nós estávamos...
— Para! — pediu Caithness. — Obrigada pela sua sinceridade, Angus, mas, antes que você continue, o inspetor Lennox e eu precisamos decidir se queremos ouvir o resto.
— Deixa Angus terminar — disse Lennox. — Podemos discutir isso mais tarde, sem mais ninguém presente.
— Espera — disse Caithness. — Não há como apagar o que vamos escutar se recebermos informações que...
— Fomos enviados pra sede do clube pra matar todo mundo — cortou-a Angus.
— Eu não quero ouvir — disse Caithness, e se levantou.
— Ninguém seria preso — disse Angus, bem alto. — Fomos nós que começamos a atirar nos Norse Riders, e eles conseguiram atirar um — ele ergueu o indicador, que tremia tanto quanto sua voz —, um único maldito tiro em legítima defesa! Ao contrário do que foi com...
Caithness seguiu em direção à porta pisando duro, para abafar a voz de Angus, e estava prestes a sair quando o nome citado a fez congelar.
— ... Duff, em Fife. Nem um único tiro foi disparado de lá. Porque ele não estava em casa. Quando entramos, depois de botarmos tudo abaixo, encontramos uma menina, um menino e a mãe... — A voz de Angus falhou.
Caithness se virou para ele. O jovem se inclinou sobre a mesa, os olhos cerrados com força.
— ... E a mãe tentava proteger os dois com o próprio corpo, no quarto.
— Ah, não, não, não — Caithness ouviu a si mesma sussurrar.
— A ordem partiu do Macbeth — continuou Angus —, e Seyton garantiu que as ordens fossem obedecidas à risca pelo GOE, inclusive... — ele tossiu — ... por mim.
— Por que diabos Macbeth daria ordens pra essas... matanças? — indagou Lennox, com descrença na voz. — Ele poderia simplesmente ter colocado Duff e os Norse Riders na cadeia.
— Talvez não — disse Angus. — Talvez eles soubessem de algo sobre Macbeth, algo que exigisse que fossem silenciados.
— Como o quê?
— Vocês nunca se perguntaram por que os Norse Riders tinham que se vingar justamente em Banquo? Por que não ir pra cima da pessoa que deu as ordens, o próprio Macbeth?
— Simples — respondeu Lennox, com desdém. — Macbeth está mais bem protegido. Você tem alguma prova disso?
— Esses olhos viram tudo — disse Angus, apontando para o próprio rosto.
— Eles pertencem à mesma pessoa que está fazendo as acusações. Me dê uma razão pra que a gente acredite em você.
— Há uma razão — disse Caithness, voltando lentamente para sua cadeira. — É muito fácil conseguir que as acusações do Angus sejam confirmadas ou não pelos demais oficiais do GOE, e, caso sejam falsas, ele vai ser exonerado, processado e, pra dizer o mínimo, suas perspectivas futuras serão quase zero. E ele sabe disso.
Angus riu.
Caithness ergueu as sobrancelhas.
— Com licença, eu disse algo estúpido?
— É o GOE — disse Lennox. — Lealdade, fraternidade, batizados em fogo, unidos em sangue.
— Como?
— Você nunca vai conseguir que ninguém do GOE diga uma palavra que prejudique Macbeth — retrucou Angus. — Nem Seyton. Nem nenhum dos irmãos.
Desanimada, Caithness deixou os braços caírem na lateral do corpo.
— Então você procura a gente denunciando a ocorrência de execuções, mesmo sabendo que não há como provar isso?
— Macbeth me pediu que queimasse o corpo de um bebê morto no massacre do clube — contou Angus. Ele mexeu nervosamente em um cordão que usava. — Aqui, em um dos fornos da fábrica.
Caithness sentiu um calafrio. Arrependeu-se de ter permanecido ali. Por que não tinha ido embora? Por que já não estava dentro do táxi, deixando aquilo tudo para trás?
— Eu me recusei — continuou Angus. — O que significa que outra pessoa fez isso. Talvez ele mesmo. Dei uma checada nos fornos, e um deles foi usado recentemente. Achei que, se você conseguisse que o seu pessoal da Perícia examinasse o forno, talvez pudessem encontrar pistas. Impressões digitais, restos de ossos, não sei. E, nesse caso, a Anticorrupção poderia levar o caso adiante.
Lennox e Caithness trocaram olhares.
— A polícia não pode investigar o próprio comissário-chefe — retrucou Lennox. — Você não sabia disso?
Angus franziu a testa.
— Mas... a Unidade Anticorrupção não é...?
— Não, não podemos abrir inquéritos internos — disse Lennox. — Se você quiser acusar o comissário-chefe, terá que apresentar seu caso à Câmara Municipal e a Tourtell.
Angus balançou a cabeça desesperadamente.
— Não, não, não, eles foram comprados, todos eles! Temos que fazer por conta própria. Temos que derrubar Macbeth em uma ação de dentro pra fora.
Caithness não respondeu. Confirmando apenas que Angus estava certo. Nenhuma autoridade local, muito menos Tourtell, ousaria expor-se contra Macbeth. Kenneth cuidara para que o comissário-chefe tivesse autoridade legal para reprimir qualquer um duramente nesse tipo de rebelião.
Lennox olhou para o relógio.
— Tenho uma reunião em vinte minutos. Recomendo que deixe a questão em banho-maria até que tenha algo concreto, Angus. Então poderá tentar sua sorte na Câmara Municipal.
Angus arregalou os olhos, incrédulo.
— Minha sorte? — ecoou ele, com a voz engasgada.
Virou-se para Caithness. Desespero, súplica, medo e esperança atravessaram suas feições como uma narrativa. E instantaneamente ela percebeu que Angus não tinha pedido a ela que fosse junto só porque precisava da Perícia para examinar os fornos. Angus precisava de uma testemunha, uma terceira pessoa para garantir que Lennox não pudesse fingir que não tinha recebido a informação e, independentemente do resultado, tornasse sua vida desconfortável. Angus havia escolhido Caithness simplesmente porque ela sorrira para ele no elevador. Porque dava a impressão de ser uma pessoa em quem ele podia confiar.
— Inspetora Caithness? — implorou ele em voz baixa.
Ela respirou fundo.
— Lennox tem razão, Angus. Você está nos pedindo pra atacar um urso quando só temos uma espada de papel.
Os olhos de Angus estavam marejados.
— Vocês estão com medo — gaguejou ele. — Mas acreditam em mim. Senão, já teriam ido embora. Mas estão com medo. Estão com medo porque acreditam em mim. Porque mostrei pra vocês do que Macbeth é capaz.
— Vamos fingir que esse encontro nunca aconteceu — disse Lennox, dirigindo-se à saída.
Caithness estava prestes a segui-lo quando Angus pegou seu braço.
— Um bebê — sussurrou ele, a voz embargada. — Numa caixa de sapatos.
— Uma vítima inocente na luta contra o crime organizado — disse ela. — Acontece. E Macbeth querer esconder esse fato da imprensa pra evitar um escândalo não faz dele um assassino.
Caithness viu Angus soltar seu braço como se fosse um galho em chamas. Ele deu um passo para trás e olhou bem para ela. Caithness se virou e saiu.
Na escada de aço até o térreo, o frio atingiu suas faces quentes.
Antes de sair, ela parou diante de um dos fornos. Havia listras e marcas de cinzas.
Lennox estava na porta da fábrica acenando para o táxi vir até eles, para que não pegassem chuva.
— Do que Angus estaria atrás? — perguntou ele.
— Atrás?
Caithness se virou e olhou para cima, para o escritório que mais parecia um galpão.
— Ele deve saber que é jovem demais pra um cargo de gerência — comentou Lennox. — Aqui! Estamos aqui! Ou será que tudo isso tem a ver apenas com honra e fama?
— Talvez seja o que ele disse. Alguém tem que parar Macbeth.
— Em nome do dever? — Lennox sorriu, e Caithness ouviu o triturar do cascalho sob pneus. — Todo mundo quer alguma coisa, Caithness. Você não vem?
— Claro.
Caithness só enxergava o vulto de Angus atrás da janela. Ele não se movera desde que os dois saíram de lá. Continuava em pé. À espera, ao que parecia.
Quanto tempo demoraria para Lennox informar Macbeth sobre aquela tentativa de motim?
O que ela faria com o que Angus lhes contara?
Levou a mão ao rosto. Sabia por que estava quente. Era rubor. Estava ruborizada de vergonha.
Lennox pegou o atalho através do saguão da Estação Central. Gostava de atalhos, de encurtar distâncias. Sempre fora assim. Já havia comprado balas para conquistar amigos, inventara ter mergulhado do alto de um guindaste no cais do porto, pagara a uma garota que trabalhava no balcão do aeroporto que bateu uma punheta para ele. Usava sapatos de solado mais alto que o normal, colara em provas e ainda por cima adulterava as notas quando os resultados saíam. Seu pai costumava dizer — geralmente em reuniões de família, e sem sequer tentar disfarçar a quem se referia — que apenas um homem sem espinha dorsal faria uso de atalhos. Quando seu pai dera um pequeno presente para a universidade particular da cidade, assim poupando a si e ao filho a infelicidade de ele estudar numa universidade pública, Lennox também forjou o diploma de graduação. Não para mostrar a potenciais empregadores, mas ao próprio pai, que pediu para vê-lo. Claro que isso foi um desastre, porque Lennox não tinha espinha dorsal para resistir aos olhares e às perguntas desconfiadas do pai, e o pai disse que não entendia como um molusco como Lennox conseguia ficar de pé; ele não tinha um único osso no corpo!
Podia até ser, mas ele definitivamente tinha espinha suficiente para ignorar os traficantes que vinham até ele sussurrando ofertas. Eles reconheciam um usuário só de olhar para eles. No entanto, não era assim que ele recebia sua brew, mas em envelopes marrons sem destinatário. Ou quando, em certas ocasiões, solicitava tratamento vip, era conduzido com venda nos olhos — tal como um prisioneiro de guerra a caminho do pelotão de fuzilamento — para a cozinha secreta, onde recebia sua dose direto do caldeirão.
Passou diante de Bertha Birnam, onde Duff havia caído na mentira sobre o juiz de Capitol. Mas Hécate não dissera nada sobre Macbeth ter matado a esposa e os filhos de Duff. Lennox acelerou o passo ao atravessar a Praça dos Operários, como se precisasse correr antes que alguma coisa acontecesse. Alguma coisa dentro dele.
— Macbeth está ocupado — informou o recepcionista do Inverness.
— Diga que é o inspetor Lennox. É importante e vai levar apenas um minuto.
— Vou ligar pra ele, senhor.
Enquanto Lennox esperava, passou os olhos ao redor. Não conseguia identificar o que era, mas faltava algo. Um toque especial. Talvez fosse apenas a atmosfera que havia mudado; talvez fosse porque alguns sujeitos não tão elegantes riam alto demais quando entravam na sala de jogos. Esse tipo de cliente era uma novidade.
Viu Macbeth descendo as escadas.
— Olá, Lennox.
— Olá, comissário-chefe. O cassino está bem movimentado hoje.
— São os que preferem o dia. Vieram diretamente do Obelisco, já que o Comitê de Jogos fechou o lugar há algumas horas. Olha, não tenho muito tempo. Vamos nos sentar aqui?
— Obrigado, senhor. Só queria informá-lo sobre uma reunião que aconteceu hoje.
Macbeth bocejou.
— Sim.
Lennox respirou. Hesitou. Porque havia milhões de maneiras de começar. Milhares de maneiras de formular a mesma mensagem. Centenas de palavras para começar. Entretanto, apenas duas opções.
Macbeth franziu a testa.
— Senhor — disse o recepcionista. — Mensagem da mesa de blackjack. Estão perguntando se podemos botar outro crupiê. Estão formando fila.
— Já estou indo, Jack. Desculpa pela interrupção, Lennox. Lady é quem geralmente cuida disso. Então?
— Sim. A reunião...
Lennox pensou em sua família. Sua casa. No Jardim. No bairro seguro onde as crianças ficavam protegidas das maldades do mundo. Na universidade que frequentariam. No contracheque que tornava isso tudo possível. Mais os rendimentos extraoficiais que vinham junto e que agora viraram necessidade para que a conta fechasse. Não era por ele; era pela família, a família, a família. Sua família, não uma casa em Fife, não...
— Sim?
Alguém surgiu à porta principal.
— Senhor!
Eles se viraram. Era Seyton. Ele arfava.
— Pegamos ele, chefe.
— Pegamos...?
— Duff. E o senhor acertou. Ele está a bordo de um navio mercante. O MS Glamis.
— Fantástico! — Macbeth se virou para Lennox. — Isso vai ter que esperar, inspetor. Preciso ir agora.
Lennox permaneceu sentado enquanto os dois saíam.
— Um homem ocupado. — O recepcionista sorriu. — Aceita um café, senhor?
— Não, obrigado — respondeu Lennox, olhando para um ponto fixo à frente. Lá fora, a noite começava a cair, mas a próxima dose só viria dali a algumas horas. Uma eternidade. — Na verdade, acho que vou aceitar o café sim, obrigado.
Uma eternidade para um homem sem espinha dorsal.