Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 40 de 50

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Macbeth

Capítulo 37

 

 

Osábado trouxe mais chuva. As primeiras páginas dos dois jornais da cidade comentavam o pronunciamento de Tourtell e a explosão ocorrida na cobertura do Obelisco. Um deles comentava na abertura da matéria que a entrevista de Macbeth na rádio deveria ser entendida como uma rejeição não categórica à ideia de se candidatar à prefeito. E informava que Tourtell não se encontrava disponível para responder a perguntas da imprensa por estar dando apoio à mãe de seu filho no Hospital São Jorge. No final da manhã, a chuva deu uma trégua. — Você chegou cedo — comentou Sheila limpando as mãos no avental com um pouco de preocupação, quando viu o marido entrando em casa. — Não consegui encontrar nada pra fazer. Acho que eu era o único no trabalho — disse Lennox, deixando a maleta perto da cômoda, pegando um cabide no armário e pendurando o casaco. Dois anos haviam se passado desde que a prefeitura adotara a semana útil de cinco dias para o setor público, mas na central de polícia vigorava uma espécie de lei tácita de que, para crescer ali, a pessoa era obrigada a dar as caras aos sábados também. Lennox deu um beijinho no rosto da mulher e, notando um estranho perfume novo, um inaudito pensamento se insinuou em seu cérebro: e se ele a tivesse surpreendido na cama com outro homem? Rejeitou a ideia na hora. Primeiro porque ela não fazia o tipo. Segundo porque não era atraente o bastante para isso — afinal, havia uma razão para ela ter acabado com um albino baixinho. A terceira e mais forte razão para repelir a ideia era simples: seria doloroso considerar a possibilidade.

— Alguma coisa errada? — perguntou ela, e o seguiu até a sala de estar.

— Nada não. Só estou cansado. Onde estão as crianças?

— No jardim, finalmente aproveitando um dia de clima decente.

Ele foi até a janela. Ficou vendo os filhos correrem de um lado para o outro, ora aos gritos, ora aos risos, em alguma brincadeira que ele não conseguia entender. Pega-pega, era o que parecia. Uma técnica útil para aprender. Olhou para o céu. Clima decente? Uma pequena trégua antes de uma nova chuvarada. Ele despencou numa poltrona. Por quanto tempo aguentaria daquele jeito?

— O almoço ainda vai levar uma hora — disse ela.

— Tudo bem, querida.

Ele a seguiu com o olhar. Gostava dela de verdade, mas será que algum dia chegara a amá-la? Não se lembrava, e talvez não importasse. Ela nunca dissera nem que o amava nem que não, mas ele quase podia apostar que tampouco ela sentia amor. Em geral, Sheila era bem calada. Talvez por isso havia cedido ao seu poder de persuasão e afinal aceitara ser sua namorada e, um belo dia, sua esposa. Havia encontrado alguém que falasse pelos dois.

— Tem certeza de que está tudo bem?

— Tenho, querida. Que cheiro bom. O que é?

— É... bacalhau — respondeu ela, franzindo o cenho como se aquilo fosse uma pergunta.

Ele ia explicar que estava se referindo ao perfume, não ao almoço que a mulher mal tinha começado a fazer, mas ela voltou para a cozinha e Lennox girou a poltrona para o jardim. Sua filha mais velha o viu, sorriu e gritou alguma coisa para os outros dois. Ele acenou para os filhos. Como duas pessoas tão sem atrativos podiam ter filhos tão lindos? E foi quando aquele inaudito pensamento o atacou de novo: Se é que eram mesmo filhos dele.

Infidelidade e traição.

O filho gritou alguma coisa para ele — não entendeu, não dava para escutar nada —, mas, ao ver que o pai olhava para ele, fez uma pirueta. Lennox aplaudiu com as mãos erguidas, e então os três resolveram dar cambalhotas. Para impressionar o pai, impressionar o pai que ainda admiravam, o pai por quem achavam que valia a pena competir. Gritos, gargalhadas e traquinagem. Lennox se lembrou do silêncio em Fife, do brilho do sol, das cortinas tremulando em uma janela que tinha sido destruída por uma saraivada de balas, da brisa mansa sussurrando uma nota chorosa, quase inaudível, através de um dos buracos na parede. Todos aqueles pensamentos insuportáveis. Eram tantas as maneiras de se perder aqueles que se ama. E se um dia eles descobrissem ou percebessem que tipo de pessoa o marido ou o pai era de verdade? Será que a brisa sussurraria a mesma nota chorosa?

Ele fechou os olhos. Uma brecha de descanso. Uma brecha de clima decente.

Sentiu a presença de alguém muito perto, chegava a sentir sua respiração. Abriu os olhos. Era Sheila.

— Você não me ouviu chamar?

— Quê?

— Telefone pra você. Um tal de inspetor Seyton.

Lennox foi para o hall e tirou o fone do gancho.

— Alô?

— Em casa tão cedo, Lennox? Vou precisar de ajuda hoje à noite.

— Não estou me sentindo bem. É melhor procurar outra pessoa.

— O comissário-chefe mandou levar você.

Lennox engoliu em seco. Sentiu gosto de chumbo na boca.

— Pra onde?

— Pra um hospital. Esteja pronto em uma hora. Vou te buscar.

Um clique. Lennox havia desligado. Chumbo.

— O que foi? — gritou Sheila, da cozinha.

Um metal pálido moldado pelo ambiente, que envenena e mata, um material pesado mas passivo, que derrete a 350 graus.

— Nada, querida. Nada.

Macbeth despertou de um sonho sobre a morte. Uma batida na porta. Algo naquela batida informava que ela vinha acontecendo por um bom tempo.

— Senhor! — Era a voz de Jack.

— O que é? — grunhiu Macbeth, olhando em volta.

A luz do dia inundava o quarto. Que horas seriam? Tinha sonhado. Sonhado que estava de pé ao lado da cama, empunhando uma adaga. E que, toda vez que piscava, o rosto no travesseiro mudava.

— É a inspetora Caithness ao telefone, senhor. Disse que é urgente.

— Pode transferir — disse Macbeth, rolando para o lado da mesinha de cabeceira. — Caithness?

— Desculpa ligar pra você em um sábado, mas encontramos um corpo. Lamento dizer, mas precisamos da sua ajuda. — Ela parecia sem fôlego.

— Por quê?

— Porque achamos que pode ser Fleance, o filho do Banquo. O corpo está em péssimo estado, e, como ele não tem parentes próximos na cidade, parece que você é a pessoa indicada pra fazer o reconhecimento.

— Ah — disse Macbeth, sentindo a garganta apertar.

— Não entendi.

— Sim, presumo que sim — falou Macbeth, enrolando-se no edredom. — Quando um corpo passa tanto tempo na água...

— Essa é a questão.

— Que questão?

— Não encontramos o corpo no mar, mas em um beco entre as ruas 14 e 15.

— Como é?

— É por isso que queremos ter certeza absoluta de que é o Fleance antes de seguirmos adiante.

— Entre as ruas 14 e 15, você disse?

— Vá pra 14 com a Doheney. Vou esperar você em frente à Joey’s Hamburgueria.

— Ok, Caithness. Estarei lá em vinte minutos.

— Obrigada, senhor.

Macbeth botou o fone no gancho. Lírios. A estampa do tapete eram lírios. Lily. Era o nome do bebê de Lady. Como não havia percebido a conexão antes? Morte. Porque não tinha visto, provado, comido e dormido tanta morte antes. Fechou os olhos. Relembrou a troca de rostos no sonho. O rosto indefeso de Lorreal enquanto roncava de boca aberta como uma criança se transformou no de Duncan, olhos que se abriram e o encararam com o conhecimento da verdade. Então o olhar duro e brutal de Banquo. Nenhum corpo, apenas a cabeça no travesseiro. O pânico nas feições do jovem dos Norse Riders sem nome ao se ajoelhar no asfalto olhando para o companheiro morto enquanto Macbeth ia em sua direção. Olhou para o teto e se lembrou de todas as vezes que havia despertado de um pesadelo e dado um suspiro de alívio. Alívio por descobrir que não estava se afogando em areia movediça nem sendo devorado por cães. Mas às vezes acontecia de achar que tivesse acordado de um pesadelo quando continuava sonhando, ainda se afogando, e tinha de romper várias camadas até retomar a consciência. Cerrou os olhos com força. Tornou a abri-los. Então levantou-se da cama.

A negra rechonchuda na recepção do São Jorge ergueu os olhos da carteira de identidade que Lennox mostrava.

— Fomos informados de que ninguém tem acesso... — ela checou a identidade de novo — ... inspetor.

— Assunto de polícia — disse ele. — Alta prioridade. O prefeito deve ser informado imediatamente.

— Se quiser deixar uma mensagem, eu posso...

— Assunto confidencial e urgente.

Ela suspirou.

— Quarto 204, primeiro andar.

Tourtell e o menino estavam sentados lado a lado, em cadeiras de madeira, perto de um dos leitos da ampla enfermaria. O prefeito tinha o braço nos ombros do menino. Os dois olharam para cima quando Lennox parou atrás deles e pigarreou. Na cama, uma mulher de meia-idade, cabelos finos e tez pálida, e Lennox percebeu na hora traços de semelhança com o menino.

— Boa noite. O senhor não deve se lembrar de mim, mas nós nos conhecemos no jantar no cassino Inverness.

— Inspetor Lennox, não é? Da Unidade Anticorrupção.

— Que memória! Peço desculpas por vir sem avisar.

— Em que posso ajudá-lo, Lennox?

— Recebemos uma informação confiável de um atentado iminente contra o senhor.

O menino se sobressaltou, mas Tourtell nem pestanejou.

— Mais detalhes, inspetor.

— Não temos mais nada por ora, mas estamos levando o alerta a sério, por isso estou aqui pra conduzi-lo a um lugar mais seguro.

Tourtell ergueu as sobrancelhas.

— E que lugar poderia ser mais seguro que um hospital?

— Os jornais noticiaram que o senhor estava aqui, prefeito. Qualquer um pode entrar. Vou acompanhá-lo até o seu carro e lhe dar cobertura até que esteja seguro num local privado. Então espero que tenhamos tempo pra nos aprofundarmos nas investigações. Se não se importa em vir comigo...

— Agora? Como pode ver...

— Posso ver e peço desculpas, mas é tanto o seu dever como o meu proteger a pessoa do prefeito.

— Fique de vigia ao lado da porta, Lennox, assim...

— Essas não foram as ordens que recebi, senhor.

— Pois agora são, Lennox.

— Vá. — A palavra sussurrada, quase inaudível, veio da mulher acamada. — Vá e leve o Kasi.

Tourtell pôs a mão sobre a dela.

— Mas, Edith, você...

— Estou cansada, meu querido. E quero ficar sozinha agora. Kasi estará mais seguro ao seu lado. Ouça o homem.

— Você tem...

— Sim, tenho certeza.

A mulher fechou os olhos. Tourtell afagou a mão dela e se virou para Lennox:

— Ok, vamos lá.

Saíram do quarto, o garoto alguns passos na frente.

— Ele sabe? — perguntou Lennox.

— Que ela está morrendo? Sim.

— E como está reagindo?

— Alguns dias são mais difíceis que outros. Já faz algum tempo que ele sabe. — Desceram as escadas em direção à recepção e à saída. — Mas ele diz que está tudo bem, desde que tenha um de nós. Só vou ali comprar cigarro. Você me espera?

— Lá está ela — disse Macbeth, apontando.

Jack estacionou rente ao meio-fio em frente ao Grand Hotel, entre uma lavanderia a seco e uma hamburgueria. Os dois saíram do carro. Macbeth correu os olhos de um lado para o outro da rua deserta.

— Obrigada por vir tão rápido — agradeceu-lhe Caithness.

— Sem problema — disse Macbeth. Ela usava um perfume forte. Ele não se lembrava de ter notado isso antes. — Me mostre.

Macbeth e Jack a seguiram pela rua. O movimento de sábado à noite estava apenas começando. Sob um sinal de neon piscando em que se lia SHOW DE STRIPTEASE, um porteiro de terno deu uma olhadela em Caithness, jogou a guimba do cigarro no chão e a espremeu com o calcanhar.

— Achei que você traria Seyton — disse Caithness.

— Ele teve que ir ao São Jorge. É aqui?

Caithness havia parado na entrada de um beco estreito cercado com a fita de isolamento alaranjada da Unidade de Homicídios. Macbeth espiou por baixo. O beco era tão estreito que as lixeiras às portas de ambos os lados quase se encostavam. E estava tão escuro que não se via nada.

— Fui a primeira a chegar. O restante da equipe da Perícia já está vindo. É assim nos fins de semana. Estão todos espalhados aos quatro ventos. — Caithness suspendeu a fita e Macbeth passou por baixo. — Se fosse possível, gostaria que desse uma olhada no corpo sozinho, senhor. Cobri com um lençol, mas por favor não toque em mais nada. Queremos o menor número possível de impressões digitais. Seu motorista pode aguardar aqui enquanto vou ao Joey’s me encontrar com o patologista. Ele disse que estaria logo ali na esquina.

Macbeth olhou para Caithness. Não viu nada de mais no rosto dela. Ainda não. O comentário sobre Seyton. Perfume forte. Para encobrir qualquer outro cheiro que estivesse exalando.

— Tudo bem — disse ele e seguiu pelo beco.

Não havia andado mais de dez metros quando todos os sons da rua principal foram abafados pelo zumbido de ventiladores, acessos de tosse escapando de uma janela aberta e uma voz arrastada que saía de um rádio: Todd Rundgren cantando “Hello, It’s Me”. Esgueirou-se entre as lixeiras, meio que rastejando sem saber muito bem por quê. Hábito, supôs.

O corpo estava no meio do beco, parcialmente iluminado pelo cone de luz de uma lâmpada na parede. Dali, dava para ver a rua 15 na outra extremidade, porém longe demais para ver se do lado de lá o beco estava isolado também.

Dois pés escapavam por baixo do lençol branco. Reconheceu imediatamente os sapatos de bico fino.

Aproximou-se do lençol. Respirou fundo. O ar tinha o cheiro adocicado dos produtos químicos para lavagem a seco e que saía de um exaustor barulhento acima da porta bem atrás dele. Agarrou o lençol pelo meio e o puxou.

— Oi, Macbeth.

Macbeth olhou para o cano da espingarda apontado na sua direção pelo homem deitado de costas na escuridão. A cicatriz brilhava no rosto dele. Macbeth soltou o ar dos pulmões.

— Oi, Duff.

Duff observava as mãos dele enquanto falava:

— Você está preso. Se mexer um dedo, atiro na hora. A escolha é sua.

Macbeth se virou para a rua 15.

— Sou o comissário-chefe dessa cidade, Duff. Você não pode me prender.

— Existem outras autoridades.

— O prefeito? — Macbeth riu. — Não vá contando que ele viva por muito tempo.

— Não estou falando de ninguém dessa cidade. — Duff ficou de pé sem que a espingarda desviasse um centímetro de Macbeth. — Você está preso por envolvimento nos assassinatos cometidos em Fife e será levado até lá pra ser julgado. Já conversamos com eles. Você será acusado do assassinato do Banquo, que aconteceu em Fife. Fique com as mãos acima da cabeça e virado pra parede.

Macbeth seguiu as instruções.

— Você não tem nada contra mim e sabe muito bem disso.

— Com o testemunho da inspetora Caithness sobre o que Angus contou pra ela, temos o suficiente para manter você preso em Fife por uma semana. E uma semana sem você no comando nos dará tempo suficiente pra indiciá-lo aqui também. Pelo assassinato do Duncan. Temos provas periciais. — Duff pegou as algemas. — Vire-se, coloque as mãos pra trás... Você conhece o protocolo.

— Você vai mesmo atirar em mim, Duff? Sem essa! Você vive por vingança.

Duff esperou até que Macbeth virasse as costas e unisse as mãos atrás da cabeça, e só então se aproximou.

— Sei que você ficou chocado ao descobrir que o homem que matou não era Sweno. Mas agora que tem certeza de que está com o homem certo à sua frente, não vai vingar Meredith e as crianças? Ou sua mãe significa mais do que eles pra você?

— Fique parado e cale a boca.

— Eu fiquei calado por anos, Duff. Sei que a policial que Sweno matou em Stoke era sua mãe. Em que ano foi aquilo? Você não devia ter muita idade.

— Eu era jovem. — Duff fechou as algemas nos pulsos de Macbeth.

— E por que escolheu o sobrenome do seu avô materno em vez do sobrenome dos seus pais?

Duff virou os ombros de Macbeth para que os dois ficassem frente a frente.

— Não precisa responder. Fez isso pra que ninguém da polícia ou dos Norse Riders ligasse você ao massacre de Stoke. Assim ninguém ficaria sabendo que você não se tornou policial pra servir à cidade e toda essa merda que faz parte do nosso juramento. Você só estava interessado em agarrar Sweno, se vingar. O ódio foi seu guia, Duff. No orfanato, quando você matou Lorreal, foi fácil, não foi? Imaginou Sweno na sua frente. Lorreal era outro homem que havia destruído uma infância.

— Talvez.

Duff estava tão perto que podia ver o próprio reflexo nos olhos castanhos de Macbeth.

— O que aconteceu, Duff? Por que não quer me matar agora? Sou o homem que matou sua família, e essa é a sua chance.

— Você vai ter que assumir a responsabilidade pelo que fez.

— E o que foi que eu fiz?

Duff lançou um rápido olhar na direção da rua 15, onde o carro com Malcolm e Fleance aguardava. Caithness estava a caminho de lá.

— Você matou pessoas inocentes.

— É nosso maldito dever matar pessoas inocentes, Duff. Desde que sirva a um propósito maior, temos que superar nossa natureza sentimental e complacente. Se eu cortei a garganta daquele homem na estrada, não foi por você, em retribuição por você ter matado Lorreal por mim. Eu me fiz de assassino pra que ninguém arrastasse a reputação da força policial pra lama. Foi pela cidade, contra a anarquia.

— Anda. Vamos logo.

Duff agarrou o braço de Macbeth, mas ele se desvencilhou.

— Será que o seu desejo de poder se tornou maior do que o seu desejo de vingança, Duff? Você acha que vai conseguir a Unidade de Crime Organizado por prender o próprio comissário-chefe?

Duff apertou o cano da espingarda no queixo de Macbeth.

— Eu poderia, é claro, dizer pra eles que você resistiu à prisão.

— Decisão difícil? — sussurrou Macbeth.

— Não — disse Duff, abaixando a arma. — Essa cidade não precisa de mais defuntos.

— Então você não amava todos eles, não é? Meredith, as crianças? Ah, já ia esquecendo, você não consegue amar...

Duff investiu. O cano da espingarda atingiu Macbeth na boca.

— Lembre-se de que eu nunca tive a dificuldade que você tem de matar um homem indefeso cara a cara, Macbeth.

Macbeth riu e cuspiu sangue. Algo que devia ser um dente saiu quicando na escuridão.

— Então prova isso. Atira no único amigo que você já teve na vida. Vai. Por Meredith!

— Não ouse dizer o nome dela.

— Meredith! Meredith!

Duff ouviu o sangue latejar nos ouvidos, o coração bater pesado e doloroso. Não podia... A testa de Macbeth atingiu o nariz de Duff com um estalo. Mas eles estavam perto demais para Macbeth tomar impulso para derrubá-lo. Duff recuou dois passos e ergueu a espingarda na altura do ombro.

Naquele momento, a porta atrás de Macbeth se abriu de supetão.

Um vulto no vão. O braço de um casaco cinza agarrou as algemas nas costas de Macbeth e o puxou. A força era tão grande que os pés de Macbeth estavam suspensos do chão quando ele desapareceu porta adentro, para o interior às escuras.

Duff deu um tiro.

A explosão atingiu seus tímpanos e girou como um turbilhão pelas paredes do beco.

Meio surdo, Duff passou pela porta e entrou também na escuridão.

Havia algo no ar, algo que ele respirou e cuspiu. Parecia haver pessoas enfileiradas à sua frente. O cheiro de percloroetileno era sufocante. Com a mão livre, achou o interruptor na parede ao lado da porta. A fila de gente eram cabideiros nos quais estavam pendurados paletós e sobretudos, todos cobertos por uma capa plástica com um papel informando um nome e uma data. Bem diante dele havia um rombo em uma dessas capas e no casaco de pele marrom que ela protegia, e Duff percebeu que tinha cuspido pelos de animal. Ficou parado, na tentativa de ouvir algo acima do forte ruído da máquina de lavagem a seco que havia junto à parede. Então soou uma campainha, como um sino na porta de uma loja. Ele se jogou contra a parede de roupas, foi derrubando um cabideiro após o outro, atravessando uma porta que dava para o lado interno de um balcão onde um casal de chineses o encarava apavorado. Passou correndo por eles e saiu novamente à rua. Olhou de um lado para o outro. A agitação das noites de sábado havia começado. Um homem esbarrou nele, e por um instante Duff perdeu o equilíbrio. Esbravejou enquanto o homem pedia desculpas e seguiu seu caminho.

Ouviu risadas às suas costas. Virou-se e deu de cara com um mendigo esfarrapado e imundo, uns poucos cacos de dentes na boca aberta.

— Roubaram o senhor?

— Sim — respondeu Duff, abaixando a espingarda. — Fui roubado.