Macbeth
Capítulo 42
Osol havia se escondido atrás da montanha, mas enviara um sinal vermelho de que estava a caminho. O inspetor Lennox achou que nunca tinha visto um amanhecer mais deslumbrante na cidade. Ou talvez tivesse havido uns tantos como esse; ele é que nunca notara. Ou talvez fosse a morfina (mais do que o sol) que coloria tudo. As ruas estavam adornadas com cacos de garrafas de cerveja e fediam a vômito e a guimbas de cigarro depois de uma noitada alegre de sábado, mas não havia mais ninguém por ali, salvo um homenzinho de uniforme preto e quepe branco da Marinha que passou correndo por eles. Os demais, agora que o destino da cidade havia sido selado, estavam em casa, deitados em suas camas com os cobertores sobre a cabeça. E, no entanto, ele nunca havia visto a cidade tão bonita. Lennox ficou olhando para o cobertor xadrez que Priscilla tinha esticado sobre seus joelhos. Eles se aproximavam da modesta entrada oeste da Estação Central. Ele notou que a cadeira de rodas se movia mais devagar. Priscilla parecia hesitar; ele imaginou que ela provavelmente nunca tinha ido à Central. — Não há nada a temer, Priscilla. Eles só querem vender drogas. Ou comprar. Quando passaram sob um poste de luz, Lennox observou, pela sombra de Priscilla, que ela havia se aprumado. E que iam mais rápido. Como combinado, ela foi buscá-lo quanto ainda estava escuro lá fora, antes que os corredores se apinhassem de enfermeiras e médicos que impedissem a saída deles. E trouxera vários objetos do escritório, conforme ele pedira. Não foi preciso insistir nem lhe dar explicações sobre nada; sem questionar, ela fez o que ele mandara, mesmo que oficialmente não fosse mais seu chefe.
— Tudo bem — dissera ela. — O senhor será sempre meu chefe. E Macbeth não deve continuar como comissário-chefe.
— Por que não?
— Ele endoidou, não foi?
Os dois cruzaram com traficantes e viciados arriados sobre cobertores, mas que despertaram ao vê-los e automaticamente estenderam as mãos implorando por esmola.
Mas Priscilla só parou diante das escadas para os banheiros.
Era ali que costumavam buscá-lo. Bastava esperar. Lennox nunca conseguira saber para onde era levado, porque não só colocavam os óculos de mergulho nele como também lhe davam tampões de ouvido para que não ficasse imaginando coisas ao escutar os ruídos ao fundo.
Fazia parte do combinado. Quando ele precisava de uma viagem de verdade, uma que não dava para ser em casa nem no escritório, e que teria de acontecer à noite sem correr o risco de ser pego, eles o levavam para a cozinha, onde a brew era preparada. E lá ele recebia a droga mais pura que poderia ser produzida, injetada por especialistas. Era colocado em uma cadeira reclinável, um pouco como faziam nos velhos tempos dos antros de ópio, e, depois de se curar dos efeitos em um ambiente seguro, podia voltar para a cidade e viver por um tempo como um novo homem, um homem melhor.
Coisa que nunca seria capaz de fazer de novo.
Ele tinha percebido quanto estava combalido ao ver Priscilla libertá-lo dos fios e tubos e manobrar seu corpo para sentá-lo na cadeira de rodas. Havia se tornado um inútil. Era pouco, bem pouco o que conseguiria fazer dali para a frente.
— Pode ir — disse ele.
— O quê? Já vamos embora?
— Você vai.
— E te abandonar aqui, é isso?
— Vai dar tudo certo. Eu telefono. Agora pode ir.
Ela não se mexeu.
— É uma ordem, Priscilla. — Ele sorriu. — Daquele que será sempre seu chefe.
Ela suspirou. E tocou de leve no ombro dele. Então se foi.
Menos de dez minutos depois, Strega apareceu na sua frente, de braços cruzados.
— Uau! — foi tudo o que ela disse.
— Pois é — falou Lennox. — Ninguém merece acordar tão cedo.
Ela deu uma risadinha.
— Estou vendo que está de bom humor, apesar da cadeira de rodas. O que posso fazer por você?
— Algo que faça a dor parar e uma hora na poltrona.
Ela lhe passou os tampões de ouvido e os óculos.
— Minhas pernas não são as mesmas, então pode ser que você precise me ajudar a chegar até lá.
— Uma coisinha leve como você? Fácil.
— Preciso da cadeira de rodas comigo.
— Então vamos ter que pular o passeio de carro.
Ela o empurrou. As dores tinham sido intermitentes durante a manhã, mas quando Strega o retirou da cadeira de rodas, alguns minutos depois, e o colocou sobre o que parecia ser pedra britada, doía tanto que ele começou a chorar. Sentiu os braços musculosos de Strega, e seu quase vertiginoso perfume. Depois que ela conseguiu colocá-lo de volta na cadeira de rodas, começou a empurrá-lo. A cada metro as rodas colidiam com alguma coisa na brita. Dormente de trilho. Sentiu cheiro de alcatrão e metal queimado. Estava sendo empurrado ao longo de uma via férrea.
Surpreendeu-se por não ter suspeitado antes. Das outras vezes tinham ido de carro por um caminho curto, mas claramente andaram em círculo, retornando ao ponto de partida: a Estação Central. Ele sabia que não estavam a céu aberto porque não sentiu chuva, mas jamais imaginou que a brew fosse produzida em túneis desativados, bem debaixo de seus narizes! Gemeu languidamente quando Strega o ergueu e o deitou com o rosto pousado em algo frio e úmido. Concreto. Então ela o pôs de volta na cadeira de rodas. E seguiu empurrando-o. O ar estava ficando mais quente e seco. Aproximavam-se da cozinha agora, os cheiros fáceis de identificar ativando seu cérebro, acelerando seu coração, propiciando um gostinho antecipado do prazer. Alguém então removeu os óculos e os tampões, e ele ouviu o finalzinho do que Strega ia dizendo.
— ... Limpe o rastro de sangue depois que ele sair.
— Tudo bem — falou uma das irmãs, mexendo o caldeirão.
Strega estava prestes a transferi-lo para a cadeira reclinável, mas Lennox acenou para que ela se afastasse e começou a enrolar a manga esquerda da camisa. Brew direto da fonte. Não dava para ficar melhor. O paraíso dos viciados. Era para onde ele queria ir. Ou não. Isso ele veria. Ou não.
— Não é o inspetor Lennox, da Unidade Anticorrupção? — perguntou Jack.
Estava diante do vidro espelhado, olhando para a cozinha e para o homem na cadeira de rodas, do outro lado.
— Sim — confirmou Hécate, que usava um terno de linho branco e chapéu. — Não basta ter olhos e ouvidos no Inverness.
— Ouviu que Lennox acusou Macbeth de assassinato? Ele não sabe que Macbeth é manipulado por você?
— Ninguém tem permissão de saber mais do que precisa, nem mesmo você, Bonus. Mas voltando ao assunto em pauta... Lady tirou a própria vida, mas Macbeth parece paralisado em vez de devastado, é isso?
— É a forma como interpreto.
— Hum. E se Tourtell declarar estado de emergência, você acha que, em seu atual estado mental, Macbeth conseguirá assumir o controle, fazer o que deve ser feito pra se firmar como líder da cidade?
— Não sei. Ele dá a impressão de... de não se importar. Como se não tivesse interesse em mais nada. Ou isso, ou acredita ser invulnerável. Acredita que você vai salvá-lo, não importa o que aconteça.
— Hum. — Hécate bateu a bengala no chão duas vezes. — Sem Lady, o cacife do Macbeth como comissário-chefe despencou.
— Ele ainda vai obedecer.
— Ele até pode conseguir tomar o poder agora, mas sem ela não vai ser capaz de mantê-lo. Era ela quem compreendia o jogo, quem via a floresta em vez das árvores, quem sabia quais manobras eram necessárias. Macbeth pode até saber atirar as adagas, mas precisa de alguém que diga a ele por que e em quem.
— Eu poderia me tornar o novo conselheiro dele — disse Jack. — Estou ganhando a confiança dele.
Hécate riu.
— Não consigo me decidir se você é um linguado do lodo ou um peixe predador dissimulado, Bonus.
— Concluo que sou um peixe, de qualquer modo.
— Mesmo se você conseguisse reforçar a insuficiente capacidade que ele tem de governar, duvido que pudesse fazer muito pra alterar a disposição dele. Afinal, ele não tem o mesmo apetite da Lady pelo poder. Parece desejar coisas das quais nem você nem eu dependemos, meu querido Bonus.
— Brew?
— Lady. Mulheres. Amigos, talvez. Esse amor entre humanos, sabe? E agora que Lady se foi, ele já não se sente motivado pelo desejo de satisfazer a fome de poder dela.
— Lady também precisava de amor — falou Jack, em voz baixa.
— O desejo de ser amado e a capacidade de amar, que dá aos humanos tal força, é, ao mesmo tempo, seu calcanhar de aquiles. Isso garante aos humanos a perspectiva de amor e eles movem montanhas; retire isso deles e um bafo suave de vento conseguirá derrubá-los.
— Talvez, talvez.
— Se o vento derrubar Macbeth, o que acha daquele ali como comissário-chefe?
Hécate apontou com a testa para o vidro. Uma das irmãs estava secando o braço esquerdo de Lennox com uma gaze embebida em álcool e procurando uma veia, a seringa pronta na outra mão.
— Lennox? Está falando sério?
Hécate estalou os lábios.
— Foi quem derrubou Macbeth. O herói que sacrificou a própria mobilidade física pra salvar o prefeito. E ninguém sabe que Lennox trabalha pra mim.
— Mas Malcolm voltou à cidade. E todo mundo sabe que Lennox é o garoto de recado do Macbeth.
— Lennox seguiu as ordens como um policial leal. E os Malcolms e Duffs da vida podem desaparecer novamente. Roosevelt venceu uma guerra mundial de uma cadeira de rodas. Sim, eu poderia botar Lennox na cadeira de comissário-chefe. O que você acha?
Jack olhou para Lennox. Sem responder.
Hécate riu e colocou a volumosa porém macia mão no ombro estreito de Jack.
— Eu sei o que você está pensando, linguado. O que será de você? Quem vai te dar um emprego se Macbeth se for? Então vamos esperar que Macbeth saia ileso dessa tempestade, hein? Vem. Vou levar você até a porta.
Jack deu uma última olhada em Lennox, depois se virou e caminhou ao lado de Hécate de volta à porta do banheiro e à estação.
— Espere — pediu Lennox quando uma das irmãs encostou a agulha em sua pele.
Ele enfiou a mão direita no grande bolso lateral da cadeira de rodas. Puxou a corda da extremidade do cabo.
— Pode continuar.
Ela fincou a agulha e empurrou o êmbolo; enquanto isso, ele retirou a mão do bolso da cadeira, recuou o braço e atirou. O que Priscilla havia trazido do escritório foi quicando pelo piso de concreto e desapareceu sob a mesa de frascos, tubos e canos ao lado do caldeirão.
— Ei, o que foi isso? — perguntou Strega.
— De acordo com meu avô, foi uma granada que atiraram na cabeça dele — respondeu Lennox, sentindo a excitação da droga, que nunca seria igual à primeira vez, mas que ainda o fazia vibrar de prazer. Que era, mesmo depois de todos aqueles anos de busca, o mais próximo que havia chegado do significado da vida. A menos que isso fosse tudo. O ponto final. — Pode ser uma Stielhandgranate 24. Ou um cinzei...
Sua frase foi interrompida ali.
Jack estava no meio da escada quando a explosão o fez alçar voo. Conseguiu ficar de pé e se virou para trás. A porta para o banheiro havia sido explodida, e dali escapava fumaça. Esperou. Quando as explosões terminaram, desceu degrau por degrau e entrou no banheiro. O reservado e a porta da cozinha tinham desaparecido. Havia um incêndio lá dentro, e, à luz das chamas, viu que tudo tinha sido destruído. A cozinha e todos que estavam lá dentro não existiam mais. E cinco segundos antes ele tinha...
— Bonus...
A voz vinha de um ponto bem à sua frente. E dali, sob a porta de aço tombada, alguém veio se arrastando. Uma barata esmagada, em um terno de linho branco. O rosto macio estava coberto de merda e os olhos obscurecidos pelo choque.
— Me ajuda...
Bonus pegou as mãos do idoso e o arrastou pelo chão até a porta do banheiro, onde o virou de costas. Estava muito ferido. Da barriga dilacerada jorrava sangue. O imortal Hécate. A Mão Invisível: seguramente, não lhe restava mais do que alguns minutos ou segundos de vida. Todo aquele sangue... Jack virou o rosto.
— Rápido, Jack. Encontre algo que possa...
— Tenho que chamar um médico — disse Jack.
— Não! Pegue alguma coisa pra fechar a ferida antes que eu me esvaia em sangue.
— Você precisa de ajuda médica. Vou depressa.
— Não me deixe, Jack! Não...
O corpo na frente de Jack arqueou e soltou um uivo.
— O quê?
— Suco gástrico! Alguma coisa está vazando de dentro de mim. Meu Deus, estou queimando. Socorro, Jack! Socorr... — O grito se metamorfoseou em outro uivo rouco.
Jack assistiu à cena incapaz de se mexer. Hécate era uma barata deitada de costas, os braços e as pernas se debatendo descontroladamente.
— Eu já volto — falou Jack.
— Não, não! — gritou Hécate e tentou se esticar para agarrar suas pernas.
Mas Jack se afastou, virou-se e saiu.
Parou no topo da escada e olhou para a esquerda, na direção do Inverness. Na direção de Macbeth. Na direção do São Jorge. Havia um telefone público no terminal de embarque naquela direção. Virou-se então para a direita. Para a montanha. Para o outro lado. Para águas desconhecidas. Águas abertas, perigosas. Mas tomar esse tipo de decisão era algo que um homem — e uma rêmora — precisava fazer algumas vezes para sobreviver.
Jack respirou fundo. Não porque hesitasse, mas porque precisava de ar.
Seguiu para a direita.
Os cristais arrulharam e chilrearam acima da cabeça de Macbeth. Ele ergueu os olhos. O lustre balançou para a frente e para trás, ora repuxando, ora liberando os cabos que o sustentavam.
— O que foi isso? — berrou Seyton, no canto do mezanino, ao lado de uma das metralhadoras Gatling.
— O fim do mundo — disse Macbeth, e acrescentou, baixinho, para si próprio: — Assim espero.
— Veio da Central! — gritou Olafson, perto da outra metralhadora. — Foi uma explosão?
— Siiiiiim! — entoou Seyton. — Estão trazendo a artilharia.
— Será? — questionou Olafson, chocado.
O riso de Seyton ecoou pelas paredes. Tinham discutido como defender o Inverness, e foi fácil chegar à conclusão de que qualquer ataque só poderia vir da Praça dos Operários, pois a fachada sólida e sem janelas que dava para a rua Thrift era nada menos que a muralha de uma fortaleza.
— Sinto o cheiro do seu medo daqui, Olafson. Consegue sentir daí, chefe?
Macbeth bocejou.
— Nem lembro qual é o cheiro do medo, Seyton.
Ele esfregou o rosto com força. Havia caído no sono e sonhado que estava deitado na cama ao lado de Lady quando a porta da suíte começou a deslizar até se abrir por completo. O vulto na porta usava um manto com um capuz cobrindo o rosto de tal forma que só quando entrou e a luz incidiu sobre ele é que viu que era Banquo. Um dos olhos se fora, e asquerosos vermes brancos escapavam das faces e da testa, contorcendo-se. Macbeth metia a mão na jaqueta, sacava uma adaga de seu coldre duplo de ombro e atirava contra o vulto. A ponta se cravava na sobrancelha de Banquo com um baque suave, como se o osso estivesse esfarelado. Mas isso não impedia o fantasma de avançar na direção da cama. Macbeth gritava e sacudia Lady.
— Ela está morta — dizia o fantasma. — E você tem que atirar uma adaga de prata, não de aço. — A voz não era a de Banquo. Era...
Então a cabeça de Banquo tombava sob o capuz, caía no chão e rolava para debaixo da cama. Agora, o rosto sob o capuz era o de Seyton, que zombava dele.
— O que você quer? — sussurrava Macbeth.
— O mesmo que o senhor. Dar a vocês dois um filho. Olha, ela está me esperando.
— Você está louco.
— Confie em mim. Não quero muito em troca.
— Ela está morta. Vá embora.
— Estamos todos mortos. Vá, plante suas sementes. Se não fizer agora, vou plantar as minhas.
— Vá embora!
— Chega pra lá, Macbeth. Vou roubar Lady do jeito que Duff te roubou Meredi...
A segunda adaga se cravava na boca aberta de Seyton. Ele cerrava os dentes, agarrava o cabo, arrancava fora a lâmina e a devolvia a Macbeth. Então esticava a língua retalhada e ensanguentada e gargalhava.
— Falaram alguma coisa no rádio?
Macbeth despertou. Era Seyton, gritando do alto do mezanino.
— Nada — respondeu Macbeth, esfregando o rosto com força mais uma vez e aumentando o volume do rádio. — Ainda faltam vinte minutos pra amanhecer.
Ele olhou para a carreira de pó branco no espelho que havia colocado sobre o feltro à sua frente. Viu seu rosto refletido. A linha de pó cortava a superfície brilhante de uma ponta à outra como uma cicatriz.
— E então, vamos mesmo matar o menino? — berrou Olafson.
— Sim, Olafson! — gritou Seyton de volta. — Somos homens, não uns maricas!
— Mas... E depois? Não teremos nenhum trunfo pra negociar.
— Isso soa familiar, Olafson? — Mais risadas do outro canto.
— Não temos nada a temer — disse Macbeth.
— Como assim, senhor?
— Nenhum homem nascido de mulher pode me ferir. Hécate me prometeu que eu seria o comissário-chefe até que Bertha viesse me buscar. Pode-se falar muita coisa sobre Hécate, mas ele é um homem de palavra. Relaxa. Tourtell vai entregar os pontos. — Macbeth se virou para Kasi, que estava calmamente sentado de costas em uma estrutura, o olhar perdido. — O que você consegue ver, Seyton?
— Um aglomerado de gente perto da Bertha. Policiais e civis, parece. Algumas armas automáticas, alguns rifles e pistolas. Não será um problema se atacarem com isso.
— Algum casaco cinza?
— Casaco cinza? Não.
— E no seu setor, Olafson?
— Aqui também não, senhor.
Mas Macbeth sabia que eles estavam lá. Observando-o.
— Já ouviu falar em Títono, Seyton?
— Não. Quem é?
— Um grego. Lady me contou sobre ele. Fui pesquisar. Eos, a deusa do amanhecer, raptou um jovem amante, um cara qualquer chamado Títono. E fez com que o chefão, Zeus, desse ao rapaz vida eterna, como ela tinha. O jovem não pediu nada disso, ela o tornou imortal e pronto. Mas se esqueceu de pedir juventude eterna pro jovem. Está entendendo?
— Acho que sim, mas não entendo aonde quer chegar com isso, senhor.
— Tudo desaparece, todos morrem, mas Títono continua apodrecendo na velhice e na solidão. Ele não ganhou porcaria nenhuma; pelo contrário, vive numa prisão. Sua vida eterna é uma maldição.
Macbeth se levantou tão rápido que ficou zonzo. Era só a melancolia e a abstinência. Tinha uma cidade a seus pés, que logo seria irrevogavelmente dele, só dele, e então poderia ter todos os seus menores desejos satisfeitos. Quando isso acontecesse, precisaria pensar apenas nos desejos e prazeres. Desejos e prazeres.
Duff correu a ponta do dedo pela rachadura na base em frente ao nariz de Bertha. Ouviu a voz de Malcolm:
— Façam o favor, me deixem passar!
Ele olhou para cima e viu Malcolm abrindo caminho pela multidão até o topo da escada.
— Vocês também ouviram? — perguntou ele, respirando com dificuldade.
— Sim — respondeu Caithness. — Achei que o teto fosse desabar. Parecia um teste nuclear subterrâneo.
— Ou um terremoto — falou Duff, apontando para a rachadura.
— Eu não esperava que viesse tanta gente — comentou Malcolm, observando as pessoas que se apertavam ao pé da escada, atrás da barricada de carros da polícia e de um grande veículo vermelho dos bombeiros. — São todos bombeiros e policiais?
— Não — respondeu um homem que subia as escadas.
Malcolm observou seu uniforme preto.
— Capitão naval?
— Prático — respondeu o homenzinho. — Fred Ziegler.
— O que um prático está fazendo aqui?
— Escutei Kite no rádio ontem à noite, dei umas voltas por aí e ouvi rumores sobre o que aconteceria aqui. Me diga o que posso fazer.
— Você tem uma arma?
— Não.
— Sabe atirar?
— Fui fuzileiro por dez anos.
— Ótimo. Vá até o homem com uniforme da polícia. Ele vai te dar um rifle.
— Obrigado.
O prático bateu continência com três dedos no chapéu branco e se foi.
— O que Tourtell tem a dizer? — perguntou Duff.
— Capitol foi informada sobre o sequestro — disse Malcolm. — Mas eles não podem nos ajudar até que um mandado de prisão seja expedido, nessa tarde.
— Meu Deus, há vidas de pessoas em risco aqui.
— Uma vida. Isso não preenche os requisitos pra uma intervenção federal, a menos que o nosso comissário-chefe solicite.
— Política de merda! E onde está o Tourtell?
Duff se virou para o leste. No topo da montanha, o céu azul-claro ganhava mais e mais nuanças avermelhadas.
— Foi ao estúdio de rádio — respondeu Caithness.
— Ele vai declarar estado de emergência — completou Malcolm. — Precisamos atacar Macbeth agora, enquanto ainda podemos agir sob as ordens do prefeito. Assim que o estado de emergência for declarado, seremos revolucionários fora da lei, e nenhuma dessas pessoas ficará do nosso lado. — Ele apontou para a multidão.
— Macbeth se protegeu atrás de uma trincheira — disse Caithness. — Vidas humanas serão sacrificadas.
— Sim. — Malcolm levou o megafone à boca. — Meus bons homens e mulheres! Assumam suas posições!
Os participantes se reuniram atrás dos carros que estavam estacionados ao pé da escada. Apoiaram suas armas nos tetos dos veículos, protegidos atrás do blindado do GOE e de um carro dos bombeiros, e apontaram para o Inverness.
Malcolm virou o megafone na mesma direção.
— Macbeth! Aqui é o comissário-chefe adjunto, Malcolm. Você sabe e nós sabemos que está num beco sem saída. O máximo que pode conseguir é adiar o inevitável. Então solte o refém e se entregue. Eu te dou um, vou repetir, um minuto.
— O que ele disse? — gritou Seyton.
— Que vai me dar um minuto — respondeu Macbeth. — Consegue vê-lo?
— Sim, está no topo da escada.
— Olafson, pegue seu rifle e cale a boca do Malcolm.
— Você quer dizer...
— Sim, quero dizer exatamente isso.
— Salve Macbeth! — Seyton riu.
— Escutem — disse Macbeth.
Duff alternava entre olhar para a montanha, para o relógio e para os homens ao redor. Seus cotovelos e ombros se contorciam de nervosismo. Estavam trocando de posição por causa de seus joelhos e de suas panturrilhas, que tinham começado a tremer. Além dos seis voluntários do GOE e alguns outros policiais, a multidão era composta de pessoas com empregos comuns em escritórios de contabilidade e no quartel dos bombeiros, que nunca haviam disparado um tiro, mesmo de raiva, nem nunca tinham sido baleadas. E ainda assim tinham ido se juntar aos outros. Estavam dispostas a sacrificar tudo, mesmo não estando preparadas. Ele contou os três últimos segundos.
Nada aconteceu.
Duff trocou olhares com Malcolm e deu de ombros.
Malcolm suspirou e levou o megafone à boca.
Duff mal ouviu o estrondo.
Malcolm cambaleou para trás, e o megafone caiu no chão com um som estridente.
Duff e Fleance reagiram imediatamente, jogando-se sobre Malcolm e cobrindo-o quando ele caiu. Duff procurou sangue e pulsação.
— Estou bem — gemeu Malcolm. — Estou bem. Levantem-se. Ele atingiu o megafone. Foi só.
— Quando você disse cale a boca dele, pensei que quisesse dizer pra sempre — gritou Seyton. — Agora eles vão pensar que somos fracos, senhor.
— Errado — disse Macbeth. — Agora eles sabem que a coisa é séria, mas que não somos loucos. Se tivéssemos matado Malcolm, teríamos dado a eles uma razão pra nos atacar com a fúria da justiça. Agora, ainda vão hesitar.
— Pois acho que eles vão atacar de qualquer maneira — falou Olafson. — Olha, o nosso blindado. Está vindo pra cá.
— Bem, agora é diferente. Um comissário-chefe está autorizado a se defender. Seyton?
— Sim?
— Ponha as garotas Gatling pra cantar.
Duff espiou de trás de Bertha e acompanhou com os olhos o pesado blindado, conhecido como um Sonderwagen, fazer o percurso pela praça em direção ao Inverness. A fumaça grossa e pesada do diesel subia do cano de descarga. Engenharia alemã, chapas de aço e vidro à prova de balas. O plano de Ricardo seguia as táticas usuais. Os seis voluntários do GOE iriam dentro do Sonderwagen até a porta, sairiam para jogar bombas de gás lacrimogêneo pela janela e, em seguida, derrubariam portas e invadiriam o prédio usando máscaras de gás. O ponto crítico era o instante em que sairiam do blindado para atirar as bombas. Isso levaria apenas segundos, mas naqueles segundos precisariam de cobertura de fogo amigo.
O rádio de Malcolm produziu uns estalidos, e ouviu-se a voz de Ricardo:
— Fogo de cobertura em três... dois... um...
— Fogo! — rugiu Malcolm.
Soou como um tambor sendo tocado quando as armas dispararam da barricada. Um tambor bem pequeno, pensou Duff. E o som foi abafado por um uivo crescente do outro lado.
— Santo Deus — murmurou Caithness.
No início, parecia uma pancada de chuva levantando poeira das pedras diante do Sonderwagen. Depois, com um cacarejar, atingiu a grade do veículo, sua armadura, o para-brisa e o teto. O blindado parecia dobrar os joelhos e afundar.
— Os pneus — disse Fleance.
O Sonderwagen seguiu o trajeto bem mais devagar, como se estivesse enfrentando um furacão.
— Tudo bem. É um blindado — respondeu Malcolm.
O veículo avançava mais e mais devagar. E parou. Os espelhos laterais e os para-choques foram ao chão.
— Era um blindado — disse Duff.
— Ricardo? — Malcolm chamou pelo walkie-talkie. — Ricardo? Retirada!
Sem resposta.
Agora o veículo parecia estar dançando.
Então o bombardeio parou. O silêncio que caiu sobre a praça foi quebrado apenas pelo grasnar de uma gaivota em voo. Uma fumaça vermelha, como vapor, subia do Sonderwagen.
— Ricardo! Faça contato, Ricardo!
Ainda sem resposta. Duff olhou para o blindado, para aquele lixo. Não havia sinal de vida. Então ele entendeu como tinha sido. Naquela tarde em Fife.
— Ricardo!
— Estão mortos — disse Duff. — Estão todos mortos.
Malcolm lançou-lhe um olhar de viés.
Duff esfregou a mão no rosto.
— Qual é o próximo passo?
— Não sei, Duff. Esse era o passo.
— O carro dos bombeiros — disse Fleance.
Todos se viraram para o jovem, que se encolheu sob o olhar do grupo e por um momento pareceu titubear. Mas então ele se endireitou e disse, com um imperceptível tremor na voz:
— Temos que usar o carro dos bombeiros.
— Não serve — objetou Malcolm.
— Se o levarmos até os fundos, para a rua Thrift... — Fleance fez uma rápida pausa para engolir em seco, antes de continuar: — Vocês viram que eles acertaram o blindado com as duas metralhadoras, então não devem estar cobrindo a traseira.
— Porque eles sabem que não podemos entrar por lá — disse Duff. — Não há portas nem janelas, apenas tijolos, e seria preciso uma perfuratriz pneumática ou artilharia pesada pra atravessar.
— Não precisamos atravessar — disse Fleance. Sua voz era mais firme agora.
— Contornar? — indagou Duff.
Fleance apontou o dedo para o céu.
— Claro! — disse Caithness. — O carro dos bombeiros
— O que é tão óbvio? — resmungou Malcolm, olhando de relance para a montanha.
— A escada — disse Duff. — O telhado.
— Estão movendo o carro dos bombeiros — gritou Seyton.
— Por quê? — perguntou Macbeth, com um bocejo.
O menino estava sentado no chão com as pernas cruzadas e os olhos fechados. Calmo e em silêncio, dava a impressão de ter-se conformado com seu destino e apenas aguardava o fim. Igual a Macbeth.
— Não sei.
— E você, Olafson?
— Também não, senhor.
— Muito bem! — gritou Macbeth.
Havia sacado a adaga de prata e desbastava a ponta de um fósforo, que usou como palito para cutucar entre os dentes da frente. Deixou a adaga no feltro que cobria a mesa. Pegou duas fichas e começou a fazê-las rolar entre os dedos de cada mão. Havia aprendido isso no circo. Era um exercício para preservar o equilíbrio entre as funções motoras das mãos. Deu uma chupada no palito, rolou as fichas e tentou entender o que estava sentindo. Nada. Tentou entender o que pensava. Não estava pensando em Banquo nem em Lady. Estava apenas pensando que não sentia nada. E pensou mais uma coisa: Por quê? Por quê...?
Pensou sobre isso por um tempo...
Então fechou os olhos e começou uma contagem regressiva de dez.
— Isso não é igual a uma escada encostada na parede. Quanto mais subir, mais vai balançar — disse o homem de uniforme naval para Fleance e dois outros voluntários. — Mas é só fazer um movimento por vez, uma das mãos e depois um pé. Não há o que temer.
O prático bocejou alto e deu um rápido sorriso antes de segurar a escada e iniciar a subida.
Fleance observou o homenzinho, desejando que também não tivesse medo. A rua Thrift estava vazia, a não ser pelo carro dos bombeiros com sua escada de 15 metros apontando para a parede sem janelas.
Fleance foi atrás do prático e, por mais estranho que pudesse parecer, o medo diminuía a cada passo. O pior havia passado, afinal. Ele dera sua sugestão. E eles o escutaram. E concordaram, dizendo ter entendido. Então entraram no carro dos bombeiros e dirigiram para o leste da Estação Central em um grande arco através das ruas calmas de domingo, chegando despercebidos aos fundos do Inverness.
Fleance olhou para cima e viu o prático sinalizando do telhado que o caminho estava livre.
Na noite anterior, haviam estudado as plantas baixas do Inverness tão detalhadamente que Fleance sabia direitinho o lugar de tudo. O telhado plano tinha uma porta que dava para uma escada estreita, que descia para a sala da caldeira com uma porta que dava para o corredor superior do hotel. Lá eles se dividiriam: dois homens tomariam a escada norte e dois, a escada sul. Ambas levavam ao mezanino. Em alguns minutos, começariam a atirar da estação, de forma a manter a atenção dos atiradores concentrada na Praça dos Operários, abafando qualquer barulho de Fleance e dos outros três, que se esgueirariam por trás e matariam os artilheiros. Os três voluntários haviam sincronizado seus relógios com o de Fleance sem uma palavra sequer de protesto por estarem sendo liderados por um mero cadete. O cadete parecia ter um tino especial para tais ações. Como era mesmo que o pai havia dito? E se você tem mais discernimento, você deve liderar, é seu maldito dever pra com a comunidade .
Fleance ouviu abrirem fogo da estação.
— Me sigam.
Eles se aproximaram da porta do telhado, puxaram. Trancada. Conforme o esperado. Ele assentiu para um dos policiais, um cara da Unidade de Tráfego, que enfiou um pé de cabra na fenda entre a porta e a moldura e forçou. A fechadura quebrou na primeira tentativa.
Estava escuro lá dentro, mas Fleance sentiu o calor vindo da sala da caldeira abaixo. O outro policial, um sujeito de cabelo branco da Unidade de Fraudes, queria ir à frente, mas Fleance o segurou.
— Me siga — sussurrou ele.
Passou por cima da soleira alta de metal. Em vão tentou distinguir formas na escuridão, então teve de abaixar a metralhadora e ir tateando até encontrar o corrimão. A escada de metal rangeu sob seu primeiro passo hesitante e depois ao achar o degrau seguinte. Ele congelou, ofuscado por uma luz. Uma lanterna havia sido acesa abaixo dele e iluminava seu rosto.
— Pow! — disse a voz que segurava a lanterna. — Você está morto.
Fleance sabia que estava na linha de fogo dos três que vinham atrás. E também que não haveria tempo para disparar a metralhadora. Porque reconheceu a voz.
— Como você soube...?
— Eu fiquei matutando: Por que, oh, por que pegar o carro dos bombeiros quando não se ouve nenhum alarme de incêndio? — A voz na escuridão deu uma risadinha. — Ainda com os meus sapatos, hein. — Tio Mac falava como se estivesse bêbado. — Escuta, Fleance, você pode salvar vidas hoje. A sua e a dos três amotinados com você. Volte agora e fique atrás da barricada. Vai ter mais chances de me pegar de lá.
Fleance buscava saliva, mas tinha a boca seca.
— Você matou meu pai.
— Talvez. — A voz era arrastada. — Ou talvez tenham sido as circunstâncias. Ou talvez as ambições do Banquo para sua família. Mas provavelmente... — na pausa veio o som de um profundo suspiro — ... Fui eu. Agora vai, Fleance.
Esvoaçando de lá para cá na mente de Fleance estavam todas aquelas simulações de lutas com tio Mac na sala de casa, quando ele ia deixando o garoto levar vantagem para, no último instante e em um movimento imprevisível, atirá-lo ao chão. Não porque tivesse mais força, mas por velocidade e precisão. Será que tio Mac estava mesmo muito bêbado, ou não? E será que agora Fleance estaria em melhores condições para enfrentá-lo? Será que tinha uma chance, afinal? Se fosse rápido, talvez conseguisse atirar. Salvar Kasi. Salvar a cidade. Vingar...
— Não faça isso, Fleance.
Mas era tarde demais. Fleance já havia agarrado a metralhadora, e o som de uma breve saraivada martelou os tímpanos dos cinco homens na espremida sala da caldeira.
— Agh! — gritou Fleance.
E rolou escada abaixo.
Não sentiu bater no chão, não sentiu nada até que abriu os olhos novamente. E então não viu nada, embora sentisse no rosto a mão de alguém. Uma voz falou ao seu ouvido:
— Eu avisei.
— On... onde eles estão?
— Recuaram, como mandei. Agora durma, Fleance.
— Mas...
Ele sabia que tinha sido baleado. Sangrava. Tossiu, e sua boca se encheu de sangue.
— Durma. Diga olá ao seu pai quando chegar e avise que eu chego logo.
Fleance abriu a boca, mas só saiu sangue. Sentiu os dedos gentis e cuidadosos de Macbeth fechando suas pálpebras. Sugou o ar como se fosse dar um mergulho. Do jeito que tinha feito quando caíra da ponte para o rio, para a água negra, para seu túmulo.
— Não — disse Duff quando viu o carro dos bombeiros vindo na direção deles. — Não!
Ele e Malcolm foram até lá, e, quando o veículo parou, os homens lá dentro abriram as portas de supetão. O motorista, dois policiais e o prático saltaram.
— Macbeth estava esperando por nós — gemeu o prático, ainda buscando fôlego. — Ele atirou no Fleance.
— Não, não, não! — Duff se inclinou para trás e fechou os olhos com força.
Alguém pousou a mão em seu pescoço. Um toque familiar. Caithness.
Dois homens com o uniforme preto do GOE vieram correndo e pararam diante de Malcolm.
— Hansen e Edmunton, senhor. Soubemos da ação e viemos o mais rápido que conseguimos. E tem mais gente vindo.
— Obrigado, pessoal, mas encerramos a ação — anunciou Malcolm. Ainda não podiam ver o sol, mas a silhueta da cruz de ponta-cabeça no alto da montanha já havia captado os primeiros raios. — Agora, está nas mãos do Tourtell.
— Vamos trocar os reféns — disse Duff. — Que Macbeth escolha quem quiser, Malcolm. Nós dois. Em troca do Kasi.
— Você não acha que já considerei isso? Macbeth nunca vai trocar o filho de um prefeito por umas migalhas como você e eu. E se Tourtell declarar estado de emergência, Kasi será poupado. Nós dois vamos ser executados de qualquer jeito. E quem, então, vai liderar a luta contra Macbeth?
— Caithness — disse Duff. — E todas aquelas pessoas dessa cidade nas quais você diz acreditar. Tem medo ou...?
— Malcolm tem razão — disse Caithness. — Você vale mais para essa cidade vivo.
— Droga!
Duff se afastou e foi em direção ao carro dos bombeiros.
— Aonde você vai? — gritou Caithness.
— À base.
— O quê?
— Temos que destruir a base da Bertha. Ei, chefe!
O homem que havia dirigido o carro de bombeiros se levantou.
— Hã... Eu não sou...
— Você por acaso tem machados ou marretas no carro?
— Claro.
— Olhem! — berrou Seyton. — O sol está brilhando no alto do Obelisco. O menino tem que morrer!
— Todos nós temos que morrer — disse Macbeth, muito baixo.
Ele colocou uma ficha sob o símbolo de copas na parte vermelha do feltro e a outra, no preto. Inclinou-se para a esquerda e retirou a bolinha da roleta.
— O que exatamente aconteceu no telhado? — gritou Seyton.
— O garoto do Banquo — Macbeth gritou de volta, e girou a roleta. Difícil. — Já resolvi.
— Ele foi eliminado?
— Já disse que resolvi.
O carrossel da roleta girou diante de Macbeth, os números se mesclando ao formarem um círculo claro e ininterrupto. Nebuloso, porém claro. Tinha começado a contagem regressiva para a zona de foco e continuava lá. O carrossel girava. Dessa vez não pararia, dessa vez ele nunca sairia do foco: havia fechado e trancado a porta atrás de si. A roda. Girando, girando para um destino desconhecido, embora tão familiar. O cassino sempre vence no final.
— Que barulheira é essa lá fora, Seyton?
— Por que não vem aqui ver, senhor?
— Prefiro a mesa de roleta. Me diga o que é.
— Começaram a quebrar a Bertha, coitada. E agora o sol está brilhando lá fora, senhor. Dá pra ver. Bonito, grande. O tempo acabou. Vamos...
— Estão estraçalhando a Bertha?
— A base em que ela fica, pelo menos. Olafson, fique de olho na praça e atire em qualquer coisa que se aproximar.
— Certo!
Macbeth ouviu passos abafados na escada e olhou para cima. O matiz avermelhado do rosto de Seyton estava mais aparente que o habitual, como se tivesse tomado sol. Ele passou pela mesa de roleta e foi até a estrutura onde Kasi estava sentado curvado para a frente, a cabeça baixa e o cabelo caindo no rosto.
— Quem disse que você podia deixar seu posto? — perguntou Macbeth.
— Não vai demorar muito — falou Seyton, sacando um revólver preto do cinto.
Encostou o cano na cabeça de Kasi.
— Para! — ordenou Macbeth.
— Dissemos no segundo raio de sol, chefe, não podemos...
— Eu mandei você parar!
Macbeth aumentou o volume do rádio atrás dele.
— ... O prefeito Tourtell falando com vocês. Ontem à noite recebi um ultimato do comissário-chefe Macbeth, que recentemente foi responsável por uma série de assassinatos, inclusive o do comissário-chefe Duncan. Ontem à noite ele sequestrou meu filho, Kasi, depois de uma tentativa frustrada de me matar. O ultimato exige que eu declare estado de emergência, dando poderes ilimitados a ele e impedindo a intervenção federal, caso contrário meu filho será morto quando o sol se erguer acima da nossa cidade. Mas nós não queremos, eu não quero, vocês não querem, Kasi não quer, essa cidade não quer outro déspota no poder. Em prol disso, muitas pessoas de bem sacrificaram suas vidas nos últimos dias. E seus filhos. Sacrificaram seus filhos da maneira que nós, nessa e em outras cidades, os sacrificamos durante as guerras mundiais quando nossa democracia foi ameaçada. E agora o sol está nascendo e Macbeth está perto do seu rádio aguardando que eu confirme que esse dia e essa cidade são dele. Eis aqui a minha mensagem pra você, Macbeth: mate-o. Kasi é seu. Eu estou sacrificando meu filho pois sei, e assim espero, que ele teria feito o mesmo sacrificando a mim ou ao filho que ele nunca terá. E se você puder me ouvir, Kasi, razão da minha vida, adeus. — A voz de Tourtell ficou pastosa. — Você é amado não apenas por mim, mas pela cidade inteira, e vamos acender velas no seu túmulo pelo tempo que perdurar a democracia. — Ele pigarreou. — Obrigado, Kasi. Obrigado, cidadãos dessa cidade. Agora, o dia é de vocês.
Após um breve silêncio, entrou uma gravação com chiado de “Castelo forte é o nosso Deus” cantada por um homem de voz vibrante.
Macbeth desligou o rádio.
Seyton riu e aplicou pressão no gatilho. O martelo subiu.
— Surpreso, Kasi? Um filho de uma puta não vale nada pra um velho depravado, sabia? Mas, se me entregar sua alma agora, prometo a você um tiro indolor na cabeça em vez de no estômago. E também vingança contra o depravado e sua corja. O que me diz, garoto?
— Não.
— Não?
Seyton olhou com incredulidade na direção de onde viera a resposta.
— Não — repetiu Macbeth. — Ele não deve ser assassinado. Abaixa a arma, Seyton.
— E deixar que a turma lá fora saia vencedora?
— Você me ouviu. Não matamos crianças indefesas.
— Indefesas? — rosnou Seyton. — E quanto a nós? Não somos indefesos? Vamos deixar que Duff e Malcolm mijem em cima de nós novamente, como sempre fizeram? Está planejando abandonar sua causa agora que...
— Seu revólver está apontando pra mim, Seyton.
— Talvez esteja. Porque não vou deixar você deter o reino que se aproxima, Macbeth. Você não foi o único a receber o chamado. Vou...
— Sei o que você vai fazer, e, se você não soltar esse revólver, é um homem morto. Ou uma criatura morta, seja lá o que você for.
Seyton deu uma gargalhada.
— Há coisas que você não sabe sobre mim, Macbeth. Por exemplo, que você não pode me matar.
Macbeth mirou dentro do cano do revólver.
— Então vai em frente, Seyton. Porque só você pode me mandar pros braços dela. Você não nasceu de mulher, você foi feito. Feito de pesadelos, de crueldade e de tudo que serve pra quebrar e destruir.
Seyton balançou a cabeça e apontou o revólver para a testa de Kasi sem tirar os olhos de Macbeth. Naquele instante, o primeiro raio do sol atravessou as grandes janelas no mezanino. Macbeth viu Seyton erguer a mão para cobrir os olhos quando o raio atingiu seu rosto.
Macbeth atirou debaixo do forte sol no tronco da árvore lá fora, do outro lado, no coração esculpido no tronco. Sabendo que acertaria o alvo, porque as linhas, as veias da ponta de seus dedos iam para aquele coração.
Um baque surdo. O corpo de Seyton oscilou e ele olhou para o cabo da adaga que se projetava de seu peito. Depois soltou o revólver e agarrou a adaga ao cair de joelhos. Levantou a cabeça e encarou Macbeth com olhos embaciados.
— Prata — disse Macbeth, tornando a cutucar o espaço entre os dentes com o palito de fósforo afiado. — Dizem que funciona.
Seyton caiu para a frente e se esparramou no chão com a cabeça perto dos pés descalços do menino.
Macbeth colocou a bola branca de marfim na moldura de madeira que circundava a roda da roleta e a empurrou com força na direção oposta.
— Não parem! — berrou Duff para os homens que golpeavam com marretas e machados a parte dianteira da base, de onde já haviam retirado grandes pedaços de concreto.
Então a base se rachou e a grade frontal da locomotiva desceu com um forte estrondo. Por pouco Duff não caiu para a frente na cabine do maquinista, mas conseguiu segurar firme em uma alavanca. O nariz da locomotiva apontava meio inclinado para baixo, mas não se movia.
— Vamos lá!
Nada, ainda.
— Vamos lá, minha velha!
E Duff sentiu algo diferente sob a sola dos pés. Bertha se movera. Será mesmo? Ou... Ele ouviu algo que parecia um lamento baixinho. Sim, ela havia se mexido. Pela primeira vez em oitenta anos Bertha Birnam se mexera, e então o gemido das partes metálicas móveis foi em um crescendo até gritar com um poderoso alarido. Anos de ferrugem e a lei do atrito e a lei da inércia tentaram sustentar, mas a gravidade foi invencível.
— Se afastem! — gritou Duff, ajustando a alça de sua metralhadora e segurando a coronha da arma reserva que tinha guardado por dentro do cinto.
As rodas da locomotiva a vapor, arrancadas com violência de seu torpor, foram aos poucos girando, desceram os oito metros do trilho e saíram da base. As rodas da frente atingiram os degraus do topo da escada, estraçalhando as pedras do piso com barulhos ensurdecedores. Por um momento pareceu que a locomotiva estacionaria ali em cima, mas então Duff ouviu mais um degrau se quebrar. E mais outro. Então compreendeu que nada seria capaz de parar aquela força maciça que lentamente tomava velocidade.
Duff encarava um ponto vazio adiante, mas, pelo canto do olho, registrou alguém saltando para a cabine e se postando ao lado dele.
— Um ingresso pro Inverness, por favor.
Caithness.
— Senhor! — Era Olafson.
— O que foi?
O olhar de Macbeth seguia as ruidosas rotações da bolinha de marfim.
— Acho que ela... ela está... vindo.
— Quem está vindo?
— A... locomotiva.
Macbeth enfim ergueu o olhar.
— A locomotiva?
— Bertha! Ela está vindo... pra cá! Está...
O resto foi abafado. Macbeth se levantou. De onde estava no salão de jogos não dava para ver o prédio da Estação Central, apenas a praça em declive do lado de fora da janela alta. Mas podia ouvir. O som de algo sendo esmagado por um monstro barulhento. E o monstro se aproximava.
Então, ao cruzar a praça em frente ao Inverness, o monstro entrou em seu campo de visão.
Ele engoliu em seco.
Bertha estava vindo.
— Atira!
O comissário-chefe adjunto Malcolm olhava sem acreditar no que via. Porque sabia que tudo o que tinha acontecido até ali era fora do comum e que jamais veria nada parecido até o fim de sua vida. Uma locomotiva a vapor engolindo pedra e traçando o próprio caminho na Praça dos Operários. Um meio de transporte que os antepassados tinham construído com ferro, muito pesado e sólido para ser contido, com rolamentos de esferas que não enferrujavam nem ressecavam em oitenta anos de descaso, uma locomotiva contra a qual uma saraivada de balas de uma metralhadora Gatling foi rechaçada como granizo, ainda que tenham produzido faísca, manteve seu curso em uma linha reta em direção ao cassino Inverness.
— Aquilo lá é uma construção sólida — comentou alguém ao lado dele.
Malcolm balançou a cabeça.
— Que nada, é só um antro de jogo.
— Segura firme! — gritou Duff.
Caithness havia se sentado no piso de ferro com as costas para a lateral da cabine para evitar ricochetes das balas que zuniam sobre suas cabeças. Ela gritou alguma coisa, o rosto contraído e os olhos cerrados.
— O quê? — berrou Duff.
— Eu te a...
Então eles colidiram com o Inverness.
Macbeth gostou de ver Bertha preenchendo por completo a janela antes de entrar arrebentando tudo que estava pela frente. Teve a impressão de que todo o prédio — o chão em que se sentava, o ar no salão —, tudo foi empurrado para trás quando a locomotiva atravessou a parede até o salão. O barulho cobriu seus tímpanos como um tampão. A chaminé do motor a vapor cortou caminho para a parte leste do mezanino, a grade frontal raspando o piso. O Inverness havia conseguido freá-la um pouco, mas Bertha ainda sorvia tudo que via pela frente, metro após metro. Só foi parar, enfim, a meio metro dele, a chaminé contra o corrimão do mezanino e a grade tocando a mesa da roleta. Por um instante fez-se silêncio total. Então veio o chacoalhar de cristais. E Macbeth entendeu: Bertha tinha arrebentado os cabos que sustentavam o lustre. Ele nem sequer se mexeu, nem mesmo olhou para cima. Apenas se deu conta, antes de tudo ficar escuro, que estava coberto de cristais Bohemia.
Duff subiu no teto da locomotiva empunhando a metralhadora. Raios de sol brilhavam através da poeira suspensa no ar.
— A Gatling naquele canto está abandonada! — gritou Caithness, atrás dele. — E a do...
— A outra também — disse Duff. — E Seyton está caído no chão perto da mesa de roleta, com uma adaga cravada no peito. Parece bem morto.
— Kasi está aqui. Parece ileso.
Duff passou os olhos pelo local que havia sido um salão de jogos. Tossiu em meio a tanta poeira. Prestou atenção aos sons. A não ser pelo ruído frenético de uma bolinha de roleta no carrossel, o resto era silêncio. Uma manhã de domingo. Em poucas horas os sinos das igrejas tocariam. Ele desceu da locomotiva. Passou por cima do corpo de Seyton, a caminho do lustre. Com o sabre, retirou cacos de cristal do rosto de Macbeth.
Os olhos de Macbeth estavam arregalados de surpresa, como os de uma criança. A coluna dourada do lustre havia desaparecido dentro de seu ombro direito. Não escorria muito sangue da ferida, que se contraía em ritmo regular, como se sugasse algo do adorno do lustre.
— Bom dia, Duff.
— Bom dia, Macbeth.
— Heh. Lembra que dizíamos isso um ao outro todo dia, no orfanato? Você dormia no beliche de cima.
— Cadê os outros? Onde está Olafson?
— Rapaz esperto, aquele Olafson. Sabe a hora certa de abandonar o navio. Igual a você.
— Seus homens do GOE não abandonam a missão — retrucou Duff.
Macbeth suspirou.
— É verdade. Você acreditaria se eu dissesse que ele está atrás de você e que vai te matar em... hã... Dois segundos?
Duff o encarou por um instante. E se virou. No ponto onde o mezanino se repartia ao meio, viu dois vultos contra o brilho do sol da manhã que penetrava no buraco na parede. Um deles era de uma armadura medieval. O outro, Olafson, ajoelhado com o rifle apoiado no corrimão. Quinze metros. A essa distância, Olafson conseguiria acertar uma moeda de um centavo.
Um tiro ressoou.
Duff sabia que tinha morrido.
Então por que continuava em pé?
O eco do tiro reverberou por todo o salão.
Macbeth viu Olafson tombar sobre a armadura, que desabou para trás, passou pelo vão no mezanino e se esfacelou no chão do salão com vibrantes tinidos. No mezanino, Olafson tinha o rosto espremido contra o corrimão. Um olho estava coberto com a pele da bochecha e o outro, fechado. Como se tivesse adormecido sobre o Remington 700.
— Fleance! — gritou Caithness.
Duff se virou para o outro canto do mezanino.
E lá, onde as escadas desciam dos andares superiores, estava Fleance. Com a camisa encharcada de sangue, ele oscilava de um lado para o outro e parecia ancorar-se em uma arma ainda fumegante.
— Caithness, leve Kasi e Fleance daqui — disse Duff. — Vão!
Duff desabou na cadeira ao lado da mesa da roleta. A bolinha girava mais devagar; o som era diferente.
— E agora? — resmungou Macbeth.
— Vamos esperar pelos outros aqui. Eles vão cuidar de você no hospital. Prisão. Alçada federal. Vão falar de você por anos a fio, Macbeth.
— Ainda achando que pegou o beliche de cima, Duff?
O tilintar dos cristais. Duff olhou para o alto. Macbeth havia erguido a mão esquerda.
— Você sabe que sou veloz como uma mosca. Antes de você largar o sabre e estender a mão para sua arma, terá uma adaga no peito. Você sabe disso, não sabe?
— É, pode ser — disse Duff. Em vez de medo, ele sentia apenas um descomunal cansaço invadindo seu corpo. — E você ainda vai perder, como sempre.
Macbeth riu.
— De onde você tirou isso?
— Apenas uma daquelas profecias autorrealizáveis. Você sempre soube, a vida inteira, que está fadado a perder no final. Essa certeza é e sempre tem sido você, Macbeth.
— É mesmo? Mas você não sabia? Nenhum homem nascido de mulher pode me matar. Foi o que Hécate garantiu, e ele provou inúmeras vezes que cumpre suas promessas. Então, sabe de uma coisa? Posso me levantar daqui e ir embora.
Ele tentou se sentar, mas o peso do lustre o impediu.
— Hécate se esqueceu de mim quando te fez essa promessa — disse Duff, sem tirar o olho da mão esquerda de Macbeth. — Posso matar você, então continue aí.
— Ficou surdo, Duff? Eu disse...
— Mas eu não nasci de mulher.
— Como não?
— Não. Fui removido do ventre da minha mãe, ela não me pôs no mundo.
Duff se inclinou para a frente e passou o dedo pela cicatriz que cortava seu rosto.
Macbeth pestanejava com seus olhos infantis.
— Você... Você não nasceu quando Sweno a matou?
— Ela estava grávida de mim. Me contaram que estava tentando parar a hemorragia na casa de um policial quando Sweno brandiu isso... — Duff ergueu o sabre — ... E cortou a barriga dela.
— E o seu rosto.
Duff assentiu devagar.
— Você não vai escapar de mim, Macbeth. Você perdeu.
— Perda após perda. Temos tudo no início, e no fim perdemos tudo. A única coisa que eu dava como certa, o perdão da morte. Mas nem isso é garantido. Só você pode me dar a morte e me mandar pra onde eu posso reencontrar minha amada, Duff. Seja meu salvador.
— Não. Você está preso e apodrecerá sozinho em uma prisão.
Macbeth deu uma risada.
— Não posso, e você não consegue se controlar. Você não conseguiu reprimir o desejo de tentar me matar naquele beco e agora também não vai conseguir. Somos do jeito que somos, Duff. O livre-arbítrio é uma ilusão. Então faça o que tem que fazer. Faça o que você é. Ou devo te ajudar e dizer os nomes deles? Meredith, Emily e...
— Ewan — disse Duff. — Você é aquele que não consegue ser a pessoa que sempre quis ser, Macbeth. Foi por isso que compreendi que ainda havia esperança pro Kasi, embora o sol tivesse se erguido sobre a montanha. Você nunca foi capaz de matar um homem indefeso. E mesmo que venha a ser lembrado como alguém mais brutal que Sweno, mais corrupto que Kenneth, foram as suas boas qualidades que te derrubaram, sua falta de brutalidade.
— Sempre fui o oposto de você, Duff. E, por isso, sua imagem no espelho. Então me mate agora.
— Por que a pressa? O lugar à espera de gente como você é o inferno.
— Então me deixe ir.
— Se você implorar o perdão dos seus pecados, talvez escape.
— Eu vendi essa chance, Duff, e de bom grado, porque estou ansioso pra rever minha amada, mesmo que seja pra ardermos juntos por toda a eternidade.
— Bem, você terá um julgamento justo e sua sentença não será nem muito severa nem muito leve. Será a primeira demonstração evidente de que essa cidade pode ser civilizada. Que pode se tornar saudável de novo.
— Seu idiota! — gritou Macbeth. — Você está enganando a si próprio. Acha que está pensando o que quer pensar, acha que é a pessoa que quer ser, mas seu cérebro está procurando desesperadamente um pretexto pra me matar enquanto estou aqui indefeso, e é por isso que alguma coisa dentro de você resiste. Mas o seu ódio é como aquela locomotiva: uma vez que dá a partida, não tem como parar.
— Você está enganado, Macbeth. As pessoas podem mudar.
— É mesmo? Então experimenta essa adaga, ó, homem livre.
Macbeth enfiou a mão na jaqueta.
Duff reagiu instintivamente, segurou o sabre com as duas mãos e atacou.
Surpreendeu-se com a facilidade com que a lâmina dilacerou o peito de Macbeth. E, quando a lâmina tocou o chão, Duff sentiu um tremor se espalhar do corpo de Macbeth para o sabre e para si mesmo. Um longo suspiro escapou dos lábios de Macbeth e um fino jato de sangue rosado saiu de sua boca e atingiu as mãos de Duff como chuva morna. Ele encarou os olhos de Macbeth, sem saber o que procurava, mas não achou nada. Tudo que viu foi uma luz se apagando quando as pupilas cresceram e lentamente eliminaram a íris.
Largou o sabre e deu dois passos para trás.
Ficou parado em silêncio.
Manhã de domingo.
Ouviu vozes se aproximando, vindo da Praça dos Operários.
Não era o que ele queria. Mas sabia que não teria alternativa. Então aconteceu. Abriu a jaqueta de Macbeth.
A mão esquerda estava pousada no peito. Não havia nada lá, nem coldre de ombro, nem adaga, apenas uma camisa branca que aos poucos ia ficando vermelha.
Som de bicadas. Duff se virou. Vinha da mesa da roleta. Levantou-se. No feltro, uma ficha no vermelho, embaixo do coração, outra no preto. Mas aquele som vinha da roda, que ainda girava, mas cada vez mais devagar. A bolinha branca dançou entre os números. Então parou, finalmente capturada.
Na única casa verde — a casa leva tudo.
Não há vencedor.