Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 28 de 50

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Macbeth

Parte Três

25

 

— Nossa lã é da melhor qualidade — disse o vendedor, respeitosamente acariciando o tecido do terno preto no cabide. Chuviscava nas vitrines da alfaiataria, e no rio as ondas começavam a baixar após os vendavais da véspera. — O que acha, Bonus? — perguntou Hécate. — Isso ia combinar com o Macbeth? — Pensei que você preferisse um smoking, não um terno escuro. — Como você bem sabe, não se usa smoking na igreja, e Macbeth tem muitos enterros pra ir essa semana. — Então nada de smoking pra hoje? — indagou o vendedor. — Precisamos dos dois, Al. — Só gostaria de salientar que, se é pra um jantar de gala, o recomendado é o traje a rigor completo, senhor. — Obrigado, Al, mas não será no palácio real, apenas na prefeitura. O que você me diz, Bonus? Um fraque não é um pouco... — Hécate estalou a língua — ... Pretensioso demais? — Concordo — respondeu Bonus. — É quando os novos-ricos se vestem com os trajes dos ricos autênticos que ficam parecendo uns palhaços. — Muito bem. Um terno escuro e um smoking. E você vai mandar um alfaiate pro cassino Inverness, ouviu, Al? Pode colocar tudo na minha conta. — Assim será feito, senhor. — Agora precisamos de um smoking pra esse cavalheiro aqui.

— Pra mim? — perguntou Bonus, tomado de surpresa. — Mas eu já tenho um maravi...

— Sei de qual está falando e, pode acreditar, você precisa de um novo.

— Acha mesmo?

— Sua posição requer uma aparência impecável, Bonus. E não esqueça que está trabalhando pra mim.

Bonus não respondeu.

— Que tal você ir correndo pegar mais smokings, Al?

— Imediatamente — disse o vendedor, e diligentemente deu uma corridinha, com suas pernas arqueadas, até as escadas da loja.

— Sei o que está pensando — comentou Hécate. — E admito que vestir você em trajes formais é uma forma de exibir meu poder, da mesma forma que reis vestem seus soldados e servos. O que posso dizer? A ideia me agrada.

Bonus nunca tivera cem por cento de certeza se os dentes excepcionalmente brancos e uniformes do sorriso do homem eram naturais. Se fossem dentaduras, eram bastante esquisitas, pois vinham equipadas com três grandes coroas de ouro.

— Falando em exibição de poder — continuou Hécate —, aquele jovem atraente que estava no jantar no Inverness, o nome dele é Kasi?

— Sim.

— Quantos anos ele tem?

— Quinze e meio — respondeu Bonus.

— Bem jovem.

— Idade é...

— Pra mim pouco importa. Só não sinto a mesma atração que você por garotos, Bonus. Só quero dizer que é ilegal, por ele ser tão jovem, e que pode causar grandes danos. Mas vejo que isso deixa você desconfortável, então vamos mudar de assunto. Lady está doente, é verdade?

— Isso é o que o psiquiatra diz. Psicose grave. Pode levar tempo. A preocupação dele é que ela cometa suicídio.

— Os médicos não prestam um juramento de fazer o possível pelo bem de seus pacientes?

— Talvez o Dr. Alsaker também venha a precisar de um novo terno em breve.

Hécate riu.

— É só me mandar a conta. Ele tem condições de curá-la?

— Não, a menos que seja hospitalizada. Mas não queremos isso, não é?

— Vamos esperar e ver o que acontece. Acho que todo mundo sabe que a Lady é uma das principais conselheiras do comissário-chefe, e, durante esses dias decisivos, haveria consequências desastrosas se viesse a público que ela ficou louca.

— Então a psicose é...?

— Sim?

— Nada.

Bonus engoliu em seco. Havia algo em Hécate que sempre o fazia se sentir como um adolescente inseguro. Era mais do que a demonstração de poder real; havia algo mais, algo que o apavorava, mas que Bonus não conseguia identificar. Não se tratava do que ele podia enxergar nos olhos de Hécate, mas do que não podia. Era a certeza aterrorizante da ausência de tudo. Terras despovoadas e noites congelantes.

— De qualquer forma — disse Hécate —, eu estava querendo conversar sobre Macbeth. Estou preocupado com ele. Ele está diferente.

— É mesmo?

— Minha preocupação é que esteja viciado. O que talvez não seja de se estranhar, pois, afinal, é a droga mais viciante do mundo.

— A power?

— Sim, mas não do tipo que vem em pó. Estou falando da power de verdade. Do poder. Não achei que se viciaria tão depressa. Ele já se desfez de qualquer emoção que o ligue à moralidade ou às qualidades humanas; agora a power é sua nova e única amante. Você ouviu a entrevista no rádio, no outro dia. O fedelho quer ser prefeito.

— Mas, na prática, o comissário-chefe tem mais poder.

— Como comissário-chefe, ele com certeza fará de tudo pra que o poder efetivo seja devolvido à prefeitura antes de ele próprio ocupar o cargo de prefeito. Na verdade, Macbeth está louco pra assumir o controle dessa cidade. Ele se acha invencível agora. Acha, inclusive, que pode me desafiar.

Desconcertado, Bonus olhou surpreso para Hécate, que havia cruzado as mãos sobre o castão dourado de sua bengala e estudava a própria imagem no espelho da alfaiataria.

— Sim, Bonus, deveria ser o contrário: deveria ser você a me dizer que Macbeth está na minha cola. É para isso que eu te pago. E agora seu minúsculo cérebro de mosca está se indagando como poderia saber disso. Bem, me pergunte.

— Eu... hã... Como sabe disso?

— Porque ele disse isso no programa de rádio que você também escutou.

— Mas achei que ele tivesse dito o contrário, que perseguir Hécate não teria a mesma prioridade que Duncan deu à missão.

— E quando foi a última vez que você ouviu alguém com ambições políticas declarar o que não faria pelo eleitorado? É como se ele tivesse dito que vai prender Hécate e criar empregos. Políticos que não se drogam nem se embebedam sempre prometem tudo o que há debaixo do sol. Só que o que ele disse não era dirigido ao eleitorado, e sim a mim, Bonus. Ele não precisava, mas se comprometeu publicamente e me elogiou. E quando as pessoas nos elogiam, é aí que precisamos redobrar a atenção.

— Você acha que ele quer ganhar a sua confiança — Bonus olhou para Hécate para confirmar se seu raciocínio estava seguindo a linha correta — porque espera que assim você relaxe e aí ficará fácil se livrar de você?

Hécate arrancou um pelo preto de uma verruga na bochecha e o analisou.

— Eu poderia esmagar o Macbeth com a sola do meu sapato nesse exato minuto. Mas investi um bocado pra botá-lo na posição em que está agora, e, se tem uma coisa que odeio, é um investimento ruim, Bonus. Portanto, quero que você mantenha olhos e ouvidos bem abertos pra descobrir o que ele está tramando. — Hécate ergueu os braços. — Ah! Olha, aí vem o Al com mais smokings. Vamos encontrar um que sirva nos seus braços compridos como tentáculos.

Bonus engoliu em seco.

— E se eu não descobrir nada?

— Então não terei mais uso pra você, querido Bonus.

A frase foi dita de um jeito descontraído e de forma bem inofensiva por vir acompanhada de um sorrisinho. Os olhos de Bonus procuraram algo mais atrás do sorriso. Não encontraram nada, exceto noite e frio.

— Olhe pro relógio — ordenou o Dr. Alsaker, e balançou seu relógio de bolso como um pêndulo diante do rosto da paciente. — Você está relaxando, seus braços e suas pernas estão ficando pesados, você está cansada e vai dormir. E não vai acordar até eu dizer castanha.

Era fácil hipnotizá-la. Tão fácil que Alsaker teve de checar algumas vezes para ter certeza de que não estava fingindo. Sempre que vinha ao Inverness, era acompanhado até a suíte pelo recepcionista, Jack. E lá estava ela à espera, de roupão — recusava-se a usar qualquer outra peça de roupa. As mãos sempre vermelhas por causa do ritual compulsivo de limpeza diária, e, mesmo que ela repetisse que não estava usando nada, ele podia ver pelas pupilas que estava sob o efeito de alguma droga. O que era uma das muitas desvantagens de lhe ser negado o pedido para interná-la, pois assim ele poderia controlar a medicação dela, o sono e as refeições, além de observar seu comportamento.

— Vamos começar de onde paramos da última vez — disse Alsaker, consultando suas anotações. Não que precisasse delas para se lembrar; os detalhes eram de natureza tão cruel que ficaram gravados em sua mente. Ele precisava das anotações para acreditar no que ela lhe contara. As primeiras linhas não tinham nada de incomuns; pelo contrário, eram um refrão corriqueiro em inúmeros casos semelhantes. — Pai desempregado e alcoólatra e mãe depressiva e violenta. Você cresceu às margens de um rio, num casebre, ou, como chama, um ninho de ratos. Literalmente. Você me contou que uma das suas lembranças mais antigas era ficar vendo os ratos nadarem em direção à sua casa quando o sol se punha, e que você achava que aquela era a casa deles. Você dormia na cama dos ratos, comia a comida dos ratos, e por isso entendia por que eles te mordiam à noite.

Ela falou com a voz suave e baixa.

— Os ratos só queriam o que era deles.

— E seu pai dizia o mesmo quando se deitava na sua cama.

— Ele só queria o que era dele.

Alsaker examinou as anotações. Não era o primeiro caso de estupro que havia tratado, mas esse continha alguns detalhes bastante perturbadores.

— Aos 13 anos, você engravidou e deu à luz uma criança. Sua mãe a xingou de prostituta. Ela disse que você deveria jogar o miserável no rio, mas você se recusou a fazer isso.

— Eu só queria o que era meu.

— Então você foi expulsa de casa com a criança e passou a noite seguinte com o primeiro homem que conheceu.

— Sim, mas ele disse que mataria o bebê se ele não parasse de chorar, então eu o levei pra cama. Mas então o homem reclamou que isso tinha arruinado sua concentração porque o bebê estava assistindo .

— E, enquanto ele dormia, você roubou dinheiro dos bolsos dele e comida da cozinha.

— Eu só peguei o que era meu.

— E o que é seu?

— O que todo mundo tem.

— O que aconteceu depois?

— O rio secou.

— Vamos continuar, Lady. O que aconteceu depois?

— Mais fábricas foram construídas. Mais trabalhadores vieram pra cidade. Eu ganhei um pouco mais de dinheiro. Minha mãe veio me ver e disse que meu pai havia morrido. Pulmões. Uma morte dolorosa. Eu disse a ela que gostaria de ter estado lá pra ver a dor dele.

— Sem divagações, Lady. Vamos ao ponto. O que aconteceu com o bebê?

— Já notou como as feições dos bebês mudam quase de um dia pro outro? Bem, de repente ele ficou com a cara dele.

— Do seu pai.

— Sim.

— E o que você fez?

— Dei mais leite do que de costume pra que estivesse sorrindo feliz pra mim quando adormecesse. Então esmaguei a cabeça dele na parede. É bem fácil quebrar uma cabeça, sabia? Como a vida humana é frágil...

Alsaker engoliu em seco e pigarreou.

— Você fez isso porque o rosto do bebê era igual ao do seu pai?

— Não. Isso foi o que tornou possível eu fazer isso.

— Quer dizer que você vinha pensando nisso já fazia algum tempo?

— Sim, é claro.

— Pode me dizer por que você diz é claro?

Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes. Alsaker viu as pupilas de Lady se contraírem, e isso fez surgir uma imagem em sua mente. Ovas de rã. Um girino tentando se libertar de um ovo pegajoso.

— Se quer alcançar seus objetivos, você precisa ser capaz de renunciar ao que ama. Se a pessoa com a qual você pretende ascender para atingir o pico desanima, você deve encorajá-la ou cortar a corda.

— Por quê?

— Por quê? Se ele cair, vai arrastar vocês dois pra queda. Se você pretende sobreviver, sua mão tem que fazer o que seu coração se recusa a fazer.

— Matar a pessoa que ama?

— Como Abraão sacrificou seu filho. Deixar o sangue fluir. Amém.

Alsaker sentiu um arrepio e fez uma anotação.

— O que há no pico que você tanto quer?

— O pico é o topo. É a posição mais alta. Mais alta do que tudo e todos.

— Você tem que chegar lá?

— Não. É possível rastejar pelas planícies. Pelos montes de lixo. Pelo leito do rio lamacento. Mas depois que você começa a subir, não há volta. É o pico ou o abismo.

Alsaker guardou a caneta.

— E por esse pico você está disposta a sacrificar tudo, inclusive o que ama? A sobrevivência está acima do amor?

— Naturalmente. Mas não faz muito tempo, entendi que podemos viver sem amor. Então toda essa sobrevivência será minha morte, doutor.

Os olhos dela tinham uma clareza repentina que, por um instante, fez Alsaker pensar que, afinal, ela não era psicótica. Mas podia ter sido apenas a hipnose ou um despertar temporário. Alsaker já tinha visto isso acontecer muitas vezes. Vira como um paciente acometido por psicose profunda ou depressão pode aparentemente se animar, tal como uma pessoa que está se afogando e que vem à tona com um ímpeto de esforço, o que dá falsas esperanças aos parentes e a psiquiatras inexperientes. Eles podem permanecer à tona por vários dias, apenas para usar esse último fio de força de vontade pra fazer o que vinham ameaçando fazer ou simplesmente afundar na escuridão de onde vieram. Mas, não, devia ter sido a hipnose, porque agora a larva de rã estava de volta aos olhos dela.

— Diz aqui no jornal que depois da entrevista na rádio as pessoas estão aguardando um pronunciamento seu sobre a candidatura ao cargo de prefeito — comentou Seyton, que havia espalhado o jornal sobre uma mesinha e, cortando as unhas, deixava as aparas caírem sobre ele.

— Que escrevam o que quiserem — disse Macbeth, olhando para o relógio. — Tourtell está dez minutos atrasado.

— Mas você vai, senhor?

Ouviu-se um som alto e claro quando a longa e pontuda unha do indicador foi cortada.

Macbeth deu de ombros.

— Esse tipo de coisa tem que ser pensada com calma. Quem sabe? Quando a ideia amadurecer, pode parecer diferente.

A porta se entreabriu com um rangido. Na fresta apareceu o simpático rosto de Priscilla.

— Ele chegou, senhor.

— Ótimo. Faça-o entrar. — Macbeth ficou em pé. — E traga café.

Priscilla sorriu, e seus olhos desapareceram entre bochechas rechonchudas, depois ela desapareceu também.

— Quer que eu saia? — perguntou Seyton, fazendo um movimento para se levantar do sofá.

— Você fica.

Seyton recomeçou a aparar as unhas.

— Mas de pé.

Seyton se levantou.

A porta foi aberta.

— Macbeth, meu amigo! — rugiu Tourtell.

Por um instante, Macbeth se indagou se a porta seria larga o bastante. Ou se tinha costelas fortes o suficiente, quando recebeu os tapinhas camaradas do esfuziante abraço do prefeito.

— Você realmente fez as coisas acontecerem por aqui, Macbeth.

— Obrigado. Por favor, sente-se.

Tourtell cumprimentou Seyton com um breve aceno de cabeça e se sentou.

— Obrigado. E agradeço por me receber tão em cima da hora.

— O senhor é meu empregador, então sou eu quem devo me sentir honrado pela visita. E, ainda mais importante, por você ter vindo até aqui, não o contrário.

— Ah, não gosto que as pessoas se sintam intimadas.

— Isso significa que fui intimado?

O prefeito riu.

— De modo algum, Macbeth. Só queria ver como as coisas estão indo. Se você está se sentindo confortável na nova posição. Afinal, foi uma mudança e tanto. E com tudo o que aconteceu nos últimos dias... — Tourtell arregalou os olhos teatralmente. — Poderia ter virado uma desordem.

— O senhor quer dizer que virou? Que virou uma desordem?

— Não, não, não. De jeito nenhum. Acho que você lidou com tudo de uma forma que foi além de todas as expectativas. Considerando que você é novo no jogo.

— Novo no jogo.

— Sim. As coisas acontecem rápido. Você tem que reagir na hora. Tecer comentários. E aí pode acontecer de dizer coisas que jamais pensou.

Priscilla entrou, colocou a bandeja na mesa, serviu o café, fez uma mesura desajeitada e saiu.

Macbeth tomou um gole de café.

— Hum. Está se referindo à entrevista na rádio?

Tourtell esticou a mão para o açucareiro e pegou três cubos. Enfiou um deles na boca.

— Algumas das coisas que você disse podem ser interpretadas como crítica à câmara municipal e a mim. E isso é bom. Valorizamos um comissário-chefe que fale sem rodeios. Ninguém aqui usa mordaça. A questão é, evidentemente, se a crítica soou um pouco mais severa do que o pretendido. Será?

Macbeth levou o indicador em riste até o queixo e, usando-o como uma espécie de apoio, ergueu a cabeça de um jeito pensativo.

— Não achei muito severa.

— Aí é que está. Era exatamente o que eu pensava. Não foi sua intenção! Você e eu queremos as mesmas coisas, Macbeth. O melhor pra cidade. Fazer com que engrenagens comecem a girar pra derrubar o desemprego. Como sabemos por experiência, mais oportunidades vão reduzir o índice de criminalidade nas ruas e deixar o comércio de drogas abalado, o que, por sua vez, fará diminuir os assaltos às propriedades. Em breve o número de pessoas presas vai decrescer drasticamente, e todos vão ficar se perguntando como o comissário-chefe Macbeth alcançou o que nenhum de seus antecessores conseguiu. Como você sabe, um prefeito só pode servir dois mandatos. Então, depois de ser reeleito, assim espero, e ao término do meu segundo mandato, é a vez de um novo homem. E talvez a cidade vá sentir que esse é o tipo de homem de que precisa, alguém que tenha produzido resultados no comando da força policial.

— Mais café? — Macbeth serviu o líquido marrom na xícara ainda cheia de Tourtell até transbordar para o pires. — O senhor sabe o que meu amigo Banquo costumava dizer? Beije a garota enquanto ela estiver apaixonada.

— Que significa...? — perguntou Tourtell, com os olhos fixos no pires.

— Sentimentos mudam. A cidade me ama agora. E quatro anos é muito tempo.

— Talvez. Mas você tem que escolher suas batalhas, Macbeth. E agora cabe decidir se vai desafiar o prefeito em exercício, o que a história prova que raramente leva ao sucesso, ou esperar quatro anos e ter sua candidatura apoiada pelo prefeito que vai estar deixando o cargo, o que a história prova que geralmente leva ao sucesso.

— Esse é o tipo de promessa fácil de fazer e mais fácil ainda de quebrar.

Tourtell balançou a cabeça.

— Fundamentei minha longa carreira política em alianças estratégicas e cooperação, Macbeth. Kenneth certificou-se de que o comissário-chefe tivesse poderes tão amplos que eu, como prefeito, fui, e continuo sendo, totalmente dependente da boa vontade de quem ocupa o cargo. E acredite, tenho consciência de que uma promessa quebrada me custaria muito caro. Você é um homem inteligente e aprende rápido, Macbeth, mas ainda não tem experiência no complicado jogo tático chamado política. Popularidade instantânea e algumas frases de impacto criativas na rádio não são suficientes. Meus apoiadores também não são suficientes, mas é mais do que você poderia esperar obter por conta própria.

— Você não teria vindo até aqui pra me persuadir a não participar das próximas eleições se não me visse como um adversário à altura.

— Talvez você ache isso — disse Tourtell — porque ainda não teve experiência suficiente na política pra ter uma visão geral da situação. E a visão geral é aquela em que eu continuo como prefeito e você como comissário-chefe nos próximos quatro anos, então a cidade enfrentará um sério problema caso seus dois homens mais poderosos tenham uma campanha eleitoral sórdida que dificulte a cooperação entre eles. E também me impede de apoiar sua candidatura a prefeito mais tarde. Tenho certeza de que você me entende.

Tenho certeza de que você me entende . Sutilmente condescendente. Macbeth abriu a boca para objetar, mas os pensamentos que deveriam se transformar em palavras se perderam.

— Vou dar uma sugestão — disse Tourtell. — Não se candidate nessa eleição, e não terá que esperar quatro anos pelo meu apoio.

— Hum?

— Isso mesmo. No dia que você prender o Hécate, o que será uma grande vitória pra nós dois, irei a público e direi que espero ter você como meu sucessor nas eleições daqui a quatro anos. O que você me diz sobre isso, Macbeth?

— Acho que eu disse na rádio que Hécate não é nossa maior prioridade.

— Eu ouvi. E entendi com isso que você não quer a pressão que o Duncan colocou sobre si mesmo e sobre a polícia, fazendo promessas muito otimistas e específicas demais. Agora, no dia que você prender esse cara será simplesmente um bônus. Foi isso que você planejou, não foi?

— Claro — respondeu Macbeth. — Hécate é uma prisão difícil, mas, se a oportunidade surgir...

— Na minha experiência, lamento dizer, as oportunidades não surgem — falou Tourtell. — Elas têm que ser criadas e depois agarradas. Então, qual é o seu plano pra prender Hécate?

Macbeth pigarreou, mexeu na xícara de café. Tentou organizar os pensamentos. Havia percebido que de um instante para o outro ficava difícil concatená-los, como se fossem numerosos demais: um malabarismo com muitas bolas para manter no ar ao mesmo tempo, e, quando uma bola caía, todas caíam, e ele precisava recomeçar. Estaria abusando da power? Ou o contrário? Com o olhar, Macbeth buscou Seyton, que havia se sentado à mesa de café, mas não seria ali que encontraria ajuda. Claro que não. Só ela podia ajudá-lo. Lady. Ele teria de parar com as drogas, conversar com ela. Só ela podia afastar o nevoeiro, clarear sua mente.

— Quero atrair o Hécate pra uma armadilha — disse Macbeth.

— Que tipo de armadilha?

— Ainda não planejamos os detalhes.

— Estamos falando sobre o inimigo número um dessa cidade, então agradeceria se você me mantivesse informado — pediu Tourtell ao se levantar. — Será que você já poderia me passar as linhas gerais do plano amanhã, no enterro do Duncan? Junto com sua decisão sobre a candidatura?

Ele apertou a mão estendida de Tourtell sem se levantar. O prefeito apontou com o queixo para a parede atrás de Macbeth.

— Sempre gostei desse quadro. Não precisa me acompanhar, conheço o caminho.

Macbeth o observou sair. Tourtell parecia maior a cada vez que o via. Não havia tocado no café. Macbeth girou a cadeira para ficar de frente para o quadro. Era grande e mostrava um homem e uma mulher com roupas de trabalhadores, caminhando de mãos dadas. Atrás deles vinha uma fila de crianças e, mais atrás, via-se o sol bem alto no céu. A visão geral. Ele supôs que fosse escolha de Duncan, já que Kenneth provavelmente teria ali um retrato seu. Macbeth inclinou a cabeça para um lado, mas ainda assim não conseguia entender o significado daquela imagem.

— Me diga, Seyton. O que você acha?

— O que eu acho? Tourtell que vá pro inferno. Você é mais popular do que ele.

Macbeth assentiu. Seyton era como ele, um homem sem olho para enxergar a visão geral dos fatos. Só ela tinha isso.

Lady havia se trancado no quarto.

— Preciso falar com você — disse Macbeth.

Sem resposta.

— Querida!

— É o bebê — falou Jack.

Macbeth se virou para ele.

— Eu tirei o bebê dela. Estava começando a exalar mau cheiro e eu não sabia mais o que fazer. Mas ela acha que foi você que me mandou levá-lo embora.

— Ótimo. Muito bem, Jack. Eu só precisava do conselho dela sobre um assunto e... Bem...

— Ela dificilmente pode te dar o conselho que você quer no estado em que se encontra no momento, senhor. Se me permite perguntar... Não. Desculpa, eu me excedi. O senhor não é a Lady.

— Você achou que eu fosse a Lady?

— Não, é que... Bem, a Lady geralmente conversa comigo sobre o que se passa em sua mente, e eu a ajudo da maneira que posso. Não que eu tenha muito a oferecer, mas às vezes ouvir você mesmo falar com outra pessoa pode clarear os pensamentos.

— Hum. Faz um café pra gente, Jack.

— Imediatamente, senhor.

Macbeth foi até o mezanino. Desceu o olhar para a sala de jogos: pouco movimentada naquela noite. Não viu nenhum dos clientes habituais. Onde estariam?

— No Obelisco — disse Jack, entregando-lhe uma xícara fumegante de café.

— Quê?

— Nossos clientes regulares. Estão no Obelisco. Era o que estava se perguntando, não?

— Talvez.

— Estive lá ontem e contei cinco deles. Conversei com dois. E parece que não sou o único espionando. Tem gente deles aqui. O Obelisco viu quem eram nossos clientes regulares e ofereceu melhores condições pra eles.

— Melhores condições?

— Crédito.

— Isso é proibido.

— Extraoficialmente, é claro. Não vai aparecer em nenhum dos registros e, se vierem a ser confrontados, vão jurar que não trabalham com crédito.

— Então é melhor oferecermos o mesmo.

— Acho que o problema é um pouco mais embaixo, senhor. Está vendo os poucos clientes no bar ali embaixo? No Obelisco, há filas. Cerveja e drinques custam trinta por cento a menos que aqui, e isso não só aumenta o número de clientes e o volume de vendas no bar como torna as pessoas menos cautelosas nos salões de jogos.

— Lady acha que atraímos uma clientela diferente, mais interessada na qualidade.

— As pessoas da cidade que frequentam cassinos podem ser divididas, em termos gerais, em três grupos, senhor. Temos primeiro os apostadores compulsivos, que não dão a mínima pra qualidade dos tapetes nem pra conhaques mais caros; elas querem um crupiê eficiente, uma mesa de pôquer com turistas de cidades interioranas de quem eles possam se aproveitar e, se possível, crédito. O Obelisco fica com esse grupo. Depois temos os já mencionados turistas interioranos, que geralmente vêm para cá porque nós temos a reputação de ser o verdadeiro cassino. Mas depois eles descobrem que preferem a atmosfera mais simples, mais divertida e mais pecaminosa do Obelisco. São frequentadores do bingo, não da ópera.

— E nós somos a ópera?

— Eles querem cerveja barata, mulheres baratas. Se não for assim, de que vale passar umas horas na cidade?

— E o último grupo?

Jack apontou para o salão abaixo.

— A Zona Oeste. Aqueles que não querem se misturar com a escória. Nossos últimos clientes fiéis. Por enquanto. Porque o Obelisco está planejando abrir um novo salão no ano que vem, com dress code, apostas mínimas de maior valor e conhaque de marcas superiores no bar.

— Hum. E o que você sugere que a gente faça?

— Eu? — Jack sorriu. — Sou apenas um recepcionista, senhor.

— E crupiê. — Macbeth olhou para a mesa de blackjack onde ele, Lady e Jack se conheceram. — Posso te pedir um conselho, Jack?

— Um crupiê apenas observa as pessoas fazendo apostas, senhor. Nunca dá conselhos.

— Tudo bem, então só escuta. Tourtell veio me dizer que não queria que eu me candidatasse a prefeito.

— Estava planejando fazer isso, senhor?

— Não sei. Eu meio que considerei e meio que rejeitei a ideia, mas depois meio que considerei de novo. Especialmente depois que Tourtell veio me explicar, com ares de superioridade, o que é a política de verdade. O que você acha?

— Ah, tenho certeza de que seria um excelente prefeito, senhor. Pense em todas as coisas que o senhor e Lady poderiam fazer pela cidade!

Macbeth avaliou o rosto radiante de Jack: a felicidade sem disfarces, o otimismo ingênuo. Como um reflexo da pessoa que ele tinha sido. E um estranho pensamento lhe ocorreu: desejou ser Jack, o recepcionista.

— Mas também tenho muito a perder — avaliou Macbeth. — Se não me candidatar agora, Tourtell vai me apoiar na próxima vez. E ele tem razão quando diz que o prefeito que está saindo sempre elege o seguinte.

— Hum — resmungou Jack, coçando a cabeça. — Isso se não tiver um escândalo pouco antes das eleições. Um escândalo tão devastador que a cidade não tenha como permitir que Tourtell permaneça no cargo.

— Por exemplo?

— Lady me pediu que fizesse um levantamento da vida do jovem que Tourtell trouxe pro jantar. Minhas fontes me disseram que a esposa do Tourtell se mudou pro chalé de verão deles, em Fife, na mesma época que o rapaz foi “adotado”. E ele é menor de idade. Precisamos de evidências concretas de comportamento impróprio. De declarações de funcionários da residência do prefeito, por exemplo.

— Mas isso é fantástico, Jack! — A empolgação com a ideia de espezinhar Tourtell aqueceu as faces de Macbeth. — Reunimos as provas, e eu pego Kite pra organizar um debate eleitoral ao vivo, e aí posso jogar esse relacionamento pecaminoso bem na cara do Tourtell. Ele não estará preparado pra isso. Que tal?

— Talvez.

— Talvez? Como assim?

— Estava apenas pensando que o senhor se mudou pra casa de um homem sem filhos quando tinha 15 anos. O prefeito poderia contra-atacar com isso.

Macbeth sentiu o sangue lhe subir ao rosto novamente.

— O quê? Banquo e eu...?

— Tourtell não vai hesitar em usar isso se o senhor atirar a primeira pedra. Tudo é justificável no amor e na guerra. Além disso, seria lamentável se ficasse provado que o senhor usou de sua posição pra espionar a vida pessoal do Tourtell.

— Tem razão. Então como você faria?

— Preciso pensar sobre isso. — Jack tomou um gole de café. E mais outro. Pôs a xícara na mesa. — A informação sobre o rapaz terá que vazar por meios indiretos. Mas se o senhor estiver fazendo oposição a Tourtell, ainda será suspeito de ser a fonte. Então o vazamento deve acontecer antes do anúncio da sua candidatura. Na verdade, pra ter certeza de que não vamos levantar nenhuma suspeita, talvez deva anunciar que não será candidato, pelo menos não até daqui a quatro anos. Primeiro o senhor tem uma missão a cumprir como comissário-chefe. Então, quando o escândalo desqualificar Tourtell, o senhor dirá, da forma mais hesitante possível, que, considerando que a cidade precisa de um líder a curto prazo, se coloca à disposição dela. Vai se recusar a comentar o escândalo Tourtell quando questionado pelos jornalistas, mostrando que está acima desse tipo de conduta, e vai focar apenas em como fazer a cidade... hum... O senhor usou uma expressão tão boa no rádio, como foi mesmo?

— Só quero essa cidade de volta aos trilhos — lembrou Macbeth. — Agora entendo por que Lady usa você como conselheiro, Jack.

— Obrigado, senhor, mas não exagere minha importância.

— Não estou exagerando. Você tem um olho excepcionalmente lúcido pra esses assuntos.

— Talvez seja mais fácil ser um crupiê e observador do que um protagonista, com todos os riscos e as fortes emoções envolvidas.

— Acho que você é um grande crupiê, Jack.

— E, como crupiê, eu aconselho o senhor a estudar suas cartas com mais cuidado, pra ver se podem ter um destino melhor.

— Como é?

— Tourtell te prometeu apoio na próxima eleição caso o senhor não se candidate agora, mas isso não vai valer muito se ele perder o mandato por pedofilia, não?

Macbeth cofiou a barba.

— É verdade.

— Então peça outra coisa. Diga a ele que o senhor nem tem certeza se vai estar na próxima eleição. E que prefere algo mais específico que ele possa te dar agora.

— Por exemplo?

— Do que gostaria, senhor?

— O que eu...? — Macbeth viu Jack fazer um gesto indicando o salão de jogos. — Hã... Mais clientes?

— Sim. A clientela do Obelisco. Mas, como comissário-chefe, o senhor não tem autoridade pra fechar o Obelisco, mesmo com provas de que estejam oferecendo crédito ilegalmente.

— Não tenho?

— Como crupiê, sei que a polícia pode acusar indivíduos, mas só o Comitê de Jogos pode fechar um cassino inteiro. E eles estão sob a jurisdição do...

— Da prefeitura. Do Tourtell.

Macbeth via claramente agora. Não precisava da power; deveria jogar o que ainda tinha na privada e puxar a descarga. Uma campainha tocou. Jack se levantou.

— Parece que temos clientes, senhor.

Macbeth o segurou pelo braço.

— Espera só quando Lady saber o que maquinamos. Tenho certeza de que ela vai se sentir melhor num piscar de olhos. Como podemos te agradecer, Jack?

— Não precisa, senhor. — Jack sorriu. — Foi suficiente ter salvado a minha vida.