Macbeth
Capítulo 13
— Mas eu quero saber por quê — falou Duff, colocando os cotovelos na mesa e apoiando o queixo nas mãos. — Por que Andrianov e Hennessy não fugiram? Por que os dois seguranças matariam o chefe e depois iriam dormir no quarto ao lado, cobertos de sangue e de evidências incontestáveis da cabeça aos pés? Vocês são detetives, porra! Devem ter no mínimo algumas sugestões ! Ele olhou ao redor. Vários dos 12 detetives da Unidade de Homicídios estavam sentados à sua frente, mas a única boca que se abriu foi para dar um bocejo. Era segunda-feira de manhã. Seria por isso que mal se comunicavam e pareciam acanhados e distraídos? Não, aqueles rostos estariam igualmente cansados no dia seguinte, a menos que alguém botasse o pau na mesa. Havia uma razão para que a Homicídios estivesse sem chefe. Dois meses antes, Duncan dera um ultimato ao então chefe da unidade: ou ele se demitia ou seria aberto um inquérito interno para investigá-lo por suspeita de corrupção. Não havia candidatos com qualificação para o cargo. Sob a gestão de Kenneth, a Unidade de Homicídios tivera a menor taxa de solução de crimes do país, e a corrupção não foi a única causa. Enquanto sua correspondente em Capitol ficava com os melhores profissionais, a da central se resumia a uma ralé de desinteressados e desclassificados. — Isso tem que mudar — Duncan havia declarado. — O sucesso ou o fracasso da Unidade de Homicídios é um forte determinante na confiança que a população deposita na polícia. É por isso que estou colocando um dos nossos melhores oficiais no cargo. Você, Duff.
Duncan tinha um jeito inspirador de dar más notícias à sua equipe. Duff bufou. A seu lado havia uma pilha de relatórios que não valiam nem o papel em que tinham sido registrados — interrogatórios inúteis, testemunhos tomados dos clientes do Inverness, todos relatando a mesma coisa: ninguém tinha visto nem ouvido nada além da chuva. Duff sabia que o silêncio ao redor da mesa talvez fosse simplesmente por medo da fúria de sua reação, mas estava pouco se lixando. Aquilo não era um concurso de popularidade, e, se a condição para eles agirem fosse o medo, não via nenhum problema nisso.
— Então nossa conclusão é de que os culpados estavam apenas dormindo o sono dos justos, é isso? Como se tivessem tido um dia de trabalho cansativo. Qual dos idiotas aqui vota a favor disso?
Nenhuma reação.
— E quem não acredita nisso?
— Não “dos justos” — argumentou Caithness, que acabara de entrar. — E sim “dos sedados”. Desculpe o atraso, é que precisei buscar isso aqui. — Ela abanou algo horroroso, parecidíssimo com um relatório. E de fato era, como Duff concluiu quando a coisa aterrissou com um baque sobre a pilha de papel que jazia sobre a mesa. Mais precisamente, um relatório forense. — Amostras de sangue de Andrianov e de Hennessy apontaram uma quantidade de benzodiazepínicos suficiente pra que eles dormissem por umas 12 horas — explicou ela, sentando-se em uma das cadeiras vagas.
— Seguranças que tomam remédio pra dormir? — questionou Duff, incrédulo.
— Ajudam a acalmar — sugeriu um cara que se balançava nos pés da cadeira, nos fundos da sala. — Pode ser que você fique um pouco nervoso se vai matar seu chefe. Muitos ladrões de bancos tomam esses comprimidos da paz.
— Por isso é que fazem um monte de merda — completou um detetive com tique nervoso no nariz e coldre de ombro sobre a camisa polo branca.
Risadas. Breves.
— E você, Caithness, o que acha? — indagou Duff.
Ela deu de ombros.
— Detecção de drogas não é minha especialidade, mas me parece óbvio que eles precisavam de algo pra acalmar os nervos. O problema é que não conheciam muito bem as substâncias e por isso erraram na dose. Durante a execução, as drogas cumpriram seu papel: o nervosismo sumiu, os reflexos ainda eram rápidos e os cortes certeiros comprovam movimentos seguros. Mas depois, quando a substância química alcançou o pico, eles perderam o controle. Vagaram a esmo, se lambuzaram de sangue até simplesmente adormecerem nas poltronas.
— Típico — disse o detetive de camisa polo. — Uma vez capturamos dois assaltantes de banco que pegaram no sono no carro em que estavam fugindo, ao pararem no sinal vermelho. Não estou de brincadeira. Criminosos são tão idiotas que...
— Obrigado — interrompeu-o Duff. — Como você sabe que os reflexos deles ainda eram rápidos?
Caithness deu de ombros.
— Quem deu o primeiro golpe conseguiu se livrar da adaga antes que o sangue jorrasse. Nosso especialista garante que o sangue no cabo é de esguicho, não escorreu, não pingou nem foi passado nele.
— Sendo assim, concordo com todas as suas outras conclusões — disse Duff. — Quem discorda?
Nenhuma reação.
— Alguém concorda?
Silenciosos acenos de cabeça.
— Muito bem, vamos dizer então que isso explique esse ponto. Agora vamos desatar outro fio solto dessa meada. O suicídio do Malcolm. — Duff ficou de pé. — A carta dele diz que os Norse Riders ameaçaram matar sua filha caso ele não os ajudasse a matar o Duncan. Minha pergunta é: em vez de fazer o que Sweno e os Norse Riders queriam e depois tirar a própria vida, por que não ir direto ao Duncan e colocar a filha em um lugar seguro? Ameaças não são exatamente algo novo pra polícia. O que vocês acham?
Todos os olhares se voltaram para o chão, para um colega ou para a janela.
— Nenhuma opinião? Sério? Uma unidade inteira de detetives de homicídios e não...
— Malcolm sabia que Sweno tinha contatos na polícia — arriscou o sujeito que se balançava nos pés da cadeira. — E sabia que Sweno encontraria sua filha de um jeito ou de outro.
— Bom, estamos avançando — comentou Duff, caminhando de um lado para o outro na frente deles. — Vamos supor que Malcolm acredite que a filha pode ser salva se ele cumprir as ordens do Sweno. Ou se ele se matar, de modo que Sweno não tenha mais qualquer motivo pra matar a filha dele. Certo?
Ele percebeu que os presentes nem sequer tinham uma pista de onde seu raciocínio ia dar.
— Então, se Malcolm, conforme a carta sugere, não suporta viver seja porque perde a filha seja porque se torna cúmplice do assassinato de Duncan, por que ele não cometeu suicídio antes do Duncan ser assassinado, o que salvaria os dois?
Rostos boquiabertos olhavam para ele.
— Se me permite... — começou Caithness.
— Por favor, inspetora.
— Sua pergunta pode ser lógica, mas a psique humana não funciona assim.
— Não? Pois eu acho que sim. Alguma coisa no suposto suicídio do Malcolm não bate. Nossos cérebros sempre vão pesar os prós e os contras com grande precisão e com base nas informações disponíveis pra, em seguida, tomar uma decisão lógica irrefutável.
— Se a lógica é irrefutável, por que, apesar da inexistência de novas informações, às vezes sentimos remorso?
— Remorso?
— Remorso, inspetor Duff. — Caithness o encarou. — É um sentimento em pessoas com qualidades humanas que nos diz que desejamos desfazer algo que fizemos. Não podemos excluir a possibilidade de que Malcolm pensasse assim.
Duff balançou a cabeça.
— O remorso é um sinal de doença. Einstein disse que refazer um processo mental e tentar obter um resultado diferente é uma prova de insanidade.
— Então, a afirmação do Einstein pode ser refutada se, com o passar do tempo, tiramos conclusões diferentes. Não porque as informações tenham de alguma forma mudado, e sim as pessoas.
— As pessoas não mudam!
Duff notou que os detetives tinham saído do estado de letargia e acompanhavam a discussão com atenção. Talvez suspeitassem que o bate-boca tivesse deixado se ser apenas sobre a morte de Malcolm.
— Talvez Malcolm tenha mudado — continuou Caithness. — Talvez a morte do Duncan o tenha mudado. E isso não pode ser descartado.
— Como também não podemos descartar a possibilidade de ele ter deixado uma carta de suicídio, jogado o distintivo no mar e dado no pé — disse Duff. — No que diz respeito às qualidades humanas e a tudo mais.
A porta se abriu. Era um policial da Unidade de Narcóticos.
— Telefone pro senhor, inspetor Duff. Ele diz que é sobre Malcolm e que é urgente. E insiste em falar somente com você.
De pé no meio do quarto, Lady olhava para o homem que dormia em sua cama. Na cama deles. Já passava das nove e ela tomara o café da manhã fazia muito tempo, mas ainda não havia vida no corpo sob os lençóis de seda.
Ela se sentou na lateral da cama, acariciou-lhe o rosto, puxou uma mecha dos grossos cachos negros e o sacudiu. Uma risca branca fininha apareceu sob as pálpebras dele.
— Comissário-chefe! Acorda! Tem um incêndio na cidade!
Ela achou graça quando Macbeth gemeu e se virou para o outro lado.
— Que horas são?
— Tarde.
— Sonhei que era domingo.
— Você sonhou bastante, eu acho.
— Sim, aquela maldita...
— O quê?
— Nada. Ouvi alarme de tempestade. Mas então me dei conta de que eram os sinos da igreja. Convocando fiéis à confissão e ao batismo.
— Já falei que não era pra dizer essa palavra.
— Batismo?
— Macbeth!
— Desculpa.
— A coletiva de imprensa é em menos de duas horas. E eles vão ficar especulando sobre o que aconteceu com o comissário-chefe.
Ele botou as pernas para fora da cama. Lady o puxou para si e, segurando o rosto dele entre as mãos, inspecionou-o com atenção. As pupilas estavam contraídas. De novo.
Ela arrancou um pelo fora de lugar na sobrancelha dele.
— Também temos um jantar essa noite — disse ela, procurando mais fios fora do lugar. — Você não esqueceu, não é?
— Tem certeza de que não vai pegar mal? Faz pouco tempo que o Duncan morreu.
— É um jantar pra reforçar os laços de cooperação, não um banquete. Sem falar que não podemos deixar de comer, não é, querido?
— Quem vem?
— Todos que convidei. O prefeito, alguns dos seus colegas da polícia... — Um fio grisalho insistia em escapulir de suas longas unhas vermelhas. — Vamos discutir como fazer cumprir as regras pra operação dos cassinos. Hoje saiu no jornal que, aparentemente, o Obelisco está administrando um prostíbulo sob a fachada de cassino e que, portanto, deveria ser fechado.
— Não ajuda em nada que seu amigo editor escreva o que você deseja se o jornal dele não tem leitores.
— Isso foi antes. Agora meu marido é o comissário-chefe.
— Ai!
— Você deveria ganhar mais alguns cabelos grisalhos. Combinam com o título de chefe. Vou falar com o meu cabeleireiro hoje, talvez ele possa tingir de leve suas têmporas.
— Nem dá pra ver minhas têmporas.
— Exatamente. É por isso que vamos cortar o seu cabelo. Assim ficarão visíveis.
— Nunca!
— O prefeito Tourtell pode achar que sua cidade merece um comissário-chefe com aparência de homem maduro, não de menino.
— E daí? Está preocupada com isso?
Lady deu de ombros.
— Normalmente o prefeito não interferiria na hierarquia da polícia, mas vamos lembrar que ele é o único que nomeia o comissário-chefe. Só precisamos ter certeza de que ele não vai inventar nenhuma ideia idiota.
— E como podemos fazer isso?
— Bom, talvez seja recomendável descobrirmos alguma mancha no passado do Tourtell, caso ele crie algum problema pra nós. Mas é improvável que isso aconteça. Não se preocupe com isso, querido.
— Tudo bem. Por falar nisso...
Ela reconheceu o tom preocupado de Macbeth e parou de procurar os fios indisciplinados.
— Tem alguma coisa que você não me contou, meu amor?
— Banquo...
— O que tem ele?
— Comecei a ter dúvidas se ainda posso confiar nele. Se não está com algum plano pro Fleance e ele. — Macbeth respirou fundo, e Lady soube que ele lhe faria uma revelação importante. — Banquo não matou o Malcolm ontem, ele o despachou pra Capitol. Inventou uma desculpa de que era uma vida que não representava nenhum risco pra nós se a poupássemos.
Ela sabia que ele aguardava uma reação. Como Lady não disse nada, Macbeth comentou que ela não parecia chocada.
Ela sorriu.
— Não é hora de ficar chocada. O que você acha que ele está planejando?
— Banquo disse pro Malcolm que mataria a filha dele caso ele quebrasse a promessa de silêncio, mas o que passou pela minha cabeça foi que os dois combinaram algo que daria a Banquo uma recompensa melhor e mais segura, comparada ao que eu ofereci.
— Querido, você não está achando que o bom e velho Banquo quer o cargo de comissário-chefe, está?
— Não, não, Banquo sempre preferiu ser liderado, não liderar. A questão é o filho dele. Sou apenas 15 anos mais velho que Fleance, e, quando eu me aposentar, ele vai estar velho e grisalho. Então, seria preferível que Fleance fosse favorecido por alguém mais velho, como Malcolm.
— Você só está cansado, meu amor. Banquo é leal demais pra pensar em fazer algo assim. Você mesmo disse que ele queimaria no inferno por você.
— Sim, ele tem sido leal. E eu também tenho sido leal a ele. — Macbeth se levantou e parou diante do grande espelho de moldura dourada fixado na parede. — Mas, pensando bem, será que essa lealdade mútua não tem sido mais vantajosa pra ele? Não seria ele a hiena que segue as pegadas do leão e se alimenta da presa sem se dar ao trabalho de matá-la? Fiz dele o subchefe do GOE e meu adjunto na Crime Organizado. Eu diria que ele vem sendo bem recompensado por favores pequenos demais.
— Mais uma razão pra você poder contar com a lealdade dele, querido.
— Sim, foi o que eu pensei também, mas agora vejo... — Macbeth franziu a testa, aproximou-se do espelho e espalmou a mão na superfície para conferir se havia algo ali. — Ele me amou como um pai ama o filho, mas esse amor se transformou em ódio quando ele provou do veneno da inveja. Passei de nível hierárquico na frente dele: em vez de ele ser meu chefe, é meu subordinado. E, além de se curvar às minhas ordens, tem que suportar o desdém emudecido daquele que é sangue do seu próprio sangue, Fleance, que viu o pai dobrar a cabeça pro intruso Macbeth. Você já olhou dentro dos devotados olhos castanhos de um cão enquanto ele está te encarando, abanando o rabo, na expectativa de ser alimentado? O bicho fica lá, parado, esperando, porque foi treinado pra isso. E você sorri pra ele, afaga sua cabeça e não consegue ver o ódio por trás da submissão. Não consegue ver que, se o cão tivesse a oportunidade, se vislumbrasse uma chance de escapar da consequente punição, atacaria você, rasgaria sua garganta; e sua morte representaria o sopro de liberdade pra ele, e isso deixaria você com o corpo despedaçado em algum beco imundo.
— Querido, o que há com você?
— Foi isso que sonhei.
— Você está paranoico! Banquo é um amigo verdadeiro. Se ele estivesse planejando trair você, poderia ter ido direto ao Malcolm e contado seus planos a ele.
— Não, ele sabe que vai ser mais forte se guardar a melhor carta pro final. Primeiro me mata, pois sou um assassino perigoso, depois traz o Malcolm de volta, como comissário-chefe. Que feito heroico! Como recompensar um homem tão magnânimo e sua família?
— Você realmente acredita nisso?
— Não. — Macbeth estava tão perto do espelho que seu nariz tocava o vidro e começava a embaçá-lo. — Eu não acredito, eu sei. Eu vejo isso. Vejo os dois. Banquo e Fleance. Tenho que evitar que isso aconteça, mas como? — De repente, ele se virou para Lady. — Como? Meu amor, você tem que me ajudar. Tem que nos ajudar.
Lady cruzou os braços. Por mais distorcido que o raciocínio de Macbeth pudesse parecer, não deixava de fazer certo sentido. Talvez ele estivesse certo. E mesmo que não estivesse, Banquo ainda era um cúmplice e uma testemunha em potencial, poderia delatá-los. Quanto menos pessoas envolvidas, melhor. Além do mais, que utilidade real Banquo e Fleance tinham para eles? Nenhuma. Lady suspirou. Como diria Jack, Se você tem menos de 12 no blackjack, peça mais uma carta. Porque você não pode perder.
— Convide os dois pra vir aqui uma noite dessas — sugeriu ela. — Assim saberemos o que estão pretendendo.
— E resolvemos tudo aqui?
— Não, não, chega de assassinatos no Inverness. Mais um lançaria suspeitas sobre nós e afastaria a clientela. Faremos na estrada.
Macbeth assentiu.
— Vou pedir que venham de carro. Direi que prometemos a alguém uma carona com eles. Sei exatamente o trajeto que Banquo vai fazer, então, se eu pedir que sejam pontuais, saberemos minuto a minuto onde estarão. Sabe de uma coisa, mulher dos meus sonhos?
Sei, pensou ela quando ele a abraçou, mas deixou que ele dissesse assim mesmo.
— Eu te amo acima de tudo que há na terra e no céu.
Duff encontrou o menino sentado num cabeço de amarração à beira do cais. A chuva tinha dado um descanso, e mais luz do que de costume atravessou a camada de nuvem branca, mas, sobre o rio, novas tropas de nuvens acinzentadas se enfileiravam para pegar carona no vento noroeste em direção aos dois — aliás, isso era a única coisa certa de acontecer naquela cidade.
— Sou o Duff. Você é a pessoa que ligou falando sobre o Malcolm?
— Cicatriz legal, essa sua — disse o menino, endireitando o tapa-olho. — Eles te falaram que você não era mais o chefe da Narco?
— Você disse que era urgente.
— É sempre urgente, Sr. Chefe Narco.
— Tudo bem. Desembucha.
— Passa aí, é como se diz.
— Ah, então essa é a urgência. Quando você precisa da próxima dose?
— Algumas horas atrás. E como o que eu tenho é tão importante que veio o próprio chefe, acho que você paga não só a próxima, mas também as próximas dez.
— Ou eu espero meia hora e você abre a boca pela metade do preço fácil, fácil. Mais meia hora e vai sair por metade da metade, e...
— Não posso negar isso, Sr. Chefe Narco, mas a questão é: qual de nós está com mais pressa? Eu li sobre o Malcolm nos jornais hoje de manhã e reconheci o cara da foto. Afogado, tipo assim. Comissário-chefe adjunto e o cacete. Graúdo.
— Anda logo, rapaz, vou pagar o que vale.
O garoto caolho deu uma risada.
— Desculpa, Chefe Narco, mas não confio mais na polícia. Vou te dar uma provinha: acordei depois de cochilar sentado entre as filas de contêineres que você pode ver ali, onde dá pra tomar uma dose e viajar sem ser roubado. Entende o que é isso? Ninguém me vê, mas eu vejo o Malcolm do outro lado do canal. Que tal isso, Chefe Narco? A primeira provinha é de graça, a próxima vai te custar uma baba. Já ouviu isso antes?
O garoto riu.
— Acho que perdi o interesse — disse Duff. — Já sabemos que Malcolm esteve aqui, achamos o carro dele.
— Mas vocês não sabem que ele não veio sozinho. Nem quem estava com ele.
Amargas experiências anteriores ensinaram a Duff que os drogados contavam mais mentiras do que verdades, principalmente se a manobra lhes rendesse a próxima dose, mas, via de regra, um viciado preferia maneiras mais fáceis e rápidas de trapacear, em vez da trabalheira de ligar para a central e insistir em falar com um dos chefes de unidade, depois esperar uma hora debaixo de chuva, tudo isso sem garantia de recompensa.
— E por acaso você sabe? — indagou Duff. — Quem era?
— Já vi ele antes, sim.
Duff pegou a carteira. Tirou de lá um maço de notas, contou e passou para o garoto.
— Eu estava pensando em ligar pro próprio Macbeth — disse o garoto, enquanto contava o dinheiro. — Mas aí pensei que ele não ia acreditar em mim quando eu contasse quem era.
— Alguém próximo?
— O tal Malcolm estava conversando com o parceiro do Macbeth — disse o garoto. — Cara velho, cabelo branco.
Duff ofegou involuntariamente.
— Banquo?
— Não sei o nome dele, mas eu vi ele com o Macbeth na Central.
— E sobre o que eles conversaram?
— Estavam muito longe.
— Sobre o que pareciam estar falando, então? Estavam rindo? Ou gritando, zangados?
— Impossível saber. A chuva estava castigando os contêineres, e os dois estavam de costas pra mim. Talvez estivessem discutindo. O velho ficou sacudindo a arma por um tempo, mas depois a coisa acalmou e eles entraram num Volvo e se mandaram. O velho é que foi dirigindo.
Duff coçou a cabeça. Banquo e Malcolm em conluio?
— Você me deu dinheiro demais — disse o garoto, erguendo uma nota.
Duff olhou firme para ele. Um drogado devolvendo troco? Ele pegou o dinheiro.
— Você não me contou essas coisas só pela grana pra uma nova dose.
— Hein?
— Você disse que leu nos jornais e sabia que isso era coisa séria. Tão séria que se tivesse contado a um jornalista essa história, conseguiria dez vezes mais do que com um policial. Então, ou foi Hécate que despachou você pra espalhar notícias falsas ou seu interesse é outro.
— Vai pro inferno, Chefe Narco.
Duff agarrou o garoto pela gola e o suspendeu. O rapaz pesava quase nada.
— Escuta aqui — disse Duff, evitando inalar o bafo fedido do garoto. — Posso te colocar na gaiola, e aí vamos ver o que você acha quando entrar numa crise de abstinência, sabendo que tem dois dias de seca pela frente. Vou te dar cinco segundos. Quatro...
O garoto sustentou o olhar de Duff.
— Três...
— Seu policial de merda, você é um filho da...
— Dois...
— Meu olho.
— Um...
— Meu olho, já disse!
— O que tem a ver?
— Só estava querendo ajudar a pegar o cara que arrancou meu olho.
— Quem?
O menino bufou em desdém.
— O mesmo cara que está fodendo com vocês. Não desconfia de quem está por atrás dessa merda toda? Só tem um sujeito nessa cidade capaz de matar um comissário-chefe e sair impune: o Mão Invisível.
— Hécate?