Macbeth
Capítulo 38
Lennox aguardava diante da entrada do hospital, ao lado de Kasi. Deu uma espiada no quiosque onde Tourtell enfrentava uma fila para comprar cigarros e depois voltou sua atenção ao estacionamento. Uma luz se acendeu no interior da limusine de Tourtell. A distância era de aproximadamente cem metros. Mais ou menos a mesma até o telhado plano do edifício-garagem à esquerda. Lennox sentiu um arrepio. Tempo bom quase sempre vinha acompanhado de um raro vento nordeste, mas também de uma frente fria. E se ventasse um pouco mais forte agora, o céu ficaria livre de nuvens. Ao luar, Olafson certamente poderia ter atirado em Tourtell de qualquer ponto, mas no escuro o plano era que a ação acontecesse no estacionamento, contando com a claridade de um poste de luz. Tornou a olhar a hora. O frio corroía seu corpo. Tossiu. Seus pulmões. Não aguentava o sol e não aguentava o frio. O que Deus tinha em mente ao enviar à terra alguém como ele, um coração solitário e sofrido sem uma couraça, um molusco sem uma concha? — Obrigado por ajudar a gente. — O quê? — Lennox se virou para o menino. — Obrigado por salvar meu pai. Lennox ficou contemplando Kasi, que usava o mesmo estilo de jaqueta jeans que seu filho, e não conseguiu evitar o pensamento que veio em seguida. Ao seu lado estava um menino, não muito mais velho que seu filho, prestes a perder a mãe. E o pai. Mas ele diz que está tudo bem, desde que tenha um de nós.
— Então vamos? — falou Tourtell ao sair, dando baforadas no cigarro recém-comprado.
— Sim — respondeu Lennox.
Eles atravessaram a rua para o estacionamento. Lennox se postou à esquerda de Tourtell. Kasi ia alguns passos à frente. Bastava fazer uma parada enquanto eles atravessassem o foco de luz do primeiro poste, mantendo-se fora da linha de fogo; daí em diante, era com Olafson.
Lennox sentiu uma estranha dormência na língua, nos dedos das mãos e dos pés.
— Eles estão vindo — avisou Seyton, abaixando o binóculo.
— Posso vê-los — disse Olafson, um joelho na laje de concreto que cobria o telhado do estacionamento. Um olho fechado, o outro bem aberto detrás das miras telescópicas do rifle apoiado no parapeito à frente deles.
Seyton passou os olhos pelo telhado para ter certeza de que ainda estavam sozinhos. O carro deles era o único no estacionamento. As pessoas não tinham o costume de visitar doentes num sábado à noite. Ele podia ouvir a música das ruas abaixo e sentir, lá de cima, o perfume e a testosterona.
No estacionamento, o garoto ia na frente de Tourtell e de Lennox, e fora da linha de fogo. Ótimo. Ouviu Olafson respirar fundo. Os dois homens entraram sob a luz.
Seyton sentiu o coração dar um salto de alegria.
Agora.
Mas não houve nenhum tiro.
Os dois homens saíram do círculo de luz, tornando-se vultos indistintos ao retornarem à escuridão.
— O que aconteceu? — perguntou Seyton.
— Lennox estava na linha de fogo.
— Ele deve sair do caminho quando passarem pelo próximo poste.
Seyton voltou a erguer o binóculo.
— Faz alguma ideia de quem pode estar atrás de mim, Lennox?
— Sim.
Havia dois postes de iluminação antes de chegarem à limusine.
— Sério? — perguntou Tourtell, e, abismado diante da resposta, diminuiu o passo.
Lennox certificou-se de fazer o mesmo.
— Não olhe pro edifício-garagem atrás de mim, Tourtell. Tem um atirador experiente no telhado e, nesse momento, nós estamos na mira dele. Pra ser mais exato, eu estou. Então ande na mesma velocidade que eu. Senão você vai levar um tiro na cabeça.
Ele reparou, pela postura de Tourtell, que o prefeito acreditava nele.
— O menino...
— Ele não está em perigo. Continue andando. Não deixe que percebam nada diferente.
Lennox viu Tourtell abrir a boca como se esse fosse o único jeito de seu corpanzil obter oxigênio suficiente enquanto sua frequência cardíaca aumentava. Então o prefeito assentiu e andou mais rápido, dando passos pequenos.
— Qual é o seu papel nisso, Lennox?
— Do calhorda — disse Lennox, vendo o motorista de Tourtell, que devia estar com os olhos neles, sair do carro para abrir a porta de trás. — É à prova de balas?
— Sou prefeito, não presidente. Por que está fazendo isso se a sua parte é a do calhorda?
— Porque alguém tem que salvar essa cidade do Macbeth. Eu não posso, então cabe a você, Tourtell.
— O que o babaca do Lennox está fazendo? — perguntou Seyton, afastando o binóculo dos olhos para verificar se o que tinha visto através das lentes coincidia com a realidade no estacionamento. — Será que ele está na frente do Tourtell de propósito?
— Não sei, chefe, mas a situação está se tornando crítica. Eles estão se aproximando do carro.
— Suas balas atravessariam o corpo do Lennox?
— Chefe?
— Elas atravessariam Lennox e matariam Tourtell?
— Eu uso balas FMJ, chefe.
— Sim ou não?
— Sim!
— Então atire no traidor.
— Mas...
— Shh — sussurrou Seyton.
— O quê? — Gotas de suor brotavam na testa do jovem oficial.
— Não fale e não pense, Olafson. O que você acabou de ouvir foi uma ordem.
O motorista fez a volta no carro e sorriu ao abrir a porta de trás. Um sorriso que desapareceu quando percebeu a expressão de Tourtell. O menino foi até a porta traseira do lado esquerdo.
— Entre e se abaixe — mandou Lennox. — Motorista, vamos embora daqui agora!
— Senhor, o que...
— Faça o que ele mandar — disse Tourtell. — Isso...
Lennox sentiu o tiro nas costas antes de ouvir o pac!. Suas pernas murcharam, ele desmoronou e maquinalmente abraçou Tourtell, que foi derrubado por Lennox enquanto ele caía.
Lennox viu o asfalto chegando cada vez mais próximo para recebê-los. Não sentiu o choque, mas sentiu o cheiro de tudo: poeira, gasolina, borracha, urina. Não conseguia se mexer nem produzir som algum, mas podia ouvir. Ouviu o ofegar de Tourtell no asfalto debaixo dele. A perplexidade na voz do motorista:
— Senhor, senhor?
E na de Tourtell:
— Corra, Kasi! Corra!
Mais um pouco eles teriam escapado. Mais um metro e teriam a proteção do carro. Lennox tentou dizer alguma coisa, o nome de um animal, mas nada saía de sua boca. Tentou em vão mexer a mão. Estava morto. Logo estaria flutuando, mirando o próprio corpo. Um metro. Ouviu pés correndo e se distanciando rapidamente e o motorista se inclinando sobre eles e tentando tirá-lo de cima de Tourtell.
— Vou colocá-lo no carro, senhor!
Outro pac!, e os olhos de Lennox foram cegados por algo úmido. Piscou: ao menos as pálpebras ele conseguia mexer. O motorista estava caído ao lado deles, encarando o nada. Sua testa não mais existia.
— Tartaruga — sussurrou Lennox.
— O quê? — murmurou Tourtell, ofegando debaixo dele.
— Se arraste. Serei sua carapaça.
— Esse atingiu o motorista — disse Olafson, empurrando outro cartucho para dentro da câmara.
— Rápido. Tourtell está rastejando pra atrás do carro — disse Seyton. — E o garoto fugiu.
Olafson carregou a arma. Apoiou a coronha no ombro e fechou um olho.
— Tenho o menino na mira.
— Foda-se o menino! — rosnou Seyton. — Atire no Tourtell!
Seyton viu o cano do fuzil avançar e recuar, e uma gota de suor escapou dos cílios de Olafson quando ele piscou.
— Não o vejo, chefe.
— Tarde demais! — Seyton bateu com a mão no parapeito. — Estão atrás do carro. Vamos ter que descer pra terminar o trabalho.
Lennox ouviu Tourtell gemer ao sair debaixo dele. Rolou no asfalto molhado. Estava de bruços atrás do carro, incapaz de se mexer, apenas as pernas à mostra para quem visse da frente. Até que Tourtell o agarrou pelos braços e o puxou para uma posição segura.
Pneus cantaram no asfalto. Um carro vinha na direção deles. Lennox olhou debaixo do carro do prefeito, mas só viu o corpo do motorista do outro lado. Tourtell havia se sentado com as costas apoiadas na lateral do carro. Lennox tentou abrir a boca para mandar Tourtell entrar no carro e escapar dali, se salvar, mas não adiantou. Era a mesma velha história de sempre, como se toda a sua vida pudesse ser resumida em uma frase: era incapaz de realizar o que seu cérebro e seu coração desejavam.
Um carro parou e portas se abriram.
Passos no asfalto.
Lennox quis mexer a cabeça, mas não conseguiu. Do canto do olho, viu o cano de uma arma em paralelo às pernas de uma calça.
Estava acabado. Estranhamente, sentiu um alívio.
As pernas da calça chegaram mais perto. Sentiu mãos em seu pescoço. Morreria em silêncio, estrangulado. Manteve o olhar nos sapatos. Tinham saído de moda havia muito. Bico fino.
— Esse aqui está morto — disse uma voz familiar, do outro lado do carro.
— Tourtell está ileso — falou o homem que o impedia de respirar.
— Lennox não está se mexendo, mas tem pulso. De onde vieram os tiros?
— Da laje do edifício-garagem — respondeu Tourtell, a voz estrangulada. — Lennox salvou a minha vida.
Salvou?
— Venha pra esse lado, Malcolm!
A mão o soltou e um rosto entrou no campo de visão de Lennox.
Duff o encarou.
— Ele está consciente? — perguntou uma mulher atrás dele. Caithness.
— Paralisado ou em estado de choque — respondeu Duff. — Os olhos estão se mexendo, mas ele não consegue mover o resto do corpo nem falar. Precisamos levá-lo pro hospital.
— Tem um carro vindo — informou uma voz. Um menino. — Saindo do edifício-garagem.
— Parece um carro do GOE — disse Duff, erguendo-se e apoiando a espingarda no ombro.
Alguns segundos de silêncio. O som do motor do carro foi sumindo.
— Deixe-os ir — disse Malcolm.
— Kasi. — Era a voz de Tourtell.
— O quê?
— Encontrem o Kasi.
Kasi corria. O coração batia em sua garganta e os pés martelavam o asfalto molhado mais e mais rápido. Até que corriam tão rápido quanto a música que insistia em tocar em sua cabeça quando ele ficava com medo. “Help”. Estava entrando no carro quando ouvira uma pancada e vira o tiro atingir as costas do policial de rosto pálido, que caiu em cima de seu pai, e o pai o mandou correr.
Automaticamente, pegou a estrada em direção à região onde tinha crescido, perto do rio. Havia uma casa incendiada onde as crianças costumavam brincar. A casa dos ratos, era como a chamavam.
A casa incendiada era branca, com manchas de fuligem ao redor da porta e das janelas, como uma puta velha com maquiagem pesada e borrada. À beira do rio, as casinhas estavam praticamente coladas, como se buscassem apoio umas nas outras. À exceção de uma, que parecia ter sido excluída pelas demais. Era de madeira, pintada de azul e rodeada de mato alto. Kasi subiu correndo as escadas. A entrada sem porta dava para um cômodo que um dia havia sido uma cozinha, mas que agora era apenas uma casca vazia fedendo a mijo com nomes e palavrões rabiscados nas paredes. Continuou subindo a escada estreita até os quartos. Em um deles, um colchão mofado no chão, onde ele tinha vivido o primeiro beijo, entre garrafas vazias de álcool e um cemitério de carcaças endurecidas de ratos do rio. Em um fim de tarde, aos 10 ou 11 anos, ele e dois amigos se sentaram no colchão e, entre alguns acessos de tosse, compartilharam o primeiro cigarro enquanto observavam os ratos virem em direção à casa, atravessando com cuidado a camada de lixo sobre o leito rachado do rio. Talvez fossem até a casa para morrer.
Será que ele deveria voltar? Não, o pai o mandara fugir. E o outro homem, Lennox, era da polícia, então devia haver mais policiais ali por perto, já que eles sabiam de planos para assassinar o prefeito.
Decidiu se esconder até que tudo acabasse, depois voltaria para casa.
Abriu o grande guarda-roupa no canto. Estava vazio, despojado de tudo. Aconchegou-se lá dentro e fechou a porta. Inclinou a cabeça para trás até encostar na madeira. Cantarolou baixinho a música que soava em sua mente. Help, I need... Lembrou-se do filme em que os Beatles correm em volta do escorregador circular e se divertem em uma cômica câmera rápida, um mundo onde nada monstruoso acontece. E ninguém o encontraria ali. A menos que soubessem onde estava. Além do mais, ele não era o prefeito, apenas um menino que não tinha feito nada de mau na vida além de fumar alguns cigarros às escondidas, dividir meia garrafa de uísque com água e beijar uma ou duas garotas que namoravam outros garotos.
Seu coração foi desacelerando aos poucos.
Prestou atenção. Nenhum som. Mas teria de aguardar um tempo. Tinha recuperado o fôlego, o suficiente para respirar pelo nariz. Não saberia dizer havia quantos anos aquelas roupas estavam penduradas ali, mas ele ainda sentia o cheiro. O cheiro, os fantasmas de vidas desconhecidas. Só Deus podia saber onde estariam agora. Sua mãe lhe disse que aquela tinha sido uma casa infeliz, com álcool, agressão e coisas bem piores. Ele deveria agradecer a suas estrelas da sorte por ter um pai que o amava e nunca encostara a mão nele. E Kasi tinha agradecido a suas estrelas da sorte. Ninguém sabia que seu pai era o prefeito, e ele nunca contara isso a ninguém, nem àqueles que o chamavam de fedelho, nem aos outros fedelhos que nunca viram o pai, nem sabiam quem era. Tinha pena deles. E havia chegado a dizer ao pai que um dia os ajudaria. A eles e a todos os outros que passavam dificuldades desde o fechamento da Estex. E o pai tinha lhe dado um tapinha na cabeça e achado graça, do jeito que outros pais teriam feito. Ele o escutou com atenção e lhe disse que, se Kasi realmente quisesse fazer alguma coisa, então ele o ajudaria quando chegasse a hora. Prometeu. E disse que quem sabe um dia talvez Kasi se tornasse prefeito; maiores maravilhas tinham acontecido, o pai disse, e o chamou por Tourtell Júnior.
Help!
Mas o mundo não era assim. O mundo não havia sido feito para boas ações e cantores pop em filmes divertidos. Ninguém podia ajudar ninguém. Nem ao pai, nem à mãe, nem a outras crianças. Só a si próprio.
Olafson freou quando o ônibus à frente parou. Jovens, a maioria garotas, jorraram para a calçada. Produzidas no melhor estilo de sábado à noite. Era o que ele teria feito aquela noite: tomar cerveja e dançar com uma garota. Beber e dançar longe daquele sujeito ao seu lado. Seyton estendeu a mão e desligou o rádio, fazendo calar Lindisfarne e sua “Meet Me on the Corner”.
— De onde eles apareceram? Duff. Malcolm. Caithness. E o tal rapaz que posso jurar que era o filho do Banquo.
— Vamos voltar à central? — perguntou Olafson.
Ainda não era tarde demais para aproveitar minimamente um sábado à noite.
— Ainda não — disse Seyton. — Temos que pegar o garoto.
— O filho do Tourtell?
— Não quero voltar pro Macbeth de mãos vazias, e o menino pode ser útil. Vire à esquerda aqui. E reduza ainda mais.
Olafson dobrou na rua estreita e olhou para Seyton, que havia aberto a janela e farejava o ar, as narinas se abrindo e se fechando. Olafson já ia perguntar se ele conseguia seguir a pista do garoto levado pelo faro, mas resistiu à tentação. Se aquele homem possuía a capacidade de curar um ombro pelo toque, com certeza seria capaz de descobrir, farejando, para onde alguém tinha ido. Será que estaria com medo de seu novo chefe? Talvez. Tinha chegado até a indagar a si mesmo se preferia o antigo. Mas não fazia ideia de que chegaria a esse ponto. O que ele de fato sabia era que, no hospital, o cirurgião havia apontado para a radiografia de seu ombro e explicado que o projétil tinha destruído a articulação. Ele seria um inválido e teria de aceitar que nunca mais trabalharia como atirador para o GOE. Em poucos segundos, o cirurgião havia privado Olafson de tudo que ele sonhara fazer na vida. Então foi fácil aceitar quando Seyton disse que ia recuperar seu ombro caso Olafson concordasse em fazer um trato. Ele topou sem levar muito a sério, pois quem poderia curar algo assim em um dia? Mas, afinal, o que tinha a perder? Já havia jurado lealdade à irmandade que era o GOE, então o que Seyton queria dele era, em muitos aspectos, algo que ele já tinha feito.
Não, arrepender-se agora não fazia o menor sentido. E olhe o que aconteceu com seu melhor amigo, Angus. Traiu o GOE, o idiota. Traiu o que eles tinham de mais precioso, tudo que eles tinham. Batizados em fogo e unidos em sangue não era um lema vazio, era assim que tinham de ser, não havia alternativa. Ele desejava isso. Reconhecer que havia algum sentido no que fazia e que ele significava algo para as pessoas. Para seus colegas. Mesmo quando não conseguia enxergar nenhum sentido no que faziam. Era um trabalho para outro tipo de pessoa. Não para Angus, o infeliz. Ele devia ter perdido a noção da realidade. Angus tentou convencê-lo a se juntar a ele, mas ele o mandou para o inferno, dizendo que não queria nada com ninguém que tivesse traído o GOE. E Angus olhou em seu olho e perguntou como seu ombro tinha curado tão rápido — um ferimento a bala como aquele não cura em dias. Mas Olafson não respondeu. Apenas pediu a ele que fosse embora.
A rua acabou. Haviam chegado ao leito do rio.
— Estamos mais perto — falou Seyton. — Vamos.
Saíram do carro e foram caminhando perto dos casebres entre a estrada e o leito do rio. Passando uma casa após a outra, enquanto Seyton farejava o ar. Na frente de uma casa vermelha, ele parou.
— Aqui? — perguntou Olafson.
Seyton fungou na direção da casa. Então disse bem alto:
— Puta!
E seguiu em frente. Passaram por uma casa incendiada, uma garagem com um portão de ferro forjado e chegaram a uma casa de madeira azul, onde havia um gato nos degraus. Seyton parou novamente.
— Aqui — disse ele.
— Aqui?
Kasi olhou para o relógio que ganhara do pai, para os ponteiros que brilhavam em verde no escuro, exatamente como ele imaginava que olhos de lobos brilhariam à luz de uma fogueira à noite. Vinte minutos se passaram. Ele tinha quase certeza de que ninguém o havia seguido quando fugiu do estacionamento; tinha olhado para trás diversas vezes e não havia ninguém. Devia ser seguro sair agora, ele conhecia a área como a palma de sua mão, e foi por isso que correu direto para ali, de onde poderia descer a ponte Penny e pegar o ônibus 22. Que o levaria para casa. Seu pai estaria lá. Tinha de estar. Kasi se sobressaltou. Teria ouvido alguma coisa? Rangidos na escada? Aquela era a única madeira que tinha sobrevivido ao fogo, ele não sabia por quê, só que rangia quando ventava forte ou quando o tempo mudava. Ou se alguém pisava nos degraus. Prendeu a respiração. Ficou atento. Nada. Provavelmente uma mudança no tempo.
Contou lentamente até sessenta.
Então empurrou a porta com o pé.
Parou.
— Você está com medo — disse o homem ali parado, olhando para ele. — Bem pensado se esconder no guarda-roupa. Não deixa o cheiro escapar. Bom, quase. — Ele abriu os braços, a palma das mãos para cima. Inspirou. — Mas o ar aqui é maravilhoso e está impregnado do seu medo, garoto.
Kasi pestanejou. O homem era magro, e seus olhos eram iguais aos ponteiros do relógio de Kasi. Olhos de lobo. E ele devia ser velho. Não que parecesse tão velho, mas Kasi simplesmente sabia que aquele homem era muito, muito velho.
— Me aju... — começou Kasi, antes que a mão do homem avançasse e o agarrasse pela garganta.
Kasi não conseguia respirar, então entendeu por que havia corrido para aquela casa. Ele era como os ratos do rio. Tinha ido até ali para morrer.