Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 38 de 50

Páginas do PDF

Macbeth

Capítulo 35

 

— Venham comigo! — gritou Macbeth. Os dois meninos se viraram para o homem que surgira de repente na porta da suíte. Um deles segurava uma garrafa de champanhe e havia começado a remover a proteção de arame ao redor da rolha. — Agora! — insistiu Macbeth. — Senhor, nós... — Vocês têm trinta segundos, se não quiserem morrer! — Fique calmo, senhor. Macbeth pegou o balde de champanhe e o atirou na janela. Cubos de gelo quicaram e ricochetearam com estalos pelo assoalho de parquete. Ele baixou a voz no silêncio que se seguiu: — Uma bomba vai explodir aqui dentro em 25 segundos. Então ele se virou e saiu em disparada. Desceu as escadas. Com o estalar de passos nos ouvidos. Passou correndo em frente ao elevador. Manteve aberta a porta para a escada, facilitando a passagem dos meninos. — Corram! Corram! Fechou a porta assim que eles passaram e os seguiu descendo rápido as escadas. Quinze segundos. Macbeth não fazia ideia do poder destruidor da bomba, mas, se tinha sido preparada para detonar uma construção sólida como o Inverness, eles precisavam se afastar o máximo possível. Décimo sexto andar. Percebeu o início de dor de cabeça, como se sentisse antecipadamente a pressão da explosão nos ouvidos, nos olhos, dentro da boca. Décimo quarto andar. Olhou no relógio: já haviam se passado 15 segundos da hora programada.

Décimo primeiro andar. Nada ainda. O mecanismo do relógio podia não estar bem calibrado ou havia sido incorporado um atraso proposital durante a montagem da bomba. Os dois meninos na frente dele começaram a desacelerar. Macbeth gritou com eles, e ambos voltaram a se apressar.

No oitavo andar, os garotos atravessaram a porta corta-fogo que dava para o corredor, enquanto Macbeth continuou descendo pelas escadas principais. O elevador era uma armadilha fatal. Quando ele alcançou o andar térreo, a detonação estava com quase três minutos de atraso.

Chegou à recepção. Os mesmos funcionários continuavam vagueando perto do balcão como se nada tivesse acontecido, sem notar a presença dele. Saiu para a chuva. Olhou para cima. Ficou nessa posição até que o pescoço começou a doer. Então começou a atravessar a praça deserta em direção a Seyton e ao carro que o aguardava. O que será que tinha acontecido? Ou, melhor dizendo, o que não tinha acontecido? Será que o mecanismo da bomba tinha ficado danificado por causa da umidade do porão da central de polícia? Ou será que alguém conseguira interromper a contagem regressiva depois que ele saiu da suíte? Talvez tivesse detonado, mas com menos potência de explosão que os peritos do GOE haviam previsto, quem sabe? E agora, o que fazer? Ele parou. E se Hécate, ou alguém de seu grupo, chegassem à suíte e descobrisse que ele havia deixado uma bomba lá? Precisava voltar e pegar a mala.

Macbeth se virou. Deu dois passos. Viu a própria sombra delineada nas pedras do pavimento e escutou um retumbar abafado, parecido com um trovão. Por um instante, achou que fosse granizo: grânulos brancos atingiram seu rosto e suas mãos, salpicaram o piso ao seu redor e saltitaram nos carros estacionados. Um chuveiro bateu no chão a poucos metros dele. Macbeth olhou para cima. Logo em seguida, foi derrubado no chão e ouviu algo pesado espatifar-se ao seu lado. Ergueu os braços para se proteger, mas o homem que o atingira já havia se levantado e fugia dali espanando poeira de seu casaco cinza. Macbeth viu uma geladeira marrom espatifada no local onde estivera de pé um segundo antes.

Descansou a cabeça nas pedras frias da rua.

Chamas subiam do alto do Obelisco, e a fumaça preta se alastrava pelo céu. Algo pequeno veio quicando até ele e parou ao lado de sua cabeça. Ele pegou. Ainda estava no invólucro de arame.

— Que foi que houve? — perguntou Seyton quando Macbeth entrou no carro.

— Tourtell. Ele avisou Hécate. Vamos.

— Tourtell? — ecoou Seyton, arrancando com o carro, os limpadores de para-brisa varrendo pequenos estilhaços brancos de vidro.

— Tourtell era a única pessoa que estava a par do nosso plano, e deve ter informado Hécate pra que ele me matasse.

— E Hécate não tentou matar você?

— Não. Muito pelo contrário. Ele me salvou.

— Como assim?

— Ele precisa de suas marionetes.

— O quê?

— Nada, Seyton. Apenas dirija. Pro Inverness.

Macbeth corria os olhos pelas calçadas, examinava, de um jeito agressivo, as pessoas que o encaravam. Procurava os homens de casaco cinza. Quantos haveriam ali? Será que todos usavam casaco cinza ou só alguns? Estariam sempre ali? Ele cerrou os olhos. Imortal. Tão imortal quanto um fantoche. A pressão dentro de sua cabeça aumentou. E um pensamento passageiro porém estranho lhe ocorreu. A promessa de Hécate de torná-lo invulnerável não era uma bênção, e sim uma maldição. Sentia o arame na pele enquanto rolava a rolha da garrafa entre os dedos e ouvia a primeira sirene da polícia.

Seyton havia parado na entrada do Inverness, e Macbeth estava prestes a sair do carro quando ouviu a voz de Tourtell.

— Aumenta o volume — pediu Macbeth, voltando para dentro do carro.

— ... Para rebater os rumores e em respeito a vocês, meus queridos cidadãos, e ao seu direito de saber sobre seus representantes eleitos, eu hoje decidi esclarecer que 15 anos antes tive um breve caso extraconjugal que resultou no nascimento de um filho. De acordo com as partes interessadas, isso é, a mãe do meu filho e minha esposa, foi decidido manter o fato longe dos olhos do público. Sempre tive bastante contato com meu filho e a mãe dele, e cuidei do sustento deles com meus próprios recursos. Não ir a público naquela época foi uma decisão que levou em consideração as várias partes envolvidas. E a cidade não foi uma delas, pois àquela altura eu não tinha um cargo político e não precisava dar satisfação a ninguém, exceto às pessoas mais próximas a mim, e a mim mesmo. Agora, no entanto, as coisas são diferentes, e é o momento certo para divulgar essas informações. A mãe do meu filho está muito doente, e, com o consentimento dela, há dois meses ele veio morar comigo. Desde então, tenho levado Kasi comigo para eventos públicos, onde o apresentei como meu filho; porém, paradoxalmente, parece que minha honestidade suscitou outros rumores. A verdade, como bem sabemos, é a última coisa em que se acredita. Não tenho orgulho de ter sido infiel há 15 anos, mas, além de ter buscado o perdão das pessoas mais próximas a mim, pouco posso fazer a respeito. E pouco também me resta fazer caso as pessoas julguem minha competência como líder com base na minha vida pessoal. Tudo o que posso fazer é pedir a vocês que confiem em mim, como de fato confio em vocês agora, ao trazer a público particularidades que me são extremamente dolorosas e valiosas. Posso não ter agido sempre de uma forma que me faça sentir orgulhoso; no entanto, tenho orgulho do meu filho de 15 anos, Kasi. Ontem à noite tivemos uma longa conversa, e ele sugeriu que fizéssemos o que estou fazendo agora. Anunciar para a cidade toda que sou pai dele. — Tourtell respirou fundo antes de concluir com um nítido vibrato na voz: — E que ele é meu filho. — Ele tossiu. — E que vou ganhar a próxima eleição.

Pausa. Entrou a voz de uma mulher visivelmente comovida.

— Esse foi o pronunciamento do prefeito Tourtell. Agora, de volta às notícias. Houve uma grande explosão no Distrito 4. Para ser exata, no topo do cassino Obelisco. Não há relato de mortos ou feridos, mas...

Macbeth desligou o rádio.

— Maldito — resmungou.

Então caiu na gargalhada.