Macbeth

Jo Nesbo · Capítulo 25 de 50

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Macbeth

Capítulo 22

 

 

Duff permaneceu no vão da porta. Viu um cobertor sobre a cama. Sabia que não ajudaria em nada se caminhasse pelo piso coberto de penas, poluindo a cena e talvez destruindo evidências, mas tinha de cobri-los. Cobri-los uma última vez, não podiam ficar daquele jeito. Deu um passo, entrando no quarto, mas parou. Ouvira algo. Um grito. Recuou e entrou a passos largos na sala de estar, para a janela destruída que dava para o lago. Outro grito. Tão distante que não dava para ver quem estava gritando, mas ali o som se propagava bem durante a tarde. A voz soava zangada. E repetia a mesma palavra, mas Duff não conseguia entender o que estava dizendo. Puxou o que restava de uma gaveta e tirou dela um binóculo, que focou na cabana. Uma lente estava furada, mas a outra foi suficiente para ver um homem de cabelos claros correndo em direção à casa pelo caminho estreito. Atrás dele, diante da cabana, havia um caminhão, e, na carroceria, um homem que reconheceu na hora. Seyton. Estava em pé entre o que parecia ser dois enormes moedores de carne sobre suportes. Duff se lembrou das palavras de Macbeth. Descanse por pelo menos dois dias... são ordens . Macbeth fora avisado. Ele sabia que Duff estava prestes a revelar quem era o assassino de Duncan. Lennox . Lennox, o traidor. Nenhum juiz de Capitol viria à cidade no dia seguinte. Duff viu a boca de Seyton se mexer antes que o som da palavra furiosa repetida o alcançasse: — Angus!

Duff se afastou da janela para que as lentes do binóculo não refletissem o sol, revelando sua presença. Precisava fugir dali.

Enquanto a noite caía sobre a cidade, a notícia do massacre na sede do clube dos Norse Riders se espalhava. Às nove horas, a maioria dos jornalistas locais, das equipes de TV e de rádio, estava reunida no Scone Hall. Macbeth ficou nos bastidores ouvindo Lennox dar-lhes as boas-vindas à coletiva de imprensa.

— Solicitamos aos senhores que não usem flash até que o comissário-chefe tenha terminado, e, por favor, levantem a mão caso queiram fazer perguntas. Agora, aqui está o comissário-chefe dessa digna cidade, Macbeth.

A introdução e, possivelmente, os rumores da vitória sobre os Norse Riders no confronto na sede do clube foram motivos suficientes para dois jornalistas menos experientes baterem palmas quando Macbeth subiu à tribuna, mas o escasso aplauso morreu sob os olhares duros dos mais experientes.

Macbeth foi até o púlpito. Não, segurou o púlpito com violência, foi a impressão que passou. O estranho era que falar em público sempre fora seu maior terror; agora, porém, não apenas gostava, como ansiava por isso, precisava disso. Pigarreou, olhou para os papéis à sua frente e então começou:

— A polícia realizou hoje duas operações contra os responsáveis pelos recentes assassinatos dos nossos oficiais, entre eles o comissário-chefe Duncan. Tenho o prazer de informar que a primeira operação, mesmo considerando as circunstâncias, foi cem por cento bem-sucedida. A gangue de criminosos conhecida como Norse Riders deixou de existir. — Um único grito de Viva! da plateia quebrou o silêncio. — Foi uma ação planejada com base nas novas informações que obtivemos após a soltura de alguns integrantes dos Norse Riders. O que aconteceu foi que os Norse Riders atiraram contra o GOE, e não tivemos escolha a não ser revidar energicamente.

Um grito veio dos fundos da sala:

— Sweno está entre os mortos?

— Sim. Ele é, na verdade, um dos corpos que não puderam ser identificados por causa da extensão dos ferimentos, mas creio que todos vocês reconhecem isso... — Macbeth ergueu um sabre cintilante. Mais Vivas!, e, dessa vez, alguns dos jornalistas veteranos também comemoraram. — Com isso, uma era chegou ao fim. Felizmente.

— Há rumores de que mulheres e crianças também foram mortas.

— Sim e não — disse Macbeth. — Mulheres já adultas, que escolheram se associar ao clube, sim. Muitas delas têm o que poderíamos chamar de ficha suja e nenhuma fez nada pra impedir que os Norse Riders disparassem contra nós. Quanto às crianças, isso é besteira. Não houve vítimas inocentes.

— Você mencionou uma segunda operação. Onde aconteceu?

— Ocorreu fora da cidade, em Fife, logo depois da primeira, em uma área relativamente deserta, então talvez não tenham ouvido falar a respeito. Foi uma tentativa de prender alguém que, agora sabemos, vinha trabalhando pros Norse Riders há algum tempo. É lamentável que tal oficial faça parte da nossa corporação, mas também prova que o comissário-chefe Duncan não acertou ao entregar a Unidade de Narcóticos e, depois, a Unidade de Homicídios a esse homem, o inspetor Duff. E também não somos infalíveis. Levamos em consideração sua família e presumimos que ele faria o mesmo e que, portanto, se entregaria. Então, quando chegamos ao local, o oficial Seyton, chefe do GOE, foi até a casa e pediu que Duff saísse sozinho e se entregasse. Duff reagiu atirando.

Macbeth apontou com a cabeça na direção de Seyton, que estava em pé sob um foco de luz junto à porta do corredor, para que todos o vissem com o braço na tipoia.

— Por sorte, o tiro não foi fatal. O oficial Seyton logo recebeu atendimento médico e há muitas chances de que escape de uma lesão permanente. Mesmo ferido gravemente, o policial Seyton liderou o ataque. Infelizmente, Duff, em seu desespero e covardia, optou por usar a família como escudo, e o trágico resultado foi que eles pagaram com suas vidas, enquanto Duff conseguiu escapar pelos fundos da casa e fugiu no carro dele. Ele agora é um fugitivo, e nós já iniciamos as buscas. Prometo a vocês, aqui e agora, que vamos achar e punir Duff. A propósito, quero aproveitar a oportunidade pra anunciar que em breve teremos que nos dirigir ao oficial Seyton como inspetor.

Mais pessoas se juntaram aos aplausos desta vez. Assim que diminuíram, ouviu-se um pigarro e uma voz com “r” enrolado:

— Tudo isso é ótimo, Macbeth, mas onde estão as evidências — a pessoa pronunciou “evidências” lenta e pausadamente, como se fosse uma palavra estrangeira e bem difícil — contra as pessoas eliminadas?

— No que diz respeito aos Norse Riders, temos testemunhas que viram os integrantes da gangue atirando contra o carro do Banquo, e temos impressões digitais tanto na lataria quanto no interior do carro, além de sangue no banco cujos tipos são idênticos aos dos que foram encontrados mortos na sede do clube essa noite. A Perícia também pode confirmar que as impressões digitais encontradas no interior do para-brisas, no lado do motorista, coincidem com as do... — Macbeth fez uma pausa — ... do inspetor Duff.

Um rumor reverberou em ondas pela sala.

— Nesse momento, gostaria de parabenizar os oficiais da Unidade de Perícia. Duff esteve na cena do crime logo após o assassinato. E isso causa estranheza, já que ninguém da Homicídios tinha conseguido entrar em contato com ele para informá-lo do ocorrido. Obviamente, ele foi lá com a intenção de apagar suas impressões digitais e outras pistas que já devia saber que havia deixado pra trás. Mas a Unidade de Perícia não deixou ninguém, ninguém mesmo, chegar perto do corpo e alterar as evidências. Pessoalmente, posso acrescentar que minha desconfiança de que Duff estaria associado aos Norse Riders cresceu durante a batida policial no terminal de contêineres. Tanto a Unidade de Narcóticos quanto nós, do GOE, recebemos uma denúncia tão clara que Duff não poderia ignorá-la sem levantar suspeitas de que estava protegendo os caras. Duff, astutamente, concebeu um ataque fadado ao fracasso, com oficiais inexperientes e em número insuficiente da própria unidade, sem buscar a colaboração do GOE, que é o procedimento padrão em tais casos. Por sorte, o ataque chamou nossa atenção e o GOE atuou de forma independente, e acho que posso dizer, sem querer contar vantagem, que esse foi o começo da derrocada dos Norse Riders e do Duff. Os Norse Riders e o inspetor Duff cavaram as próprias sepulturas ao se vingarem por terem perdido as drogas e pela morte de cinco integrantes matando primeiro Duncan e, depois, Banquo e o filho dele. E essa será, aliás, a última vez que vou mencionar a patente do Duff, que, em nossa força policial, é considerada uma honra independentemente de ser a mais alta ou a mais baixa.

Macbeth se surpreendeu ao notar que o tom de leve indignação em sua voz era mesmo sincero, totalmente verdadeiro.

— Você está realmente dizendo, Macbeth...

— Levante a mão antes de... — começou Lennox, mas Macbeth ergueu as palmas das mãos, interrompendo-o, e acenou para que Kite continuasse.

Estava pronto para confrontar aquele filho da puta irritante e desaforado.

— Macbeth, você está realmente dizendo que nem você nem a polícia podem ser criticados por nada durante essas operações? Em uma única tarde, vocês mataram sete pessoas que tinham acabado de tirar da prisão uma hora antes, mais nove outros integrantes da gangue, a maioria sem antecedentes criminais, e seis mulheres que, até onde pudemos averiguar, não tinham nenhum envolvimento com os crimes praticados pelos Norse Riders. E depois você diz pra gente que também tem uma família morta em Fife, e evidentemente essas pessoas são vítimas inocentes. E você ainda acha que não cometeu um único erro sequer?

Macbeth observou Kite. O locutor de rádio tinha cabelos escuros ao redor de uma calvície, e um bigode que desenhava uma expressão de tristeza ao redor da boca. Sempre más notícias. Macbeth indagou a si mesmo o que o destino planejava para uma pessoa assim. Remexeu em sua papelada e encontrou o texto que havia redigido, ao qual Lady e, mais tarde, Lennox acrescentaram detalhes. Respirou fundo. Sabia que estava em perfeito equilíbrio mental. Sabia que sua medicação era perfeita. Sabia que recebera a dosagem perfeita.

— Ele tem razão — disse Macbeth, passando o olhar pela plateia. — Nós cometemos erros.

Ele esperou até que tudo se tornasse ainda mais silencioso que o silêncio, até o silêncio se tornar insuportável, até que fosse impossível respirar, até que o silêncio exigisse som. Olhou novamente para a folha com seu discurso. Tinha de transformá-lo em algo vivo, fazer com que parecesse que não estava apenas lendo o texto à sua frente.

— Em uma democracia — começou —, há regras que determinam quando suspeitos devem ser liberados da prisão. Nós às obedecemos. — Ele assentiu como se dissesse amém à própria declaração. — Em uma democracia, há regras que estabelecem que a polícia pode e deve prender suspeitos quando surgem novas provas. Nós às obedecemos. — Assentiu com a cabeça repetidamente. — Em uma democracia, existem regras que preveem como a polícia deve reagir se os suspeitos resistirem à prisão e se, como nesse caso, atirarem contra a polícia. E nós às obedecemos. — Ele podia, é claro, ter continuado assim, mas três repetições de “Nós às obedecemos” era suficiente. Ergueu o indicador. — E foi tudo o que fizemos. Alguns já qualificaram o que fizemos como heroico. Outros já qualificaram como a operação policial mais eficaz e ansiosamente aguardada da sofrida história dessa cidade. E alguns chamaram de ponto de virada na luta contra o crime nas nossas ruas. — Ele viu como seu repetitivo assentir com a cabeça havia contagiado a plateia e chegou a ouvir alguns murmúrios de sim . — Mas, como comissário-chefe, vejo que estávamos apenas cumprindo nossa obrigação. Nada além do que se pode exigir de nós como oficiais da polícia.

No balcão vazio, ele viu que Lennox estava pronto para a projeção de slides, enquanto acompanhava o discurso em sua via do texto.

— Mas devo admitir que — continuou Macbeth —, essa noite, me sinto bem em dizer oficiais da polícia com o maior orgulho. E agora, meus amigos, vamos colocar as formalidades de lado por um momento: o fato é que fizemos uma grande faxina hoje. Pagamos na mesma moeda o que Sweno e seus assassinos fizeram com a gente. Mostramos pra eles a reação que os aguarda se nos tirarem nossos melhores homens...

Macbeth notou a luz mais forte ao redor de si e entendeu que a foto de Duncan tinha aparecido na tela; em breve mudaria para a de Banquo e Fleance fardados, sob a macieira do jardim atrás da casa deles.

— Mas, sim, cometemos erros. Cometemos um erro ao não iniciar essa faxina antes! Antes que fosse tarde demais pro comissário-chefe Duncan. Antes que fosse tarde demais pro inspetor Banquo, que serviu a essa cidade por toda a vida. E seu filho, o cadete da polícia Fleance, que estava ansioso pra seguir os passos do pai — Macbeth teve que respirar fundo algumas vezes para controlar o tremor na voz —, mas nessa tarde mostramos que esse é um novo dia. Um novo dia em que os criminosos não estão mais no comando. Um novo dia em que os cidadãos dessa cidade se ergueram e disseram não. Não, não vamos permitir isso. E essa é a tarde do primeiro desses novos dias. E nos próximos dias vamos continuar limpando as ruas dessa cidade, porque a grande faxina ainda não acabou.

Quando terminou e agradeceu, Macbeth continuou em pé diante de uma enxurrada de aplausos que eclodiu enquanto cadeiras eram arrastadas e as pessoas se levantavam. A aclamação continuou com vigor inabalável. E sentiu seus olhos se turvarem à sincera reação dos céticos jornalistas a suas mentiras. E, quando Kite também se levantou e bateu palmas, embora com não tanto fervor, Macbeth se perguntou se o fazia apenas porque o cara não era bobo de se meter com ele. Porque percebia que agora Macbeth havia conquistado o amor deles. Conquistado o poder. E podia ver e ouvir que o novo comissário-chefe não tinha medo de usá-lo.

Macbeth disparou pelo corredor atrás do Scone Hall.

Power. Sentia em suas veias; a sensação de harmonia ainda estava lá. Não tão perfeita quanto pouco antes — o desconforto e a inquietação não demorariam a voltar —, porém tinha mais que o suficiente do medicamento por enquanto. E iria apenas aproveitar a noite. Apreciar a comida e a bebida, a companhia de Lady, apreciar a vista da cidade, tirar proveito de tudo que era seu.

— Belo discurso, senhor — elogiou Seyton, que parecia não ter dificuldade em acompanhar seu ritmo.

Lennox correu para alcançá-lo.

— Fantástico, Macbeth! — exclamou, ofegante. — Alguns jornalistas de Capitol gostariam de entrevistar você e...

— Obrigado, mas não — cortou-o Macbeth, sem diminuir o passo. — Sem entrevistas sobre nossas vitórias, sem honrarias até que a gente tenha alcançado nosso objetivo. Alguma novidade sobre o Duff?

— O carro dele foi localizado na cidade, estacionado ao lado do Obelisco. Estradas, o aeroporto, embarcações de passageiros: tudo está sendo vigiado desde meia hora depois que o vimos saindo de Fife em direção à cidade, então sabemos que ele está em algum lugar por aqui. Verificamos a casa do Banquo, a casa dos sogros do Duff, mas não há sinal dele. Mas, com esse clima, ele vai ter que encontrar um canto pra passar a noite, então vamos vasculhar hotéis, pensões, bares e bordéis com pente fino. Todos, absolutamente todos, estão à caça do Duff hoje à noite.

— Caçar é bom, mas capturar é bem melhor.

— Ah, vamos pegar esse cara. É só uma questão de tempo.

— Que bom. Agora pode deixar a gente a sós por um minuto?

— Ok.

Lennox parou, e logo os dois tinham se afastado bastante dele.

— Algo incomodando você, Seyton? O ferimento?

— Não, senhor.

Seyton tirou o braço da tipoia.

— Tem certeza? O sargento atirou no seu braço, não foi?

— Tenho uma excelente cicatrização — disse Seyton. — Vem de família.

— É mesmo?

— Boa capacidade de regeneração, sabe?

— Família. Algo mais chateando você, então?

— Duas coisas.

— Fala.

— O bebê que encontramos e retiramos da sede do clube depois do tiroteio...

— O que tem ele?

— Não sei o que fazer com ele. Está até agora trancado na minha sala.

— Deixa comigo — disse Macbeth. — E a outra coisa?

— Angus, senhor.

— O que tem ele?

— Ele não obedeceu às ordens em Fife. Se recusou a atirar e foi embora antes da operação terminar. Chamou de chacina o que fizemos. E disse que não entrou pro GOE pra participar desse tipo de coisa. Acho que há risco do Angus dar com a língua nos dentes. Precisamos fazer alguma coisa.

Eles pararam diante do elevador.

Macbeth cofiou o queixo.

— Então você acha que o Angus perdeu a fé? Se for isso, não terá sido a primeira vez. Ele te contou que estudou teologia?

— Não, mas isso é bem a cara dele. E ele anda por aí com a porra de uma correntinha com uma cruz horrorosa no pescoço.

— Você é quem está no comando do GOE agora, Seyton. O que acha que deve ser feito?

— Temos que nos livrar dele, chefe.

— Matar?

— O senhor mesmo disse que estamos em guerra. Na guerra, traidores e covardes são punidos com a morte. Vamos fazer o mesmo que fizemos com o Duff: espalhar que ele é corrupto e fazer parecer que resistiu à prisão.

— Preciso de um tempo pra pensar. No momento, estamos no centro das atenções e precisamos demonstrar lealdade e unidade. Cawdor, Malcolm, Duff e, agora, Angus. São muitos. A cidade gosta mais de criminosos mortos do que de policiais desonestos. Onde ele está?

— No porão, sozinho e deprimido. Não quer falar com ninguém.

— Ok. Vou ter uma conversinha com ele antes de tomarmos uma decisão final.

Macbeth foi encontrar Angus na sala do GOE. Estava sentado com a cabeça baixa, apoiada nas mãos, e mal reagiu quando Macbeth colocou uma grande caixa de sapatos em cima da mesa e se sentou bem diante dele.

— Eu soube o que aconteceu. Como você está?

Nenhuma resposta.

— Você é um rapaz de princípios morais, Angus. Esse é um dos motivos pra eu gostar de você. Princípios são importantes pra você, não são?

Angus levantou a cabeça e fitou Macbeth com olhos vermelhos.

— Posso ver isso ardendo nos seus olhos agora mesmo — disse Macbeth. — Justa indignação. Isso aquece seu coração, não é? Faz você sentir que é a pessoa que deseja ser. Mas, quando a irmandade exige um sacrifício verdadeiro, às vezes é exatamente o que queremos, Angus. Seus princípios. Que você abra mão da atmosfera acolhedora de uma consciência tranquila, que seja despertado pelos mesmos pesadelos que nos despertam, que desista do que é mais valioso pra você, assim como seu antigo Deus exigiu que Abraão abrisse mão do próprio filho.

Angus pigarreou, mas sua voz continuava rouca.

— Posso fazer isso. Mas em nome do quê?

— Em nome dos objetivos de longo prazo. Do bem da comunidade. Em nome da cidade, Angus.

Angus deu uma fungada.

— Pode me explicar como matar inocentes seria bom pra comunidade?

— Vinte e cinco anos atrás, um presidente americano jogou a bomba atômica em duas cidades japonesas povoadas por crianças, civis e inocentes. Isso acabou com uma guerra. Esse é o tipo de paradoxo com que Deus nos atormenta.

— É fácil falar. Você não estava lá.

— Sei quais são os custos, Angus. Recentemente cortei a garganta de um inocente pelo bem da comunidade. Não durmo bem à noite. A dúvida, a vergonha, o sentimento de culpa são parte do preço que temos que pagar se realmente quisermos fazer algo bom e não apenas nos deliciarmos com o clima acolhedor e seguro da autorretidão.

— Deus não existe, e eu não sou um presidente.

— Verdade — admitiu Macbeth, abrindo a caixa de sapatos. — Mas como sou ambos nesse prédio, vou te dar uma chance para expiar o erro que cometeu em Fife.

Angus olhou dentro da caixa. E deu um salto para trás, tamanho o choque.

— Pegue isso e queime no forno da Estex hoje à noite.

Angus engoliu em seco, lívido como a morte.

— Esse é o b-b-bebê da sede...

— Soldados da linha de frente, como você e eu, sabem que vidas inocentes serão sacrificadas em uma guerra, mas os que estão em suas casas, aqueles pelos quais lutamos, não sabem disso. É por isso que mantemos essas coisas escondidas deles, pra que não fiquem histéricos. Você fica histérico, Angus?

— Eu, eu...

— Escuta. Estou depositando minha confiança em você ao te dar essa tarefa. Você pode ir à Estex ou pode usar isso pra denunciar seus irmãos aqui do GOE. Estou te dando a opção. Porque preciso saber se posso confiar em você.

Angus balançou a cabeça e deixou escapar um soluço.

— Você precisa fazer de mim um cúmplice pra saber que pode confiar em mim!

Foi a vez de Macbeth balançar a cabeça.

— Você já é um cúmplice. Só preciso saber se é forte o bastante pra suportar a culpa sem que aqueles que estão em casa descubram o preço que pagamos pra defendê-los. Só então eu vou saber se você é um homem de verdade, Angus.

— Você faz parecer que nós, e não a criança, somos as vítimas. Não posso! Prefiro levar um tiro.

Macbeth olhou para Angus. Não sentia nenhuma raiva. Talvez porque gostasse dele. Talvez porque soubesse que ele não podia lhes fazer mal. Mas, principalmente, porque sentia pena dele. Macbeth tornou a tampar a caixa e se levantou.

— Espera — disse Angus. — C-como você vai me punir?

— Ah, você vai punir a si mesmo — disse Macbeth. — Leia o que diz nossa bandeira. Não é o grito da criança que você vai ouvir quando acordar molhado de suor depois de um pesadelo, mas as palavras: Lealdade, fraternidade, batizado em fogo, unidos em sangue.

Ele pegou a caixa de sapatos e saiu.

Ainda faltava mais de uma hora para a meia-noite quando Macbeth entrou em sua suíte.

Lady estava de pé à janela, as costas voltadas para ele. Uma única vela iluminava o cômodo, e ela estava de camisola. Ele colocou a caixa em cima da mesa sob o espelho, foi até ela e beijou seu pescoço.

— A luz caiu quando cheguei — comentou ele. — Jack está verificando a caixa de fusíveis. Espero que nenhum cliente esteja aproveitando a oportunidade pra roubar e fugir.

— Mais da metade da cidade está sem luz — disse ela, inclinando-se para trás e descansando a cabeça no ombro dele. — Estou vendo daqui da janela. O que tem nessa caixa de sapatos?

— O que costuma ter numa caixa de sapatos?

— Você estava carregando isso como se fosse uma bomba.

Naquele instante, um relâmpago cortou o céu como um longo veio branco cintilante, e eles tiveram um vislumbre da cidade. Então tudo voltou a ficar escuro, e ouviu-se o trovão.

— Não é lindo? — perguntou ele, inalando o perfume do cabelo dela.

— O quê?

— A cidade. E vai ficar ainda mais bonita quando Duff não estiver nela.

— Mas vai continuar tendo um prefeito que a torna feia. Você não vai me dizer o que tem nessa caixa? — A voz dela estava meio grossa, como se tivesse acabado de acordar.

— É só uma coisa que tenho que queimar. Vou pedir pro Jack levar pros fornos na Estex amanhã.

— Eu também quero ser queimada, querido.

Macbeth levou um susto. O que ela tinha dito? Estaria dormindo? Mas sonâmbulos não conseguiam manter uma conversa, não é?

— Então você ainda não achou o Duff?

— Ainda não, mas estamos procurando em todos os lugares.

— Coitado. Perdeu os filhos. Agora está sozinho.

— Ele está tendo ajuda de alguém. Senão já o teríamos encontrado. Não confio no Lennox.

— Porque você sabe que ele é escravo do Hécate e da brew?

— Porque Lennox é um fraco basicamente. Ele pode estar ficando de coração mole... pode querer me trair, como aconteceu com o Banquo. Talvez esteja protegendo o Duff. Eu devia prendê-lo. Seyton me disse que, na época do Kenneth, eles davam choques elétricos na virilha dos prisioneiros se não abrissem a boca. E mais outro para fazê-los calar a boca.

— Não.

— Não?

— Não. Prender um dos seus chefes de unidade agora daria uma péssima impressão. Por enquanto, todos compreendem que você apanhou duas maçãs podres: Duff e Malcolm. Três faria parecer um expurgo. E expurgos levantam suspeitas não apenas sobre os que não são expurgados, como também sobre o líder, e não queremos dar ao Tourtell nenhum motivo pra hesitar em nomear você. Quanto aos choques, no momento estamos sem eletricidade nessa parte da cidade.

— Então o que eu faço?

— Vai acordar o eletricista e pedir pra ele resolver o problema.

— Você está difícil essa noite, meu amor. Justamente quando deveria estar mais próxima de mim, me saudando como herói.

— E você a mim como heroína, Macbeth. Já procurou no apartamento da Caithness?

— Caithness? O que leva você a pensar que ela esteja envolvida nisso?

— Na noite daquele fatídico jantar, o Duff falou que ia dormir na casa de um primo.

— Sim, ele comentou isso.

— E você não ficou surpreso que um garoto que saiu de um orfanato tivesse um tio na cidade?

— Nem todos os tios podem assumir os... — Então ele começou a entender. — Está querendo dizer que o Duff e a Caithness...?

— Meu querido herói Macbeth, você é e sempre será um ingênuo sem o tino de uma mulher pra reconhecer a troca de olhares entre duas pessoas que estão tendo um caso.

Macbeth arregalou os olhos na escuridão. Então abraçou Lady, fechou os olhos e a puxou para si. Como teria sobrevivido sem ela?

— Só quando nós dois estamos na frente do espelho — sussurrou no ouvido dela. — Obrigado, querida. Vai dormir agora. Vou mandar o Lennox ir agora mesmo à casa da Caithness.

— Voltou — disse ela.

— O que foi que voltou?

— A eletricidade. Olha. Nossa cidade está iluminada de novo.

Macbeth abriu os olhos e viu o rosto iluminado de Lady. Depois, olhou para os próprios corpos, que exibiam um brilho avermelhado, tingidos pelas luzes neon do anúncio da Bacardi no prédio do outro lado da rua Thrift.

— Lennox? — Caithness estava com tanto frio que seus dentes tiritavam quando parou, de braços cruzados, à porta de seu apartamento. — Oficial Seyton?

— Inspetor Seyton — corrigiu o homem magrela, empurrando-a para o lado para entrar.

— O que está acontecendo? — perguntou Caithness.

— Sinto muito, Caithness — falou Lennox. — São ordens. O Duff está aqui?

— Duff? Por que diabos ele estaria aqui?

— E por que diabos você diria que sim? — rebateu Seyton, direcionando os quatro policiais armados em uniformes do GOE para cada um dos quatro cômodos do apartamento. — Se ele estiver aqui, é porque você o está escondendo. Você sabe muito bem que ele é um homem procurado pela polícia.

— Fique à vontade — disse ela.

— Muito obrigado pela sua permissão — debochou Seyton.

Ele a observou de um jeito que a fez desejar estar vestindo algo além da camisola fina. Então ele sorriu. Caithness estremeceu. Os lábios dele se abriram em um arco sob os olhos levemente oblíquos: parecia uma cobra.

— Está tentando atrasar a gente? — questionou ele.

— Atrasar vocês? — perguntou Caithness, torcendo para que ele não percebesse o medo em sua voz.

— Senhor? — Era um de seus homens. — Tem uma porta pra escada de incêndio aqui.

— Ah, é mesmo? — entoou Seyton, em tom monótono, sem desviar os olhos de Caithness. — Interessante. Então, quando tocamos o interfone lá na rua, você deixou o gato escapar pelos fundos, foi isso?

— Claro que não.

— Naturalmente, você sabe qual é a penalidade se mentir pra polícia, e também se esconder um criminoso, certo?

— Não estou mentindo, oficial Seyton.

— Inspe... — Ele fez uma pausa e recuperou o sorriso. — Você está lidando com o GOE, Srta. Caithness. Conhecemos muito bem o nosso trabalho. Que inclui examinar as plantas dos prédios antes de entrarmos. — Ele levou o rádio comunicador à boca. — Alfa pra Charlie. Algum sinal do Duff pela porta pra escada de incêndio? Desligo.

A breve sibilância quando ele apertou o botão do aparelho fez com que Caithness se lembrasse de ondas batendo na areia de uma praia em algum lugar distante.

— Ainda não, Alpha. — Veio a resposta. — As condições pra uma captura controlada são boas aqui. Mesmo assim o senhor confirma que o alvo deve ser baleado de imediato? Desligo.

Caithness viu os olhos e a voz de Seyton endurecerem.

— Duff é perigoso. A ordem vem diretamente do comissário-chefe e deve ser seguida à risca.

— Entendido. Desligo.

Os quatro homens voltaram à sala.

— Ele não está aqui, senhor.

— Nada?

— Encontrei isso no chão do quarto, perto da porta pra escada de incêndio. — Um dos homens segurava uma raquete de tênis e joias.

Seyton pegou a raquete e se inclinou sobre a mão do homem, avaliando as joias. Para Caithness, parecia que ele as estava cheirando. Então Seyton se voltou para ela segurando o punho da raquete de forma obscena.

— Uma raquete enorme pra uma mãozinha como a sua, Srta. Caithness. E você tem a mania de atirar seus brincos no chão?

Caithness se endireitou. Respirou fundo.

— Acho que é um hábito comum, oficial. Jogar pérolas aos porcos. Mas com o tempo aprendemos, assim espero. Se vocês já terminaram a busca e o gato nas escadas foi morto, eu gostaria de voltar a dormir. Boa noite, senhores.

Ela viu os olhos de Seyton ficarem sombrios e sua boca se abrir, mas ele engoliu a língua quando Lennox colocou a mão em seu ombro.

— Pedimos desculpas pelo transtorno, Caithness. Mas, como nossa colega, você certamente compreende que todas as pedras devem ser reviradas nesse caso.

Lennox e os demais se dirigiram à porta, mas Seyton permaneceu onde estava.

— Mesmo que nem sempre a gente goste da sujeira que achamos debaixo delas — acrescentou. — Quer dizer que ele não te deu uma aliança, foi isso?

— O que você quer, Seyton?

O repulsivo sorriso estava de volta.

— Sim, o que queremos?

Então ele se virou e foi embora.

Ela fechou a porta e encostou nela. Onde Duff estava? Onde ele tinha se metido? E o que ela desejava para ele? O inferno em que ele deveria estar ou a redenção que não merecia?

Lennox encarava a chuva que batia no para-brisa. A luz refratada fazia os sinais de trânsito vermelhos ficarem borrados e distorcidos. Ó, Deus, como ele ansiava para que aquelas horas, aquele turno, aquela noite terminassem logo de uma vez. Ó Deus, como ansiava por relaxar em sua sala de estar, tomar uma dose de uísque e injetar um pouco de brew. Não era viciado. Não a ponto de isso ser um problema, quer dizer. Era um usuário, e fazia bom uso da substância; era ele quem estava no controle, não a droga. Um dos poucos sortudos capazes de usá-la e ainda exercer seu trabalho estressante, além de seus papéis como pai e marido. A verdade era que a droga o ajudava a se manter em funcionamento. Sem as pausas durante o trabalho, ele não sabia se teria conseguido. Avaliar as consequências de seus atos, prestar atenção a cada detalhe... fazer concessões quando necessário, engolir sapo com um sorriso, não criar problema, compreender quem estava no comando, ser maleável. Mas um dia provavelmente seria sua vez de assumir o comando. E, se esse dia nunca chegasse, havia outras coisas mais importantes. Sua família — para quem trabalhava, para que ele e Sheila pudessem ter uma casa espaçosa em um bairro seguro da zona oeste, mandar os três filhos incríveis para uma boa escola que ensinasse bons princípios, tirar as merecidas férias no Mediterrâneo uma vez ao ano, pagar o plano de saúde, o dentista e todas essas coisas. Ó Deus, como amava sua família! Às vezes abaixava o jornal e só ficava olhando para eles, sentados na sala, todos ocupados, e pensava: Esse é um presente que eu nunca pensei que teria a sorte de receber. O amor dos outros. Logo ele. Aquele que, chamado pelo apelido de Albert Albino na escola, era espancado em todos os recreios, até conseguir um atestado médico afirmando que ele tinha intolerância ao sol e deveria permanecer na sala de aula sozinho durante os intervalos. Branquelo, baixo e frágil. Sim, ele podia ser tudo isso, porém era bom de papo. Foi assim que conquistou Sheila — falava com o volume e a desenvoltura suficientes para os dois. E mais ainda quando experimentara cocaína pela primeira vez. A coca fizera dele uma versão melhor de si mesmo: enérgico, obstinado e destemido. Pelo menos por um tempo. Mais tarde, converteu-se em uma necessidade, para que não se tornasse uma versão pior de si. Então trocou de droga, na esperança de que houvesse uma alternativa diferente daquela rua sem saída. Máximo de uma dose por dia. Não mais que isso. Havia quem precisasse de cinco. Os disfuncionais. Ele estava longe disso. Seu pai estava enganado, ele tinha espinha dorsal. Exercia o controle.

— Tudo sob controle?

Lennox se assustou.

— Hã?

— Sua lista — falou Seyton, no banco de trás. — O que está faltando?

Lennox bocejou.

— A central. É a última parada.

— A central de polícia é enorme.

— Sim, mas, de acordo com o zelador, o Duff tem as chaves de apenas três locais lá dentro. A da Narcóticos e a da Homicídios.

— E a terceira?

— A garagem da Perícia. Mas duvido que ele fosse querer pegar pneumonia no porão, se pode se esconder debaixo de uma mesa num escritório quente e seco.

O rádio da polícia fez uns estalos, e uma voz nasalada informou que todos os quartos do Obelisco, inclusive a suíte da cobertura, tinham sido revistados sem sucesso.

O zelador esperava por eles com um molho de chaves, em frente à entrada de funcionários. Lennox, Seyton e oito policiais levaram menos de vinte minutos para vasculhar as salas da Narcóticos. E menos ainda para esquadrinhar as da Homicídios. E procuraram até dentro das placas do teto e nos túneis do sistema de ventilação.

— É isso aí. — Lennox bocejou. — É isso, pessoal. Tirem algumas horas de sono. Amanhã a gente continua.

— A garagem — lembrou Seyton.

— Como eu disse...

— A garagem.

Lennox deu de ombros.

— Tem razão. Não vai demorar. Rapazes, vão para casa enquanto Seyton, Olafson e eu vamos verificar na garagem.

Os três pegaram o elevador até o porão na companhia do zelador, que abriu a porta para eles e acendeu as luzes. No silêncio que se seguiu, enquanto a energia trabalhava para fazer os fosfatos nos tubos de neon se acenderem, Lennox ouviu um ruído.

— Você ouviu isso? — sussurrou ele.

— Não — respondeu o zelador. — Mas devem ser os ratos, se for alguma coisa.

Lennox tinha lá suas dúvidas. Não fora um som percussivo nem uma correria, mas um rangido. Como de sapatos.

— Uma praga. — O zelador suspirou. — Não consigo me livrar deles. Aqui embaixo nunca consegui.

Na grande área livre do porão havia somente um carrinho repleto de equipamentos e o Volvo de Banquo, coberto com uma lona, perto da porta da garagem. Ao longo da parede havia cinco portas fechadas.

— Se quiser se livrar dos ratos — disse Seyton, soltando a trave de segurança da metralhadora —, é só falar comigo. Olafson, vamos começar pela esquerda.

Lennox ficou observando o policial calvo se mover rápida e agilmente pelo local, com Olafson em seus calcanhares. Checaram as portas uma por uma, como se numa dança coreografada e ensaiada à exaustão. Seyton abria, Olafson entrava com a arma no ombro, agachava-se, enquanto Seyton entrava e tomava a dianteira. Lennox contava os minutos. Estava ficando tarde para sua dose, já sentia. Ufa, era o último cômodo, finalmente. Seyton girou a maçaneta.

— Trancada! — gritou.

— Ah, sim, o laboratório fotográfico sempre fica trancado — explicou o zelador. — As fotos são consideradas evidências. Mas o Duff não tem uma chave dessa sala. Pelo menos não que eu tenha dado a ele.

— Vamos então — falou Lennox.

Seyton e Olafson voltaram com os canos curtos das metralhadoras apontados para baixo, enquanto o zelador mantinha a porta aberta.

Finalmente.

Seyton estendeu a mão.

— A chave.

— Quê?

— Do laboratório fotográfico.

O zelador hesitou e olhou de relance para Lennox, que assentiu com um suspiro. O zelador tirou uma chave do molho e a entregou a Seyton.

— O que ele está fazendo? — perguntou o zelador, enquanto ele e Lennox observavam Seyton e Olafson passarem pelo Volvo rumo ao laboratório.

— O trabalho dele — rosnou Lennox.

— Quero dizer com o nariz. Parece que está farejando, como um animal.

Lennox assentiu. Pensando que ele não era o único a perceber que Seyton poderia assumir a forma de um... sabe-se lá o quê. Algo não humano.

Seyton sentia o cheiro dele agora. Aquele cheiro. O mesmo que sentira na casa em Fife e no apartamento de Caithness. Ou ele estava ali ou tinha estado pouco tempo antes. Abriu a porta. Olafson entrou e se pôs de joelhos. Quando o zelador acionou o interruptor na porta da frente, todas as luzes da garagem e das salas laterais também se acenderam, mas o laboratório permanecia no escuro. Claro. Era uma câmara escura.

Seyton entrou. O fedor de produtos químicos abafou o cheiro da presa, de Duff. Encontrou o interruptor interno e o girou, mas nenhuma lâmpada se acendeu. Talvez o fusível tivesse queimado após a queda de energia. Ou alguém houvesse removido a lâmpada. Seyton acendeu a lanterna. A parede acima da mesa estava coberta de fotos grandes penduradas em um fio. Seyton as iluminou. Eram de um punhal com a lâmina e o cabo sujos de sangue. Duff havia estado ali. Seyton tinha certeza disso.

— Ei! O que está acontecendo?

Era Lennox. O merdinha albino queria ir para casa. Estava suando e bocejando. Que velha chata.

— Já vou! — gritou Seyton, desligando a lanterna. — Vamos, Olafson.

Seyton deixou Olafson passar, mas fechou a porta e ficou lá dentro na escuridão. Atento a quaisquer sons. Até que Duff achasse que tivessem ido embora e acabasse se revelando. Seyton apontou a arma para as fotos. Apertou o gatilho. A arma sacudiu em suas mãos, o som reverberou em seus tímpanos. Desenhou uma cruz com a saraivada de tiros. Então acendeu a lanterna de novo, aproximou-se das fotos perfuradas e as arrastou para o lado.

Encarou os buracos de bala na parede atrás.

Nada de Duff.

As explosões ainda repercutiam em seus ouvidos. Ele notou que um dos buracos era mais fundo: duas balas atingindo o mesmo ponto. Uma casualidade.

É claro.

Saiu do laboratório e voltou para perto dos outros.

— O que foi isso? — perguntou Lennox.

— Não gostei das fotos — respondeu Seyton. — Esquecemos de procurar num lugar.

— Ah, é — gemeu Lennox. — Nas nossas camas.

— Duff pensa exatamente como se pensava durante os ataques a bomba, na guerra. Ele se esconde em crateras de bombas porque acredita que elas não caem mais de uma vez no mesmo lugar.

— O que é que...?

— Ele voltou pra casa. Vamos!

O rato saiu em disparada de seu esconderijo depois que a luz da garagem se apagou, a porta bateu e os passos se distanciaram. Atravessou o piso úmido de tijolos até o carro. Havia sangue no banco do motorista, o que o atraiu. Doce, nutritivo e apodrecendo ali fazia dias. Só precisava passar pela lona estendida sobre o carro. Tinha quase conseguido, quando eles entraram. Mas agora terminara de roer o que faltava e pronto, estava dentro. Correu pelo piso do carro no lado do passageiro, passou pela alavanca de câmbio e pelo tapete de borracha no lado do motorista. Por cima de sapatos de couro. Recuou quando um deles se elevou. Frustrado, o rato se ergueu nas patas traseiras e sibilou. O delicioso assento ensanguentado do motorista estava ocupado.

Duff ouviu o rato que fugia. Então relaxou a tensão dos dedos que agarravam o volante. Percebeu que seu coração não estava mais martelando no peito, apenas batendo normalmente. Quando Seyton e seus homens estavam na garagem, seu coração esmurrava o peito tão forte que ele teve certeza de que tinham ouvido. Olhou no relógio: ainda faltavam cinco horas para o amanhecer. Tentou mudar de posição, mas os fundilhos da calça estavam colados ao assento. Ao sangue de Banquo. Ele o mantinha grudado no lugar. Mas Duff precisava sair dali. Seguir caminho.

Mas para onde? E como?

Quando fugira de Fife, achou que seria mais fácil dirigir até a cidade e desaparecer em meio à multidão, em vez de tentar escapar por uma estrada rural. Havia largado o carro em uma rua não muito longe do Obelisco e entrado no cassino, que era o único lugar, além do Inverness, que ficava aberto a noite toda. Não podia alugar um quarto, é claro; uma acomodação para pernoitar seria o primeiro lugar que Macbeth verificaria. Mas podia se sentar diante das inúmeras máquinas caça-níqueis, tão isolado e livre de perturbações quanto o vizinho ao lado, alimentando-a com moedas e aceitando de bom grado ser assaltado pouco a pouco. E foi isso mesmo o que fez enquanto pensava — tentava pensar, na verdade — em um plano de fuga, o olhar perdido nos símbolos das chances girando nas três minúsculas janelas. Um coração. Um punhal. Uma coroa. Depois de algumas horas, foi ao bar tomar uma cerveja para ver se melhorava seu humor e viu na televisão sem som na parede do bar a coletiva de imprensa na central de polícia. De repente, um rosto familiar com uma cicatriz branca em diagonal, tal qual uma placa de trânsito, surgiu na tela. Um close-up de seu rosto, com a tarja de PROCURADO. Saiu do cassino meio disfarçado, com a gola erguida e o queixo colado ao pescoço. Uma lufada de ar frio da noite deu uma clareada em sua mente, e ele se lembrou do antigo ninho de amor, a garagem da central, que lhe pareceu a melhor opção para passar a noite.

Mas logo seria sexta-feira, dia de trabalho, e ele teria de sair antes de os funcionários chegarem, e lá fora as bancas de jornal estariam ornamentadas com seu rosto.

Enfiou a mão no bolso da jaqueta. Seus dedos encontraram papel acetinado. Puxou o embrulho. Foi difícil controlar a emoção imaginando a expressão no rosto de Ewan ao ver que tinha ganhado o que queria. Duff ouviu os próprios soluços descontrolados. Pare! Não chore! Havia prometido a si mesmo que não pensaria neles por enquanto. O luto era um privilégio que só poderia se permitir mais tarde, caso sobrevivesse. Acendeu a luz interna do Volvo, secou as lágrimas, desembrulhou o presente, tirou a barba falsa, desenroscou a tampa da bisnaga de cola e, espremendo-a, espalhou a substância brilhante no queixo, ao redor dos lábios e no lado interno da barba. Com a ajuda do espelho retrovisor, grudou-a no rosto. Puxou o boné de lã apertado sobre a testa para que a parte superior da cicatriz ficasse escondida. Então botou os óculos, cuja armação pesadona e caricata cobria parte da cicatriz que cruzava a lateral do rosto, acima da barba. Viu que havia resquícios de cola na bochecha. Sem sucesso, procurou nos bolsos algo com que se limpar. Abriu, então, o porta-luvas e encontrou um caderno. E, quando já ia a arrancar uma folha, notou marcas no papel. Alguém havia escrito algo ali fazia pouco tempo. E daí? Arrancou a folha, limpou a cola do rosto. Amassou o papel até virar uma bolinha, que enfiou no bolso da jaqueta. Devolveu o caderno ao porta-luvas.

Muito bem.

Reclinou-se no assento. Fechou os olhos.

Cinco horas. Por que diabos havia colado a barba tão cedo? Já coçava. Sua mente voltou a trabalhar. Evitava a todo custo pensar em Fife. Precisava encontrar um lugar para se esconder na cidade. Todas as estradas estariam sendo monitoradas. E ele também não conhecia esconderijos fora da cidade nem em Fife, nem albergues ou hotéis que já não estivessem de sobreaviso, ninguém fora da cidade que estivesse disposto a esconder um assassino procurado pela polícia. Então caiu em si. Não conhecia ninguém que pudesse ajudá-lo. Nem ali, nem em nenhum outro lugar. Ele era o tipo de pessoa com quem os outros se davam; não necessariamente desgostavam dele. Só não gostavam. E por que haveriam de gostar? O que ele havia feito em prol dos outros que não fosse, também, em benefício próprio? Tinha conhecidos, mas não amigos. E justo agora, quando mais precisava de ajuda, de um amigo, de um ombro para chorar, Duff era um homem sem credibilidade, uma causa perdida. Examinou seu reflexo: patético, rígido e hirsuto. A raposa. O círculo de caçadores se fechava sobre ele. Macbeth, o novo chefe da matilha, Seyton latindo bem atrás. Tinha de fugir. Mas para onde? Onde uma raposa encontraria uma cova?

Cinco horas para amanhecer. Para a sexta-feira. Para o aniversário de Ewan...

Não! Não chore! Sobreviva! Um homem morto não pode se vingar.

Tinha de ficar acordado até clarear e, então, encontrar um lugar. Uma das fábricas desativadas, talvez. Não, já tinha rejeitado essa ideia. Macbeth sabia muito bem os lugares onde Duff tentaria se esconder. Merda! Agora ele andava em círculos, cruzando os próprios rastros, do jeito que as pessoas fazem quando estão perdidas.

Estava tão cansado, mas tinha de permanecer acordado até amanhecer. Ewan não chegara a completar dez anos. Merda! Tentou encontrar algo com que se distrair. Leu todos os instrumentos do painel à sua frente. Pegou a bolinha de papel no bolso, desamassou e alisou a folha. Tentou ler. Vasculhou o porta-luvas até encontrar um lápis. Manteve-o bem inclinado sobre o papel e sombreou as marcas. O que havia sido escrito na folha de cima, a que fora arrancada, destacou-se, branco no preto: Dolphin. Tannery, 66, Distrito 6. Alfie. Segurança.

Um endereço. Havia uma rua com esse nome na cidade, mas nenhum Distrito 6. E só havia outra cidade dividida em distritos. Capitol. Quando aquilo teria sido escrito? Ele não fazia ideia do tempo que duravam as marcas de um lápis. E como assim segurança?

Apagou a luz e fechou os olhos. Um breve cochilo, talvez?

Capitol. Sexta-feira. Tinha visto essa combinação em algum lugar não fazia muito tempo.

Duff ia resvalando em um sonho que correlacionava essas palavras, quando de repente acordou.

Tornou a acender a luz.