Macbeth
Parte Um
1
Acintilante gota de chuva caiu do céu cortando a escuridão, na direção das luzes tremeluzentes do porto. Uma rajada gélida do vento noroeste levou a gota por sobre o leito seco do rio que dividia a cidade ao comprido e sobre a linha férrea desativada que a dividia na diagonal. Os quadrantes da cidade eram numerados no sentido horário. Apenas números, não tinham nomes; pelo menos não que os habitantes lembrassem. E se alguém esbarrasse com algum daqueles moradores longe dali e lhe perguntasse de onde vinha, a pessoa provavelmente responderia que tampouco o nome da cidade lhe vinha à memória. A gota passou de cintilante a turva ao penetrar a fuligem e outros venenos que se estendiam sobre a cidade como uma névoa constante, apesar de as fábricas terem fechado uma a uma nos últimos anos. Apesar de os desempregados já não terem condições de acender o fogão. Apesar do vento volúvel, porém violento, e da chuva insistente que alguns afirmavam só ter começado a cair depois que a Segunda Guerra Mundial fora encerrada por duas bombas atômicas, um quarto de século atrás. Em outras palavras, mais ou menos à época em que Kenneth fora investido no cargo de chefe de polícia. De sua sala no último andar da central de polícia, o comissário-chefe Kenneth tinha então implantado um desgoverno que regeu com punhos de ferro por 25 anos, pouco importando quem se sentasse na cadeira de prefeito, o que ele fazia ou deixava de fazer e o que as autoridades diziam ou deixavam de dizer em Capitol, enquanto o segundo maior e outrora mais importante centro industrial do país afundava em um lamaçal de corrupção, falências, crime e caos. Seis meses atrás, o comissário-chefe Kenneth havia caído de uma cadeira em sua casa de veraneio. Três semanas depois, estava morto. O enterro foi custeado pela cidade — uma antiga decisão da câmara municipal, cuja aprovação fora, por acaso, engendrada pelo próprio Kenneth. Depois de um funeral digno de ditador, a câmara e a prefeitura designaram Duncan, um sujeito de testa larga, filho de bispo e chefe da Unidade de Crime Organizado em Capitol, como o novo comissário-chefe. E a esperança se reacendeu entre os moradores da cidade. Foi uma nomeação que pegou a todos de surpresa, porque Duncan não fazia parte da velha escola de agentes politicamente pragmáticos, e sim da nova geração, de policiais com formação administrativa, que apoiavam reformas, transparência, modernização e a luta contra a corrupção — ao contrário da maioria dos políticos locais, que tinha como meta enriquecer depressa.
E o anseio dos moradores — de que agora tinham um comissário-chefe justo, honesto e visionário, capaz de arrancar a cidade do atoleiro — só fez se expandir quando a velha guarda dos altos escalões foi substituída por oficiais escolhidos a dedo pelo próprio Duncan. Jovens idealistas e idôneos, que realmente desejavam tornar a cidade um lugar melhor para se viver.
O vento soprou a gota de chuva por sobre o Distrito 4 Oeste e, dali, para o ponto mais alto da cidade, a torre de rádio instalada na cobertura do prédio que abrigava o estúdio onde a voz solitária e moralmente indignada de Walt Kite expressava esse anseio, sem deixar nenhuma dúvida de que eles finalmente tinham um salvador. Quando Kenneth estava vivo, Kite fora a única pessoa a ter coragem de criticar abertamente o comissário-chefe e acusá-lo de alguns dos crimes que cometera. Naquela noite, Kite informou que a câmara faria o possível para anular os poderes que Kenneth havia obtido pela força, fazendo do chefe de polícia a verdadeira autoridade da cidade. Paradoxalmente, isso significaria que seu sucessor, Duncan, o bom democrata, encontraria dificuldades para emplacar as reformas que ele, corretamente, pretendia fazer. Kite acrescentou que, na iminente eleição para prefeito, seria “Tourtell, o atual ocupante da cadeira e, portanto, o prefeito mais gordo do país, numa corrida eleitoral contra ninguém. Absolutamente ninguém. Pois quem poderia competir com o torto Tourtell, com seu enviesado verniz de popular jovialidade e imaculada moralidade, no qual todas as críticas ricocheteavam sem nunca atingir o alvo?”
No Distrito 4 Leste, a gota de chuva passou por cima do Obelisco, um hotel-cassino de vinte andares com fachada de vidro, que se destacava como um dedo indicador luminoso entre os deploráveis prédios pardacentos de quatro andares que compunham o restante da cidade. Não eram poucos os que viam a contradição de a cidade contar com um número cada vez menor de fábricas e um consequente desemprego cada vez maior, e ser mais e mais popular entre os moradores o hábito de apostar um dinheiro que não tinham nos dois cassinos locais.
— A cidade que parou de dar e começou a tomar — bradava Kite pelas ondas do rádio. — Primeiro, abandonamos a indústria, depois a ferrovia, para que ninguém pudesse ir embora. Aí então começamos a vender drogas para nossos cidadãos, tendo como ponto de venda o local onde antes eles compravam passagens de trem, pois assim podemos roubá-los à vontade. Nunca imaginei que chegaria a ponto de dizer que sinto saudades dos gananciosos donos das indústrias, pois ao menos eles eram de ramos respeitáveis. Mas não se pode dizer o mesmo dos outros três negócios com os quais ainda se pode enriquecer por aqui: jogo, drogas e política.
No Distrito 3, o vento carregado de chuva se derramou sobre a central de polícia, sobre o cassino Inverness e pelas ruas onde o temporal varrera a maioria das pessoas para dentro de casa, embora alguns ainda perambulassem apressados, em alguma busca ou fuga; e sobre a Estação Central, já sem chegadas nem partidas, mas povoada de fantasmas e desabrigados. Os fantasmas daqueles que — e também seus sucessores —, tempos antes, haviam erguido a cidade com autoconfiança, trabalho honesto, fé em Deus e tecnologia. Os desabrigados no mercado de drogas aberto dia e noite — um bilhete de viagem ao paraíso, com destino certo ao inferno. No Distrito 2, o vento assobiava pelas chaminés das duas maiores, porém recém-fechadas, fábricas: a Graven e a Estex. Ambas fabricavam ligas metálicas cuja composição nem os operadores dos fornos saberiam informar ao certo, a única certeza era que os coreanos tinham começado a produzir a mesma liga por um preço inferior. Talvez fosse o clima da cidade que tornasse visível a degradação, ou talvez a imaginação; talvez fosse apenas a falência e a ruína palpáveis que mantivessem de pé as silenciosas fábricas mortas, descritas por Kite como “catedrais do capitalismo saqueadas, numa cidade de evasão e ceticismo”.
A chuva rumou para o sudeste, molhando as ruas com postes de luz vandalizados, onde assaltantes à espreita se espremiam contra as paredes, protegendo-se do interminável aguaceiro que despencava do céu, enquanto suas potenciais vítimas corriam para uma área iluminada e mais segura. Em uma entrevista recente, Kite perguntara ao comissário-chefe Duncan por que o risco de ser roubado era seis vezes maior na nossa cidade do que em Capitol, e Duncan respondera estar satisfeito por finalmente ter uma pergunta fácil de responder: porque o desemprego era seis vezes maior e o número de usuários de drogas, dez vezes maior.
Na área do porto, havia contêineres cobertos de pichações e cargueiros dilapidados com capitães que haviam se encontrado com as corruptas autoridades portuárias em locais ermos para lhes entregar subornos, garantindo assim autorizações de entrada menos morosas e locais de atracação. As empresas de navegação registrariam as verbas como despesas diversas, jurando por tudo que é mais sagrado nunca mais aceitar fretes que os levassem a essa cidade.
Um desses cargueiros era o MS Leningrado, um navio soviético que soltava tanta ferrugem do casco sob a chuva que parecia estar sangrando no porto.
A gota de chuva caiu em um cone de luz projetado por uma lâmpada na altura do telhado de uma construção de madeira de dois andares que contava com um almoxarifado, um escritório e um clube de boxe fechado, e seguiu descendo entre a parede e uma carcaça enferrujada até aterrissar em um chifre de touro. Escorregou pelo chifre até o capacete de motocicleta pendurado nele, e daí para as costas de uma jaqueta de couro bordada com os dizeres NORSE RIDERS em letras góticas. Depois para o assento de uma moto vermelha Indian Chief e, finalmente, pela parte central da roda traseira que girava devagar, de onde foi expelida e deixou de ser uma gota, integrando-se à água poluída da cidade, de tudo.
Atrás da moto vermelha vinham mais 11. Todas passaram sob uma das lâmpadas na parede de um prédio de dois andares, às escuras, no porto.
A luz da lâmpada entrava pela janela de um escritório de expedição no primeiro andar e iluminava a mão apoiada em um cartaz: MS GLAMIS PROCURA AJUDANTE DE COZINHA . Os dedos eram longos e finos como os de um pianista de renome e as unhas, bem aparadas. Embora o rosto estivesse na sombra, impedindo que se vissem os intensos olhos azuis, o queixo pronunciado, os lábios finos e hirtos e o nariz em forma de um arrogante gancho, a cicatriz reluzia como uma estrela cadente, subindo na diagonal da mandíbula para a testa.
— Eles chegaram — avisou o inspetor Duff, torcendo para que seus homens da Unidade de Narcóticos não percebessem o involuntário vibrato em sua voz.
Ele havia calculado que os Norse Riders enviariam três ou quatro homens, cinco no máximo, para buscar a droga, mas contou 12 motocicletas no comboio que aos poucos emergia das sombras. Os dois últimos traziam um carona. Catorze homens para os seus nove. E tudo levava a crer que estavam armados. Armamento pesado. No entanto, não era sua desvantagem numérica que provocava o tremor em suas cordas vocais, e sim o fato de Duff ter realizado seu maior desejo. Era ele quem liderava o cortejo; finalmente, ele estava ao seu alcance.
Fazia meses que o sujeito não aparecia, mas somente uma pessoa tinha aquele capacete e aquela Indian Chief vermelha. Corriam rumores de que aquela moto era uma das cinquenta que o Departamento de Polícia de Nova York fabricara em total segredo, em 1955. O aço da bainha curva presa à lateral brilhava.
Sweno.
Alguns juravam que ele tinha morrido; outros, que havia fugido do país, trocado de identidade, cortado suas tranças louras e que agora estava sentado placidamente em uma terrazza na Argentina, desfrutando da idade avançada e de cigarrilhas bem fininhas.
Mas ali estava ele. O líder da facção e assassino de policiais que, com seu sargento, havia criado o Norse Riders algum tempo depois da Segunda Guerra. Juntos, selecionavam rapazes que não tinham raízes, a maioria de famílias de operários de fábrica que viviam em casebres erguidos à beira de canais de esgoto fétido, submetendo-os a treinamento e disciplina rigorosos e lavagem cerebral até que fossem um exército de soldados destemidos a ser manipulado por Sweno para seus propósitos. Ganhar o controle da cidade e monopolizar o crescente mercado de drogas. E por um tempo pareceu que Sweno seria bem-sucedido, certamente nem Kenneth nem a polícia criaram obstáculos para ele. Muito pelo contrário: Sweno havia comprado toda a ajuda de que precisava. O problema era a competição. A droga caseira de Hécate, a brew, era muito melhor, mais barata e estava sempre disponível no mercado, mas, se a denúncia anônima que Duff tinha recebido era verdadeira, essa remessa era suficientemente grande para solucionar os problemas de abastecimento dos Norse Riders por algum tempo. Duff tinha esperanças — apenas esperanças — de que fosse verdade o que estava escrito nas breves linhas datilografadas a ele endereçadas. Bom demais para ser verdade. Uma espécie de presente que, se bem-manuseado, poderia alçar o chefe da Unidade de Narcóticos a uma posição mais elevada na escala hierárquica. Duncan ainda não havia nomeado seu próprio pessoal para todos os cargos importantes da central. Havia, por exemplo, a Unidade de Facções, onde um ex-lacaio de Kenneth, inspetor Cawdor, conseguira se manter no cargo por falta de provas incontestáveis de corrupção, mas era uma questão de tempo até aparecerem, sem dúvida. E Duff era um dos homens de Duncan. Aos primeiros sinais de que Duncan poderia vir a ser nomeado comissário-chefe, Duff havia ligado para Capitol e, de forma clara, ainda que um pouco pomposa, declarado que iria embora se a câmara deixasse de nomear Duncan e nomeasse um dos capangas de Kenneth. Não estava descartada a possibilidade de que Duncan suspeitasse de um motivo pessoal por trás dessa declaração incondicional de lealdade, mas e daí? Duff tinha o propósito genuíno de apoiar o plano de Duncan de estruturar uma força policial honesta e a serviço da população, isso era verdade. Mas também queria galgar os degraus até chegar o mais próximo possível do céu. Quem não queria? E ele também queria decepar a cabeça daquele homem lá fora.
Sweno.
Ele era o meio e o fim.
Duff olhou no relógio. A hora batia certinho com o que estava na carta. Pressionou a face interna do punho com a ponta dos dedos. Para sentir a pulsação. Já não vivia mais de meras esperanças, estava prestes a acreditar.
— Vieram muitos, Duff? — sussurrou alguém.
— Muitos, Seyton. O suficiente pra que o crédito seja grande. E um deles é tão grande que, quando cair, a queda será ouvida no país inteiro.
Duff passou a mão no vidro da janela nublada por vapor condensado. Dez policiais transpirando nervosismo em uma sala pequena. Homens que não tinham hábito de receber esse tipo de missão. Como chefe da Unidade de Narcóticos, tinha sido Duff que, por conta própria, resolvera não mostrar a carta aos outros oficiais; usava apenas homens de sua unidade para essa batida. A corrupção e os vazamentos eram tão corriqueiros que preferiu não arriscar. Ao menos era isso o que alegaria a Duncan, se questionado. Mas não haveria muitas objeções. Não se conseguissem confiscar a droga e capturar 13 Norse Riders em flagrante.
Sim, 13. Não 14. Um deles seria abatido no campo de batalha. Se houvesse a chance.
Duff trincou os dentes.
— Você disse que seriam só quatro ou cinco — queixou-se Seyton, que surgira ao seu lado na janela.
— Está com medo, Seyton?
— Não, mas você deveria estar, Duff. Dos seus nove homens nessa sala, eu sou o único com experiência em emboscada policial — respondeu ele, sem alterar a voz.
Seyton era magro, musculoso e calvo. Duff não sabia ao certo havia quanto tempo ele estava na polícia, mas sabia que era do tempo de Kenneth. Havia tentado se livrar de Seyton. Não tinha nada de concreto contra ele; mas alguma coisa no sujeito, algo que não conseguia identificar, despertava em Duff uma tremenda antipatia.
— Por que não chamou o Grupo de Operações Especiais, Duff?
— Quanto menos gente envolvida, melhor.
— Menos gente com quem vocês vão dividir as honras, certo? Porque, a menos que eu esteja muito enganado, ou esse é o fantasma do Sweno ou o homem em carne e osso — disse Seyton, apontando com a cabeça para a moto que havia parado diante do portaló do MS Leningrado.
— Você disse Sweno? — Uma voz veio, da escuridão atrás deles, assustada.
— Sim, e tem pelo menos uma dúzia deles — respondeu Seyton, em alto e bom som, sem tirar os olhos de Duff. — No mínimo.
— Merda — murmurou uma segunda voz.
— Não é melhor chamar o Macbeth? — indagou um terceiro.
— Você ouviu? — falou Seyton. — Até seus próprios homens querem que o GOE assuma a operação.
— Cala a boca! — sibilou Duff. Ele se virou e apontou para o cartaz na parede. — Aqui diz que o MS Glamis está partindo pra Capitol na sexta-feira às zero-meia-zero-zero horas e que está precisando de pessoal pra cozinha. Você disse que queria participar dessa missão, mas tem minha permissão pra pedir emprego lá. O soldo e a comida devem ser melhores. Alguém interessado?
Duff observou os vultos sem rosto e paralisados no ambiente às escuras. Tentou interpretar o silêncio. Já lamentava tê-los desafiado. E se alguns deles realmente erguessem a mão? Em geral, ele evitava se colocar em situações em que dependesse dos outros, mas agora precisava de cada um daqueles homens à sua frente. Sua esposa dizia que ele preferia agir só porque não gostava de pessoas. Podia haver certa verdade nisso, mas provavelmente era o contrário: as pessoas é que não gostavam dele. Não que todo mundo de fato desgostasse dele, embora houvesse alguns que nutrissem simpatia por Duff. Algum traço de sua personalidade afastava as pessoas; ele só não sabia o quê. O que ele sabia era que sua aparência e sua autoconfiança atraíam certo tipo de mulher, e também que era educado, culto e mais inteligente do que a maioria das pessoas que conhecia.
— Ninguém? É mesmo? Bom, então vamos executar o que foi planejado, mas com alguns pequenos ajustes. Seyton vai pra direita com seus três homens assim que sairmos e cobre a traseira de metade deles. Eu vou pra esquerda com meus três homens. Enquanto isso, você, Sivart, parte pra esquerda, longe da luz, e corre em arco no escuro até estar atrás dos Norse Riders. Posicione-se no portaló, pra não deixar que ninguém escape pra dentro do navio. Tudo entendido?
Seyton pigarreou.
— Sivart é o mais jovem e...
— ... E o mais rápido — completou Duff. — Eu não pedi objeção de ninguém, perguntei se as minhas instruções foram entendidas. — Ele examinou os rostos inexpressivos à sua frente. — Vou entender isso como um sim. — E voltou para a janela.
Um homem baixinho com pernas arqueadas e quepe branco de capitão desceu bamboleando a escada do portaló, debaixo de chuva, e parou ao lado do homem da moto vermelha. O motoqueiro não tirou o capacete, apenas ergueu a viseira, nem desligou o motor. Estava sentado no selim com as pernas abertas obscenamente e prestou muita atenção ao que dizia o capitão. Por baixo do capacete escapavam duas tranças louras, que desciam sobre o brasão dos Norse Riders.
Duff respirou fundo. Checou a arma.
O pior era que Macbeth tinha ligado. Havia recebido a mesma informação via telefonema anônimo e oferecido o Grupo de Operações Especiais ao Duff, mas ele recusara a oferta, dizendo que só precisavam pegar um caminhão, e pediu a Macbeth que não espalhasse a informação.
Ao sinal do homem com capacete viking, um dos motoqueiros avançou, e Duff viu as listras de sargento na manga da jaqueta de couro quando o sujeito abriu uma maleta diante do capitão do navio. O capitão assentiu, ergueu a mão, e um segundo depois ferro rangeu contra ferro, e uma luz apareceu no braço oscilante da grua no cais.
— Estamos quase lá — disse Duff, sua voz mais firme agora. — Vamos esperar até que a mercadoria e o dinheiro troquem de mãos, então entramos em ação.
Silenciosos acenos de cabeça na semiescuridão. Tinham repassado o plano em minuciosos detalhes, mas isso quando contavam com, no máximo, cinco elementos do outro lado. Será que Sweno teria sido informado de uma possível intervenção da polícia? Será que era por isso que havia aparecido com força total? Não. Se soubessem, teriam cancelado tudo.
— Está sentindo o cheiro? — sussurrou Seyton, ao lado de Duff.
— Cheiro de quê?
— Do medo deles.
Seyton havia cerrado os olhos e suas narinas tremiam. Duff contemplou a noite chuvosa. Será que teria aceitado a oferta de Macbeth se a recebesse agora? Duff esfregou o rosto com os dedos compridos, traçando a diagonal da cicatriz. Não havia mais o que pensar; precisava fazer aquilo, sempre tivera de fazer. Sweno estava ali agora, e Macbeth e o GOE estavam em suas camas, dormindo.
Deitado de costas, Macbeth bocejou. Ficou escutando o tamborilar da chuva. Sentiu o corpo retesado e se virou de lado.
Um homem de cabelo branco ergueu a ponta da lona e se esgueirou para dentro. Sentou-se e ficou lá na escuridão, praguejando e tremendo de frio.
— Molhado, Banquo? — indagou Macbeth, espalmando as mãos no material áspero abaixo de si.
— É uma maldição pra um velho que sofre com crises de gota ter que morar nessa merda de cidade. Eu devia era me aposentar e ir pro interior. Comprar uma casinha em Fife ou para aqueles lados, ficar na varanda sentado no sol, ouvindo as abelhas e os passarinhos.
— Em vez de estar no telhado de um prédio do terminal de contêineres no meio da noite? Está de brincadeira!
Eles riram.
Banquo acendeu uma minilanterna.
— Era isso que eu queria mostrar pra você.
Macbeth pegou a lanterna para ver o desenho que Banquo lhe passou.
— Sua Gatling. Uma belezura de arma, hein?
— A aparência não é o problema, Banquo.
— Então mostre ao Duncan. Explique que o GOE precisa dela. Agora.
Macbeth suspirou.
— Ele não quer.
— Diga a ele que vamos continuar perdendo enquanto Hécate e os Norse Riders tiverem armamento mais pesado que o nosso. Explique do que uma Gatling é capaz. Explique do que duas são capazes!
— Duncan não vai concordar com nenhum aumento do potencial bélico, Banquo. E acho que ele tem razão. Desde que ele assumiu a chefia, temos tido menos trocas de tiros.
— A população continua deixando a cidade por causa da criminalidade.
— As coisas não mudam da noite pro dia. Duncan tem um plano. E ele quer fazer o que é certo.
— Claro, claro, sei disso. Duncan é um bom homem — resmungou Banquo. — Mas é ingênuo. E com essa arma poderíamos fazer uma boa limpa e...
Eles foram interrompidos por uns tapinhas na lona.
— Estão começando a descarregar, senhor.
Um leve cecear. Era Olafson, o jovem novo atirador de elite do GOE. Contando com outro jovem policial, Angus, eles estavam em apenas quatro, mas Macbeth sabia que todos os 25 agentes teriam concordado sem hesitar em acompanhá-los naquele frio.
Macbeth desligou a lanterna, devolveu-a para Banquo e enfiou o desenho em sua jaqueta de couro preta do GOE. Então afastou a lona e foi se arrastando de barriga até a beirada do telhado.
Banquo o acompanhou, também se arrastando.
Diante deles, no convés do MS Leningrado iluminado por holofotes, pairava um caminhão militar verde de aspecto pré-histórico.
— Um ZIS-5 — sussurrou Banquo.
— Da guerra?
É
— É. O “S” é de Stalin. O que você acha?
— Acho que os Norse Riders têm mais homens do que Duff imaginava. Sweno está nitidamente preocupado.
— Você acha que ele suspeita que a polícia foi alertada?
— Ele não teria vindo, se soubesse. Ele tem medo do Hécate. Sabe que Hécate tem ouvidos e olhos bem maiores que nós.
— Então o que vamos fazer?
— Esperar e ver o que acontece. Pode ser que Duff consiga dar conta sozinho. Nesse caso, não vamos nos envolver.
— Está me dizendo que arrastamos esses garotos até aqui, no meio da madrugada, só pra ficarem sentados observando?
Macbeth achou graça.
— Eles que se ofereceram, e eu avisei que a coisa podia ser chata.
Banquo balançou a cabeça em reprovação.
— Você anda com muito tempo livre, Macbeth. Devia arrumar uma família.
Macbeth ergueu as mãos em protesto. Um sorriso iluminou a barba em seu rosto largo e escuro.
— Você e os rapazes são a minha família, Banquo. Do que mais eu preciso?
Bem atrás deles, Olafson e Angus deram umas risadinhas alegres.
— Mas quando é que esse menino vai crescer? — murmurou Banquo, desesperançado, e secou pinguinhos de chuva da mira telescópica de seu rifle Remington 700.
Bonus tinha a cidade a seus pés. O painel de vidro à sua frente ia do chão ao teto e, não fosse a baixa camada de nuvens, ele teria a visão da cidade inteira. Esticou a mão com a taça de champanhe, e um dos dois rapazes em calça de montaria e luvas brancas correu para completá-la. Deveria beber menos, disso tinha noção. O champanhe era caro, mas não era ele quem pagava. O médico lhe dissera que um homem de sua idade deveria começar a repensar o estilo de vida que levava. Mas era bom. Simples assim. Era muito bom. Do mesmo jeito que as ostras e as caudas de lagostim. A poltrona estofada, tão macia. E os rapazes. Não que tivesse acesso a eles. Se bem que não havia pedido.
Foram buscá-lo na recepção do Obelisco e o haviam levado para a suíte da cobertura, com vista para o porto, de um lado, e, do outro, a Estação Central, a Praça dos Operários e o cassino Inverness. Bonus tinha sido recebido pelo grandalhão de bochechas macias, sorriso simpático, cabelos escuros ondulados e olhos frios. O homem a quem chamavam Hécate. Ou a Mão Invisível. Invisível pois poucas pessoas o tinham visto, e Mão pois a maioria dos habitantes, nos últimos dez anos, fora afetada de alguma forma por suas atividades. Quer dizer, seu produto. Uma droga sintética chamada brew, que ele mesmo fabricava e que, de acordo com uma estimativa aproximada de Bonus, havia feito de Hécate um dos quatro homens mais ricos da cidade.
Hécate se afastou da luneta com tripé perto da janela.
— É difícil enxergar direito com essa chuva — comentou ele, enganchando os dedos na alça do suspensório de sua calça de montaria.
Pegou um cachimbo do bolso de um paletó de tweed pendurado no espaldar da cadeira. Se soubesse que eles apareceriam vestidos para uma expedição de caça inglesa, teria escolhido algo diferente daquele terno básico e sem graça, pensou Bonus.
— Mas a grua está funcionando, o que significa que estão descarregando. Está sendo bem servido, Bonus?
— Comida excelente — respondeu ele, tomando um gole de champanhe. — Mas devo confessar que não sei bem o que estamos comemorando, e por que exatamente fui convidado.
Hécate riu e apontou a bengala para a janela.
— Estamos comemorando essa vista, meu caro linguado. Você é como um peixe de mar profundo: só conhece o leito do mundo.
Bonus sorriu. Nunca lhe passaria pela cabeça se opor à forma como Hécate se dirigiu a ele. O grandalhão tinha poder de sobra para lhe fazer coisas boas. E outras não tão boas.
— O mundo é mais bonito daqui de cima — continuou Hécate. — Pode não ser mais real, porém é mais bonito. Então estamos comemorando isso, é claro.
A bengala apontou para o porto.
— E “isso” é...? — perguntou Bonus.
— O maior carregamento já contrabandeado de uma só vez, meu caro. Quatro toneladas e meia de anfetamina pura. Sweno investiu tudo que o clube tinha e mais um pouco. O que você está vendo ali embaixo é um homem que colocou todos os seus ovos em uma única cesta.
— E por que ele faria isso?
— Porque está desesperado, é claro. Ele consegue ver que o produto turco, de qualidade ordinária, dos Norse Riders foi desbancado pela minha brew. Mas, com uma quantidade tão grande do bom cristal soviético, o desconto no atacado e os custos de transporte reduzidos vão tornar o quilo do produto competitivo em preço e em qualidade. — Hécate descansou a bengala no espesso carpete que ia de parede a parede, e alisou a alça dourada. — Tudo muito bem calculado pelo Sweno, e, se ele se sair bem, vai perturbar o equilíbrio de forças nessa cidade. Então um brinde ao nosso louvável concorrente.
Ele ergueu a taça, e um obediente Bonus o imitou. Mas quando Hécate estava prestes a levá-la aos lábios, parou e cuidadosamente a avaliou com as sobrancelhas erguidas. Ele apontou para algo e entregou a taça a um dos rapazes, que imediatamente a limpou com a luva.
— Infelizmente pro Sweno — continuou Hécate — é difícil receber um pedido tão grande de um fornecedor novo sem que alguém do ramo ouça rumores. E, infelizmente, parece que esse “alguém” deu à polícia uma dica anônima, mas muito confiável, sobre onde e quando seria.
— Alguém como você?
Hécate deu um sorrisinho. Depois, pegou a taça, virou seu volumoso traseiro para Bonus e se inclinou para olhar pela luneta.
— Agora estão descendo o caminhão.
Bonus se levantou e foi até a janela.
— Me explique uma coisa: por que você não investiu contra Sweno, em vez de ficar só olhando? Teria se livrado do seu único concorrente e se apossado de quatro toneladas e meia de anfetamina da melhor qualidade, de uma única tacada. E podia vendê-la na rua por... Quantos milhões?
Hécate deu um gole no champanhe sem arredar o olho da luneta.
— Krug — falou. — Dizem que é o melhor champanhe. Por isso é o único que eu tomo. Mas quem sabe? Se me servirem outro, posso gostar e trocar de marca.
— Quer dizer que você não quer que os consumidores experimentem nada além da sua brew?
— Minha religião é o capitalismo e o meu credo é o livre mercado. Mas todo mundo tem o direito de seguir sua maneira de ser e lutar por um monopólio e pela dominação mundial. E cabe à sociedade se opor a nós. Estamos apenas cumprindo nossos papéis, Bonus.
— Amém.
— Shh! Estão passando o dinheiro — disse Hécate, esfregando as mãos. — Hora do show...
Duff estava em pé junto à porta, com a mão na maçaneta e ouvindo a própria respiração, enquanto tentava fazer contato visual com seus homens. Eles formavam fila na escada estreita logo atrás dele. Imersos nos próprios pensamentos. Soltando a trava de segurança. Uma última recomendação para o homem ao lado. Uma última oração.
— Maleta entregue — avisou Seyton, do primeiro andar.
— Agora! — ordenou Duff.
Ao dizer isso, ele abriu a porta de supetão e colou o corpo à parede para permitir que seus homens rumassem para a escuridão. Duff os seguiu. Sentiu a chuva na cabeça. Viu vultos em movimento. Viu algumas motos vazias. Levou o megafone à boca.
— Polícia! Fiquem onde estão! Mãos ao alto! Repito: aqui é a polícia. Fiquem onde...
O primeiro tiro estilhaçou o vidro da porta atrás dele, o segundo atingiu a parte interna da perna de sua calça. Então veio um som que lhe lembrou seus filhos fazendo pipoca nas noites de sábado. Armas automáticas. Merda.
— Fogo! — gritou Duff, largando o megafone.
Mergulhou de barriga, tentou posicionar a arma à sua frente e descobriu que havia aterrissado numa poça.
— Não — sussurrou uma voz ao seu lado.
Duff olhou para cima: era Seyton. Imóvel, com o rifle para baixo, junto à lateral do corpo. Será que ele estava sabotando a missão? Será que...?
— Pegaram o Sivart — murmurou Seyton.
Duff piscou repetidas vezes para afastar a água suja dos olhos e se manteve atento, um dos Norse Riders estava em seu campo de visão. Mas o homem estava montado na moto tranquilamente, a arma apenas apontada para eles, sem atirar. Que diabos estava acontecendo?
— Ninguém mexe um dedo e vai ficar tudo bem.
A voz grave veio de fora do círculo de luz e não precisava de megafone. Duff viu primeiro a Indian Chief abandonada. Depois, os dois vultos na escuridão se fundirem em um. Os chifres espetados no capacete do mais alto dos dois. O que vinha em primeiro plano era um palmo mais baixo que o de trás. Muito provavelmente dois palmos. A lâmina do sabre cintilou quando Sweno a encostou na garganta do jovem Sivart.
— O que vai acontecer — a voz grave de Sweno retumbou pela abertura da viseira — é que vamos pegar o que é nosso e cair fora. Tranquilo. Vou deixar dois homens meus, pra garantir que vocês não vão fazer nenhuma besteira. Tentar ir atrás de nós nem nada. Entendido?
Duff se apoiou nos cotovelos e fez menção de se levantar.
— Se eu fosse você, ficaria aí na poça, Duff — sussurrou Seyton. — Não vai querer ferrar com tudo mais ainda.
Duff respirou fundo. Deixou sair o ar. E de novo. Merda, merda, merda.
* * *
— E aí? — perguntou Banquo, apontando o binóculo para os protagonistas da ação no cais.
— Tudo indica que vamos ter que acionar os jovens — respondeu Macbeth. — Mas não agora. Vamos aguardar até que Sweno e seus homens saiam de cena.
— Como assim? E deixar que eles se mandem com o caminhão e a droga?
— Não foi isso que eu disse, meu caro Banquo. Acontece que, se agirmos agora, teremos um banho de sangue lá embaixo. Angus?
— Senhor? — Veio a resposta rápida do rapaz de olhos azul-escuros e cabelo comprido e louro, o que provavelmente nenhum outro chefe teria permitido.
As emoções estavam escancaradas no rosto do rapaz. Angus e Olafson tinham treinamento, agora só precisavam de mais experiência. Angus, principalmente, precisava endurecer. Durante a entrevista para o cargo, ele contou que havia abandonado o seminário quando entendeu que Deus não existia; cabia às pessoas salvar a si mesmas e às outras, por isso desejava se tornar um policial. Para Macbeth, isso foi mais do que suficiente; gostou da postura destemida, um rapaz assumindo as consequências das próprias crenças. Mas Angus também precisava aprender a dominar seus sentimentos e entender que, no GOE, eles se tornavam homens de ação pragmáticos, o longo e duro braço da lei. Que os outros cuidassem das introspecções.
— Desça até os fundos, pegue o carro e fique de prontidão na porta.
— Certo — disse Angus, antes de se levantar e se afastar.
— Olafson?
— Sim?
Macbeth olhou para ele. Pelo maxilar frouxo, o cecear, os olhos semicerrados e suas notas na academia de polícia, Macbeth tivera suas dúvidas quando Olafson se apresentara implorando para ser transferido para o GOE. Mas o rapaz queria a mudança, e Macbeth decidiu lhe dar uma chance, já que ele próprio tivera a sua. Macbeth precisava de um atirador, e, embora Olafson não fosse espetacular em assuntos teóricos, tinha um talento e tanto para o gatilho.
— No último teste de tiro, Olafson, você bateu o recorde anterior, conseguido há vinte anos por esse sujeito aqui — disse Macbeth, apontando para Banquo. — Meus parabéns, foi uma vitória e tanto. Sabe o que isso significa aqui e agora?
— Hã... Não, senhor.
Ó
— Ótimo, porque não significa absolutamente nada. Sua tarefa aqui é ficar de olhos e ouvidos atentos pro inspetor Banquo e aprender. Você não vai salvar o dia hoje. Isso fica pra depois. Entendeu?
O maxilar e o lábio inferior de Olafson se mexiam, mas nitidamente não conseguiam emitir som algum, então ele apenas assentiu.
Macbeth colocou a mão no ombro do jovem.
— Nervoso?
— Um pouco, senhor.
— Normal. Tente relaxar. Mais uma coisa, Olafson.
— Sim?
— Não estrague tudo.
— O que está acontecendo? — indagou Bonus.
— Já sei o que vai acontecer — disse Hécate, endireitando-se e desviando a luneta noutra direção. — Não preciso disso.
Ele se sentou ao lado de Bonus. Bonus havia notado que Hécate fazia aquilo várias vezes: sentava-se ao seu lado, não à sua frente. Como se não gostasse que olhassem diretamente para ele.
— Pegaram Sweno e a anfetamina?
— Pelo contrário. Sweno pegou um dos homens do Duff.
— O quê? E você não está preocupado?
— Nunca aposto em um único cavalo, Bonus. E estou mais preocupado com o quadro geral. O que você acha do comissário-chefe Duncan?
— Sobre a promessa que ele fez de prender você?
— Isso não me preocupa em nada, mas ele afastou muitos dos antigos parceiros que eu tinha na polícia, e isso já me criou problemas nos mercados. Vamos lá, você é bom em julgar o caráter das pessoas. Você já viu e ouviu o cara. Ele é mesmo tão incorruptível como dizem?
Bonus deu de ombros.
— Todo mundo tem seu preço.
— Nisso eu concordo com você, mas o preço nem sempre é em grana. Nem todo mundo é tão simples quanto você.
Bonus ignorou o insulto decidindo não o levar a mal.
— Pra saber como subornar Duncan, você tem que saber o que ele quer.
— Duncan quer agradar as massas — disse Hécate. — Ganhar o amor da cidade. Ter uma estátua erguida pelo povo, não por ele próprio.
— Complicado. É mais fácil subornar canalhas gananciosos como nós do que pilares da sociedade como Duncan.
— Você tem razão no que diz respeito ao suborno — afirmou Hécate. — Mas se engana em relação aos pilares da sociedade e aos canalhas.
— Hum.
— Os fundamentos do capitalismo, prezado Bonus. O esforço dos indivíduos pra ficarem ricos é o que enriquece o rebanho. Isso é ciência, pura e simplesmente, e acontece sem que vejamos ou pensemos a respeito. Você e eu somos os pilares da sociedade, e não idealistas delirantes como Duncan.
— Acha mesmo?
— O filósofo moral Adam Hand pensava assim.
— Produzir e vender drogas favorece a sociedade?
— Qualquer um que supra uma demanda ajuda a construir a sociedade. Pessoas como Duncan, que desejam regular e impor limites, são contrários ao curso normal da natureza e, no longo prazo, prejudicam a todos nós. Então, pelo bem da cidade, como vamos impedir Duncan de causar todo esse mal? Qual é o ponto fraco dele? O que podemos usar? Sexo, drogas, segredos de família?
— Agradeço pela confiança depositada em mim, Hécate, mas realmente não sei.
— Que pena — lamentou Hécate, batendo suavemente a bengala no tapete, enquanto observava um dos rapazes tirar o lacre de uma nova garrafa de champanhe. — Olha, estou começando a desconfiar de que Duncan tem um único ponto fraco.
— E qual é?
— A duração da própria vida.
Bonus se endireitou na cadeira.
— Espero de verdade que você não tenha me chamado até aqui pra pedir...
— De jeito algum, meu caro linguado. Fique à vontade pra continuar deitado quietinho na lama.
Bonus soltou um suspiro de alívio enquanto observava o rapaz que se atrapalhava com a rolha.
— Mas — continuou Hécate — você tem os dons da crueldade, da deslealdade e da influência, o que te dá poder justamente sobre as pessoas sobre as quais eu preciso ter poder. Espero que eu possa contar com você quando precisar de ajuda. Espero que você possa ser minha mão invisível.
Ouviu-se um estrondo.
— Muito bem! — exclamou Bonus.
E riu, dando um tapinha nas costas do rapaz enquanto ele ia despejando nas taças o máximo do champanhe enfim livre.
Duff continuava no chão. Ao seu lado, seus homens estavam de pé, igualmente imóveis, observando os Norse Riders aprontando-se para partir, à distância de uns dez metros. Sivart e Sweno continuavam na escuridão, fora do cone de luz, mas Duff via a tremedeira do jovem policial e a lâmina do sabre de Sweno pressionando a garganta de Sivart. E via também que a mais leve pressão ou o menor movimento poderia rasgar a pele, a artéria e deixar o rapaz sem sangue em segundos. E Duff sentia o próprio pânico ao considerar as consequências. Não somente as consequências de ter o sangue de um de seus homens nas mãos e em seu histórico, mas de os desdobramentos de suas ações secretamente orquestradas fracassarem da pior forma possível, justamente quando o comissário-chefe estava prestes a nomear um cabeça para a Unidade de Crime Organizado. Sweno fez um sinal de cabeça para um dos Norse Riders, que apeou da moto, foi para trás de Sivart e apontou uma arma para a cabeça do jovem policial. Sweno abaixou a viseira do capacete, entrou no cone de luz, dirigiu-se ao homem com as listras de sargento na jaqueta, sentou-se na moto com as pernas muito abertas, levou dois dedos ao capacete numa espécie de continência e partiu ao longo do cais. Duff teve de se controlar muito para não atirar. O da jaqueta de sargento deu umas ordens, e, um segundo depois, as motos saíram rosnando noite adentro. Restaram apenas duas, desocupadas, depois que as demais seguiram Sweno e o sargento.
Duff proibiu a si mesmo de sucumbir ao pânico e se obrigou a raciocinar. Respirar, pensar. Quatro dos Norse Riders permaneciam no cais. Um deles estava atrás de Sivart, o corpo na sombra. Outro, sob o cone de luz, mantinha a polícia sob a mira de um rifle de assalto, um AK-47. Os outros dois, provavelmente os que tinham vindo de carona, entraram no caminhão. Duff ouviu os repetidos roncos do motor respondendo ao girar da chave na ignição e, por um segundo, teve esperança de que o velho monstro de ferro não daria partida. Soltou um palavrão quando um ronco baixo se transformou num rugido espalhafatoso. O caminhão partiu.
— Vamos dar dez minutos pra eles — gritou o homem com o AK-47. — Pensem em algo agradável enquanto isso.
Duff ficou observando as lanternas traseiras do caminhão sumirem aos poucos na escuridão. Algo agradável? Meras quatro toneladas e meia de droga indo embora, levadas pelo que teria sido a maior prisão em massa naquela guerra. E não ajudava em nada saber que Sweno e seus homens haviam estado bem ali, diante deles, se não pudessem dizer ao juiz e ao júri que tinham visto seus rostos e não apenas 14 capacetes. Algo agradável? Duff fechou os olhos.
Sweno.
Ele o tivera na palma da mão. Merda, merda, merda!
Duff apurou os ouvidos. Queria escutar alguma coisa, qualquer coisa . Mas só ouvia o sussurro incompreensível da chuva.
— Banquo tem ele na mira, o sujeito com o rapaz de refém — disse Macbeth. — Você tem o outro, Olafson?
— Sim, senhor.
— Vocês têm que atirar no mesmo instante, ok? Numa contagem regressiva de três. Banquo?
— Preciso de mais luz no alvo. Ou olhos mais jovens. Do jeito que está, corro o risco de acertar o rapaz.
— Meu alvo está na luz — sussurrou Olafson. — Podemos trocar.
— Se errarmos e nosso rapaz morrer, seria preferível que fosse o Banquo a errar o tiro. Banquo, qual a velocidade máxima de um caminhão Stalin totalmente carregado, tem ideia? — indagou Macbeth.
— Hum... Sessenta, talvez.
— Ótimo, mas nosso tempo é curto pra alcançarmos todos os objetivos. Então vamos ter que improvisar um pouco.
— Vai tentar suas adagas? — perguntou Banquo.
— A essa distância? Você me tem em alta conta, hein. Não... Logo, logo você vai ver, meu velho. Vai ver.
Banquo tirou os olhos da mira telescópica e descobriu que Macbeth havia se levantado e agarrado o poste ao qual a lâmpada do telhado estava fixada. As veias do volumoso pescoço de Macbeth dilataram-se e seus dentes brilhavam em uma careta ou um sorriso, Banquo não tinha certeza. O poste fora instalado para resistir aos irascíveis ventos noroeste que sopravam por oito meses ao ano, mas Banquo já vira Macbeth desatolar carros da neve.
— Três — gemeu Macbeth.
Os primeiros parafusos saltaram do soquete.
— Dois.
O poste se soltou e, com um solavanco, arrancou os fios da parede abaixo.
— Um.
Macbeth apontou a lâmpada para o portaló.
— Agora.
Soou como duas chicotadas. Duff abriu os olhos a tempo de ver o homem que segurava a arma automática desabar para a frente e bater com o capacete no asfalto. Sivart agora estava iluminado, e Duff podia vê-lo muito bem, assim como o homem atrás dele, que não mais apontava uma arma para a cabeça do rapaz, mas apoiava o queixo em seu ombro. E, na luz, Duff viu também o buraco na viseira. Então, como uma massa gelatinosa, o homem foi deslizando pelas costas de Sivart até o chão.
Duff se virou.
— Aqui em cima, Duff!
Ele cobriu os olhos com a mão. Uma risada forte soou de trás do foco de luz e a sombra de um gigante se estendeu sobre o cais.
Mas a risada bastava.
Era Macbeth. Claro que era Macbeth.