Macbeth
Capítulo 9
Éclaro que foi Duff quem se aproximou das duas garotas e perguntou se podia se sentar à mesa delas. Macbeth foi ao balcão do bar e comprou cerveja para todos. Ao voltar, ouviu Duff se gabando de que Macbeth e ele eram os dois melhores cadetes no último ano da academia de polícia, que suas perspectivas futuras eram mais do que excelentes e que por isso as meninas deveriam seduzi-los, caso fizessem ideia do que era bom para elas. As duas caíram na gargalhada, e os olhos daquela que se chamava Meredith faiscaram, mas ela baixou a cabeça quando Macbeth arriscou uma troca de olhares com ela. Quando o bar fechou, Macbeth a acompanhou até a saída e foi recompensado com um aperto de mão amigável e um número de telefone. Pela manhã, enquanto Duff contava em detalhes como havia satisfeito os desejos da amiga dela, Rita, numa cama estreita no dormitório das enfermeiras, Macbeth ligou para Meredith e, com a voz trêmula, a convidou para jantar. Ele havia reservado uma mesa no Lyon e se deu conta do engano no momento que notou o olhar experiente do maître. Como o terno elegante que Duff lhe havia emprestado era largo demais, ele tivera de usar o de Banquo, que era dois números menor e tinha saído de moda fazia vinte anos. Por sorte, o vestido, a beleza e os modos delicados de Meredith serviram de compensação. A única parte do cardápio em francês que ele entendeu foram os preços. Mas Meredith lhe explicou o restante e disse que era o jeito dos franceses: eles se recusavam a aceitar que seu idioma já não era mais uma língua mundial e, por não saberem direito o inglês, não podiam suportar a dupla humilhação de parecerem idiotas na língua de seus rivais.
— Arrogância e insegurança costumam andar juntas — concluiu ela.
— Eu sou inseguro — disse Macbeth.
— Estava pensando no seu amigo. Por que você é inseguro?
Macbeth lhe contou sobre seu passado. O orfanato, Banquo e Vera, a academia de polícia. Era tão fácil conversar com ela que se sentiu tentado, num instante de loucura, a lhe contar absolutamente tudo, até sobre Lorreal. Mas claro que não contou. Meredith disse que havia crescido na parte ocidental da cidade, com pais que não deixavam faltar nada à família, mas que também eram exigentes e nutriam grandes ambições para os filhos, sobretudo para os garotos.
— Protegidos, ricos e chatos — definiu ela. — Sabe que nunca fui ao Distrito 2 Leste? — Ela riu quando Macbeth se recusou a acreditar. — É sério! Nunca fui!
Então, depois do jantar, ele levou você até o rio. Caminharam pela estrada esburacada que corria junto a casas degradadas até a ponte Penny. E, quando ele lhe deu boa-noite ao portão, ela se inclinou e o beijou na bochecha.
Quando ele voltou para o quarto, Duff ainda estava acordado.
— Pode ir contando tudo — ordenou ele. — Devagar e em detalhes.
Dois dias depois. Cinema. O senhor das moscas. Voltaram para casa sob o mesmo guarda-chuva e de braços dados.
— Como as crianças podem ser tão cruéis e sanguinárias? — comentou ela, sobre o filme.
— Por que elas deveriam ser menos cruéis que os adultos?
— Elas nascem inocentes!
— Sim, inocentes e sem princípios morais. Não é a passividade pacífica algo que os adultos forçam as crianças a aprender, pra que elas reconheçam seu lugar na sociedade e permitam que eles façam com elas o que quiserem?
Beijaram-se no portão. E no domingo ele a levou para dar um passeio pela floresta do outro lado do túnel. Ele havia preparado uma cesta de piquenique.
— Você sabe cozinhar! — exclamou ela, animada.
— Banquo e Vera me ensinaram. Sempre vínhamos aqui, ficávamos exatamente nesse lugar.
Então eles se beijaram, ela ofegou e ele enfiou a mão por baixo do seu vestido de algodão.
— Espera... — disse ela.
Ele esperou. E entalhou um coração no frondoso carvalho. Com a ponta da faca, escreveu seus nomes. Meredith e Macbeth.
— Ela está no ponto — disse Duff quando Macbeth voltou para casa e lhe contou tudo. — Vou à casa da Rita na quarta-feira. Convida a Meredith pra vir pra cá.
Macbeth havia aberto uma garrafa de vinho e acendido velas quando ela tocou a campainha. Estava preparado. Mas não para o que aconteceu: ela abriu o cinto dele assim que fecharam a porta e enfiou a mão dentro da calça dele.
— N-n-não — disse ele.
Ela olhou para ele, surpresa.
— P-p-para.
— Por que você está gaguejando?
— N-n-não quero que você faça isso.
Ela retirou a mão, as bochechas rubras de vergonha.
Depois, beberam um cálice de vinho tinto em silêncio.
— Tenho que acordar cedo amanhã — disse ela. — A época de provas está chegando e...
— Claro.
Três semanas se passaram. Macbeth ligou várias vezes, mas, nas poucas vezes que foi atendido, Rita disse que Meredith não estava.
— Entendi que você e Meredith não estão mais saindo — disse Duff.
— É.
— Rita e eu também não. Você se importa que eu saia com a Meredith?
— Vai ter que perguntar pra ela.
— Já perguntei.
Macbeth engoliu em seco. Era como se tivesse ferrões espicaçando seu coração.
— Ah, é? E o que ela disse?
— Ela aceitou.
— Sério? E quando vocês...?
— Ontem. Fomos só comer alguma coisa, mas... Foi legal.
No dia seguinte, Macbeth acordou doente. E só mais tarde foi entender que tipo de doença era aquela e que não havia remédio para um coração partido. O jeito era sofrer até passar. Sofreu em silêncio sem mencionar o nome dela para ninguém, a não ser para o velho carvalho no lado bom do túnel. E, depois de um tempo, os sintomas desapareceram. Quase totalmente. Então ele descobriu que isso de dizer que as pessoas só se apaixonam uma vez na vida não era verdade. Mas, ao contrário de Meredith, Lady era a doença e, ao mesmo tempo, o remédio. Sede e água. Desejo e satisfação. E agora a voz dela vinha alcançá-lo no outro lado do mar, no outro lado da noite.
— Querido...
Macbeth flutuava sobre a água e as nuvens, luz e escuridão.
— Acorde!
Ele abriu os olhos. Estava na cama. Devia ser noite ainda, porque estava escuro no quarto. Mas havia um elemento granulado, um imperceptível acinzentado que pressagiava o amanhecer.
— Finalmente! — sussurrou ela em seu ouvido. — Onde você estava?
— Onde? — ecoou Macbeth, tentando se apegar a um retalho do sonho. — Eu não estava aqui?
— Seu corpo, sim, mas estou tentando acordar você há horas. Era como se estivesse inconsciente. O que você fez?
Macbeth ainda se apegava ao sonho; subitamente, porém, já não sabia se era um sonho bom ou um pesadelo. Duncan... Ele o soltou, e as imagens saíram girando na escuridão.
— Suas pupilas — disse ela, com o rosto dele nas mãos. — Você se drogou, foi isso.
Ele se esquivou de Lady e da luz.
— Eu precisei.
— Mas você fez?
— Se fiz?
Ela o sacudiu com força.
— Macbeth, me responda, meu amor! Você fez o que me prometeu?
— Sim! — Ele gemeu e esfregou o rosto. — Não, não sei.
— Não sabe?
— Eu vejo o Duncan na minha frente com a adaga cravada, mas não sei se aconteceu de verdade ou se foi apenas um sonho.
— Tem uma adaga limpa aqui na mesa de cabeceira. Era pra você ter deixado as duas com os seguranças depois de matar Duncan, uma com cada um.
— Sim, sim, eu lembro.
— A outra está com eles? Preste atenção!
— Nunca mais dormirás. Macbeth está assassinando o sono.
— O quê?
— Ele disse isso. Ou eu sonhei.
— É melhor irmos até lá conferir.
Macbeth fechou os olhos e estendeu a mão, tentando alcançar o sonho: talvez lhe desse uma resposta. Era preferível a voltar àquele quarto. Mas o sonho já lhe escorria entre os dedos. Quando tornou a abriu os olhos, Lady estava com a orelha colada à parede.
— Ainda estão dormindo. Venha.
Ela pegou a adaga da mesa de cabeceira. Macbeth respirou fundo. Logo viriam o dia e sua luz reveladora. Ele se levantou e se surpreendeu por ainda estar totalmente vestido.
Saíram para o corredor. Nenhum ruído. Aqueles que pernoitavam no Inverness não tinham o hábito de acordar cedo.
Lady abriu a porta do quarto dos seguranças de Duncan e entrou com Macbeth. Cada guarda dormia em uma poltrona. Mas não havia adagas em lugar nenhum, tampouco havia sangue em seus ternos e em suas camisas, o que era parte do plano.
— Eu sonhei, só isso — sussurrou Macbeth. — Vamos embora. Vamos desistir disso.
— Não! — retrucou Lady.
Ela foi até a porta que dava para o quarto de Duncan. Passou a adaga para a mão direita. Então, sem nenhuma hesitação, abriu a porta e entrou.
Macbeth esperou, ouvidos atentos.
Nada.
Foi até a porta aberta.
A luz cinzenta se infiltrava pela janela.
Ela estava de pé do outro lado da cama, a adaga erguida na altura da boca. Apertava o cabo com as mãos, os olhos arregalados de pavor.
Duncan estava na cama. Os olhos abertos pareciam encarar a outra porta. Tudo em volta estava manchado de sangue. O edredom, a arma sobre o edredom, a mão no punho da arma. E o cabo curvo da adaga no pescoço de Duncan como um gancho.
— Ah, querido — sussurrou Lady. — Meu homem, meu herói, meu salvador, Macbeth.
Macbeth ia abrindo a boca para dizer alguma coisa, mas naquele momento o absoluto silêncio das manhãs de domingo foi quebrado por um som quase inaudível, mas contínuo, que vinha lá de baixo.
Lady olhou para o relógio.
— É o Duff. Ele chegou mais cedo! Querido, desça e o mantenha ocupado enquanto eu resolvo isso aqui.
— Você tem três minutos — falou Macbeth. — Não toque no sangue, senão vai deixar digitais. Está coagulando.
Ela inclinou a cabeça para trás e sorriu para ele.
— Olá — disse ela. — Olha você aqui.
Ele entendeu. Finalmente, estava ali. No foco.
Diante da porta do Inverness, Duff sentiu um arrepio e bateu-lhe uma saudade enorme da cama quente de Caithness. Já ia apertar a campainha mais uma vez, quando a porta se abriu.
— Senhor, a entrada do cassino é mais adiante.
— Não, vim buscar o comissário-chefe.
— Ah, sim. Entre, por favor. Vou avisar que o senhor chegou. Inspetor Duff, certo?
Duff assentiu. Os funcionários do Inverness eram realmente de primeira categoria. Ele afundou em uma das poltronas incrivelmente macias.
— Não estão atendendo — informou o recepcionista. — Nem no quarto dele nem no dos seguranças.
Duff olhou no relógio.
— Qual é o quarto do Duncan?
— É o quarto número 213, senhor.
— Tudo bem se eu subir pra acordá-lo?
— Claro.
Duff estava subindo as escadas quando se deparou com um vulto familiar descendo.
— Bom dia, Duff — cumprimentou-o Macbeth. — Jack, pode ir até a cozinha e pedir uma xícara de café forte pra nós dois?
O recepcionista se foi.
— Obrigado, Macbeth, mas fui designado pra buscar o Duncan.
— Tem que ser agora? Não está um pouco cedo demais?
— Combinamos de chegar em casa a certa hora, e eu lembrei que a ponte Kenneth está fechada, então teremos que tomar o desvio pela ponte velha.
— Relaxa. — Macbeth riu e deu o braço a Duff. — Ela não está lá com um cronômetro na mão, ou está? Você parece exausto. Se for dirigir, vai precisar de um café bem forte. Vem, vamos nos sentar.
Duff hesitou.
— Obrigado, meu amigo, mas é melhor deixarmos isso pra depois.
— Uma xícara de café vai disfarçar o bafo de uísque.
— Estou pensando em me tornar abstêmio, como você.
— Sério?
— A bebida só leva a três coisas: nariz quebrado, sono e bexiga cheia. No caso do Duncan, obviamente, é o sono. Vou subir e...
Macbeth o segurou pelo braço.
— E o tesão é vítima do álcool, segundo ouvi. Aumenta a luxúria, mas reduz o desempenho. Como foi sua noite? Me conta. Devagar e em detalhes.
Duff arqueou as sobrancelhas. Devagar e em detalhes. Ele estava usando a rotina de interrogatório dos dias de academia como ironia, ou será que sabia de alguma coisa? Não, Macbeth não era chegado a circunlóquios. Não tinha paciência nem jeito para a coisa.
— Não tenho muito o que contar. Fiquei na casa de um primo meu.
— Primo? Você nunca me falou de nenhum parente. Pensei que seu avô fosse o último da família. Pronto, o café chegou. Pode deixar na mesa, Jack. E tenta falar com o Duncan mais uma vez.
Tranquilizado por saber que o recepcionista cuidaria de Duncan, Duff deu meia-volta, desceu os degraus e pegou avidamente o café. Mas não se sentou.
— Família, pois é — disse Macbeth. — Só traz peso na consciência, não é?
— É, talvez — disse Duff, que havia queimado a ponta da língua no primeiro gole e agora soprava o café.
— Como eles estão? Gostando de Fife?
— Todo mundo gosta de Fife.
— O Sr. Duncan continua sem atender o telefone.
— Obrigado, Jack. Continua tentando. Vai ter muita gente de ressaca hoje.
Duff pousou a xícara na mesinha.
— Escuta, acho que vou acordar o Duncan primeiro e tomar o café depois, pra irmos adiantando.
— Vou subir com você. Ele está num quarto do lado do nosso — explicou Macbeth, tomando um golinho do café. Deixou cair um pouco na mão e na manga do paletó. — Epa! Tem um guardanapo aí, Jack?
— Deixa eu ver...
— Só um segundo, Duff. Pronto. Obrigado, Jack. Vem, vamos.
Subiram.
— Você se machucou? — perguntou Duff.
— Não. Por quê?
— Nunca vi você subir escadas tão devagar.
— Devo ter distendido um músculo na perseguição aos Norse Riders.
— Hum.
— Enfim. Dormiu bem?
— Não — respondeu Duff. — Tive uma noite péssima. Raios, trovoadas e chuva.
— É, foi uma noite ruim.
— Então você também não pregou o olho?
— Na verdade, sim...
Duff se virou para olhar para ele.
— ... Depois que o pior da tempestade passou — concluiu Macbeth. — É aqui.
Duff deu umas batidinhas na porta. Esperou um pouco e tornou a bater. Girou a maçaneta: a porta estava trancada. Então teve um pressentimento, uma sensação de que havia algo errado.
— Tem uma chave mestra?
— Vou pedir pro Jack — respondeu Macbeth.
— Jack! — gritou Duff. E depois, mais uma vez, a plenos pulmões: — Jack!
Segundos depois, a cabeça do chefe da recepção apareceu na beirada da escada.
— Pois não, senhor?
— Vocês têm uma chave mestra?
— Temos, sim, senhor.
— Então vem abrir essa porta. Rápido.
Jack subiu e foi correndo até eles, a passos curtos, procurando a chave no bolso do paletó. Então a colocou na fechadura e a girou.
Duff abriu a porta.
Ficaram paralisados, olhando a cena. A primeira pessoa a falar foi o recepcionista.
— Puta merda.
Macbeth examinou a cena, sentindo a soleira da porta machucando a sola de seu pé, e ouviu Duff quebrar o vidro do alarme de incêndio, que imediatamente começou a soar alto. A adaga havia sido removida do lado direito do pescoço de Duncan, e Lady tinha acrescentado uma punhalada à esquerda. A arma no edredom também fora removida. Fora isso, tudo parecia igual a antes.
— Jack! — gritou Duff, acima da sirene. — Retire todos de seus quartos e reúna-os na recepção, agora. Nem uma palavra sobre o que você viu, ok?
— S-s-sim, senhor.
Portas se abriram no corredor. Do quarto mais próximo saiu Lady, descalça e de camisola.
— O que está acontecendo, querido? Um incêndio?
Ela era boa. De volta ao planejado. Macbeth ainda estava no foco e constatou naquele instante, naquele momento de aparente caos generalizado, que tudo estava no caminho certo. Naquele minuto, ele e a mulher que amava eram imbatíveis, estavam no controle total: no controle da cidade, do destino, da órbita das estrelas. E foi isso que sentiu, como o barato da droga, mais forte que qualquer droga que Hécate pudesse lhe oferecer.
— Onde foi que os seguranças dele se meteram? — gritou Duff, furioso.
Eles não imaginaram que seria Duff a testemunhar o que estava por vir, e sim um convidado mais desajeitado e assustado entre os vários que haviam hospedado nos quartos vizinhos; como Malcolm, por exemplo. Mas agora que Duff estava ali, não dava para ignorá-lo.
— Vem cá, querida — disse Macbeth. — Você também, Duff.
Ele os empurrou para dentro do quarto de Duncan e trancou a porta. Tirou a pistola de serviço no coldre preso ao cinto da calça.
— Prestem atenção: a porta estava trancada e não havia sinal de arrombamento. A única pessoa que tem uma chave mestra que abre esse quarto é o Jack...
— E eu — disse Lady. — Pelo menos é o que eu acho...
— Fora isso, só há uma possibilidade. — Macbeth apontou para a porta que dava para o quarto adjacente.
— Os seguranças que deveriam cuidar dele? — verbalizou Lady, horrorizada, tapando a boca com a mão.
Macbeth sacou a arma.
— Vou verificar.
— Eu vou com você — falou Duff.
— Não, não vai — rebateu Macbeth. — Esse assunto é meu, não seu.
— Mas eu vou...
— Você vai fazer o que eu mandar, inspetor Duff.
Naquele instante, Macbeth viu surpresa no rosto de Duff. Depois, concessão: o chefe da Unidade de Crime Organizado estava acima do chefe da Homicídios.
— Cuida de Lady, ok, Duff?
Sem esperar pela resposta, Macbeth abriu a porta para o quarto contíguo, entrou e fechou a porta. Os dois ainda estavam nas poltronas. Um deles grunhiu; talvez o alarme de incêndio estivesse rompendo o pesado véu de drogas.
Macbeth lhe deu um golpe com as costas da mão.
Com um olho semiaberto, o olhar dele vagou pelo quarto e pousou em Macbeth. Permaneceu lá até, aos poucos, voltar-se para o próprio corpo.
Andrianov registrou que seu paletó preto e sua camisa branca estavam cobertos de sangue, em seguida sentiu que faltava algo. O peso da arma no coldre. Enfiou a mão no paletó e no coldre, onde seus dedos encontraram, em vez da pistola de serviço, uma lâmina de aço frio e afiado, coberta de algo pegajoso... Puxou a mão e olhou. Sangue? Estaria ainda sonhando? Gemeu. Uma parte de seu cérebro assimilou o que foi interpretado como sinal de perigo, ele tentou desesperadamente se recompor e na mesma hora olhou ao redor. Ali, no chão, ao lado da poltrona, viu sua arma. E a arma de seu colega, ao lado da outra poltrona, onde ele, aparentemente, dormia.
— O que...? — resmungou Andrianov, olhando para o cano da arma na mão do homem à sua frente.
— Polícia! — gritou o homem.
Era Macbeth. O novo chefe da... da...
— Ponham as armas onde eu possa vê-las ou eu atiro.
Andrianov apenas piscava, sem entender. Por que se sentia como se estivesse deitado num pântano? O que havia ingerido?
— Não aponte a arma pra mim! — gritou Macbeth. — Não...
Algo disse a Andrianov que ele não deveria pegar a arma do chão. O homem à sua frente não atiraria se ele continuasse sentado, sem se mexer. Mas não adiantou. Talvez todas as horas, dias, anos como segurança tivessem criado um instinto, uma reação que não era mais guiada pela vontade, proteger sem levar em conta a própria vida . Ou talvez fosse por ele ser exatamente assim, o que explicava por que se candidatara para aquele tipo de serviço. Andrianov estendeu a mão para a arma, e sua vida e seu raciocínio foram interrompidos por uma bala que atravessou sua testa, seu cérebro e o recosto da poltrona e só parou ao atingir o papel de parede dourado que Lady comprara por uma pequena fortuna em Paris. A explosão provocou uma convulsão no corpo de seu colega, embora ele não tenha sequer chegado a recuperar a consciência antes de receber também um tiro na testa.
* * *
Duff correu para a porta assim que ouviu o primeiro tiro.
Mas Lady o segurou.
— Ele disse pra você...
No segundo tiro, Duff se livrou das mãos dela. Derrubou a porta e entrou de supetão. Estancou no meio do cômodo e olhou ao redor. Dois homens, cada um sentado em uma poltrona, com um terceiro olho na testa.
— Norse Riders — disse Macbeth, devolvendo ao coldre a arma ainda fumegante. — Sweno está por trás disso.
Gritos e pancadas na porta que dava para o corredor.
— Deixe que entrem — disse Macbeth.
Duff obedeceu.
— O que está acontecendo? — perguntou Malcolm, resfolegante. — Céus! Eles estão...? Quem...?
— Eu — respondeu Macbeth.
— Eles tentaram reagir — disse Duff.
Os olhos espantados de Malcolm saltavam de Duff para Macbeth.
— Reagir? Ao quê?
— Eu ia prender os dois — disse Macbeth.
— Por quê? — indagou Lennox.
— Assassinato.
— Senhor — disse Duff a Malcolm —, sinto dizer que temos más notícias.
Duff viu os olhos de Malcolm se estreitando atrás dos óculos quadrados enquanto ele se inclinava para a frente como um boxeador se preparando para o soco que ainda não via, mas que sabia que viria. Todos se voltaram para a pessoa que apareceu no vão da porta do quarto ao lado.
— O comissário-chefe Duncan está morto — anunciou Lady. — Foi apunhalado enquanto dormia.
A última frase fez Duff se virar como um autômato para Macbeth. Não porque acrescentasse algo que ele ainda não soubesse, mas por ser um eco da mesma frase proferida ao amanhecer de um dia distante, em um orfanato, muitos anos antes.
Seus olhares se cruzaram por um breve momento e logo se desviaram.