Macbeth
Capítulo 44
Acintilante gota de chuva caiu do céu cortando a escuridão, na direção das luzes tremeluzentes do porto. Uma rajada gélida do vento noroeste levou a gota por sobre o rio de curso lento que dividia a cidade em dois e a movimentada linha férrea que dividia a cidade na diagonal. O vento arrastou a gota de chuva para o Distrito 4, carregando-a por cima do Obelisco e de um novo prédio, o Primavera, dois hotéis em que os empresários de Capitol se hospedavam. Ocasionalmente, um caipira perambulava pelo Obelisco e indagava se era ali que, antigamente, funcionava um cassino. A maioria havia esquecido, mas todos se lembravam do outro cassino que ocupara o prédio dos antigos escritórios da Rede Ferroviária Nacional, e que agora abrigava a recém-inaugurada biblioteca municipal. A gota de chuva flutuou sobre a central de polícia, onde as luzes brilhavam no escritório do comissário-chefe Malcolm durante uma reunião administrativa para tratar da reestruturação. No começo houve certo descontentamento entre os funcionários quando o prefeito Tourtell e a Câmara Municipal exigiram redução de pessoal, uma consequência das estatísticas que comprovaram uma queda acentuada das taxas de criminalidade. Então era assim que recompensavam a polícia pelo bom trabalho feito nos últimos três anos? Mas eles perceberam que Malcolm estava certo: que a tarefa da polícia era, tanto quanto possível, tornar a si mesma desnecessária. É claro que isso afetou sobretudo a Unidade de Narcóticos e os departamentos que tinham conexão, embora indireta, com o desmantelamento do tráfico de drogas, como a Unidade de Homicídios. O número de funcionários permaneceu o mesmo na Anticorrupção, enquanto a nova Unidade de Crimes Financeiros foi a única com permissão de contratar mais pessoal. Isso se deveu ao aumento da atividade financeira em razão de a cidade ter atraído mais negócios e pela constatação de que os criminosos de colarinho branco haviam tido facilidades demais, o que contribuiu para a sensação de que a polícia servia os abonados em primeiro lugar. Duff havia defendido o tamanho da Unidade de Crime Organizado dizendo que precisava de recursos para prevenir o crime e que, se os criminosos profissionais se instalassem novamente na cidade, seria muito mais dispendioso afastá-los. Mas ele entendeu que, assim como os demais, tinha de aceitar os cortes. A chefe da Unidade de Homicídios, Caithness — ela havia argumentado convincentemente que, com o número de policiais que tinha, podiam finalmente oferecer aos cidadãos um nível satisfatório de eficiência nas investigações —, havia sido, inclusive, forçada a pedir demissão. Então Duff ficou feliz por ter chegado o fim de semana, e ele e Caithness tinham planejado um piquenique em Fife. Estava ao mesmo tempo ansioso e receoso. A casa fora demolida, e ele deixou que a natureza se encarregasse do terreno. Mas a cabana ainda estava lá. Queria que ficassem ali sob o sol escaldante, sentindo o aroma de alcatrão das tábuas. E para ver se o eco das risadas e dos gritos de felicidade de Emily e Ewan ainda pairavam por lá. Depois, pretendia nadar sozinho até a rocha lisa. Dizem que não há caminhos de volta para os lugares em que estivemos — e para a pessoa que fomos um dia. Ele só precisava descobrir se isso era mesmo verdade. Não para esquecer, mas para que conseguisse finalmente olhar para a frente.
O pingo de chuva seguiu seu caminho para leste, sobre as ruas de comércio de luxo do Distrito 2 Oeste, antes de descer em direção a uma encosta coberta de árvores ao lado do rodoanel, que, naquela noite, brilhava como um colar de ouro no pescoço da cidade. Lá, no topo da Colina dos Enforcados, a gota de chuva caiu entre as árvores até que, com um borrifo, atingiu uma grande folha verde de um carvalho. Escorreu até a ponta da folha e se pendurou para acumular gravidade, pronta para cair os últimos metros sobre dois homens que estavam ao pé da árvore na escuridão.
— Está tudo mudado por aqui — comentou uma voz grave.
— O senhor passou muito tempo ausente — respondeu uma voz estridente.
— Ausente. Exatamente. Era como eu me sentia. E você ainda não me disse como me encontrou, Sr. Bonus.
— Ah, mantenho os olhos e ouvidos bem abertos. E ouço e vejo, é o meu talento. O único, infelizmente.
— Não sei se acredito totalmente nisso. Olha, vou ser franco: o fato é que não gosto de você, Sr. Bonus. Você me lembra um pouco demais aquelas criaturas que a gente encontra na água e que grudam em animais maiores e ficam sugando.
— Rêmoras, senhor?
— Eu estava pensando em sanguessugas. Criaturinhas bem feiosas. Mas quase inofensivas. Então, se você acha que pode me ajudar a recuperar a minha cidade, deixo você sugar um pouco do meu sangue, é claro. Mas fica esperto. Se exagerar, passo a faca em você. Pronto! Agora é a sua vez de falar.
— Não há concorrentes no mercado. Muitos viciados foram para Capitol quando a droga secou por aqui. A prefeitura e a polícia finalmente começaram a baixar a guarda. Estão demitindo gente e tudo. É o momento certo. O potencial pra clientes novos e jovens é ilimitado, e eu também encontrei a irmã que sobreviveu quando a fábrica de drogas do Hécate explodiu. Ela ainda tem a receita. Os clientes não vão ter alternativa pro que podemos oferecer a eles, senhor.
— Então por que você precisa de mim?
— Não tenho o capital nem seu dinamismo nem suas qualidades de liderança, senhor. Mas tenho...
— Olhos e ouvidos. E sabe se valer do sangue alheio. — O velho atirou fora uma cigarrilha Davidoff Long Panatella fumada pela metade, enquanto a gota de chuva na folha do carvalho acima dele foi se espichando. — Vou pensar. Não por causa do que você disse, Sr. Bonus. Todas as cidades são bons mercados em potencial pra quem tem um bom produto.
— Entendo. Então, por que aqui?
— Porque essa cidade tirou de mim meu irmão, meu clube... me tirou tudo. Então devo a ela uma coisa.
A gota de chuva se soltou. Aterrissou no chifre de um animal. Desceu pela superfície brilhante do capacete de um motociclista.
— Eu devo a ela o inferno sobre a terra.