Macbeth
Capítulo 5
Lady atravessou o salão de jogos. O clarão dos imensos lustres no teto caía suavemente no mogno escuro onde se jogava blackjack e pôquer; no feltro verde onde tarde da noite os dados dançariam; e na coluna dourada em forma de lança que se erguia como um minarete no meio da roda da roleta. Os lustres, ela havia mandado fazer cópias em tamanho menor daquele de quatro toneladas e meia do Palácio de Dolmabahçe, em Istambul, enquanto a coluna que apontava do centro do teto para a mesa da roleta era uma cópia da que havia na roleta. Os lustres de cristal eram sustentados por cabos fixos às balaustradas do mezanino de um jeito que pudessem ser abaixados, às segundas-feiras, para limpeza dos cristais. Esse era o tipo de detalhe que passava despercebido à maioria dos clientes. Assim como os pequenos e discretos lírios que ela havia mandado costurar nos carpetes espessos cor de vinho que mandara vir da Itália por uma pequena fortuna, e que também funcionavam como isolamento acústico. Mas nada disso lhe subia à cabeça: via as colunas como uma composição harmônica, e só ela sabia o que os lírios representavam. Isso bastava. Pois eram só seus. Os crupiês automaticamente se empertigavam à sua passagem. Conheciam a profissão, eram eficientes e cuidadosos, tratavam os clientes com cortesia e também firmeza, suas mãos e unhas estavam sempre bem cuidadas; os cabelos, penteados e eles se vestiam de forma impecável nos elegantes uniformes vermelho e preto dos crupiês do Inverness que eram substituídos anualmente e feitos sob medida para cada um. E, o mais importante de tudo, eram honestos. Isso não era uma suposição, era algo que ela via e ouvia. Via nos olhos das pessoas, nos tiques nervosos, nas contrações musculares ou na teatralização de falsas posturas relaxadas. Ouvia nas diminutas diferenças de vibração das cordas vocais. Era uma sensibilidade inata sua, herdada da mãe e da avó. Mas, embora essa sensibilidade houvesse empurrado as duas — conforme envelheciam — para as trevas da insanidade, Lady a usara para eliminar a desonestidade. Longe do vale do infortúnio da infância para onde se encontrava hoje. As rondas de inspeção tinham duas funções. A primeira era manter os funcionários em estado de atenção aquele tantinho mais, de modo que, todos os dias, todas as noites, eles se apresentariam em no mínimo um nível mais alto que os do Obelisco. A segunda era pôr a descoberto qualquer desonestidade. Embora eles tivessem sido honestos e honrados na véspera, as pessoas eram como argila molhada: moldadas pelas circunstâncias, pela motivação e pelo que você lhes diz hoje, e elas podem fazer de boa vontade algo que teria sido inimaginável na véspera. Sim, essa era a única certeza, a única coisa com a qual se podia contar: o coração era ganancioso. Lady sabia disso. Seu coração era assim. Um coração que ora ela amaldiçoava, ora bendizia por tê-lo, que lhe trouxera riquezas materiais, mas que também a privara de tudo. Mas era esse o coração que batia em seu peito. Não dava para mudá-lo, não dava para detê-lo, só lhe restava segui-lo.
Ela deu um aceno de cabeça para os rostos conhecidos à mesa de roleta. Clientes regulares. Todos tinham seus motivos para estar ali e fazer suas apostas. Havia os que precisavam se desligar depois de um dia de trabalho estressante e aqueles que, após um dia de trabalho entediante, precisavam de algum tipo de desafio. E também aqueles que não tinham nem trabalho nem desafio, e sim dinheiro. Já os que não tinham nem uma coisa nem outra acabavam no Obelisco, onde era servido um almoço insípido porém gratuito para os que apostavam mais de quinhentos. Havia os imbecis que acreditavam ter um método que prometia ganhos no longo prazo, uma raça de gente que continuava morrendo, mas que, estranhamente, nunca deixava de existir. E, por fim, havia aqueles que — e nenhum dono de cassino admitiria isso em alto e bom som — formavam a base de seu negócio. Aqueles que precisavam apostar. Que se sentiam compelidos a vir jogar porque não conseguiam se controlar: que precisavam arriscar tudo, noite após noite, fascinados pela bolinha da roleta correndo desabaladamente em torno da roda brilhante como um pequeno globo capturado no campo gravitacional do sol, o mesmo sol que lhes dava a vida diária, mas que, no final, com a inevitabilidade da física, também os queimava. Os viciados. O ganha-pão de Lady.
Falando em vício... Olhou no relógio. Nove horas. Ainda era um pouco cedo, mas mesmo assim preferia que as mesas estivessem mais cheias. Os relatórios sobre o Obelisco sugeriam que eles continuavam a lhe roubar clientes, apesar do pesado investimento feito na decoração, na cozinha e na reforma dos quartos do hotel. Alguns achavam que os preços praticados por ela eram tão altos que acabariam por tirá-la do mercado e que, como o Obelisco, aberto três anos antes, estava bem consolidado na mente das pessoas como a alternativa mais acessível, Lady poderia e deveria reduzir um pouco o padrão de qualidade e os custos. O Inverness não perderia sua condição de cassino mais exclusivo da cidade, argumentavam. Mas quem pensava assim não conhecia Lady. Não sabia que para ela não se tratava prioritariamente de resultados financeiros, mas de ser a opção com serviço diferenciado. Não somente mais sofisticado que o Obelisco, e sim melhor, quaisquer que fossem os critérios de comparação. O cassino Inverness, de Lady, deveria ser o local em que as pessoas desejavam ser vistas, o local com o qual queriam ser associadas. E ela — Lady — deveria ser a pessoa com quem elas queriam ser vistas e associadas. Os endinheirados frequentavam o Inverness, assim como os principais políticos, atores e as personalidades esportivas do mais alto firmamento das celebridades, dos escritores, das beldades, dos moderninhos e intelectuais — todos iam até a mesa de Lady, curvavam-se respeitosamente, beijavam-lhe a mão, e conformavam-se, sorrindo, com sua discreta recusa a seu igualmente discreto pedido de crédito para jogar, e aceitavam com gratidão o Bloody Mary de cortesia. Com lucro ou sem lucro, ela não havia percorrido todo aquele caminho para administrar uma droga de um prostíbulo, que era o que estava acontecendo com o Obelisco. Então eles que ficassem com a poeira que ela preferia não ver nos lustres do Inverness. Lustres genuínos. Mas é claro que a maré virou. Os credores haviam começado a fazer perguntas. E não ficaram nada satisfeitos com a resposta: o que o Inverness precisava não era de drinques mais baratos, e sim de mais e maiores lustres.
Assuntos financeiros não passavam por sua mente naquele momento, mas o vício sim. E também o fato de Macbeth ainda não ter chegado. Ele sempre avisava quando se atrasava. E o que acontecera durante o cerco a Sweno o deixara abalado. Embora ele não tivesse conversado a respeito, ela percebera. Às vezes, Lady tinha a impressão de que o coração dele amolecia — o que era estranho para um homem que ela própria já tinha visto matar. Ela também testemunhara uma determinação calculada antes do ato, uma fria eficiência durante, e, ao final, o sorriso sem remorsos.
Mas dessa vez tinha sido diferente, ela sabia. O homem estava indefeso. E mesmo que às vezes ela tivesse dificuldade de entender o código de honra que homens como Macbeth seguiam, sabia que esse tipo de problema poderia deixá-lo desorientado. Cruzou o salão e notou os olhares de dois homens no bar. Ambos mais jovens que ela. Mas não a interessavam. Embora ela sempre tivesse feito de tudo para se sentir desejada, desprezava os homens que a desejavam. Salvo um. No começo, surpreendera-se ao notar que alguém poderia preencher seus pensamentos e seu coração tão completamente. E muitas vezes indagara a si mesma por que justamente ela, que nunca havia amado ninguém, amava aquele homem. Chegara à conclusão de que era porque ele amava nela o que, para outros homens, assustava. Sua força de vontade. Sua determinação. Uma inteligência que era superior à deles e que ela nem sonhava varrer para debaixo do tapete. Era preciso ser de fato homem para amar isso em uma mulher. Ela estava junto à grande janela que dava para a Praça dos Operários, os olhos em Bertha, a locomotiva preta que guardava a entrada para a estação desativada; na sarjeta onde, durante anos, ela tinha visto tanta gente ficar presa e afundar. Será que ele...?
— Querida.
Quantas vezes tinha ouvido aquela voz sussurrar essa mesma palavra em seu ouvido? E, no entanto, todas as vezes era como a primeira. Ele afastou o longo cabelo ruivo dela para o lado, e Lady sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando os lábios dele tocaram seu pescoço. Nada profissional (ela notou que os dois sujeitos no bar estavam olhando), mas que se danem. Ele havia chegado.
— Onde você estava?
— No meu novo escritório — respondeu ele, envolvendo-a pela cintura.
— Novo escritório?
Ela acariciou o braço dele. Sentiu com a ponta dos dedos o tecido fibroso das cicatrizes. Ele havia lhe contado que a origem delas era porque tivera de se espetar no escuro, sem enxergar as veias, e o jeito foi ir apalpando o braço até descobrir o percurso para a ferida da picada anterior e cravar a agulha no mesmo lugar. Se alguém fizesse isso incontáveis vezes por longos anos, mais as inevitáveis infecções vez ou outra, acabaria com os antebraços iguais aos dele, como se tivessem passado num arame farpado. Mas ela não sentiu nenhuma ferida recente. Já fazia alguns anos. Tanto tempo que às vezes, num arroubo de otimismo infantil, o considerava curado.
— Nunca imaginei que você chamasse de escritórios aqueles depósitos de carvão.
— No terceiro andar — disse Macbeth.
Lady se virou para ele.
— O quê?
Dentes brancos brilharam no meio da barba escura.
— Você está diante do novo chefe da Unidade de Crime Organizado dessa cidade.
— Verdade?
— Verdade. — Ele achou graça. — E agora você parece tão chocada quanto imagino que eu tenha ficado no gabinete do Duncan.
— Não estou chocada, meu amor, só... Só estou feliz. É mais do que merecido! Não é o que vivo falando pra você? Eu não disse que você merecia mais do que um cubículo no subsolo?
— Sim, disse mesmo. Várias vezes, querida. E você foi a única.
Macbeth jogou a cabeça para trás e deu uma risada.
— Agora estamos a caminho do topo, meu amor. Chega daquele porão! Espero que tenha exigido um bom salário.
— Salário? Não, esqueci de perguntar isso. Minha única exigência foi ter Banquo como meu adjunto, e ambos concordaram. É muito louco...
— Louco? De jeito nenhum. É uma nomeação sábia.
— Não estou falando da nomeação. A caminho da central, esbarramos com três irmãs enviadas por Hécate, que profetizaram minha promoção.
— Profetizaram?
— Sim!
— Elas já deviam saber.
— Não. Quando eu entrei no gabinete do Duncan, ele disse que a decisão tinha sido tomada fazia cinco minutos.
— Hum. Feitiçaria, na certa.
— Deviam estar drogadas e falando besteira. Também disseram que eu seria o comissário-chefe. E quer saber da melhor? Duncan sugeriu que comemorássemos aqui, no Inverness!
— Espera aí. O que foi que disseram?
— Ele disse que queria comemorar aqui. O fato do comissário-chefe organizar uma festa no seu cassino não é bom pra sua reputação?
— Não, não. Estou falando das irmãs. Elas disseram que você seria comissário-chefe?
— Sim. Mas esquece isso, querida. Sugeri ao Duncan que a festa fosse até de manhã, e que ele e as outras pessoas que moram mais longe do centro da cidade passassem a noite aqui no hotel. Você tem muitos quartos vagos no momento, então...
— Claro, vamos providenciar isso. — Ela acariciou o rosto dele. — Vejo que você está feliz, mas ainda está pálido, meu amor.
Ele deu de ombros.
— Sei lá, acho que estou meio adoentado. Vejo homens mortos nos sinais de trânsito.
Ela deu o braço a ele.
— Vem. Tenho o remédio perfeito pra você, meu menino.
Ele sorriu.
— Aposto que tem mesmo.
Ambos atravessaram o cassino leves e soltos. Por causa dos saltos altos, ela sabia que ficava meio palmo mais alta que ele. Sabia que sua aparência jovem, o belo vestido longo e o caminhar oscilante ainda atraía o olhar dos homens no bar. Sabia que isso eles não encontrariam no Obelisco.
Deitado na cama de casal, Duff estava com os olhos fixos no teto, em uma rachadura que conhecia de longa data.
— Mais tarde, quando eu estava saindo da reunião, Duncan me chamou em um canto e perguntou se eu estava desapontado — contou ele. — Disse que nós dois sabíamos que eu seria o candidato natural pro cargo.
A rachadura tinha ramificações que se espalhavam de uma maneira aparentemente aleatória, mas, quando ele estreitou os olhos e, portanto, perdeu o foco, a rachadura parecia seguir um padrão, formar uma imagem que Duff simplesmente não conseguia decifrar.
— E o que você respondeu? — perguntou a voz mais alta que a água do chuveiro ligado.
Mesmo agora, depois de terem visto o máximo que um podia ver do outro, ela não gostava que ele a visse antes de estar pronta. Por ele, tudo bem.
— Respondi que sim, que estava desapontado. E, quando ele falou que escolheram Macbeth porque ele não pertencia ao círculo interno, o fato de eu ser um dos que apoiaram o projeto de Duncan desde o início foi usado contra mim.
— Bem, isso é verdade. O que...?
— Duncan disse que havia outro motivo também, mas não quis mencioná-lo na presença dos outros. A operação contra Sweno tinha sido apenas parcialmente bem-sucedida, uma vez que o líder deles escapou. E que, por eu ter recebido a informação com tanta antecedência, tive tempo de sobra pra repassá-la a ele. Que por pouco não joguei no lixo um ano de investigação secreta por uma questão de ego, ao que pareceu. E que Macbeth e o GOE salvaram toda a operação. Portanto, seria suspeito escolher a mim antes dele. Mas pelo menos Duncan me deu um prêmio de consolação.
— A Unidade de Homicídios, o que não é nada mau, certo?
— É menor que a Narco, mas pelo menos me livrei da humilhação de ser um subordinado na Crime Organizado.
— Quem fez a cabeça do Duncan, aliás?
— Como assim?
— Quem advogou a favor do Macbeth? Duncan é um cara que escuta os outros; ele gosta de consenso e apoia as decisões em grupo.
— Meu amor, ninguém faz lobby pro Macbeth, pode acreditar. Duvido até que ele saiba o significado dessa palavra. Tudo que ele quer da vida é pegar bandido e fazer a rainha do cassino feliz.
— Falando nisso...
Ela parou na porta do banheiro e fez pose. A camisola transparente mais revelava do que escondia, é claro. Duff gostava um bocado dessa mulher, tanto que algumas coisas ele nem sequer conseguia verbalizar, mas o que ele idolatrava era bem básico: a juventude dela. O brilho das velas no piso fazia cintilar a umidade nos olhos dela, nos lábios vermelhos e nos dentes brancos. Mas, naquela noite, ele precisava de algo mais. Não estava no clima. Depois do que havia acontecido, não se sentia mais um touro como no início do dia. Mas isso ainda estava em tempo de mudar.
— Tire isso — disse ele.
Ela deu uma risada.
— Acabei de vestir.
— É uma ordem. Fique onde está e comece a se despir. Devagar.
— Hum. Talvez. Se eu receber uma ordem mais clara...
— Caithness, você está intimada por um oficial superior a se virar de costas, tirar essa roupa, se inclinar pra frente e se segurar firme na moldura da porta.
Duff ouviu o pequeno arquejo de susto. Talvez fosse uma encenação para excitá-lo, talvez não. Por ele, tudo bem. Estava começando a entrar no clima.
Hécate caminhava pelo piso úmido da Estação Central, entre paredes descascadas e os sons inarticulados dos drogados. Percebeu que dois rapazes se curvavam sobre uma colher e uma seringa que obviamente compartilhavam. Não o conheciam. Ninguém o conhecia. Talvez estivessem achando que o homem alto de casaco de caxemira amarelo-mostarda e bem-vestido, cabelos pretos quase artificiais e o resplandecente Rolex pesadão fosse a caça perfeita que acabara de entrar na cova dos leões. Ou talvez suspeitassem do caminhar seguro e determinado, da bengala de castão dourado que fazia um tic-toc no compasso do salto agulha da mulher de ombros largos que caminhava dois passos atrás dele. Se é que era uma mulher. Talvez também houvesse algo de suspeito nos três homens de casaco cinza de tecido leve que entraram na estação logo antes dele e ficaram parados junto à parede. Talvez por isso os dois tiveram a sensação de que eles estavam na cova do homem. Ele era o leão.
Hécate parou e deixou Strega descer a escada estreita fedendo a mijo que dava no banheiro. Viu os dois drogados baixarem a cabeça e se concentrarem no que se propunham a fazer: aquecer e injetar. Dependentes químicos. Para Hécate, era a constatação da realidade, em que não cabia nem desrespeito nem despeito. Afinal, eles eram seu ganha-pão.
Strega abriu a porta ao pé da escada, botou em pé um homem que dormia, arreganhou os dentes para mostrar seu estado de ânimo e apontou com o polegar para onde ele deveria ir. Hécate seguiu-a entre os cubículos e as pias com as torneiras escorrendo água. O mau cheiro era tão forte que fazia brotar lágrimas até em Hécate. Mas a fedentina também cumpria seus propósitos: mantinha afastados os olhares curiosos e fazia com que os viciados mais persistentes encurtassem ao máximo as conversas com ele. Strega e Hécate entraram no último cubículo, com a placa de EM MANUTENÇÃO na porta e uma privada cheia de fezes até a borda. Não bastasse isso, a lâmpada fluorescente no teto tinha sido removida, tornando impossível ver ou alcançar as veias. Strega removeu um dos azulejos acima da privada sem conexão hidráulica, girou uma manivela e empurrou. A parede se abriu, e eles entraram.
— Fecha logo isso — disse Hécate e tossiu.
Olhou ao redor: era um antigo depósito da ferrovia, e a outra porta levava ao túnel das linhas férreas que seguiam para o sul. Ele tinha transferido sua produção para o local dois anos após a desativação da ferrovia. Foi preciso desalojar alguns mendigos e viciados e, embora ninguém nunca entrasse ali e eles tivessem contado com o alto nível de proteção do comissário-chefe Kenneth, ainda assim havia instalado um circuito secreto de câmeras no túnel e no teto das escadas até o banheiro. Havia um total de 12 pessoas no turno da noite, todas de máscara e jaleco branco. Daquele lado da divisória de vidro que repartia o espaço em dois, sete pessoas eram responsáveis por picar, pesar e empacotar a brew em sacos plásticos. Junto à porta do túnel estavam sentados dois guardas armados, que vigiavam os empregados e os monitores do circuito de câmeras. Dentro da área envidraçada estava o que chamavam de santuário interno, ou, simplesmente, a cozinha. Ali ficava o reservatório, ao qual só as irmãs tinham acesso. A cozinha era isolada hermeticamente por muitas razões. Primeiro, para que nada de fora contaminasse os processos internos e, segundo, porque algum idiota poderia, inadvertidamente, mandar tudo pelos ares ao acender um isqueiro ou jogar uma guimba de cigarro ali. Mas sobretudo porque todos no local ficariam viciados caso inalassem dia após dia as partículas que pairavam no ar.
Hécate havia encontrado as irmãs em um antro de ópio de Chinatown, em Bangcoc, onde as duas haviam instalado um laboratório caseiro para fabricar heroína a partir de ópio de Chiang Rai. Pouco sabia sobre elas, salvo que haviam fugido da China com o pessoal de Chiang Kai-shek, que a doença que lhes deformara o rosto tinha supostamente se espalhado pelo vilarejo de onde vinham e que, desde que recebessem em dia, entregavam qualquer coisa que ele lhes pedisse. Os ingredientes eram bem conhecidos, as proporções, as mesmas, e outros poderiam acompanhar os procedimentos através do vidro, mas havia um segredo em como elas misturavam e aqueciam as substâncias. E Hécate não via motivos para negar os rumores de que usavam glândulas de sapos, asas de zangões, sumo de rabo de rato, até que assoavam o nariz no tanque. Isso criava uma mística de magia negra, e, se havia algo pelo qual as pessoas estavam dispostas a pagar como contraponto à realidade implacável da rotina de trabalho, era exatamente isso: magia negra. E a brew era um sucesso. Hécate nunca tinha visto tantos novos dependentes em grau tão desesperador e em um espaço de tempo tão curto. No entanto, era igualmente óbvio que no dia que as irmãs passassem a fabricar um produto ligeiramente menos potente, teria de se livrar delas. Era assim que funcionava. Tudo tinha seu dia, seu ciclo. Como as duas décadas sob o comando de Kenneth. Os bons tempos. E agora com Duncan, que — caso ele conseguisse ir adiante com seus planos — traria maus momentos para a indústria da magia. É óbvio que, se os deuses trazem bons e maus momentos, vidas breves e mortes, é preciso se tornar também um deus. É mais fácil do que se pode imaginar. A dificuldade da maioria das pessoas em alcançar o status de deus é por terem medo e serem supersticiosas, e, em sua submissão induzida pela ansiedade, acreditam em princípios morais — regras enviadas pelo céu e aplicáveis a todos. Mas essas regras são feitas precisamente por aqueles que se dizem deuses e, que estranho, servem aos propósitos deles mesmos. Tudo bem, nem todo mundo pode ser deus, e todo deus precisa de seguidores, uma base de clientes. Um mercado. Uma cidade. Muitas cidades.
Hécate foi até os fundos da sala, apoiou as mãos no castão da bengala e ficou lá, parado. Aquela era sua fábrica. Ali, ele era o dono da fábrica. Numa indústria em crescimento. Logo teria de expandi-la. Se não conseguisse atender às demandas, outros o fariam — essas eram as regras básicas do capitalismo. Fazia um tempo que ele tinha planos de se apropriar de uma das fábricas desativadas da cidade para montar um negócio de fachada enquanto fabricava sua brew nos fundos. Guardas, muros de arame farpado, seus próprios caminhões indo e vindo. Poderia produzir dez vezes mais, exportar para outras partes do país. Mas teria maior visibilidade, o que demandaria proteção policial. Demandaria um comissário-chefe que estivesse em seu bolso. Um Kenneth. E o que se faz quando Kenneth está morto? Fabrica um novo e o coloca no lugar.
Hécate recebeu sorrisos duros e acenos rápidos de seus funcionários antes de voltarem a cortar e empacotar com energia renovada. Tinham medo. Esse era o objetivo principal dessas inspeções, aliás. Não para quebrar o ciclo — que era inevitável —, mas para adiá-lo. Todos naquele porão tentariam roubá-lo em algum momento, levar alguns gramas para vender por conta própria. Seriam descobertos, e a penalidade seria aplicada de imediato. Por Strega. Ela parecia gostar de suas várias atribuições. Como atuar de mensageira ao lado das irmãs.
— E então, Strega — começou ele —, você acha que a semente que plantamos no Macbeth vai germinar?
— A ambição humana vai sempre se esticar na direção do sol como as flores espinhentas do cardo, ofuscando e dizimando tudo ao redor.
— Assim esperamos.
— São cardos. Não conseguem evitar. São maus e estúpidos. Se veem que a primeira profecia foi cumprida, vão acreditar piamente nas seguintes. E agora Macbeth descobriu que é o novo chefe da Unidade de Crime Organizado. A única dúvida é se ele tem dentro de si o suficiente da ambição do cardo. E a crueldade necessária pra ir até o fim.
— Macbeth não tem — afirmou Hécate —, mas ela, sim.
— Ela?
— Lady, sua amada dominatrix. Nunca fomos apresentados, mas conheço seus segredos mais profundos e a compreendo melhor do que compreendo você, Strega. Lady só precisa de um tempo pra chegar à inevitável conclusão.
— Que é...?
— Que Duncan precisa ser tirado do caminho.
— E depois?
— Depois? — disse Hécate, batendo com a bengala no piso. Tap-tap . — Os bons tempos estarão de volta.
— Tem certeza de que conseguimos controlar o Macbeth? Agora que ele está limpo, provavelmente é um cara... de moral rígida, não?
— Minha querida Strega, o único ser mais previsível que um viciado ou um moralista é um viciado moralista atingido em cheio pelo cupido.
Banquo estava deitado no quarto do primeiro andar, atento aos sons da chuva, do silêncio, do trem que nunca aparecia. A linha férrea passava bem ali fora, e ele via o cascalho molhado brilhando agora que os trilhos e dormentes haviam sido removidos. Quer dizer, roubados. Tinham sido felizes ali, ele e Vera. Tiveram bons momentos juntos. Conheceram-se quando ela trabalhava na joalheria Jacobs & Sons, onde os grã-finos iam comprar alianças de casamento e presentes uns para os outros. Certa noite, o alarme do sistema de segurança disparou, e Banquo — que estava de plantão — chegou ao local em um minuto, as sirenes uivando. Lá dentro, uma jovem apavorada gritava em desespero, acima da campainha estridente, dizendo que estava apenas fechando a loja, que era nova ali e que devia ter feito algo errado quando ligou o alarme. Ele só conseguia entender uma palavra aqui e outra ali, e teve um bocado de tempo para observá-la. Quando, a certa altura, ela se derramou em lágrimas, ele a abraçou com gentileza para consolar a moça. Ela mais parecia um passarinho afobado e trêmulo que acabara de cair do ninho. Durante as semanas que se seguiram, os dois foram ao cinema, caminharam na região ensolarada do outro lado do túnel, e ele a beijou na porta de casa. Ela era de uma família da classe operária e morava com os pais. Desde pequena, contribuía com as despesas de casa e havia trabalhado na fábrica Estex, como os pais. Até começar a apresentar uma tosse horrível, então veio um conselho não oficial de um médico para trocar de emprego e um trabalho na Jacobs & Sons por meio de recomendações.
— O salário é menor — disse ela —, mas dá pra viver por mais tempo.
— Você ainda tosse?
— Só quando chove.
— É melhor termos certeza de que você tome bastante sol. Que tal outra caminhada no domingo?
Seis meses depois, Banquo foi à joalheria e pediu a ela que lhe recomendasse uma aliança de noivado. Ela ficou tão espantada que ele caiu na gargalhada.
Depois de casados, foram morar numa casa geminada bem pequena, com vizinhos no andar térreo. Tinham economizado, comprado e feito amor na cama em que ele estava deitado agora. Por consideração aos vizinhos, Vera — que era uma mulher fogosa mas tímida — aguardava passar um trem para só então gozar. Quando uma composição passava estrondeando, sacudindo as paredes e as lâmpadas do teto, ela se permitia o clímax, gritando e cravando as unhas nas costas dele. Fez o mesmo ao dar à luz Fleance, naquela mesma cama: esperou o trem passar para gritar, enfiar as unhas na mão de Banquo e expelir um filho.
Compraram o apartamento do térreo no ano seguinte, para terem mais espaço. Eram três, e em breve poderiam ser muitos mais. Cinco anos depois, porém, eram apenas dois: um menino e um homem. Foram os pulmões dela. Os médicos culparam a poluição, todas as substâncias tóxicas das fábricas que eram empurradas para a terra pelos centros de baixa pressão atmosférica que pairavam sobre a cidade como uma tampa. E, quando os pulmões já não estavam bons... Banquo se culpava por não ter conseguido dinheiro para irem morar do outro lado do túnel, em Fife, algum lugar com um pouco de sol e ar respirável.
Agora tinham espaço demais. Ele ouvia o rádio lá embaixo e sabia que Fleance estava fazendo o dever de casa. Era um menino aplicado, queria muito ir bem nos estudos. O consolo era que aqueles que achavam a escola fácil e tinham um bom começo muitas vezes perdiam o entusiasmo quando a vida se tornava mais dura. Era então que estudantes como Fleance, que se viam forçados a empregar rotinas de estudo severas e sabiam que a aprendizagem demanda esforço, enfim tinham sua vez. Sim, tudo ficaria bem. E, quem sabe, talvez o garoto conhecesse uma menina e formasse uma família. Ali naquela casa, até. Talvez dias melhores estivessem por vir. Talvez eles conseguissem ajudar Duncan ainda mais, agora que Macbeth era o encarregado de combater o crime organizado na cidade. A notícia foi uma grande surpresa para Banquo e para a maioria do pessoal na central. No porão do GOE, Ricardo afirmara sem rodeios que não conseguia imaginar Macbeth e Banquo de terno e gravata em mesas de trabalho, elaborando gráficos e orçamentos, ou travando conversas polidas nos coquetéis com comissários-chefe, membros do conselho e outras pessoas da classe alta. Mas era o que eles veriam. Não lhes faltava disposição. E talvez agora fosse a vez de pessoas como Macbeth, que estavam acostumadas a batalhar muito para chegar a algum lugar.
Na central, ninguém além de Duff sabia quanto Macbeth tinha sido dependente de anfetamina na adolescência, quanto a droga o enlouquecera, o deixara desnorteado. Banquo fazia a ronda nas ruas castigadas pela chuva quando vira um rapaz encolhido no banco de um ponto de ônibus, totalmente fora de si, sob efeito de drogas. Ele o acordou na intenção de mandá-lo embora dali, mas havia algo naqueles suplicantes olhos castanhos. Algo nos movimentos ligeiros ao se levantar, algo no físico forte e em boas condições que diziam a Banquo que alguma coisa estava sendo desperdiçada. Talvez houvesse algo ainda germinando ali. Algo que ainda podia ser salvo. Naquela noite, Banquo levou o rapaz de 15 anos para casa e lhe deu roupas secas. Vera o alimentou, e os dois lhe deram um lugar para dormir. No dia seguinte, um domingo, Vera, Banquo e o rapaz cruzaram o túnel e saíram do outro lado, para o sol, para uma longa caminhada pelas colinas. Macbeth gaguejava no início, mas depois foi melhorando. Havia crescido em um orfanato e sonhava trabalhar no circo. Mostrou que sabia fazer malabarismos e, tomando cinco passos de distância de um frondoso carvalho, atirou o canivete de Banquo. Cravado na árvore, o canivete ficou oscilando. O garoto teve mais dificuldade de mostrar as cicatrizes nos braços e de falar sobre isso do que qualquer outra coisa. E isso só foi acontecer bem mais tarde, quando se sentiu capaz de confiar em Banquo e em Vera. Ainda assim, disse apenas que tinha começado depois de fugir do orfanato, sem explicar como ou o que o levara ao vício. Depois disso, houve mais domingos, mais conversas e mais passeios. Banquo se lembrava especialmente do primeiro, porque Vera lhe havia sussurrado a caminho de casa: “Vamos fazer um filho parecido com ele.” E quando, quatro anos depois, um orgulhoso Banquo acompanhara Macbeth até a entrada da academia de polícia, Fleance tinha 3 anos, os mesmos três anos em que Macbeth se mantinha limpo.
Banquo se virou e deu com a foto na mesinha de cabeceira. Mostrava Fleance e ele sob a macieira morta no jardim. O primeiro dia de Fleance na academia de polícia, ele de uniforme. Era bem cedo de manhã, fazia sol, e a sombra do fotógrafo caía sobre eles.
Ouviu o arrastar de uma cadeira e os passos pesados de Fleance pelo cômodo. Raiva, frustração. Nem sempre era fácil entender tudo de primeira. A compreensão só vinha com o tempo. Do mesmo jeito que levava tempo e força de vontade renunciar às drogas, a válvula de escape que viciava. Do mesmo jeito que levava tempo para mudar uma cidade, corrigir injustiças, expurgar os políticos corruptos e os grandes criminosos, permitir que os cidadãos respirassem aliviados.
Agora estava tudo quieto no andar de baixo. Fleance voltara à escrivaninha.
Era possível, se você vivesse um dia de cada vez e cumprisse o trabalho necessário. Então, em algum momento, os trens voltariam a circular.
Aguçou os ouvidos. Apenas o silêncio. E chuva. Mas, se fechasse os olhos, não podia escutar Vera respirando ao seu lado na cama?
As arfadas de Caithness diminuíram aos poucos.
— Tenho que ligar pra casa — disse Duff, beijando sua testa suada e se levantando da cama.
— Agora?
Ela mordeu o lábio; a reclamação saíra mais carregada de raiva do que ela pretendia. Quem disse que ele não entendia as pessoas?
— O Ewan estava com dor de dente ontem. Preciso saber como ele está.
Ela não respondeu. Duff cruzou o apartamento nu. Sempre fazia isso, já que ficava num sótão indevassável. Além do mais, não se importava caso o vissem nu. Tinha orgulho de seu físico. Um orgulho talvez intensificado por ter crescido com vergonha da cicatriz que dividia seu rosto. O apartamento era espaçoso, mais do que se esperaria da casa de uma jovem funcionária pública. Ele havia se oferecido para colaborar no aluguel, já que passava muitas noites ali, mas ela explicou que o pai cuidava disso.
Duff foi até o escritório, fechou a porta e discou o número em Fife.
Ficou ouvindo a chuva bater na janela do sótão logo acima de sua cabeça. Ela atendeu no terceiro toque. Sempre no terceiro. Não importava em que parte da casa estivesse.
— Sou eu — disse ele. — Como foi no dentista?
— Ele está melhor. Acho que nem era dor de dente.
— Não? Era o que então?
— Outras coisas podem doer. Eu o encontrei chorando e, quando perguntei por que estava daquele jeito, ele não quis me responder, então disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Agora ele está dormindo.
— Hum. Amanhã vou pra casa e bato um papo com ele. Como está o tempo aí?
— Céu limpo. Lua brilhando no céu. Por quê?
— Podíamos ir ao lago, nós todos. Nadar um pouco.
— Onde você está, Duff?
Ele ficou tenso. A voz dela soava diferente.
— Onde? No Grand, é claro. — E acrescentou, num tom exageradamente alegre: — Hora dos homens casados irem dormir.
— Liguei pro Grand hoje mais cedo. Disseram que você não tinha feito check-in.
Ele se ergueu de um salto, o telefone na mão.
— Liguei porque Emily precisava de ajuda em matemática. E você sabe que eu tenho dificuldade em somar dois mais dois. Então onde você está?
— No escritório — respondeu ele, respirando pela boca. — Estou dormindo no sofá. Metendo a cara no trabalho. Desculpa, eu disse que estava no Grand, mas achei que nem você nem as crianças precisavam saber quanto as coisas estão difíceis.
— Difíceis?
Duff engoliu em seco.
— Trabalho pesado. E ainda não consegui o cargo na Crime Organizado.
Ele encolheu a ponta dos pés. Sabia que soava patético, como se pedisse a ela um desconto jogando a carta da piedade.
— Bom, você ficou com a Homicídios. E uma sala nova, posso ouvir.
— Como assim?
— No último andar. Estou ouvindo a chuva na janela. Vou desligar, então.
Um clique, e ela se foi.
Duff sentiu um arrepio. O cômodo estava gelado. Deveria ter vestido uma roupa. Não deveria andar assim tão exposto.
Lady ouviu a respiração de Macbeth e sentiu calafrios.
Era como se um sopro glacial tivesse atravessado o quarto. Um espectro. O espectro de uma criança. Tinha de sair da escuridão que pesava sobre ela e abrir caminho à força pela prisão mental que castigara a mãe e a avó, emergir para a luz. Lutar por sua libertação, sacrificar tudo que precisava ser sacrificado para ser o sol. Para ser uma estrela. A mãe luminosa que era consumida para dar vida aos outros. O centro do universo enquanto queimava. Sim. Queimava. Tal como sua respiração e sua pele ardiam agora, expulsando o frio do quarto. Passou a mão pelo corpo, sentindo a pele arrepiar. Era o mesmo pensamento, a mesma decisão de antes. Tinha de ser feito, não havia como evitar. A única direção era em frente, ir em frente derrubando tudo que surgisse no caminho, como um projétil disparado por uma arma.
Pousou a mão no ombro de Macbeth. Ele dormia como um anjo. Seria a última vez. Ela o sacudiu.
Ele se virou, murmurou alguma coisa, pôs a mão sobre a dela. Sempre pronto para servir. Ela apertou a mão dele com firmeza.
— Querido — sussurrou —, você tem que matá-lo.
Macbeth abriu os olhos; brilhavam para ela na escuridão.
Ela soltou sua mão.
Acariciou seu rosto. A mesma decisão de antes.
— Você tem que matar o Duncan.