Macbeth
Parte Dois
10
Amanhã em que o comissário-chefe Duncan foi encontrado morto em uma cama do Inverness foi a segunda vez na história do cassino que Lady ordenou que evacuassem o estabelecimento e que um aviso de FECHADO fosse afixado na porta. Caithness chegou com todos os peritos que conseguiu chamar da Unidade de Perícia, e eles isolaram o primeiro andar inteiro. Os demais policiais que haviam pernoitado no cassino se concentravam ao redor da mesa de roleta no ermo salão de jogos. Duff olhou para o comissário-chefe adjunto, Malcolm, sentado à cabeceira da mesa de reunião improvisada. Ele havia tirado os óculos, talvez para limpá-los, ou pelo menos era o que fazia enquanto seus olhos estavam pregados no feltro verde da mesa, como se todas as respostas a todas as perguntas pudessem ser encontradas ali. Malcolm era o oficial da mais alta patente presente; volta e meia Duff se perguntava por que ele caminhava como um corcunda, e concluiu que, por ser um burocrata no meio de policiais experientes, sentia-se em desvantagem e, por isso, inclinava-se automaticamente para entreouvir qualquer conselho ou captar qualquer dica segredada. E talvez seu ar de abatimento não fosse por causa da bebida na véspera, mas pelo fato de ter se tornado, subitamente, comissário-chefe interino. Malcolm bafejou as lentes dos óculos e seguiu com a limpeza. Não erguia os olhos. Como se não ousasse confrontar os olhares de seus colegas que aguardavam um comunicado seu.
Talvez Duff fosse duro demais. Todos sabiam que, ao burilar o programa de Duncan, Malcolm fizera o papel do cinzel e do martelo. Mas teria ele condições de liderá-los? Todos ali tinham anos de experiência como líderes de suas respectivas unidades, enquanto Malcolm passara seus dias, até então, a dois passos encurvados dos calcanhares de Duncan — uma espécie de assistente com salário acima do normal.
— Senhores — começou Malcolm, os olhos ainda fixos no feltro verde —, um grande homem nos deixou. E, nesse momento, isso é tudo que eu pretendo dizer sobre Duncan. — Ele pôs os óculos, levantou a cabeça e observou os rostos dos presentes à mesa. — Como comissário-chefe, ele não nos teria permitido mergulhar em tristeza e desespero em tal eventualidade; pelo contrário, teria exigido que fizéssemos o que nossa missão nos obriga a fazer: encontrar o culpado, ou culpados, e colocá-los atrás das grades. Lágrimas e homenagens ficarão pra depois. Agora, nessa reunião, vamos planejar e coordenar o que fazer primeiro. A próxima reunião será na central, às seis. Sugiro que, assim que acabar essa reunião, liguem pra suas esposas e afins...
O olhar de Malcolm pousou em Duff, que não conseguiu decifrar se havia algo nas entrelinhas.
— ... E avisem que provavelmente não vão voltar pra casa tão cedo. — Ele fez uma breve pausa. — Porque, em primeiro lugar, vocês vão prender a pessoa que tirou de nós o comissário-chefe Duncan. — Agora, uma longa pausa. — Duff, você tem a Unidade de Homicídios. Quero um relatório preliminar para a próxima reunião daqui a uma hora, inclusive tudo o que Caithness e seus peritos tenham, ou não, encontrado na cena do crime.
— Certo.
— Lennox, quero uma ficha corrida completa dos seguranças e detalhes de suas idas e vindas antes do assassinato. Onde estavam, com quem conversaram, o que compraram, qualquer alteração em suas contas bancárias, algumas perguntas delicadas sobre família e amigos. Tem livre acesso a quaisquer recursos necessários.
— Obrigado, senhor.
— Macbeth, você já colaborou bastante no caso, mas ainda vou precisar da sua ajuda. Veja se a Crime Organizado pode relacionar esse caso a outros indivíduos, àqueles que mais se beneficiariam com a morte do Duncan.
— Não está mais do que óbvio? — perguntou Macbeth. — Nós fizemos o carregamento de drogas do Sweno afundar no rio, matamos dois deles e prendemos metade dos Norse Riders. Isso é vingança do Sweno, e...
— Não, não é óbvio — disse Malcolm.
Todos ficaram surpresos.
— Sweno tinha tudo a ganhar se Duncan continuasse com seu projeto — continuou Malcolm, cutucando algumas fichas que haviam sido largadas na mesa após a rápida evacuação. — Qual foi a primeira promessa do Duncan pra essa cidade? Prender Hécate. E agora, com os Norse Riders em desvantagem, Duncan teria concentrado todos os esforços policiais exatamente nisso. E, se Duncan tivesse conseguido, o que ele teria feito?
— Teria tirado Hécate do jogo, e Sweno poderia voltar — concluiu Lennox.
Malcolm assentiu.
— Honestamente, vocês acham mesmo que um sujeito vingativo como Sweno pensaria de forma tão racional? — questionou Macbeth.
Malcolm ergueu ligeiramente uma das sobrancelhas.
— Um homem da classe trabalhadora, sem instrução, sem nenhuma ajuda, administrou um dos negócios mais lucrativos da cidade por mais de trinta anos. Se eu acho que ele seria racional? Se eu acho que ele seria capaz de deixar de lado a sede de vingança ao vislumbrar o que é bom pro negócio dele?
— Certo — disse Duff. — Hécate é quem mais se beneficiaria com o afastamento do Duncan, então você pressupõe que ele esteja por trás disso.
— Não estou presumindo nada, mas a alta prioridade colocada por Duncan à caça a Hécate vinha sendo, como sabemos, muito discutida, e, do ponto de vista do Hécate, qualquer um que viesse a assumir o cargo seria preferível a Duncan — respondeu Malcolm.
— Ainda mais se seu sucessor fosse controlado pelo Hécate. — Ao se dar conta da insinuação que fizera, Duff fechou os olhos, arrependido. — Desculpa. Não foi minha intenção...
— Sem problema — disse Malcolm. — Podemos falar e pensar livremente aqui, e o que você disse vai ao encontro do meu raciocínio. Talvez Hécate ache que agora será mais fácil. Então vamos provar que ele está errado. — Malcolm empurrou todas as fichas para o preto. — Portanto, nossa primeira hipótese é Hécate, mas esperamos ter mais informações às seis. Ao trabalho!
Banquo sentia o sono indo embora. Sentia o sonho indo embora. Sentia Vera indo embora. Abriu os olhos, piscou. Foram os sinos da igreja que o despertaram? Não. Havia alguém no quarto. Uma pessoa sentada à janela, que, sem tirar os olhos da foto na moldura, perguntou:
— Ressaca?
— Macbeth? Como...?
— Fleance abriu pra mim. Vejo que ele ficou com o meu quarto. E até com os sapatos de bico fino que você comprou pra mim.
— Que horas são?
— E eu achando que sapatos de bico fino tinham saído de moda.
— Foi por isso que você não levou. Mas o Fleance usa qualquer coisa se souber que já foi sua.
— Tem livros e material escolar por todo canto. Ele é esforçado e está fazendo de tudo pra chegar lá.
— Sim, ele está indo bem.
— Mas, como sabemos, isso nem sempre é suficiente. São muitos os concorrentes, então é uma questão de oportunidade. Ter a habilidade e a coragem pra atacar quando a oportunidade se apresenta. Você lembra quem foi que tirou essa foto?
Macbeth a ergueu: Fleance e Banquo debaixo da macieira morta. A sombra do fotógrafo caindo sobre eles.
— Você. O que você quer?
Banquo esfregou o rosto. Macbeth acertara: estava de ressaca.
— Duncan morreu.
As mãos de Banquo caíram sobre o edredom.
— O que foi que você falou?
— Os seguranças o esfaquearam no pescoço enquanto ele dormia no Inverness, ontem à noite.
Banquo sentiu ânsia de vômito e precisou respirar fundo várias vezes seguidas para se conter.
— Essa é a oportunidade — disse Macbeth. — Quer dizer, é uma encruzilhada. Desse ponto, um dos caminhos leva ao inferno e o outro, ao céu. Estou aqui pra perguntar qual você vai escolher.
— O que você está querendo dizer?
— Quero saber se você vai me seguir.
— Já disse que sim.
Macbeth se virou para ele. Sorriu.
— Como você pode responder sem antes perguntar se isso levará você pro céu ou pro inferno?
Seu rosto estava pálido, e as pupilas, muito pequenas. Só podia ser a forte luz da manhã, porque, se não o conhecesse tão bem, Banquo pensaria que Macbeth estava se drogando de novo. Mas, no instante que estava prestes a afastar esse pensamento, uma certeza o dominou como um súbito e congelante dilúvio.
— Foi você? — indagou Banquo. — Foi você quem matou Duncan?
Macbeth inclinou a cabeça e avaliou o amigo. Avaliou-o como se avalia um paraquedas antes de saltar, uma mulher antes de beijá-la pela primeira vez.
— Sim — respondeu ele. — Matei Duncan.
Banquo mal conseguia respirar. Cerrou as pálpebras com força. Torceu para que Macbeth e tudo aquilo tivesse desaparecido ao tornar a abrir os olhos.
— E agora?
— Agora tenho que matar Malcolm. — Ele ouviu Macbeth dizer. — Quer dizer, você tem que matar Malcolm.
Banquo abriu os olhos.
— Por mim — continuou Macbeth — e pro meu príncipe herdeiro, Fleance.